quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Sahhir, o Perscrutador, encontra-se com Deus


Sahhir, o Perscrutador, encontra-se com Deus

      Mercadejando metais e breves víveres nas plagas da Mesopotâmia, umbigo-que-não-cicatriza do mundo, gastava-se o árabe criado por judeus, órfão agregado a rebeldes, Sahhir.
      Ironicamente referido como O Devorador de Papiros ou O Perscrutador pelo rude populacho dos mercados a quem servia, em certa e ditosa feita, enveredando sozinho entre o deserto de Syn e a gloriosa Madinat as-Salam, dita Bagdá (Bag, "deus", e dād, "dado"; "dado-por-Deus", no persa médio, sexta das línguas de Sahhir), encontrou-se o curioso mercante com o Anjo do Senhor.
      Prostrando-se em terra, clamou por seu pecados.
      - Que desejas, pequeno barro, semelhança do Altíssimo?
      Sahhir, locupletado de luz e horror, não confabulou curas ou joias, palácios ou patentes:
      - Sou pó e do pó lhe adoro, Deus de meus benfeitores, e sei que morrerei por lhe contemplar. Sabes bem, ó Onisciente, que desejo, com humildade, saber e apenas saber. Conte-me, rogo, como e para quê fizeste o Universo.
      - Tais questões fogem à capacidade que lhe dei, ó enxertado, como o voar está distante de Beemoth-a-baleia. No entanto, naquilo para o que a engendrei, vês como é deveras insuperável e poderosa?

      - Sei bem que não poderei entender, Senhor; a mim me basta o ser maravilhado. 

Sammis Reachers

sábado, 16 de setembro de 2017

First They Killed My Father e Capitalismo: Uma História de Amor - Ou: A esquerda, a direita e o mal


Assisti nesta semana a dois filmes bem diferentes, dois filmes (na Netflix) para você aprender sobre SORDIDEZ.
 Em First They Killed My Father vemos a colheita maldita que foi a implantação do comunismo no Camboja, pela história real de uma família desfeita nas fazendas coletivas, alistamentos compulsórios e outras fornalhas marxistas.
Já em Capitalismo: Uma História de Amor, de Michael Moore, o alcagueta-mor do Império, vemos a sordidez inacreditável do capitalismo e seus mecanismos de vampirização e prostituição daquele que foi feito à imagem e semelhança de Deus.
Dois filmes para aprendermos sobre SORDIDEZ, sobre sistemas que em suas raízes e processos (práxis, práticas) negam o cristianismo ensinado no Sermão do Monte; para aprendermos que um outro caminho precisa ser tomado.
Recomendo que você os assista. Como gosto de provocar, são filmes para serem exibidos nas EBDs das igrejas.

Construir a justiça e viver o Sermão não são tarefas fáceis ou redutíveis a maniqueísmos; pelo contrário, são as cargas mais pesadas já dadas, a longa porta estreita que indica que, sim, um outro mundo é possível, mesmo neste rascunho traçado em pus (nosso mundo), mesmo enquanto esperamos pela nossa Pátria Celeste.


Sammis Reachers

sábado, 12 de agosto de 2017

MORCEGO & SINISTRO, um conto de Sammis Reachers


Morcego & Sinistro
                                                
      Não seria a Loucura, seja ela como for, genética ou casual, involuntária ou (in)voluntariamente auto-induzida, uma resposta, se não absoluta, absolutista ao Absurdo?

      Durante os anos de 1999 a 2004, eu trabalhei como cobrador de ônibus na linha 24, que fazia o trajeto do bairro Palmeiras até a praia de Gragoatá, em Niterói. O ponto final desta linha localizava-se num encontro de morros, pequenas ou medianas favelas, o que costumamos chamar de complexo.
Foram muitas as descobertas, espantos, amizades e inimizades que plantei e colhi, ou colhi mesmo sem plantar, ali.
      Mas escrevo para falar de dois moleques, melhor, dois jovens rapazes que sempre apanhavam meu ônibus para irem até a praia das Flechas, em Icaraí, ou a já referida praia de Gragoatá.
      Morcego era um daqueles que a literatura brasileira achou por bem ou por vício chamar, num de seus antigos chavões, de negro retinto. Tinha o rosto largo, e lábios grossos e vermelhos, contrastando com a pele muito negra. Um rapaz medroso, que ao contrário da maioria dos demais de sua idade, comunidade e contexto, jamais enveredaria pelo crime, apenas porque... era muito medroso. Simples assim.
      Sinistro... Sinistro era uma singularidade. Era um jovem baixo, de compleição um pouco forte, com peitoral de nadador sempre à mostra, independente do clima e das circunstâncias. Onde fosse, lá ia Sinistro, sem camisa e chinelos, apenas de bermuda ou chortão, com um sorriso indefectível nos lábios. Sim, Sinistro, invencível, sempre sorria. Era um zen, uma anomalia de paz transitando na favela, na cidade (quando aventurava-se), nas praias das Flexas e Gragoatá. Sinistro era deficiente mental, e meus nulos conhecimentos de psicologia impedem-me de referir o problema (a mim, anarco-cristão tardio, me pareceu sempre mais uma solução) que ele carregava. 
      Meu outro passageiro, o Morcego, era um refém da normalidade, um como eu e você, portador da velha cruz estacionária cujos quatro braços são a repetição, o enfado, a aceitação e o auto-engano.
      Por diversas vezes falei de Jesus para Morcego. “Aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.”
      – E se um bandido levar um tiro e na hora que tiver morrendo invocar o nome do Senhor, ele vai pro céu?
      – Se ele crer que Jesus é Deus e morreu em seu lugar, para o perdoar e salvar, ele será salvo.
      – Assim é mole.
      – A salvação é um presente, Morcego. Se fôssemos comprá-la, nenhum homem poderia pagar o preço. Ela só poderia ser dada.
      Espero que ele tenha invocado o Senhor no momento propício.

      Mas agora voltemos a Sinistro, e ao fundamento deste relato. Sinistro não era de muita conversa. Ele vinha, pedia para passar por baixo da roleta, com seu sorriso impassível. Eu sorria de volta e dizia, “vai lá, Sinistro.” Sentava-se, colocava a cara na janela e não falava mais. Na volta me esperava (pois aprendera por tentativa e erro que comigo a carona era certa), e eu perguntava:
      – Como estava a praia, Sinistro?   
      – Boa – pois sempre estava boa.
      O Louco é um privilegiado dentro do Absurdo. Saco de pancadas, lixo do panteão reverso humano, a ele é concedida a salvação direta. Incapaz de avaliar, como seria julgado? Incapaz de crer ou plenamente capaz, pois são os dois extremos do mesmo e tensionado arco, não estará justificado, como as crianças pequeninas de que é feito o reino dos céus?
      Mas o trágico tece os homens, como fiandeiro da Realidade que é. Certo dia, retornando da praia em meu ônibus, Sinistro e Morcego descansavam os corpos cheios da tão carioca lombeira, exauridos e felizes em sua silenciosa fraternidade. Ônibus vazio. No ponto próximo ao Plaza Shopping, subiram seis camaradas, cinco ‘conhecidos’ da favela e um outro que eu jamais vira, talvez do morro do Estado, que fica ali nas adjacências, quase contíguo ao luxuoso Shopping, e é dominado pela mesma Facção que o bairro das Palmeiras. Bandidos, claro. Sentaram-se espalhados pelo carro, e tudo ia bem. Mas eis o trágico levantando impudicamente suas saias: um bloqueio policial, uma blitz na Alameda São Boaventura, a menos de um quilômetro do ponto final, logo antes de entrarmos no bairro. Foi tudo muito rápido, um dos malandros percebeu o bloqueio à frente, “e a bolsa, e a bolsa?!?”, perguntou para os demais. Colocaram-na sob o banco, no chão. Os policiais sinalizaram para o motorista, o ônibus encostou. Os caras desesperaram-se, um deles pegou a bolsa e jogou para Sinistro,
      – Segura aí menor, se perguntarem diz que é seu.
       Morcego esboçou uma reação, – não, não, segura aí vocês, querem ferrar a gente?
      – Segura aí menor, se piar vai apanhar na favela!
      Morcego silenciou. Eu percebi a cena, os malandros estavam tensos, olhos esbugalhados. Eu também silenciei.
      Os policiais vieram revistando um por um. Chegaram em Sinistro. Pediram-no para abrir a mochila, ele não conseguiu, apenas ria e silenciava, aquele silêncio de Jesus frente a Pilatos. O policial falou alguns palavrões, apanhou a bolsa, abriu, uma arma e muitos papelotes.
      – Isso é seu? Isso é seu???
      Sinistro sorria. O policial deu-lhe um murro na cara. Eu não suportei,
      – Ele é especial, é maluco. – Um dos malandros, que estava em pé, olhou-me de soslaio.
      – Eles estão com você? – perguntou a Sinistro.
     Sinistro abriu a boca para falar inocentemente a verdade:
      – Eles não. Tamo só eu e ele – e apontou para Morcego.
      Morcego passou a tremer e gaguejar, – eu não eu não eu não – mas não denunciou os marginais. A polícia desconfiou de algo, levou três dos malandros e mais Sinistro e Morcego. Outros três conseguiram se safar, fingindo, claro, estarem separados. O ônibus seguiu viagem.
      Minha covardia perdeu poder, eu não me contive.
      – Vocês são muito filhos-da-####, hein, ferraram o moleque, sabendo que ele é deficiente!
      Um deles sabia que eu era crente:
      – Que isso irmão, tá nervoso? Ele é de menor, vai sair hoje mesmo.

* * *

      Não tive mais notícias de toda aquela desgraça até dois dias depois.  Dois dias que o Espírito Santo fez com que fossem longos, distendidos dias de vergonha e arrependimento. Então encontrei Morcego na padaria, ponto final do ônibus.
      – Sinistro ficou agarrado, e os três caras também. Eu consegui sair.
      – Mas Sinistro não é de menor?
      – Não, ele já tinha dezoito anos.
      Dissolvido em sua alienação, sequer tivera tempo de envelhecer: aparentava quinze anos.
      Nos dias seguintes tudo se esclareceu: os policiais não acreditaram em Morcego, mas o liberaram, pois possuía apenas dezesseis, e os marginais resolveram ‘inocentá-lo’. Sinistro não teve a mesma sorte: eles precisavam de um bode, de um bucha. Atestada sua demência, Sinistro foi transferido para o Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, em Niterói.
      Com uma semana que Sinistro havia sido preso, e três dias depois de transferido para o hospício, sua família foi visitá-lo. Morcego quis ir junto.
      Ao retornar, Morcego trazia transtornos e constatações em suas fragilizadas asas. Transtornos por ver o amigo, a própria encarnação da paz, ferido e sedado, transfeito de sorridente monge zen em patético e pálido zumbi. E a constatação maior, geral: era possível resgatá-lo. A segurança era baixa, nada comparado à cadeia de verdade.
      Nos dias seguintes, o covarde Morcego iniciou uma cruzada na favela. O objetivo de sua pregação: convencer o ‘dono’ do morro, Simiano, que não gostara de saber o que seus subordinados haviam feito, a resgatar Sinistro. Isso mesmo: o covarde Morcego, que temia tiros e pancadas da polícia, tinha um plano e buscava homens de verdade para realizá-lo.
      Um dia ele veio falar comigo. Falou dos sofrimentos de Sinistro. Em seus olhos de culpa, espelhei minha culpa: seu silêncio no momento capital fora também meu silêncio, sua lendária covardia não fora menor que a minha, eu, o muito crente e muito homem e muito culto cobrador do carro 110 da linha 24, que não abaixava a cabeça pra ninguém. Mentalmente eu vislumbrava o sorriso de Sinistro, eu contemplava a sua paz, e eu senti então, aos vinte e cinco anos, o que Judas sentiu depois do beijo. Eu me ofereci para tomar parte no resgate, ofereci meu braço, minha mente. “Perdoe-me, Jesus. Eu preciso desfazer a merda que eu fiz.”
      Um dia depois Morcego intimou-me: o patrão sabia que eu desejava tomar parte na empreitada, e ‘mandava’ que eu fosse ao morro, após largar do serviço. Trabalhava no turno da tarde, das 12:00 às 19:00. Às 20:00, estava no alto do morro, onde nunca havia subido. A mãe de Sinistro também estava lá. Tive estranhas sensações, não sabia se orava ou se me rebelava, mesmo que numa micro-rebelião, tentando inútil e miseravelmente deixar Deus ‘de fora’ daquilo.
      No dia seguinte, Sammis, o branco com cara de bobo ou de cidadão respeitável iria ao hospício, avaliar o cenário. Quem suspeitaria?

* * *

      No dia da ação, todos iriam armados. Ainda segundo o plano traçado no alto do morro, utilizaríamos três carros (certamente roubados; eu já não queria saber ou me informar, como se minha falseada inocência fosse diminuir-me a pena na contagem de meus pecados). O teatro da ação seria uma das áreas mais nobres de Niterói. O próprio hospício ficava defronte ao mar. Localizado no bairro de Charitas, ladeado pelos bairros de São Francisco, de um lado, e Jurujuba do outro, que é um bairro sem saída, estendido sobre o mar em forma de istmo. Fugiríamos então via São Francisco. Faríamos uma troca de veículos dentro do túnel Raúl Veiga, que por sua vez liga o bairro de São Francisco a Icaraí, por onde se daria nossa fuga em direção ao bairro das Palmeiras.
A ideia da troca de veículo foi minha, era fácil fechar o túnel ou armar barreiras do outro lado, em caso de alguém alertar a polícia. E do outro lado do túnel, a míseros quatrocentos metros, estava exatamente a 77º DP. Próximo ao Hospício ficava a 79º DP. A realizar-se o pior, teríamos um terrível cenário, digno daqueles ridículos filmes de ação americanos e suas batalhas assimétricas, de um contra cem, um contra mil, pois seriam muitos policiais mobilizados em curto espaço de tempo. Só que, ao contrário dos filmes, ali as balas seriam letais, fundidas no rude metal da realidade, e a garra do destino estaria em nossos pescoços. Satanás sorria enquanto varria o salão para o grande baile, feliz em saber da presença de um convidado especial, um ‘crente’ se não desviado de direito, já desviado de fato. Ou já prestes.

      No dia decidido eu e mais dois rapazes da boca entramos no hospício, a título de levar uma doação para os internos. Eu e minhas malditas ideias. Não era hora de visitações, mas a mãe de Sinistro já estava lá: a estória era que ela estava com câncer, com prognóstico de poucos meses de vida, e precisava ver o filho antes de uma cirurgia arriscada. Sim, eu tinha imaginação. Ela se encarregaria de levá-lo para fora do edifício, para o pátio, onde conversaria com ele. Nós simplesmente renderíamos os dois guardas do portão, e faríamos a extração do paciente, para a van que aguardava do lado de fora. Morcego estava no calçadão da praia, quase em frente à 79º DP, para vigiar a movimentação policial. Jô, um dos enviados de Simiano, estava próximo à 77º DP, onde aguardava o momento de fechar com um carro a estreita rua Dr. Carlos Halfeld, que fica ao lado da 77º, dificultando assim o acesso dos policiais à Rua Roberto Silveira, por onde dar-se-ia nossa fuga. Os policiais não seriam impedidos, mas ao menos atrasados. Embora a rua fosse tão próxima que poderiam simplesmente ir a pé. Mas a ideia era atrasar seus veículos, em caso de perseguição.

      Como já referi, Sinistro só andava sem camisa. Sol quente ou dia frio, lá ia ele, de peito nu impávido como um andorinhão. No hospício foi obrigado a andar no padrão, uniforme de bermuda longa e uma camisa verde de grosso tecido.
      Ao ganharmos a rua, a primeira coisa que ele fez (acreditei que só então entendendo e assimilando a libertação em processo), foi arrancar a camisa. Como um Adão que, em sublime transcendência, tornasse à inocência, ao estado de luminoso torpor que é a graça.
      De acordo com a cosmovisão de cada homem, ou a corcunda que cada um traz no entendimento, ele poderia ser visto como um deficiente, um sub-humano, um indivíduo sempre carente de cuidados; para outros entendimentos, dissonantes do massivo coro, era um super-cara, um liberto sem luta e sem trauma, um pacificado, ou numa melhor palavra, um transcendente. Li livros demais em minha vida; se não pudesse reconhecer um transcendente, e se não estivesse apto para reconhecer uma causa, um motivo, um sentido, não seria um cristão.

      Quando prestes a entrarmos na van, os tiros caíram sobre nós. Um dos caras da boca, que segurava aberta a porta para que entrássemos no veículo, foi o primeiro alvejado. Os tiros vinham de dentro do hospício: algum segurança interno miseravelmente percebera a ação. Talvez passasse próximo à portaria no momento. O outro rapaz sacou a arma e começou a disparar. Um carro da polícia vinha trafegando em direção aonde fugiríamos; ouviram o som dos disparos. Ligaram a sirene. Do outro lado da rua, na calçada do canteiro central, em posição à boa distância por trás da viatura, Morcego sacou a pistola com que nunca atirara e começou a disparar contra o veículo. O outro rapaz da boca disparava contra o segurança do hospício, enquanto eu me dividia entre colocar o rapaz ferido dentro da van e tentar impedir o que atirava, pois havia diversas pessoas no pátio. Ao perceber que, mesmo à distância, a polícia começara a disparar, o terceiro elemento, ao volante da van, simplesmente acelerou e partiu com o veículo. Cão. O segurança do hospício parou de disparar, seu 38 deve ter ficado sem balas. A viatura, agora parada há alguns metros na estrada, disparava contra Morcego e contra nós. Morcego, atingido, largou a pistola, atravessando a rua e correndo em direção à praia.
      Sinistro, que até então ficara estático, sem entender a violência célere dos acontecimentos, ao ouvir o grito de seu amigo e vê-lo fugindo, correu atrás dele. Foi somente então que saquei a arma que me fora emprestada no morro. Disparei contra os policiais da viatura, para cobrir a fuga de Morcego e Sinistro em direção ao mar. Estávamos em campo aberto, o rapaz que ficara comigo gritava:
      – Babou, babou irmão, a casa caiu, vombora!
      Correu em direção contrária, me deixando só, como um dos alvos dos disparos da polícia, que fazia fogo também contra as costas de dois anjos de pó que fugiam sem saber de que, sem saber para onde.
      É assustador, e se Deus não estava ali, foi a pura eficácia do mal: atingi dois dos três policiais, enquanto o terceiro ficou em posição inalcançável, atrás da viatura. Com o tiroteio, o trânsito nas duas mãos da via havia parado, mas outra viatura se aproximava, dessa vez da Polícia Civil, avançando dividida entre a calçada e o acostamento. Quem mandou bolar um resgate a quinhentos metros de uma delegacia? Corri em direção à outra mão, em direção ao mar. Outros policiais, esses militares, vinham já correndo pelo calçadão em direção a Morcego e Sinistro, que entraram na água. Os policiais dispararam. Disparei contra eles, a 14ª e última bala da pistola se foi sem encontrar carne alguma. Não havia carregador sobressalente, não pensamos que seria necessário. Atiraram contra mim, abaixei-me, levantei as mãos, estava cercado pelos dois lados.
      Pude ver quando um deles, disparando sem parar, atingiu Sinistro, pois ele imediatamente afundou. Morcego, ferido no ombro, já havia sumido no mar calmo da praia de Charitas.

      Depois de receber o soco na cara e os chutes, fui colocado numa viatura, a mesma que ajudara a perfurar com minhas balas, balas certeiras demais para um amador.  Atingira um na mão, e ele agora, em pé ao lado da viatura, me olhava com olhos prenhes de ódio; o outro estava vivo, mas estendido no chão.
      Suado, sozinho, ferido e empapado pelo sangue que meu nariz vertia, como Bonhoeffer conspirando para matar Hitler, fiz-me a pergunta retórica fundamental, por isso talvez não-retórica: os fins justificam os meios? Não, a não ser que seja pelo bem supremo. E a Redenção é o fim, o bem supremo, a equalização do caos.
Sinistro alcançou o fim pelo qual tudo no Universo digladia-se, de quarks até galáxias, passando pelo Homem de pó: Redenção. Pois redenção é o amor em ação, é a sua perfeita práxis.

      Adeus, Sinistro. Primeiramente teu é o Reino dos céus.

      Confúcio diz que virtude é realização. Amigos até a morte, que, impotente para separá-los, uniu-os, ambos afogaram-se na virtude, realizaram-se.

      De Morcego, espero que ele tenha invocado o Senhor no momento propício.

* * *


      Hoje estou preso na carceragem da 76º DP, em Neves, São Gonçalo. Há irmãos aqui, fazemos cultos, dou aulas de rudimentos de teologia, filosofia, história, repasso o que acumulei.
      Outro dia um dos irmãos, Aloísio, viu-me rabiscando algo na página de guarda de um livro. É um homem humilde, mas entendeu que tratava-se de uma rota, um plano. Depois, durante o banho de sol ele se aproximou e bastante sem jeito me perguntou se eu iria fugir.
      - Lutei para desfazer uma injustiça, que os homens e as circunstâncias jamais desfariam a tempo; não tenho parte com leis injustas. Se há um maquinário, um sistema disposto a oprimir, de minha parte estou disposto a resistir-lhe, a ir contra a chibata. Sim, pretendo sair daqui.
      Estávamos sentados no chão, de cabeças baixas, recostados numa parede cuja umidade o calor do sol, com toda a sua inclemência e seu chicotear, era impotente para eliminar. Aloísio abaixou ainda mais a cabeça, entre escandalizado e confuso.      Observando o espanto incrédulo por trás de sua face humilde, um flash obscuro me fez pensar se eu estaria ensandecido. Mas, espasmo de luz que era, desfez-se.   

      Ficamos em silêncio; ele ruminaria as informações que se contradiziam em sua cosmovisão, sua corcunda. Agora era ele e Deus. Não sei qual foi seu crime, em quais linhas do destino ele embaraçou-se ou foi embaraçado. Mas se for inocente, o levarei comigo na fuga. Deus proverá.

De O Pequeno Livro dos Mortos (Ed. Letras e Versos, 2015). Para adquirir seu exemplar, escreva para: sreachers@gmail.com

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O enfado a esquina a amizade e o sentido da vida

 

Aquele dia melancólico. Enfadante de lidar com enfadantes. De lidar consigo, pois contrário ao que errou Sartre, o inferno é o espelho. O primeiro deles. Quando a vida fica esvaziada de sentido, esse sopro pueril. Contando as horas para o fim do expediente, para ir para casa - mas que há em casa? Os mesmos afazeres, projetos e livros.
Você sai do trabalho, come umas esfihas, pois nem almoço tenciona preparar. Avança sorumbático pelas ruas, torre de melancolia que sinistramente respira e anda, e então encontra um dos velhos amigos. De repente, nesse horário tão improvável. A conversa se inicia, o crime, a política, a pouca-vergonha, fulano que enfartou, coitado.
Mas eis que um outro amigo, de infância e sempre, vem pela mesma rua. Três destinos que há tanto se contemplam, e que em muito marcharam juntos. E a conversa agora é uma explosão - gargalhadas e mímicas, eventos sujos e hilariantes que só os homens sabem relatar, anedotas e saudades preenchem duas horas de três homens, em pés numa esquina.
E você vai embora, mas agora a vida, essa vacuidade, está plena de sentido, transbordante de razões para ser. Se o inferno é o espelho, é sempre o próximo quem poderá quebrá-lo.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Este poema neste Dia dos Namorados


Hoje é o Dia dos Namorados, ou assim o comemoramos neste Dia do Senhor

Ela está aqui ao meu lado.
Fez um dos pratos mais deliciosos que já comi;
Apanho sua mão perfumada e trago ao meu rosto
Faço-a de travesseiro, berço, trama e tumba a bastar-me:
As linhas de sua mão são a conclusão de meus circuitos

Já tive algumas mulheres, sim, ou
Beijei algumas mulheres, melhor assim
Que isso de posse ao fim e ao cabo cabe a quem assina,
Mas em todo caso dei-me sempre retido, a entrega é sempre retesada
Num homem - ainda que aparentemente lançado
É apenas uma parte de seu coração que ele lança:

Mas eis-me aqui, entregue, catapultado por inteiro
Ao pequeno oceano de amor que essa moça
Tão terna trouxe de tão longe

Hoje é o Dia dos Namorados, e a pele dela todo dia
É um pergaminho branco, um convite ao poema
Apanho sua mão
Sua mão que ao meu rosto arrebanha,
Pastora dos animais que me habitam
Apanho sua mão de unhas azuis
“Olha, sua cor preferida”
Ah! Minha cor preferida é a que você usar, menina
Nem se deu conta ainda, ninfa potestade
Da capitulação das terras de meu coração,
Nem se deu conta ainda
De seu domínio?

Hoje é o Dia dos Namorados
Ela está aqui ao meu lado, vendo vídeos
Falando de minha irmã
Ela a moça mais linda
Rindo sem graça não querendo ver
Este poema que escrevo

Ela a minha alegria, estrela não de hidrogênio e hélio
Mas de sândalo & nitroglicerina
Ela essa coisinha tão pequenina que aterrorizou
A escuridão que me habita, ela que olhou minha escuridão
Olhos nos olhos, e dedo em riste sem medo
A estapeou, “Bom dia, vadia! Vamos, saia por onde eu entrei”
Ela a pequena ninfa que estapeia e vitupera a escuridão e sorri,
Ciosa agente de Elohim, palavra de renovo
Ela que nos venceu a todos os animais em mim.

P/Érika.


terça-feira, 9 de maio de 2017

Mas irmão Sammis, por que você faz livros de graça?"


"Ideias não podem ser possuídas. Elas pertencem a quem quer que as compreenda." 
Sol LeWitt 

Mas há quem me pergunte, de quando em vez e algo inocentemente, o porquê dos livros gratuitos. Porque todo livro deveria ser gratuito, salvo o gasto em papel, gasto que não tenho. 
 "Mas o obreiro é digno de seu salário." Dê um salário ao obreiro, ora pois; o direito autoral vai muito além disso, é uma usurpação ad-infinitum (100 anos? Isso é o infinito, pois transcende a vida de um homem), um ato de lesa-humanidade. 
Ideias contundentes quando estrondam contra a concha em que o $istema lhe nutriu, hum? Isso começou há não muitos séculos, em terras de Adam Smith, e foi aperfeiçoado em terras de von Mises, mas isso é outro e mais complexo assunto, com sua própria carga nauseabunda.
O importante sobre uma aculturação, uma cangalha, é que nunca é tarde para ser livre, para deitar o fardo d'outros pelo chão. E basta despir-se um pouco para perceber a clareza de tudo isso, dessa transcendência, essa TRANS-pessoalidade do/no mundo das ideias, essa corrente unidirecional (para a frente, sim, mas isso não denota necessariamente uma fé cientificista no "progresso") e construto coletivo, VISCERALMENTE e aprioristicamente coletivo, que as ideias são. 
"Se cheguei até aqui foi porque me apoiei nos ombros de gigantes", dizia Newton, o Isaac. O Conhecimento é assim: nada surge do nada, todo conhecimento é CONHECIMENTO DERIVADO, elo de uma cadeia que nasceu no barro, nasceu em Adão. 
Por essas e outras que eu, o bom aluno que nunca gostou da escola, terminei como professor... 
Poderia estar ganhando dinheiro, mas sou tolo ou homem demais pra isso. Não sou um individuado e ambulante centro do Universo, sou um elo ínfimo num esforço amplo, membro de um corpo cumprindo sua função, seja o corpo social, seja o corpo de Cristo, sem que isso tolha minha individualidade e singularidade.

Sammis Reachers

sábado, 29 de abril de 2017

O perdão, transcendência possível e suficiente


Não existe experiência de transcendência mais prática, mais alcançável - e no entanto mais luminosa e libertária - do que PERDOAR. Pois foi da vontade de Deus tornar, DESTA FORMA, a transcendência, a aproximação e vislumbre por imitação (a Ele!), disponível a cada ser humano da Terra. 
Há quem a busque (por séculos que ainda não findaram) no isolamento de um mosteiro, um seminário, ou na quietude de sua casa de praia, sua concha de aconchegos - libertos do fluxo - e brincando (pois fora do fluxo, da Realidade, estamos num tubo de ensaio, ambiente controlado pois hermético onde só se pode fantasiar, brincar, SIMULAR), talvez, de perdoar, mas o quê? As pedras? 
A transcendência Deus quis que a encontrássemos na tormenta, no Coliseu e em Auschwitz. O velho Deus incompreendido.

domingo, 5 de março de 2017

Logan, o Filme - Uma breve percepção



Assisti ontem (04/03) a este ensaio. Um filme de ação virulenta, violência virulenta, mas fundamentalmente um filme sobre a decadência. A decadência e suas implicações, a possibilidade (sombra dentro das sombras de nossos humanos demasiado humanos passos) de um futuro não de rosas, mas distópico, violentado pela dor, abandono, ruído, a colheita ruinosa das escolhas erradas, o preço de hesitações se sobrepondo.

Um filme triste, triste para o assistente neutro, triste ainda mais para o fã de quadrinhos, para aqueles que praticamente aprenderam a ler em cima de um gibi, como eu. 
A violência, crua, é apenas pano de fundo para um ensaio, dentro das possibilidades do cinema comercial, sobre paternidade, senilidade, decadência e esperança. A fotografia algumas vezes poética ao extremo amplia a sensação de desolação ao vermos dois ícones X em sua derradeira jornada, derradeira jornada rumo a um Éden que só pode existir em sonhos, ou erigido pelo sacrifício dos já sacrificados. 
Onde uma cruz em X tomba, uma cruz em X ergue-se. Você entenderá. 
Para sempre X-Men.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Resenha e entrevista no site Indicar Livros


A jovem Taynara Mello, promotora cultural à frente do site Indicar Livros, fez uma resenha de meu O Pequeno Livro dos Mortos. Também batemos um papo sobre Literatura et al, que virou uma entrevista, disponível no site.

Confira no link:
 http://www.indicarlivros.com/2016/12/o-pequeno-livro-dos-mortos-escrito-por.html

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Sobre a literatura, a fraternidade e a liberalidade


Meu fascínio por frases e citações vem de longe, de alguns livros da pequenina biblioteca de meu pai, mas principalmente de um certo livro, e sua história em especial. O livro é o Coquetel Literário (uma antologia de citações), calhamaço fascinante de quase 500 páginas, de autoria de Dário Derenzi, eminente e falecido dentista afeito às lides literárias. 
Certa feita, eu ainda moleque de meus quatorze anos, li em certo periódico sobre o lançamento de tal livro, uma edição do autor, não comercializada. Dava endereço para solicitação de informações. Eu, humildemente, enviei minha cartinha, solicitando informações sobre como adquirir o livro. 
Um belo dia eu estava com meu pai do lado de fora de nossa casa, cortando alguns galhos de uma árvore. De repente para um carro de luxo, presença estranha no bairro naquela época. Um homem saiu do carro, em trajes sociais, viu o número da casa pintado no muro, conferiu em um papel, e em seguida indagou ao meu pai: "O senhor é o senhor... hum... Sammis... Reachers?" "Não, o 'senhor' Sammis Reachers é ele", disse meu pai, espantado, me apontando. O homem me observou, também algo espantado, e em seguida me estendeu um pacote. "Este livro é para você. O Dr. Dário me pediu para entregar". 
O cidadão se deslocara da Tijuca até São Gonçalo (!!!!) para dar um livro a um desconhecido. 
Aprendi muitas coisas naquele dia. Aprendi sobre liberalidade. Sobre o apreço pela literatura, seu alto valor, não redutível a cifrões, e a fraternidade que ela promove entre os homens. E ampliei meu apreço pelas máximas. 
Com o tempo publiquei minha própria seleta de máximas, "SABEDORIA: Breve Manual do Usuário", creio que em 2006 ou 2007, por sinal uma de minhas antologias mais baixadas e compartilhadas em diferentes frentes. E agora, trabalhando em novos projetos envolvendo frases, me lembro com carinho da generosidade do velho Dário, de quem nunca tive o prazer de apertar a mão, senão em pensamento. 
Parafraseando Isaac Newton, se aprendi a fazer livros e a disponibilizá-los de graça, foi amparado nos ombros de gigantes!

Sammis Reachers

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O Segundo Éden - Um conto de Sammis Reachers


O segundo Éden


 “O SENHOR, porém, disse-lhe: Portanto, qualquer que matar a Caim sete vezes será castigado. E pôs o SENHOR um sinal em Caim, para que não o ferisse qualquer que o achasse.” Gn 4.15

      O povo arisia possuía 36 palavras para ‘Paz’. Trinta e seis peças de rica sinonímia, e não eram essas aproximações chulas como em português poderíamos apor, por exemplo, ‘paz’ e ‘serenidade’. Eram como gradações, matizes, como especificações sutis do mesmo conceito poderoso, cores de um caudaloso arco-íris.
      A estranha existência de tantas palavras para a rara paz decorre do fato de que, de todos os povos da terra, mesmo entre os povos primordiais, os arisianos foram os que herdaram e lograram guardar com maior fidelidade e por mais tempo o idioma raaisiaar, o primeiro idioma humano, falado pelo pai Adão.
      Eram também, de toda a Dispersão anterior à torre de Babel, os que ficaram morando mais próximos do vácuo que outrora fora o Éden.
      Foram varridos da existência por Caim, pai do caos, durante as campanhas de cainização promovidas pelo primogênito do pai Adão. Campanhas essas onde ele exterminava todos os homens adultos e jovens das tribos e povoados que encontrava, bem como todas as crianças de ambos os sexos, e por fim copulava com todas as fêmeas em idade fértil disponíveis, deixando-as à própria sorte, muitas delas grávidas devido ao estupro. Pois o objetivo do ceifeiro do caos era criar uma raça imperial cainiana, exterminando a descendência de todos os seus demais irmãos. E deitar assim mais uma ofensa a Deus. Caim encontrara um formidável aliado, o primeiro Caim, ser espiritual que prometeu-lhe uma noite, no deserto de Azaar, compartilhar com ele o domínio do mundo, e disse-lhe que sua descendência alcançaria vastidão como a das estrelas do céu.

      O tempo foi propício a Caim; a marca em seu rosto livrava-o de seus inimigos, tal o horror que provocava. Ele ainda estava vivo para combater diretamente os bisnetos de seus irmãos mais jovens, atravessando gerações com seu ódio.
      Apenas seis arisianos haviam sobrevivido ao ataque dos chacais de Caim. Naquela noite do massacre, fugiram para Eridu e depois para Babilônia, terminando por fixarem-se em Shir, povoamento que depois deu origem a Larsa. Levavam consigo a sinistra invenção arisiana: o primeiro alfabeto, grafado no primeiro pergaminho.
      De Larsa rumaram para as montanhas de Elam, onde, por décadas, planejaram uma forma de refrear ou deter a insânia cainiana. Como os demais sob o céu, temiam profundamente a maldição que Caim levava por coroa, e ninguém, ainda que lhe fosse possível, ousava assassinar o Assassino.
      Levaram cem anos para conceber seu plano.
      Cinco sobreviventes espalharam-se pelo Orbe. Três tinham a missão de trazer sementes de toda boa planta que encontrassem, o que fizeram com fartura. Os outros dois foram encarregados de empresa mais sutil: deveriam ir em busca de plantas que gerassem frutos venenosos.
      Plantaram então, no vácuo do que fora Éden, um jardim. Muito menor que o original, e inferior em tudo ao primeiro; mas, no pequeno declive onde realizaram seu verdejante engodo, foi a maior beleza alcançada até ali por mãos de barro. Os homens conheciam a agricultura de subsistência, mas era a primeira vez depois do Éden que conheciam um jardim: uma ambientação não apenas utilitária, mas fundamentalmente estética, naquele exercício primevo de paisagismo.
      Aguardaram outras dezenas de anos; os homens viviam então satisfatoriamente, o tédio que mata tantos homens hoje era então apenas uma sombra, uma intuição.
      No propício tempo fizeram correr entre andarilhos e mercadores a lenda de que, a leste de Tigor, restara um verdejante resquício do Éden. E apenas para alguns seletos, deram a conhecer outro fato (lenda dentro da lenda): a Árvore da Vida subsistira em tal restolho do Jardim, e era agora guardada apenas por mãos de barro umidificado, mãos de homens.
      Luas depois um emissário de Caim e seu pequeno séquito foram dar pelas bordas daquele grande horto. Ao partir, o emissário levava uma auspiciosa confirmação, e um secreto convite para o segundo dos homens e o primeiro imperador.
      O líder dos arisianos, Zaeoun, era um homem de exceção. Sabia que o aliado de Caim, o Grão Satanaz, enxergava em quase todos os lugares, como que ao mesmo tempo, e fatalmente alertaria Caim sobre o engodo; aprouve-lhe então a temerária empresa de usar as armas de Satanaz contra Satanaz.
      No dia do encontro com Caim, circundando o imperador com sutilezas, alertou para que a posse da vida eterna despertaria ciúmes no príncipe deste Mundo. Caim espantara-se de que o ancião tivesse conhecimento da existência de Satanaz; pois um dos itens do tratado entre ele e Caim era que Caim jamais revelasse a sua existência, que deveria ser desacreditada por todos os meios entre os povos conquistados, e Caim até então julgava estar alcançando amplo sucesso em sua campanha de desinformação.
      Tal fato então contribuiu para a abertura das defesas de Caim, e o ancião cresceu em seu conceito.
      – Ele lhe dirá certamente que os frutos da árvore serão sem efeito; talvez diga que são venenosos, ou que é na verdade a árvore do conhecimento do Bem e do Mal; comê-lo, neste caso, será como errar duas vezes, e você será transformado num demônio, uma sombra, um sem-mãos como ele e os seus. Não importa o que ele dirá, é o príncipe da mentira e enganou teu pai Adão. Tentará demovê-lo de alcançar a vida eterna e tornar-se o Príncipe de Todas as Coisas Criadas, sobrepujando em poder até a ele mesmo.
      Mas o ancião temeu a maldição de Deus; precisava contar a verdade para o Assassino.
      – Comer os frutos da Árvore da Vida é certamente morrer; morrerás e a um tempo ressuscitarás. Renascido, não poderá nunca ser morto novamente, seja por homem, seja por anjo. A imortalidade que almejas, terá então sido alcançada, e não terá fim.
      O ancião sabia uma única coisa sobre a alma humana, um único basilar conhecimento, e tal conhecimento lhe bastava para conhecer e prever os homens em toda a sua sina: o sonho de todo homem é voltar ao Jardim. Ele os atrai como um seio ou um sol; os homens que sequer jamais ouviram falar que houve um dia um Jardim, um Lar, são-lhe igualmente escravos: onde e quando quer que nasçam, vivam, estejam, trazem em si a inadequação do estrangeiro, o horror surdo da alteridade; sabem que isto o que é, ou seja, a Realidade, simplesmente não-era-pra-ser. Não sabem por que, não sabem como ou para onde voltar, mas intuem que houve um lugar, um Porto-de-não-mares, Fixo, de onde ninguém deveria ter partido.
      Caim era só um homem.
      Dispuseram na mesa quatro frutos, oriundos dos ‘quatro cantos da terra’.
      – Estas são as quatro frutas que apressam a imortalidade; oriundas dos quatro braços da Árvore, recolhidas nos quatro cantos do grande Éden. Elas matam e fazem que não mais se morra.
      – Satanaz diz que morrerei e irei ter com o Deus de meu pai -, disse Caim.
      – Claro que terás com o Deus, pois assim como Satanaz, Caim será também um deus. E liberto serás da opressora subalternidade ao demônio. Tornando-se um seu igual, poderás compartilhar seu incandescente destino.
      Caim-O-Arguto, como também era conhecido, tornara-se um homem de rituais e encantos, aprendendo as artes negras que seu Mestre lhe insuflara. Assentado na mesa, o sedento e sagaz imperador fez um pedido, ou ordenou:
      – Exijo um sacrifício. Eis dispostos os quatro frutos sobre a mesa, vindos dos quatro braços ou formas da Árvore, sitos nos quatro cantos do grande Éden; eia, sacrifique-me quatro de seus homens, dispondo cada corpo numa das quatro direções, onde estão os quatro braços da grande Árvore.
      Os seis últimos arisianos vivos, cujo viver era conspirar pela morte do Imperador, entreolharam-se em pesaroso e tenso silêncio.  Todos abaixaram os olhos. Ainda um derradeiro sacrifício seria necessário.
      – Está bem – disse um dos arisianos. – Para que nosso Imperador viva, morreremos com prazer.
      Sem esperar por mais palavras, os quatro mais velhos abaixo do líder posicionaram-se ao redor da mesa, sob o olhar pesaroso do mais jovem. O ancião lhes fez um sinal com a mão direita, uma despedida. Sacaram suas adagas, e de um a um, autoimolaram-se.
      – Você possui homens de grande coragem, Zaeoun. Seriam bons generais em meu exército.
      – Sim, meu senhor. Eles compreendem perfeitamente a importância universal daquilo pelo que estão sacrificando-se, e é com prazer que deitam suas vidas na pira do holocausto.
      Entre os quatro cadáveres, Caim comeu com sofreguidão as quatro frutas. A Árvore que ele julgava perdida, do Jardim que ele julgava findo, ei-la mastigada, possuída, explodindo em sinistros sabores em sua boca.
      O Assassino caiu em estertores, e gritava e sorria, urrando como um chacal, morrendo para não mais morrer.
      O ancião observava-o, com olhar cansado, sem denotar alegria ou ira, tristeza ou mesmo paz. Era uma expressão de exaustão e algum horror.
      – Comeste das frutas do grande Éden, a grande terra que o Senhor nos confiou. Agora morres, e irás ter com teu Deus. E serás imortal para sempre, e arderás incendiado em luz, aprisionado nas chamas, aguardando o Juízo que há de vir sobre tudo.

*   *  *


      O paradeiro e destino do sexto e mais jovem dos arisianos (este é um dos que buscaram os venenosos frutos), nunca se soube, senão que partira tornando a ser navegante, ensinando as artes do mar por onde fosse, e silenciando sobre tudo que vivera. O ancião Zaeoun, o de tantos nomes e a quem em vindouros anos Abraão, no deserto, chamaria de Melquisedeque, persistiu em seu trabalho de Jardineiro, guardando a memória do único Deus.


terça-feira, 9 de agosto de 2016

O Portal do Destino, ou a (dura?) impossibilidade de anular a nossa trilha existencial



Já fui um grande fã de quadrinhos, durante a adolescência. Da Marvel, acompanhei as melhores fases da equipe X-Men, que era ainda capitaneada pelo seu maior autor de sempre, Chris Claremont, que produzia alta literatura em quadrinhos de verdade. 
Uma das sagas, A Queda dos Mutantes, de forte apelo existencialista, foi o episódio em que os X-men enfrentaram um ser maligno, O Adversário, que lutava contra o mutante e shamã cheyenne (e eventualmente um x-man) Forge e uma deusa de nome Roma. Para encurtar a longa e épica saga, após a vitória contra o inimigo, a agradecida deusa Roma (calma crentasso, não é a Grande Babilônia) dá aos X-men um artefato, o Portal do Destino. Ao passar por tal portal, toda pessoa tem sua vida julgada e pode ter uma nova chance, sim, pode "renascer" numa nova vida, livre de seu passado. 
E o que aconteceu? Com o desenrolar de outros eventos, alguns daqueles seres poderosos, verdadeiros homens-deuses, resolveram deixar para trás suas vidas de heróis. Deixar para trás o fardo da responsabilidade, deixar de ajudar pessoas, deixar poderes inimagináveis, deixar de serem discriminados como mutantes, e simplesmente zerar o contador. O russo Piotr Rasputin, vulgo Colossus, tornou-se um pacato artista plástico, sonho que sempre acalentara; a meiga telepata inglesa Elisabeth Bradock (Psilocke) ressurgiu em um corpo oriental de uma sensual ninja (é a que você pode ver no último filme dos X-men: Apocalypse). Ao fim, tudo embaralhou-se, e o chamado dos heróis para serem o que são acabou prevalecendo; tornaram a ser quem foram, apesar de manterem mudanças significativas, que seria complicado explicar aqui.

Mas tudo isso é para falar do Portal; sempre penso no Portal do Destino, na possibilidade de zerar esta vida e recomeçar, com a mesma idade, noutra. Livre dos fardos, das cicatrizes. Dos grilhões da cultura, mesmo do espírito. Um sonho divertido e impossível, digno apenas de um gibi. Pois só temos uma vida, e o fardo que o próprio existir - essa absurdidade espalhafatosa - representa, recai sobre tudo. Assim foi sonhado por Aquele que a tudo sonhou, que anda entre nós e no entanto está além.
Salomão foi o maior em sabedoria; viu a nudez da existência, e asseverou, num dia rude, algo que reverbera nos genes humanos, raiz existencialista, constatação última em face do colapso que a religião diz ter sido entregue pela Queda: "No entanto, melhor do que ambos é aquele que ainda não nasceu, que não viu o mal que se faz debaixo do sol" (Ec 4.3). Claro, não vá falar disso em seu púlpito ou seminário. Poucos suportam viver na nudez. Lembra do Éden? O próprio Deus nos proveu peles e nos poupou.

Sammis Reachers

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...