quinta-feira, 26 de março de 2020

Frases célebres comentadas com cinismo

Magritte

"Esta frase é mentirosa. A frase anterior é verdadeira."
O antiquíssimo paradoxo de Epimênides.
O paradoxo, essa construção verbal, demonstra como é frágil a nossa "razão", que é embananada por tão pouco. Assim como um vírus demonstra como é frágil a nossa ciência. Como diz outro dito, "há mais entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia". E vã ciência, e vã razão.

Falando em a perigosa China, enquanto tomo meu café Pilão extra forte, lembrei-me desta de Eugene Victor Debs:
"Civilização e lucro passam de mão em mão."

Em tempos em que muitos insistem em defender o indefensável, esta de Goethe, o maior e menor dos alemães:
"Não há nada mais terrível do que a ignorância ativa."

O coração do pensamento geopolítico americano, pé de mesa da famosa política do big stick, nem sempre seguido à risca, ao menos no tocante ao toque suave:
"Fale suavemente e carregue um grande porrete. Você irá longe." - Theodore Roosevelt

"Os cemitérios estão cheios de homens indispensáveis." Charles de Gaulle, ele mesmo indispensável por muito tempo, embora menos tempo do que ele mesmo chegou a acreditar.

"Não há homens cultos, há homens que se cultivam." Marechal Foch, que sabia o trabalho que dá para costurar um smoking...

"Tua pátria é onde estás bem."
Aristófanes, dois mil e tantos anos antes de o estado moderno ser inventado. E você, qual é sua invenção moderna preferida? O dirigível? O iphone? 

Sammis Reachers


sábado, 14 de março de 2020

O Estado Eutanásico e a "Solução Final" - Conto de Sammis Reachers


Recebi a carta às 12h23.
Almocei um ótimo pad thai, encomendado do restaurante tailandês da esquina. Caro, mas que diferença isso faz?
O programa começou há dois anos, na Holanda. Nos noticiários e meios de informação, foi fragoroso o debate. A aceitação venceu: que havia mais a fazer?
Escrevi vinte e sete mensagens, para filhos, aproximações de amigos, uma mulher a quem cortejava, mais por distração – para ambos.
Claro, era previsível a situação que agora aflorou junto a este encanecido chão do sol nascente. Já desde finais do pregresso, caído século se percebia com algum agravo a diminuição do crescimento vegetativo em muitos países. Alguns procuraram incentivar, até financeiramente, a que seus cidadãos procriassem. Outros tantos viram na imigração a solução paliativa para seu problema estato-existencial.
Por tudo se pagou um preço, e o tempo, as décadas seguintes, provaram que o paliativo era isso: alongamento tecido em pó.
No caso deste país insular, a imigração nunca foi solução que valesse de muito. Tínhamos descendentes da diáspora de nosso povo que vinham em busca de trabalho – mas muitos voltavam para seus países de origem. Brasileiros, norte americanos, filipinos.
A questão foi defendida em livro bombástico, coletivo, por um grupo envolvendo alguns dos maiores filósofos de nosso tempo. Aventadas razões se espraiavam sobre as sociedades em debate, procurando equalizar os descontentes.
Vou até a antiga loja de charutos. É a única de Osaka, e uma das oito ou nove ainda presentes no país, à esta altura. Compro um charuto que sempre cobicei, se é que um fumante esporádico pode ser um cobiçador. Embrulho o artefato, assino o termo de segurança, em que afirmo que não irei consumir o “produto” em locais públicos – crime grave.
Em casa, sorvo o amargor da peça. Ligo o monitor, releio a carta do governo. Há algo de histórico nisso, ao menos – sou um dos 30 primeiros cidadãos do país a receber “A Carta”.
É estranho que um governo convide seus cidadãos para morrer. Em tempos de guerra, era comum. Nosso Império... Mas, nesses tempos de paz, de ruína econômica, nesses tempos em que a população economicamente ativa é tão menor que o número de aposentados, foi a saída que a civilização, já em meados do vigésimo primeiro século, encontrou para ajustar as coisas.
O convite, muito formal, principiava agradecendo os serviços prestados à pátria e à sociedade. Avançava, sem estender-se em demasia, dando conta das dificuldades, por todos conhecidas, que o maquinário previdenciário atravessava. Tergiversava sobre sacrifício e honra, esses gêmeos siameses. Terminava com uma despedida.
Acabei o charuto, de sabor bem pior do que eu há tanto imaginava. Uma metáfora disso tudo. Fui até o novo edifício governamental, erigido especialmente para isso: eutanásia coletiva de idosos e inválidos para a economia.
Nossa cultura é conhecida e construída sobre pilares de honra. Se toda uma sociedade milenar acredita que você deve morrer – até mesmo alguns de seus parentes, pessoas a quem você alimentou – que saída honrosa pode haver senão sujeitar-se em prol do bem comum?
Enquanto me deito na cadeira e aguardo o robô que aplicará a injeção letal, ouço da senhora ao lado, que sorria sem parar enquanto falava, que estávamos salvando nosso país, estávamos salvando a economia do Japão. Era bom que os mais velhos deixassem a vida e o peso estatal representado por suas aposentadorias. Era um sacrifício de “honra”.
Pensar que parte da imprensa, o que restara de humana nela, apelidara tal recurso de Endlösung der Judenfrage, “A Solução Final”, como aplicada por Hitler contra os judeus.
Fechei os olhos, enquanto ela continuava a sorrir e cacarejar. Segundos depois, ainda sem abrir os olhos, pude ouvir os rolamentos do robô deslizando pelo piso impecável. Como um samurai que meu povo desejava que eu fosse, não esbocei reação alguma quando senti a gélida penetração da agulha.

Sammis Reachers

quarta-feira, 11 de março de 2020

UNÍVOCO, um poema experimentatival

Juan Gris

UNÍVOCO

Um poema de minha juventude, lá pelos 21, 22 anos, e que serve de marco para minha frágil incursão pela poesia experimental.

Fui-lhe muito longe no dentro
mesmei-me naquela coisa

Ficamos unos, uni-munidos
de nós, tornados o mesmo mito
locupletado de signos
de sem-vergonhices linguísticas.

Nessa liberdade hiperlaica
tentei-me a ti
e consegui-nos

Falei-me:
-Agora cavalgamo-nos felizes:
sei que se me plantar
vou colher vocêu

Sammis Reachers

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Retrospectiva Editorial 2019 - Sammis Reachers


Desde 2012, costumo realizar retrospectivas editoriais, uma forma de recapitular todas as publicações e projetos significativos realizados durante o ano que transcorreu. 
Além de servir como balanço e memorial do trabalho empreendido com êxito, é uma forma de compartilhar com os leitores publicações e atividades que eles possam ter perdido ou das quais não tenham tomado conhecimento.
Assim, vamos lá para a Retrospectiva Editorial de 2019?

Logo em janeiro, iniciamos o ano publicando um tipo de recurso que é do que mais sentimo-nos realizados em fazer, o coração daquilo que entendemos como nossa missão, já desde o início da conversão: são os recursos voltados para ajudar pequenas igrejas, em geral deficitárias em recursos financeiros e/ou humanos (embora todos os recursos, claro, prestem-se sempre ao uso de qualquer pessoa/igreja/ministério). Trata-se de uma série de 43 Certificados, Cartazes e Utilidades diversos para igrejas.
Vamos à lista de recursos:

CERTIFICADOS: Certificado de Matrimônio (Casamento) - 3 modelos; Certificado de Apresentação de Criança; Certificado de Participação em Encontro de Casais; Certificado de Batismo - 3 modelos.

CARTAZES UTILITÁRIOS PARA AFIXAR EM PORTAS: Gabinete Pastoral; Secretaria; Secretaria de Missões; Tesouraria; Berçário; Sala das Crianças - 2 modelos; Biblioteca; Banheiro Masculino; Banheiro Feminino; Cozinha;Cantina; Aconselhamento Pastoral – Não entre.

OUTRAS UTILIDADES: Escala de Culto / Escala de Obreiros; Formulário Arrecadação Dízimos e Ofertas – 2 modelos; Aniversariantes; Lista de Visitantes; Lista para Oração (deixe seu nome); Lista para Intercessão por afastados dos caminhos do Senhor (desviados); Cartaz com frases para pessoas afastadas dos caminhos do Senhor; Ficha para Cadastro de Visitantes; Ficha para; Cadastro de Membros ;Cartaz Eventos Anuais da Igreja; Cartaz Prioridades Missionárias (intercessão etc. – 2 modelos); Cartaz Itinerário da Missão (cronograma de ações); Cartaz Plano de Aula EBD; Cartaz Almoço Missionário; Cartaz Mobilização Missionária IDE; Cartaz Festividade Aniversário da Igreja; Cartaz Convite para Filme Tela Crente; Cartaz Culto de Missões; Cartaz Culto de Santa Ceia; Com Defeito.

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Em maio, publicamos uma antologia com algo de "colossal": trata-se de uma das mais significativas obras sobre a ORAÇÃO já publicadas em nossa língua, obra onde foram coligidas em torno de mil citações, de autores os mais diversos da cristandade, sobre o tema da ORAÇÃO.
Para além disso, coligimos 150 esboços de sermões sobre o mesmo tema, e ainda trechos de orações de grandes nomes do cristianismo, desde Pais da Igreja como Clemente de Roma até nomes recentes como Martin Luther King
Como se fosse pouco, agregamos a este livro recursos outros como Concordância Bíblica ExaustivaDatas Comemorativas para a Intercessão específica, um modelo de Diário de Oração e outros recursos. Baixe e compartilhe sem pena - ou melhor, com toda a piedade!
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No mesmo maio, veio à luz este pequenino e-book, uma "palhinha" de outro livro, com o mesmo toque "colossal" do anterior, e em que eu vinha trabalhando de forma concomitante. Trata-se de uma reunião de onze esboços de sermões de caráter missionário, que elaborei enquanto trabalhava na antologia de esboços "Sermões Missionários".
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Em junho, nosso outro grande livro do ano veio a público: A antologia Sermões Missionários.
A obra colige esboços de autores os mais diversos, de ontem e de hoje, do Brasil e do exterior. Esboços de tamanho variado, indo desde breves tópicos de três linhas até esqueletos de sermão de página e meia, já quase “prontos”. Há ainda uma pequena série de sermões completos. Para enriquecimento da reflexão dos leitores, agregamos a este livro uma seleção de nada menos que trezentas citações sobre Pregação e Pregadores, e um interessante “Círculo Homilético”, na forma de gráfico ilustrando o processo da criação de uma mensagem, da oração por inspiração até sua exposição e avaliação.    
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No mesmo e movimentadíssimo junho, deu o ar de sua graça o novo (terceiro) número de AMPLITUDE, nossa Revista Cristã de Literatura e Artes. Após três anos de seu anunciado hiato (hiato devido aos hercúleos e clichés motivos de força maior), ela retornou. Contos, poesias, artigos e muito mais na simplesmente única revista do gênero que temos (infelizmente, pois não dou boa conta de tocar este gênero de publicação, que é por demais trabalhoso, e seria magnífico se outras congêneres despontassem no horizonte).
PARA BAIXAR A REVISTA PELO SITE GOOGLE DRIVE, CLIQUE AQUI.


Ainda em junho (ufa!), os dois primeiros frutos de uma ação envolvendo o Veredas Missionárias e o Missões em Suas Mãos, coordenando um grupo de irmãos voluntários, deram o ar da graça: Trata-se de folhetos evangelísticos gratuitos, com mensagens contextualizadas para dois públicos (provavelmente) ainda não contemplados por este tipo de literatura: Moradores em Situação de Rua e Gamers (aficionados em jogos eletrônicos).
PARA BAIXAR A PASTA COM O FOLHETO VIVENDO EM SITUAÇÃO DE RUACLIQUE AQUI.
PARA BAIXAR A PASTA COM O FOLHETO ETERNAL LIFE (para GAMERS), CLIQUE AQUI.

Logo no mês seguinte, retomamos um projeto que já dera cinco belos frutos, mas estava "parado": A revista Passatempos Missionários. Nesta sexta edição de Passatempos Missionários, aprenda um pouco sobre essa que é a mais magnífica das tarefas que um ser humano pode realizar – levar a Palavra de Deus a todos os povos da Terra, de uma forma que eles entendam! São caça-palavras, cruzadas e quizz em 12 páginas com muita informação.
PARA BAIXAR A REVISTA PELO SITE GOOGLE DRIVE, CLIQUE AQUI. 

Em agosto, mais um pequenino recurso: elaboramos uma série de dez pôsteres (cartazes) de temática diversa, ideais para afixar em igrejas. 
Constam no pacote: aviso de Santa Ceia, bazar missionário, chamadas para evangelizar, deixar nome no livro de orações, deixar dados (endereço, contato etc.) com obreiros da igreja, obter informações sobre batismo, além de frases motivacionais para membros e visitantes.
Os pôsteres estão em boa definição, podendo ser impressos tanto em impressoras caseiras quanto em gráficas.
PARA BAIXAR O ARQUIVO (PDF) PELO GOOGLE DRIVE, CLIQUE AQUI.



Por fim, ainda em agosto, a última publicação do ano veio na forma da realização de um sonho antigo, um tipo de "promessa silenciosa" de Deus, pois já desde a primeira semana de minha atribulada conversão eu, que fora um ateu destruidor de folhetos evangelísticos, soube que trabalhar com folhetos (além de outras literaturas) seria a minha missão. Já havia criado ou ajudado a criar folhetos antes; mas este trabalho teve algo de especial, ainda mais por ser disponibilizado também em inglês, língua universal do mundo e do universo marítimo.
Trata-se de um folheto dedicado à evangelização de MARINHEIROS (marítimos / aquaviários). 
O arquivo do folheto (em PDF), está disponibilizado em DOIS formatos: um ideal para a impressão em CASA, e outro otimizado para a impressão em GRÁFICAS. 

PORTUGUÊS
Para baixar a versão em PORTUGUÊS para a impressão EM CASA, CLIQUE AQUI.
Para baixar a versão em PORTUGUÊS para a impressão EM GRÁFICAS, CLIQUE AQUI.

INGLÊS
Para baixar a versão em INGLÊS para a impressão EM CASA, CLIQUE AQUI.
Para baixar a versão em INGLÊS para a impressão EM GRÁFICAS, CLIQUE AQUI.




E no frigir dos ovos de 2019, já em plena noite do dia 31 de dezembro, enquanto você estava curtindo a ceia com a família ou num culto da virada ou apenas dormindo com força, um último recurso veio à lume, desta vez devido à operosidade de minha esposa, a videomaker que Deus agregou à (agora sim uma) equipe. Trata-se de um pequeno vídeo reunindo diversas frases e versículos para a reflexão dos que se encontram afastados dos caminhos do Senhor. A seleção de frases já circulava, apenas como texto, no blog evangelístico Amor Scan, mas agora com uma versão em vídeo cremos que muitas outras almas serão alcançadas. Outros projetos de minha esposa em vídeo já estão em andamento (alguns podem ser conferidos no canal do youtube Estudos Bíblicos), e esperamos que neste ano de 2020 tenhamos mais novidades nesta área.
*   *   *   *   *   *

Amigo/a, talvez você já saiba (ou, espantado, esteja descobrindo agora) que este ministério que levo adiante não possui número de conta bancária. Sim, meu sustento é conseguido pelo trabalho secular, e desde o início optei por trabalhar gratuitamente para o Senhor e seus servos, o que muito me honra. Também não necessito, quando você faz o download de um dos nossos recursos, que você preencha um cadastro com os seus dados, como alguns o fazem (ao oferecer livros de 30 páginas, com dez delas quase em branco). Não preciso de seus dados pois não tenho nada para lhe vender, e nem a quem vender os seus dados (o motivo de muitos cadastros, se não lhe avisaram). Nem preciso expandir minha "marca". Esta obra avança pela graça de Deus, e pela sua boa fé, amigo leitor, em prestigiar e compartilhar os recursos que produzimos.
Rogo a você que ofereça o que sempre roguei desde o início: suas orações. São elas que nos mantém em pé e trabalhando. Ore por minha família: nossas vidas materiais e espirituais, ministério, profissão, e os novos projetos em serviço e para a edificação da Igreja, e pela conquista de almas.

Ao Senhor seja dada toda a glória.

Sammis Reachers

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Tríptico Paulino (poema)


Tríptico Paulino

Só em Fé
               eu sei

Só em Esperança
                            eu posso

Só em Amor
                    alcanço
                                alcançarei

Sammis Reachers

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

As desventuras de William, o Mulherista



As desventuras de William, o Mulherista

A empresa carioca Irmãos Unidos abrigou, há alguns anos, um distinto morador do Salgueiro, bairro 'chapa-quente' de São Gonçalo, em seu quadro de motoristas. William era o nome do chofer, na época jovem e mulherista que só ele.
Efetivo na linha 176 (Central x São Conrado), William foi surpreendido, certo dia, ao ver embarcar em seu ônibus uma beldade de fechar o trânsito. Isso no tempo em que o embarque nos ônibus se dava pela porta traseira, ficando o desembarque, claro, sendo feito pela dianteira. Acompanhando pelos espelhos o embarque e o avanço da mulher pelo corredor do ônibus, William pensou: "Nossa! Essa mulher parece desfilar enquanto anda! Que deusa!".
Nos modelos antigos de ônibus, havia o banco alto na parte da frente, de ambos os lados. Era o chamado 'Jesus tá chamando', termo depreciativo mas também um pouco cômico, utilizado em virtude de tais bancos altos serem utilizados principalmente pelos velhinhos. Pois qual não foi a surpresa de William ao perceber que, mesmo estando o carro praticamente vazio, a beldade se dirigiu justamente para o banco dianteiro, o da direita. Sentou-se no lado do corredor. Imediatamente nosso amigo Will, boquiaberto, reparou no imenso par de coxas da morena. Ao perecer os olhares e a expressão de admiração de nosso amigo, ela sorriu suavemente e passou as mãos pela farta cabeleira, deixando o pobre William ainda mais embasbacado. "É agora!", pensou nosso amigo. "Com essa eu até me caso!"
E a viagem seguiu, com as trocas de olhares ficando cada vez mais quentes, enquanto William reunia coragem para puxar assunto com a deusa dourada. Amigos, a vida pode ser triste, e a sorte por vezes nos deixa na mão, nos piores momentos.
O banco alto não possui apoios, para quem senta-se do lado do corredor. Em sua frente não há em que segurar-se. Enquanto a mulher cruzava as esculturais pernas e não parava de passar a mão nos cabelos, cheia de veneno e charme, o agoniado William não sabia se dirigia ou se paquerava.
Numa dessas olhadelas, William, ao voltar-se para olhar a estrada, viu a traseira de um táxi já quase 'embaixo' do ônibus, a poucos metros. Não teve outro recurso senão pisar com toda força no breque. O carro cantou um pouco de pneu e estacou violentamente. Já a jovem deusa pareceu ganhar asas: estando com as mãos soltas sobre o colo, e as pernas cruzadas, foi forçada pela lei da gravidade a sair voando do banco, catando cavaco na parte próxima às escadas e rolando por sobre o capot do ônibus, indo parar com as costas no vidro para-brisas, e ficando agarrada entre o vidro e o capot. Ufa.
Ao levantar-se com dificuldade, a agora furiosa e descabelada deusa estava com outra feição. O sorrisinho sensual de momentos antes dera lugar a uma expressão de puro ódio. William, chocado, encolheu-se no banco de tanta vergonha. A mulher começou a desfilar os elogios:
– Seu babaca, seu cor$&, seu ve#%@! Filho da &%#$!!!! Para esta merda que eu quero descer!
William, gaguejando, desculpou-se e tentou perguntar se ela estava bem e se queria ir a um hospital. A fúria da morena pareceu aumentar, e ela cuspiu mais uns seis ou sete palavrões. Apanhando sua bolsa, desceu pelas escadas e seguiu seu caminho, botando fogo pelas ventas.
E foi assim que nosso desastrado companheiro William perdeu a paquera mais gata que já cruzou o seu caminho...


Essa é uma das quarenta histórias verídicas e hilárias do livro RODORISOS - Histórias Hilariantes do Dia-a-dia dos Rodoviários (à venda nas modalidades impressa e e-book, na Amazon).

sábado, 25 de janeiro de 2020

Desculpe interromper o silêncio de sua viagem, mas... (O assaltante educado)


O motorista Luís Otávio trabalhava à época na empresa Fortaleza, em Niterói. A Fortaleza é uma empresa pequena, de apenas duas linhas. Luís trabalhava na linha 53, no turno da tarde. Seu veículo era um “micrinho”, um pequeno micro-ônibus Volkswagen de apenas 16 lugares. Certo sábado, vindo pela rua Tiradentes, lá pelas cinco da tarde, um indivíduo dá sinal, sozinho no ponto. Um homem moreno, de olhar pacato, bem vestido. Ao subir, pediu para o motorista liberar a roleta, que ele iria pegar o dinheiro, após sentar-se. Sentou-se atrás do motorista, no pequeno banquinho solitário. 
 Após alguns instantes, o pesado Luizão ouve algumas batidas no vidro de trás. Instintivamente ele, sem olhar, estica a mão para trás, em concha, na intenção de pegar o dinheiro. Mas ao invés de dinheiro apalpa um volume duro e gelado. Nisso o indivíduo aproxima-se do vidro, ficando bem próximo de Luís Otávio, e diz: 
 – Solta, solta. 
 Luís olha para trás, no susto, e percebe que apalpara uma arma! 
 – Amigo, fique tranquilo aí. Eu vou fazer um ganho aqui, mas não vou mexer com você não, nem vou machucar ninguém. Fique muito tranquilo. 
 Assustado, Luisão ainda conseguiu dizer, sempre num tom de voz baixo, como o do gatuno: 
 – Cara, não vá perder cabeça... pensa na sua vida. 
 – Fica tranquilo. 
 Em seguida o indivíduo levantou-se. E aí veio o inusitado. 
– Senhoras e senhores, boa tarde. Desculpe por atrapalhar o silêncio da sua viagem. Eu estou hoje aqui pois estou desesperado, e tenho duas crianças com fome em casa. Eu tinha que tomar uma atitude. Desde já peço desculpa a todos, mas minha situação está difícil. 
 Somente então, após essas ternas palavras, o indivíduo sacou a arma. 
 – Isto é um assalto. Mas fiquem tranquilos e me desculpem, tá? Podem ir passando o dinheiro, relógios e joias aí. 
 Os passageiros, entre confusos e apavorados, foram logo passando seus pertences para o indivíduo. 
Enquanto isso, ao volante do veículo, mas prestando atenção no discurso e nas ações do estranho meliante, Luís estava muito confuso; nunca vira um ladrão pedindo desculpas e falando daquela forma. Apesar da sinistra situação, nosso amigo não sabia se ria ou se chorava. Começou a chorar então. Chorar de rir. 
 Após realizar a coleta e pedir muitas desculpas a cada um de quem apanhava os despojos, o marginal foi para a frente.  
– Motorista, devagar por favor. Eu vou descer ali perto do (clube) Canto do Rio. 
 Antes de descer, disse aos passageiros, todos tosquiados que nem cachorrinhos de madame: 
– Peço mais uma vez desculpas a todos. Não sou um marginal. Estou apenas pegando esse empréstimo com vocês para poder resolver minha situação. São duas crianças. Me desculpem mesmo. Tenham uma boa viagem, vão com Deus. 
Nesse momento Luís não aguentou, e riu um pouco mais alto. O indivíduo olhou sério para ele. Luís ficou quieto, agora arrependido de ter sorrido. 
 – Poxa, me esqueci de pagar a passagem, né? 
 – Não, não, amigo, tá tranquilo – disse o motorista. 
 – Não, que isso – disse o bom larápio. Enfiando então a mão na sacola de seus ganhos, puxou uma nota e disse: 
 – Segura aqui vinte reais, pode ficar com o troco. E desceu, sob os olhares entre desnorteados e furiosos dos passageiros. 
 – Ei ei, por que ele não te roubou? E que parada é essa dele te dar vinte reais? Você está mancomunado com o marginal – Foi logo dizendo um dos clientes. 
 Luís não conseguia parar de sorrir, seja por nervoso seja pelo inacreditável da situação. E foi assim que nosso amigo Luís Otávio foi posto numa situação pra lá de delicada pelo educado ladrão, pois todos os passageiros se levantaram e foram pra cima dele, coitado...

Essa é uma das quarenta histórias verídicas e hilárias do livro RODORISOS - Histórias Hilariantes do Dia-a-dia dos Rodoviários (à venda nas modalidades impressa e e-book, na Amazon).

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

UNÍVOCO, poema de Sammis Reachers


Juan Gris

UNÍVOCO

Um poema de minha juventude, lá pelos 21, 22 anos, e que serve de marco para minha frágil incursão pela poesia experimental.

Fui-lhe muito longe no dentro
mesmei-me naquela coisa

Ficamos unos, uni-munidos
de nós, tornados o mesmo mito
locupletado de signos
de sem-vergonhices linguísticas.

Nessa liberdade hiperlaica
tentei-me a ti
e consegui-nos

Falei-me:
-Agora cavalgamo-nos felizes:
sei que se me plantar
vou colher vocêu

Sammis Reachers

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A linha 725, o Maracanã, o cobrador "ateu" e a reza forte


Assistindo agora há pouco à entrada do ônibus do Flamengo no Maracanã, me lembrei de uns vinte anos atrás, quando eu trabalhava como cobrador de ônibus em Niterói. Certa feita, eu ainda frango novo, me colocaram para trabalhar na linha que passava em frente ao Maraca (725 Fonseca X São Cristóvão), justo em fim de semana de jogo. Não tinha choro. Os parceiros efetivos da linha costumavam contar terríveis histórias de invasões, calotes e até pancadaria no coletivo. Até aquela altura (vinte aninhos) nunca tivera nada contra pancadarias, pelo contrário - mas um contra muitos me assustava. "Na ida eles vão 'pingado', mas na volta eles voltam tudo junto. Na volta que é triste", me alertava o experiente motorista. 
Eram apenas três viagens (voltas) naquela linha. A primeira, tranquilo, segunda, tranquilo, mas na terceira era justamente o momento de saída do estádio. Já na partida de Niterói meu coração gelou. Eu olhava pro meu canivetinho escondido na gaveta, "coitado de você, cotoquinho, que pode contra as hordas?", lamentava. Quando o ônibus finalmente se aproximava do caldeirão, eu, que era ateu raiz, feroz leitor de Nietzsche e seu super homem, fiz o que fazem os bons "ateus" na hora do perrengue: rezei a tudo enquanto era deus gestado. Hórus, Tupã, Hermes, Quetzalcoatl e o escambau! Um daqueles, ou talvez o próprio Satanás ouviu: o motorista, velho "bandalha", pegou um atalho (naquele tempo não havia GPS) e fugiu da frente do estádio, deixando uma boa centena de torcedores para trás, lotados de ÓDIO. 
Voltamos para Niterói com apenas oito ou nove bonecos. Bons tempos!

*Hoje, 23/10/2019, realizar-se-á a partida de volta da semifinal da Copa Libertadores, entre Flamengo e Grêmio.

Sammis Reachers


Coletando histórias dos amigos rodoviários, escrevi há algum tempo o livro RODORISOS - Histórias hilariantes do dia a dia dos Rodoviários. O livro possui mais de 40 causos de lascar, e pode ser adquirido (e-book ou impresso) na Amazon: 

https://www.amazon.com.br/Rodorisos-Hist%C3%B3rias-hilariantes-dia-Rodovi%C3%A1rios-ebook/dp/B07BXDPZCQ 

sábado, 14 de setembro de 2019

Crônica: Os primeiros livros (e enciclopédias!) a gente nunca esquece


Se não todas as pessoas, pelo menos a maioria das que são letradas possuem uma história com o livro. Essa história pode ser breve ou longa, mono ou multilogal, mono ou polivocálica, a depender da quantidade e qualidade dos livros - entendendo qualidade não pelo redundante valor literário, mas pelo impacto que determinado livro possa ter causado naquela alma.
Em meu caso, a história começa na formatura da alfabetização (hoje Pré-Escola), ao ganhar meu primeiro livro: A Tartaruga Infeliz - fato devidamente registrado (e como lembraria?!) por uma prosaica fotografia 10x15. O título do opúsculo quelônio (quelônio é a ordem das tartarugas, jabutis e cágados) foi de mau augúrio: queimou de melancolia o futuro leitor e poetastro...
Mas, pensando bem, definir "primeiros livros" é difícil, pois havia em minha casa paterna uma quantidade deles, e sabe-se lá qual daqueles possa ter sido adquirido tendo a minha pessoa como alvo primário... Exempli gratia, tínhamos pequenas coleções com jeitinho de enciclopédia, assim, querendo, já quase sendo, mas sem ser, sabe? Uma delas era a Saber em Cores (Enciclopédia Didático Visual), de 1975, publicada pela Maltese/Melhoramentos. Belas ilustrações e informações hiper-resumidas, mas que me deram o primeiro contato com grandes nomes da Literatura, artes plásticas, além de noções de geografia e ciências. Hum, mas não sei se foi adquirida antes ou depois de meu nascimento (78).
Passemos então à minha primeira enciclopédia, minha mesmo e enciclopédia mesmo, de fato e direito. Era uma Conhecer, editada pela Abril Cultural, no longínquo 1966, contando com reedições várias. A princesa me chegou usada, como doravante a maioria de livros que me atravessaram a ânima e as manoplas. Na altura de uns 11, 12 anos, corria a brincar de pique-esconde na pequena favelinha onde meio que me "criei", na verdade uma única rua de média extensão formada por algumas casas humildes e até alguns barracos. Algumas casas ainda possuíam o quintal aberto, sem muros. A favelinha era a Beira Rio, que possuía tal nome justamente por... beirar um pequeno rio (o Anaia ou Alcântara ou outros nomes, pois a cada trecho tal rio assume um nome, enquanto percorre meio município de São Gonçalo), que o tempo transformou em valão. Na ânsia de esconder-me, entrei por um desses quintais abertos, que era composto por quatro casinhas, quando o titular do terreno, um negro simpático que trabalhava na cidade de Niterói como porteiro, dito Quiquinho, me chamou, lotado de sorrisos, e mostrou aquela maravilha. Como ele, que só me conhecia de vista na rua, adivinhara que eu era a presa certa, eu nunca soube. A tal maravilha, como eu poucas vezes (brevemente na biblioteca escolar) havia contemplado parecida, teve sobre minha curiosidade um efeito tonteante, catártico. Fascinado, desliguei-me da brincadeira e mergulhei naquele esplendor - sim, pois a Conhecer contava não com fotos, mas com ilustrações primorosas em praticamente cada uma de suas grandes páginas. "Gostou?", sorria o vendedor de ocasião. "Peça a seu pai para comprar pra você. Diga para ele vir aqui falar comigo. Como essa, há outras dez, olha ali" - e apontou-me para a estante capenga que se escorava numa parede de tijolos nus de seu casebre.
Corri para casa. Perturbei seu Mário que, entre um trago e outro de cachaça (naquela época ainda bebia), consertava na varanda dos fundos máquinas de escrever e mimeógrafos. Perturbei e perturbei, até que ele resolveu ir até lá. Era também a seu modo um amante dos livros, e comprador regular das tais coleções pretensamente enciclopédicas. Bom negociador - arte em que inutilmente tentou a vida inteira me iniciar - seu Mário sempre foi. Conversa vai, choro vem, e lá fomos nós para casa com aquela riqueza, aquela internet de papel (da qual faltou um volume), a Wikipédia possível em fins da década de 80. Nos anos seguintes, aquela enciclopédia foi devorada e sacramentou minha excursão pelo sendero luminoso das sabenças.
Minha segunda enciclopédia foi também da Editora Abril, da qual levava o nome - Enciclopédia Abril (deixe-me adiantar ao leitor entediado: foi também a última. nuca tive uma Barsa, Mirador ou quiçá uma rainha-dominatrix, a Britannica). A história é a  seguinte: Um dos irmãos de minha mãe, meu falecido tio Geraldo "Xereta", legendário campeão de sinuca e vencedor nos mais variados jogos de azar que o tirocínio humano já lograra engendrar, arrumou certa feita trabalho numa fábrica de papel higiênico (aquela que posteriormente ficou conhecida como Carta Fabril), perto de nossas casas, aqui em Tribobó (São Gonçalo). Pois bem, o sortudo foi cair num lugar que dali em diante passou a ser meu sonho de consumo, de insumo, de fetiche: o setor que recebia e separava papéis velhos para a reciclagem e fabricação dos higiênicos. Ali naquele lugar que a mim sempre me obriguei a chamar de paraíso, ele tinha acesso diariamente a dezenas, centenas, e nos dias malditos talvez a MILHARES de publicações que despencavam dos caminhões quase que o dia inteiro: revistas, livros, jornais etc.
Meu tio nunca fora assim um leitor: logo, sua prioridade era separar para si apenas o ouro: REVISTAS PLAYBOY, e, a título de prata, outras publicações pornográficas que davam o ar da (des)graça. Mas, ao ver certo dia uma pesada coleção despencar do caminhão, apanhou uma e gostou: era a tal Enciclopédia Abril. Resolveu guardar um dos volumes em seu armário. Assim, eu que já "consumia" as revistas que ele levava fiquei sabendo da tal enciclopédia. Imediatamente lhe implorei que a trouxesse e mais, que tentasse em nome de Aristóteles recuperar os demais exemplares, antes que virassem papel higiênico. Ele conseguiu recuperar a maioria, e foi levando de pouco em pouco para casa, pois eram muito pesados os calhamaços, num papel couché de grande gramatura. Ah, e o encarregado dos trabalhos, embora não fosse carrasco, não gostava que os funcionários se safassem com grandes volumes. Faltavam três dos doze números, mas não importava. Os textos desta enciclopédia eram escritos praticamente apenas por brasileiros, e por tratar-se como que de enciclopédia mais "séria" (leia-se adulta e mais, politicamente engajada), pude ter contato fundamental com verbetes de temas tais como Filosofia e Antropologia, que ajudaram a definir minha marcha trôpega pela já citada vereda das sabenças humanas.
Com o passar dos anos, consegui encontrar numa feira (a famosa Feira de Alcântara [SG], pejorativamente alcunhada de "RobAUTO Júnior", em referência à RobAUTO "Pai", a lendária Feira de Acari, na cidade do Rio de Janeiro) dois dos três números faltantes. E fui feliz com ela, que por sinal ainda possuo, embora nunca mais a tenha aberto depois de ser apresentado e recrutado pela internet. 
Deixemos de lado agora as obras de referência e voltemos aos livros manuais, ou melhor dito para evitar a dubiedade, portáteis, os pequenos livros de temáticas individuais. O primeiro livro desses que ganhei de meu pai, comprado num sebo, também nessa fase dos 12, 13 anos (quando já me ensaiava como um leitor de verdade), foi O Chefão, de Mário Puzzo. Bem, mas isso é tema para uma outra croniqueta...

Sammis Reachers

sábado, 10 de agosto de 2019

ROMÁRIO MACHADINHA, um conto de Sammis Reachers



“Rio, cidade-desespero
A vida é boa mas só vive quem não tem medo
Olho aberto malandragem não tem dó
Rio de Janeiro, cidade hardcore.”
Zerovinteum (Marcelo D2 e BNegão)

Seu melhor emprego fora no Tijuca Tênis Clube. Era vigilante: bermudão de sarja, um dogue alemão numa coleira, revólver na outra, a que chamamos de cinto. E paz e amor naqueles gramados.
Um incidente lhe arrancou o emprego e a paz: na madrugada sonolenta, terceira ronda da noite, ele percebeu que a porta de um dos depósitos de material estava aberta. Entrou, vasculhou. Somente ao sair viu o meliante correndo. Ele não disparou, não soltou o cachorro que latia de tesão. Nada. “Que fuja, não havia nada pra roubar aqui.” Mas ele estava no Rio de Janeiro, cidade desespero. Ao subir no alto muro para concluir sua fuga, fuga quase que “facilitada”, ainda de cima do muro o desgraçado sacou uma arma e disparou, sabe-se lá pra quê. Ao primeiro disparo, nosso pacato vigilante, vamos chamá-lo aqui de Alberto pois a história é verídica e ele vive, abrigou-se atrás de uma árvore. O meliante fez ainda um segundo disparo. Alberto, mais para afugentar o perigo, disparou seu primeiro tiro após sair da escolinha de formação de vigilantes.
Na escuridão inchada pela distância, lhe pareceu que o indivíduo pulara. Resolvido o problema, Alberto procedeu com os trâmites de praxe. Telefonou para a polícia e para o gerente da instituição. Em pouco tempo estavam todos lá.
Nas buscas que a polícia efetuou na parte exterior do clube, uma surpresa: dentro de uma vala de escoamento pluvial contígua ao muro, com uma única perfuração central em sua testa, um cadáver.

Ao relatar que morava em Queimados, na perenemente malfadada Baixada Fluminense, os policiais vaticinaram: “Matador”. “Deve ter uma ficha grande nas costas, hein, ceifador?”. “Um balaço no meio da testa, à distância... tu é dos nossos. Tu é miliciano?”. “O doutor vai correr sua ficha aí, tu deve tá cheio de bronca nas costas...” “Cê não me engana não, xará, tu é bicho solto...”.
A situação crescia no insustentável para Alberto, e a própria diretoria do clube ficara preocupada. E foi a noite e o dia, e a demissão do primeiro emprego. Em boa hora: ele não queria mais aquela vida.

Poucos anos depois, a má sorte foi encontrar Alberto estabilizado como funcionário concursado da companhia de limpeza urbana do município do Rio, a CONLURB. Sua lotação inicial fora no centro da cidade, mas ficara um pouco longe de sua residência, agora em Caxias. A transferência que conseguiu foi para a Cidade de Deus, grande, conflagrada favela, famosa mundialmente pelo filme homônimo.
Trabalhar dentro de uma favela pode ser bem menos estressante e perigoso do que, à primeira vista, pode-se julgar. Bem, quase sempre.
Transcorridas poucas semanas de trabalho na comunidade, Alberto, pacato mas boa praça e simpático ao extremo, já travara amizade com alguns moradores e também com diversos de seus companheiros de trabalho. Como varredor de rua, Alberto era encarregado de certo número de ruas, ou determinada extensão de uma mesma rua, quando ela era muito grande; e assim era com seus companheiros. Um deles, que cuidava de área imediatamente contígua ao setor de Alberto, homem tímido e silencioso, mas simpático, costumava, vez por outra, a desaparecer. Isso mesmo: Alberto reparara que o indivíduo dito Romário como que abandonava o serviço, aparecendo mais de hora depois. E o pior: o encarregado, que por pouca coisa costumava relhar com Alberto e outros trabalhadores, nada dizia sobre aqueles sumiços. Bem, havia alguma coisa ali. Mas àquela altura Alberto tomara já algumas vacinas na vida, vida essa que ele aprendera que lhe bastava, sendo perigoso e desnecessário cuidar das dos outros.
Tempo que passa, certa vez, num de seus “retornos”, já quase ao fim do expediente, Romário passou próximo a Alberto, que, ao cumprimentá-lo, notou pequenas manchas, como salpicos, de sangue nos antebraços de Romário. Calculou, pela textura e cor, que não era tinta aquilo. Fez um gracejo sobre o Vasco da Gama, Romário riu e falou algo sobre o tricolor das Laranjeiras, time de predileção de Alberto, e seguiu para guardar seus materiais.
Uma semana depois, depararam-se próximo a um grande campo de futebol de várzea na comunidade, já em tempo do almoço. Sentaram-se juntos sob a sombra de um muro, destacados de alguns outros garis que também quedavam para o almoço. Entre as brincadeiras que a crescente familiaridade lhes permitia, Alberto não aguentou e perguntou:
- Ô Romário, me diz uma coisa meu amigo. Na boa, sem problema: Já manjei que de vez em quando você some aí pra dentro da favela, e só volta no fim dos trabalhos. Fala a verdade: Tu tá pegando alguma mulher aí pra dentro, não tá não?
- Que isso tricolor! – disse Romário sorrindo.
- Tá sim malandro, e o encarregado faz vista grossa. Não tenho nada com isso, você é parceiro, mas fala pra mim: tá ‘panhando gente hein? Deve ser mais de uma!!!
Romário, normalmente quieto, sorria.
- Vou te falar uma parada Alberto, pois sei que você é fechamento. Então cara, eu fortaleço os “amigos” aí.
- Os amigos o quê, a rapaziada do tráfico? Ih caramba! Tu forma na boca e trabalha na COMLURB ao mesmo tempo? Hahahaha...
- Não mano, eu não formo na boca não. Vou te falar o que eu faço: eu corto gente.
- Corta gente??! – murmurou, espantado, Alberto – Como assim, cara? Você? Tá de sacanagem comigo...
- Pode crê meu camarada. Corto uns corpos quando tem serviço, e os amigos me ajudam também com um dinheirinho.
Alberto, sorrindo frouxo, passou a engolir em seco seu almoço, tentando equacionar a veracidade ou não da confissão. Romário era tão quieto, e nada tinha de bruto, era até um pouco franzino. De toda forma, ele já vira a vagabundagem cumprimentando seu companheiro, e isso explicava também o silêncio cúmplice do encarregado – e dos demais funcionários, pois muitas vezes as tarefas deixadas em meio por Romário, durante seus sumiços, eram repassadas aleatoriamente para os outros garis.
O resto do almoço transcorreu em silêncio. Alberto na verdade passara a mais duvidar da história do que a assustar-se com ela. Como afinal aquele moreno, com uma levada à la Jeca Tatu, cabisbaixo, introvertido, magro, ia praticar uma barbaridade dessas de picotar cadáveres?

O tempo, ferida sem remédio, seguiu seu curso. De quando em vez Romário brincava com Alberto, “olha a machadinha hein””, o que deflagrava sonoras gargalhadas em nosso amigo, que definitivamente passara a descrer de tudo aquilo.
Num dia de agosto, pouco depois de retomarem os trabalhos após o almoço, nossos personagens varriam cada um um dos lados de uma mesma via, quando uma Pajero que avançava freou bruscamente, atraindo a atenção de todos para os muitos marginais em seu interior.
- Qual é Romário! Qual é parça! Bora lá naquela atividade lá!
Ao convite de um dos meliantes que ocupavam o carro (invariavelmente roubado, um dentre as dezenas que circulavam na Cidade de Deus), Romário já foi logo deixando a um canto seu carrinho, pá e vassourão. Mas, enquanto se dirigia para o veículo, chamou Alberto:
- Aí Alberto!? Você não queria ver o que eu faço? Vamos lá com os amigos.
Ao perceber a cara de espanto e incredulidade de Alberto, Romário completou:
- Bora lá rapá, tá tranquilo, nós é família. Vamos lá.
Pego de susto, Alberto embarcou na “viatura”. Um misto de terror e excitação o dominava; assim que entrou no veículo, arrependeu-se, mas era tarde demais. E dentro dele teimava a ideia de que aquilo tudo era mentira, e que Romário iria fazer alguma outra coisa, que pior que fosse não envolvia picotar carne humana.
O veículo andou por algo em torno de um quilômetro, parando em frente a uma casa de alvenaria, de um só patamar, janelas e porta fechadas.
Ao entrarem na casa, Alberto teve um acréscimo em seu terror ao perceber que, fora os sete marginais que vieram no carro, havia mais uns vinte dentro da casa. Após passar pela cozinha, ele e Romário foram levados ao que parecia ser a sala da casa.
No centro do recinto, circundado por grande número de marginais, quase todos armados, havia um corpo. Mas vivia: um homem com os braços amarrados para trás, de joelhos no chão, tendo suas duas pernas também amarradas, e um pano enfiado na boca.
Enquanto Alberto enregelava-se, um dos meliantes, após cumprimentar respeitosamente Romário, deu-lhe um tipo de avental de cozinha, duas luvas sujas, dessas de construção civil, e uma machadinha nova. Alberto galgou o apogeu de muitas fobias, ao ver Romário vestir-se impassivelmente e, apanhando a machadinha e tocando o fio com os dedos, para sentir a afiação, abaixar-se ao lado do homem, que esperneava em desespero.
- Deitem ele – murmurou, em tom quase inaudível, Romário.
Os marginais apanharam o pobre coitado e deitaram-no de barriga para cima, segurando suas pernas e parte superior do tronco. Assumindo agora uma expressão cuja única palavra precisa ser a demoníaca, Romário pousou uma mão sobre uma das pernas do homem, e desferiu um golpe na altura do tornozelo, separando do corpo trêmulo um dos pés descalços. Com mais dois golpes, separou em segundos mais um côto de perna, agora na altura do meio da canela. O sangue esvaía, o amordaçado urrava. Marginais xingavam, outros sorriam, outros desviavam os olhos, incapazes ainda de equalizar terror naquele grau.
Virem, virem – voltou a murmurar Romário, com expressão de quem tem pressa ou fome.
Ao virarem a vítima, Romário imediatamente cortou o plástico da algema que lhe prendia os braços, que dois meliantes imediatamente seguraram, esticando-os. Romário aplicou rápido golpe num dos pulsos, e logo, quase sentando-se sobre o corpo em debate, noutro pulso, separando as mãos. Ao levantar-se para ir cortar o outro pé, por acaso levantou os olhos, que até então não tirara do corpo vivo à sua frente, como uma criança com seu brinquedo novo, e cruzou os olhos com Alberto. O Jeca Tatu parecia agora um daqueles incorporados de centro de macumba. Seus olhos não demonstravam culpa alguma, mas fome; um ríctus de prazer paralisara seus lábios, um ensaio de sorriso luciferino.
Romário decepou o último pé, e virou o corpo para cima. Levantou-se, e junto aos marginais passou a observar o indivíduo – quem seria, o que fizera? – que rugia em espasmos e sangrava. Após algo em torno de trinta segundos – ou dois minutos, pois o tempo no cronópio mental de Alberto parara, ou rompera-se – Romário fez um sinal de cabeça ao que parecia ser o líder dos criminosos, e em seguida, com uma pressa e perícia de açougueiro, cortou a cabeça do homem, ainda vivo.
A cabeça foi colocada numa sacola, e alguém saiu com ela da casa.
Romário retirou o avental e as luvas, e na pia da cozinha tentou lavar o que podia do sangue que lhe coloria braços, rosto e botas.
Alberto tremia, mas tentava manter o controle. Alguns marginais sorriam ao observar sua expressão; um outro lhe alertou o que, tacitamente, todos favela a dentro nasciam sabendo: se falar algo, morre.
Após secar as mãos, o carniceiro dirigiu-se ao líder do grupo, que apanhou um chumaço de notas de cem e cinquenta, tirou algumas e deu a Romário.
Entraram no carro, sentados lado a lado. Romário permanecia de cabeça baixa, já sem a expressão psicótica; era só um homem agora, com seu ar de Jeca. Permaneceram em silêncio até o ponto de desembarque, no local mesmo onde haviam sido apanhados.
Alberto nunca tivera coragem para as perguntas – Como, por quê, pra quê, você nunca o viu, e se fosse inocente, quantos já foram... Foi Romário quem, percebendo a mudança em Alberto, tentou lhe dirimir o medo, sempre fazendo gracejos.
- O que você esperava, Alberto? Os “brabos” não têm coragem de fazer, eu faço. Estão pagando bem, e ainda fico bem na fita. Todo mundo me respeita.
- Eu sei, eu não duvidava de você não. É que eu achava que no máximo você cortava gente já morta, defunto – disse Alberto, que desde o evento queimava todas as potências de sua alma para manter a encenação de que tudo seguia em normalidade.
Romário, introvertido e quieto como um matuto, sorriu.

Alberto esperou um pouco, três meses ao menos, para evitar desconfianças. E, a título de ter novamente se mudado, dessa vez para Niterói, onde o conheci, pediu e logrou nova transferência, de volta para o centro da maravilhosa cidade. Cidade que logo achou por bem deixar no passado, ao pedir exoneração do cargo de gari.
E foi o dia e a noite de seu segundo emprego. 

Sammis Reachers


Obs.: Esta história me foi relatada pelo próprio "Alberto", e ele jurava em favor de sua veracidade.

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