sexta-feira, 12 de outubro de 2018

A árvore, centro da natura - E uma antologia de poemas que a celebram



        O termo grego ανθολογία (antologia), significa “coleção ou ramalhete de flores”. Daí o latim florilegium. O termo florilégio encaixa-se bem ao presente trabalho, onde procurou-se coligir poemas sobre a árvore, esse centro e pilar da hera.
        E foi sorvendo de outas antologias, e ainda de livros individuais, revistas e websites, que coligimos aqui este singelo ramalhete de poemas sobre a árvore. Adicionamos ao volume uma pequena seleção de frases sobre o tema, e, em arremate, publicamos o texto integral (vertida sua grafia ao português hodierno) do poema A Destruição das Florestas, do múltiplo Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806 – 1879). O poema, que veio à luz em 1845, é um significativo e precoce exemplo de consciência ambiental em nossa literatura.
        Uma antologia temática é uma chance sempre de a poesia penetrar em espaços outros que não os estritamente circunscritos aos apreciadores de poesia. Como antologista, confesso que prefiro, por motivos óbvios, trabalhar com temas ainda não contemplados, os quais infelizmente são muitos em nossa língua. Já assim fizemos em trabalhos como Segunda Guerra Mundial – Uma Antologia PoéticaBreve Antologia da Poesia Cristã Universal e Amor, Esperança e Fé – Uma Antologia de Citações, só para citar alguns trabalhos. Assim, qual a vantagem (ou vantagens) de debruçarmo-nos, agora, sobre uma outra antologia da árvore, já que nossa literatura possui obras neste viés? Acreditamos em algumas. A primeira, é de ordem da amplitude espaço-temporal: a coleta de um número significativo de textos, abarcando autores, se em sua maioria brasileiros ou lusos, também de outras literaturas do globo, e alguns deles de produção posterior às seletas precedentes; a segunda, por suprimento de lacuna, visto que os predecessores são livros esgotados já de há boas décadas; e, por fim, nossa motivação principal: a democratização do conhecimento proporcionada por um livro que já nasce eletrônico e gratuito, o que permite um acesso fácil, amplo e permanente ao seu conteúdo. Afinal, em tempos em que “Meio Ambiente” alcançou o status de tema transversal a perpassar o ensino de todas as disciplinas escolares, auxiliar educadores em seu esforço para incutir o reconhecimento e a valorização deste ser áulico e basilar da Natureza, a árvore, naqueles corações sob sua jurisdição, torna-se nosso objetivo mais urgente.
        Além do elogio da árvore, presta-se aqui uma homenagem a nossos poetas de agora e de ontem, e de certa forma um serviço à literatura lusófona, pois toda antologia literária é antes de tudo isso - um serviço prestado a uma literatura e ao universo de seus usuários.
        Este é um livro gratuito. Como amante das árvores e da literatura, como professor e como antologista, é um prazer ofertar este livro a todos, com votos de que ele possa ser compartilhado livremente, para que alcance os fins a que se propõe.
                               
Sammis Reachers

Para baixar o livro (224 págs., em formato PDF) pelo Google Drive, CLIQUE AQUI.

sábado, 2 de junho de 2018

Harmonizados - Poema do Casamento


Harmonizados

Agora
Na paz pascal de casal aliançados
Fruímos a união da carne e do espírito
Sob os auspícios e mangueiras do Deus agricultor

Agrimensor, cujo cetro-cajado estendeu-se pelo parco
Tempo de nossas vidas, e mediu o tempo
– a nós tão tardo – de findar a nossa dor

Moça-símile-de-sinfonia
Jardim de hibiscos, primavera alongada
Pelo que alto habita, sementeira
A mim confiada

Crisântemo de ágape, anêmona do ar, pulsar
Tesouro que encontrei na ilha triste de meu degredo
Adaga que me rasgou o segredo, a face

Caravela de minha fuga, te amei
No momento em que olhei-te, trêmula
E como muda, no shopping dos obtusos

Jerusalém que sequestrei, minha fuga, agora navegamos
E pelo mapa bíblico do céu triangulamos
Latitudes do que é feliz, longitudes do que é serviço

Nautas postos & depostos aos pés do Númen
Agricultores & artífices de adagas prontos à toda obra
Por Aquele que se lembrou de nós naquela ilha,
YOTZER MEOROT, o Criador dos Luminares.


Sammis Reachers

quarta-feira, 16 de maio de 2018

"Sfronch", um conto anarcononsense


Sfronch

O Renault Oroch ou o Troller T4 ficou com um arranhão no para-choque, um traço ínfimo que não carecia de todos aqueles palavrões. Assombroso foi o sinistro som da freada ou freadas ou impacto, um 'sfronch' altissonante e escalafobético, coisa de desenho animado, berro de Pokemon lendário.
– Veja aí então qual é a Lei que incrimina quem desrespeita a faixa preferencial, seu asno! – gritou um dos errados, eu já não sabia de qual dos veículos.
Antes que o outro errado redarguisse do pico de sua pompa e contumácia, o errado acima explodiu de contundente:
- Veja também qual é a Lei que impede as balas quando elas voam na reta da tua cara, meritíssimo – e disparou, matando ali no quente o Juiz de Segundo Grau também dito Desembargador, defunto cheio de méritos e um broche do Rotary, horizontalizados com ele no asfalto um pouco gasto naquele trecho da rodovia.


Mas o assassinato do magistocrata, a despudorada ofensa à Lei e a uma classe sua superior, esses deuses de porcelanato (pois um príncipe não atiraria contr’outro príncipe, carioca ou brâmane) - a busca da Lei-montanha-platônica ao seu ofensor-Maomé-empírico, os secos estampidos da arma monologal, nada disso rememoro. 
É o barulho daquela colisão ou freada ou freadas conurbadas, festin’lésbicas, o estranho ‘sfronch’ o que me assoma ao entendimento - sempre que vejo um carro de polícia ou de bombeiros, ou uma placa qualquer de veículo oficial, da Câmara Municipal, universidade federal ou do Hospital dos Inválidos que seja; até mesmo quando o tédio me surpreende ou repreende na fila de alguma repartição pública. Um som sinistro que sei irreplicável, arroto do caos unívoco na sonata celeste, flatulência como que alienígena.
E mais. Nas duas horas diárias que perco ou duro a chegar do município de Maricá ao centro do Rio de Janeiro, e vice versa, proletário insone esforçado em conciliar o sono, acostumei-me a imaginar ovelhas saltitando, ovelhas de documentário e desenho animado pois nunca vi uma ovelha. Mas, do incidente para cá, já não alcanço contá-las: as ovelhas são agora tenras quimeras, com patas de asno, troncos de ovelha, orelhas miúdas de ariranha, peludas caudas de homem e rostos ainda mais burgueses do que o que eu sonho ter em meus melhores sonhos. E é sempre ‘sfronch’ o som de seus balidos.


Sammis Reachers

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Os sonhos como força regulatória do humor




É interessante e bastante sinistro como os sentimentos vivenciados durante os sonhos continuam a reverberar no espírito humano, durante praticamente o dia inteiro, influenciando nosso humor, mesmo quando, ao acordarmos, já não lembremo-nos de sequer um trecho de tais sonhos, e muitas vezes sequer que tenhamos sonhado.
São os sonhos um tipo de mecanismo de regulação? Provavelmente. Mas regulação de quê, e com que objetivos? A ciência não tem a resposta, e é provável que o tempo antes da nova criação finde e nós não tenhamos a resposta.
Quando adolescente, sonhava em me formar em Psicologia - não para clinicar, pois de loucura e desvio os meus sempre me bastaram e cansaram - mas para poder dedicar-se ao estudo dos sonhos. Minha teoria de então era que os sonhos seriam apenas válvulas de escape para “gastar” ou “descarregar” as imensas forças criativas que nosso cérebro possui, e que usualmente uma pessoa normal não usa nem a mínima parte. Bem, é uma teoria, não mais do que a ciência possui: certa feita li numa revista especializada nada menos que 19 (!!!) teorias em estudo para explicar a função dos sonhos. E o mistério segue...

sábado, 31 de março de 2018

LISBOA, 1494


Lisboa, 1494

Dois anos antes de 1496, dois anos antes do Rei Manuel I, bem intencionado filho comum da Idade das Trevas, expulsar os judeus de Portugal: Um sábio rabi, judeu lisboeta solitária e espontaneamente converso a Cristo, desejoso de auxiliar com sua sabedoria o avanço do Reino, ao iniciar de cada dia, assim orava a Sabaoth o Santíssimo:
- O que posso fazer hoje pelos que te servem?
E, no dia seguinte, divergia sua oração nest’outro sentido:
- O que posso fazer hoje pelos que te amam?

Pois, sem horror ou escândalo, sentimentos próprios das bestas e dos noviços, o sábio havia aprendido que nem todos que O amam O servem, e nem todos que O servem O amam. Com desprezo pelo paradoxo, o auto sacrifício perfeito de um sábio, resignava-se a soldado e cumpria o seu papel.

Sammis Reachers
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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Retrospectiva 2017

Olá amigo(a)s! Há alguns anos não publico uma retrospectiva, o que costumava fazer, rememorando os livros e materiais escritos/editados/publicados durante o ano.
Este 2017 me pareceu ao princípio um ano de poucas atividades, em virtude de haver um TCC para ser escrito, o que me angustiava, como de resto ocorre a qualquer mortal. Mas tudo saiu ao contrário: de onde não havia tempo e forças, forças e tempo consegui, e foram diversas e significativas as publicações.
Um projeto que muito nos motivou, logo em fins de 2016 e início de 2017, foi a criação da página Citações Missionárias. A ideia era publicar, a cada dia e durante os 365 dias do ano, uma frase de reflexão/incentivo à obra de Missões. Deu trabalho criar as 365 imagens individuais, e ainda programar a publicação, no Facebook, de uma a uma. Mas valeu, o projeto foi concluído pela graça de Deus. Ah, caso você queira baixar todas as 365 imagens com as frases, para usar como quiser, Clique aqui.
Os trabalhos nos blogs seguiram avante. Novamente, num ano em que acreditei que teria dificuldades, pude manter a publicação constante nos principais blogs, Veredas, Poesia e Arsenal.
Agora sim, vamos aos livros editados.
Em poesia, iniciamos o ano com o livro Sou Lázaro e vou recomeçar, do insigne poeta português J. T. Parreira, de quem já temos editado uma série de e-books; em seguida editamos o livro inaugural de um excelente poeta que surgiu "como que de repente" (rs), o Newton Messias, de Pernambuco. Por sinal o livro, Passagem, ganhou edições impressas e ampliadas e tem sido um sucesso. Em meados do ano editamos desta vez um livro de contos, Contos Reunidos, enfeixando a produção do médico, pastor e missionário brasileiro Joed Venturini, atualmente radicado em Lisboa, onde pastoreia a Terceira Igreja Batista daquela cidade.
Editamos também um breve livrete sobre liderança, Liderança 2D: O que o Líder espera dos líderes, de autoria de um promissor autor angolano, Josué I.A.B. Quissindo. Assim, foi com orgulho e senso de dever cumprido que pudemos, na medida de nossas humílimas forças, servir à cristandade lusófona (como fazemos com a Antologia Águas Vivas, abaixo) em nosso serviço de edição e promoção da literatura cristã. É a globalização, amigos.
Este foi o ano também do quinto volume da bianual Antologia Águas Vivas. Mais uma vez, excelentes poetas evangélicos em atividade foram congregados numa única publicação, e uma vez mais a lusofonia foi um dos eixos norteadores: Além da tradição da antologia de congregar jovens talentos em revelação a poetas já experimentados, além de cinco autores brasileiros, contamos com a presença do pastor português Samuel Pinheiro e a jovem poeta moçambicana Ana Júlia.
Em comemoração aos dez anos do blog Veredas Missionárias, conseguimos pôr em prática ou dar realidade a um projeto que já vinha em gestação há uns três anos: um jogo de tabuleiro enfocando a caminhada missionária. Em Trilha Missionária, acompanhamos a saga de um missionário, do chamado, indo ao preparo e até o serviço no campo missionário transcultural, e terminando com sua aposentadoria. Uma forma lúdica de conhecer, pensar e inspirar a Missão que é de todos nós.
Em seguida deslanchamos um projeto de pequenas antologias de frases, a Coleção 200 Frases. Tal iniciativa foi um tipo de balão de ensaios, onde tentei avaliar a possibilidade de ganhar algum dinheiro editando livros de interesse geral, utilizando a plataforma da Amazon. Os temas iniciais Amor, Fé, Esperança(que já estavam em planos de serem enfeixadas num livro único, do qual falarei à frente), Amizade e Saindo da Zona de Conforto foram os filhotes desta experiência. Que não me agradou. O lucro é tão insignificante que achei por bem retomar o foco total nos livros gratuitos. Nesta perspectiva surgiu o livrete Reformadores em 200 Frases, reunindo frases de 13 reformadores e pré-reformadores, em comemoração aos 500 Anos de Reforma Protestante, celebrados neste 2017.
Em seguida foi a vez de priorizar a educação. Como professor, foi um grande prazer elaborar o livro A Educação em 365 Frases. Principalmente pela excelente acolhida que o trabalho encontrou entre estudantes de Pedagogia e licenciaturas, professores e leitores em geral.
A próxima publicação foi uma antologia que me deu bastante trabalho, mas também prazer, e que talvez seja o meu principal trabalho deste ano: Amor, Esperança e Fé - Uma Antologia de Citações. São 250 citações sobre cada uma das ditas virtudes teologais da fé cristã. Um livro idealizado igualmente em comemoração ao aniversário da Reforma.
Por fim, outro projeto que estava em gestação há pelo menos quatro anos (e dando trabalho rs), veio à luz: o terceiro volume da Antologia de Poesia Missionária. Uma singularidade desta coleção é reunir, ao lado de poemas que falem (d)a Missão, frases, citações igualmente sobre missões e evangelização. Buscando fazer um trabalho de honra para o Senhor, além dos poetas nacionais coligidos, traduzimos ou encomendamos a tradução de significativos poemas da lavra de almas tais como os grandes missionários Charles Studd e Sarah Judson, segunda esposa de Adoniran Judson, sobrenomes atrelados para sempre à história das missões protestantes. Traduzimos também frases de interesse, diretamente do inglês e espanhol, além das coligidas em livros, revistas e sites nacionais. Enfim, um trabalho lento e metódico, que encontrou termo e foi o último fruto deste humilde pomar que distribui sua produção gratuitamente, e não cobra ingresso, cadastro ou ficha de filiação para quantos queiram usufruí-lo. Tudo o que eu peço, o que sempre pedi, são as suas orações. Um preço foi pago para chegar até aqui, um preço todos os dias é pago, e dado tudo pelo que passei, estar ainda na fé, caminhando ainda que tropegamente e servindo idem, é com certeza à mercê de orações de conhecidos e desconhecidos, pois sei o quanto tenho sido por elas sustentado além de minhas forças, e sustentado há bastante tempo.
Ore por nós, ore por este ministério sem placa e sem conta bancária. Sim, há diversos livros e publicações já em andamento ou em projeto, em benefício da igreja, de educadores e da sociedade em geral, se o Senhor permitir a execução dos tais. Ore por direção e provisão de Deus para o novo foco profissional que pretendo dar à minha vida, a partir deste ano que se inicia. Ore pelo meu futuro casamento, que espero consumar neste novo ano que fez o Senhor.
Ah, já ia esquecendo: apesar de todas as publicações e atividades, ainda conseguimos, ao descer as cortinas de 2017, produzir os já tradicionais Calendários Missionários. Nesta edição de 2018, o tema são os seis países da Ásia Central.
No mais, obrigado por sua leitura, obrigado pela companhia. Avancemos até que Ele venha. Maranata!

Sammis Reachers

domingo, 17 de dezembro de 2017

Sobre a eficácia da solidão


A solidão é como uma dimensão paralela, conquanto a todos manifesta, cujas paisagens duplamente mudas e dolorosa ou pacificamente estáticas podem ser apreciadas apenas por muito poucos espíritos. Ela é o primaz e fundamental campo de reflexão; seu divã, sua moldura, sua própria câmara de maturação. E câmara de maturação do Homem. Daqui decorre o instintivo medo de tantos em relação à solidão: seu medo é o medo da criança em relação à idade adulta. Medo da expansão (como ocorre no câncer, crescer pode não ser também perder o controle?), pois na contrição da solidão, no ilusório 'encolhimento' que ela parece causar, na verdade expandimo-nos para ocupar espaços. Espaços nossos que precisam de nós. 
 E como se pode plenamente valorizar a comunhão se não experimentamos profundamente sua negação, sua antítese? Quão ‘doce’ a água se afigura para aqueles que suportaram prolongada sede! 
 E aqui está o fruto da sabedoria: o quanto se aprendeu sobre o tempo em que é possível a um homem viver com ela – conhecimento antes desconhecido ou subavaliado! O quanto o homem suporta de solidão: tal conhecimento inaugura com chave áurea as reflexões socráticas do “conhece-te a ti mesmo”. 
 Sua Bíblia pode lhe ajudar aqui com um versículo, amigo leitor: "Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade; assentar-se solitário, e ficar em silêncio; porquanto Deus o pós sobre ele." (Lm 3.27,28). 
 No mais, dizia Shakespeare, mestre do trágico (mas que sábia ou temerosamente evitava em sua obra os temas teológicos): “Estar maduro é tudo.” 

 Sammis Reachers

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Sahhir, o Perscrutador, encontra-se com Deus


Sahhir, o Perscrutador, encontra-se com Deus

      Mercadejando metais e breves víveres nas plagas da Mesopotâmia, umbigo-que-não-cicatriza do mundo, gastava-se o árabe criado por judeus, órfão agregado a rebeldes, Sahhir.
      Ironicamente referido como O Devorador de Papiros ou O Perscrutador pelo rude populacho dos mercados a quem servia, em certa e ditosa feita, enveredando sozinho entre o deserto de Syn e a gloriosa Madinat as-Salam, dita Bagdá (Bag, "deus", e dād, "dado"; "dado-por-Deus", no persa médio, sexta das línguas de Sahhir), encontrou-se o curioso mercante com o Anjo do Senhor.
      Prostrando-se em terra, clamou por seu pecados.
      - Que desejas, pequeno barro, semelhança do Altíssimo?
      Sahhir, locupletado de luz e horror, não confabulou curas ou joias, palácios ou patentes:
      - Sou pó e do pó lhe adoro, Deus de meus benfeitores, e sei que morrerei por lhe contemplar. Sabes bem, ó Onisciente, que desejo, com humildade, saber e apenas saber. Conte-me, rogo, como e para quê fizeste o Universo.
      - Tais questões fogem à capacidade que lhe dei, ó enxertado, como o voar está distante de Beemoth-a-baleia. No entanto, naquilo para o que a engendrei, vês como é deveras insuperável e poderosa?

      - Sei bem que não poderei entender, Senhor; a mim me basta o ser maravilhado. 

Sammis Reachers

sábado, 16 de setembro de 2017

First They Killed My Father e Capitalismo: Uma História de Amor - Ou: A esquerda, a direita e o mal


Assisti nesta semana a dois filmes bem diferentes, dois filmes (na Netflix) para você aprender sobre SORDIDEZ.
 Em First They Killed My Father vemos a colheita maldita que foi a implantação do comunismo no Camboja, pela história real de uma família desfeita nas fazendas coletivas, alistamentos compulsórios e outras fornalhas marxistas.
Já em Capitalismo: Uma História de Amor, de Michael Moore, o alcagueta-mor do Império, vemos a sordidez inacreditável do capitalismo e seus mecanismos de vampirização e prostituição daquele que foi feito à imagem e semelhança de Deus.
Dois filmes para aprendermos sobre SORDIDEZ, sobre sistemas que em suas raízes e processos (práxis, práticas) negam o cristianismo ensinado no Sermão do Monte; para aprendermos que um outro caminho precisa ser tomado.
Recomendo que você os assista. Como gosto de provocar, são filmes para serem exibidos nas EBDs das igrejas.

Construir a justiça e viver o Sermão não são tarefas fáceis ou redutíveis a maniqueísmos; pelo contrário, são as cargas mais pesadas já dadas, a longa porta estreita que indica que, sim, um outro mundo é possível, mesmo neste rascunho traçado em pus (nosso mundo), mesmo enquanto esperamos pela nossa Pátria Celeste.


Sammis Reachers

sábado, 12 de agosto de 2017

MORCEGO & SINISTRO, um conto de Sammis Reachers


Morcego & Sinistro
                                                
      Não seria a Loucura, seja ela como for, genética ou casual, involuntária ou (in)voluntariamente auto-induzida, uma resposta, se não absoluta, absolutista ao Absurdo?

      Durante os anos de 1999 a 2004, eu trabalhei como cobrador de ônibus na linha 24, que fazia o trajeto do bairro Palmeiras até a praia de Gragoatá, em Niterói. O ponto final desta linha localizava-se num encontro de morros, pequenas ou medianas favelas, o que costumamos chamar de complexo.
Foram muitas as descobertas, espantos, amizades e inimizades que plantei e colhi, ou colhi mesmo sem plantar, ali.
      Mas escrevo para falar de dois moleques, melhor, dois jovens rapazes que sempre apanhavam meu ônibus para irem até a praia das Flechas, em Icaraí, ou a já referida praia de Gragoatá.
      Morcego era um daqueles que a literatura brasileira achou por bem ou por vício chamar, num de seus antigos chavões, de negro retinto. Tinha o rosto largo, e lábios grossos e vermelhos, contrastando com a pele muito negra. Um rapaz medroso, que ao contrário da maioria dos demais de sua idade, comunidade e contexto, jamais enveredaria pelo crime, apenas porque... era muito medroso. Simples assim.
      Sinistro... Sinistro era uma singularidade. Era um jovem baixo, de compleição um pouco forte, com peitoral de nadador sempre à mostra, independente do clima e das circunstâncias. Onde fosse, lá ia Sinistro, sem camisa e chinelos, apenas de bermuda ou chortão, com um sorriso indefectível nos lábios. Sim, Sinistro, invencível, sempre sorria. Era um zen, uma anomalia de paz transitando na favela, na cidade (quando aventurava-se), nas praias das Flexas e Gragoatá. Sinistro era deficiente mental, e meus nulos conhecimentos de psicologia impedem-me de referir o problema (a mim, anarco-cristão tardio, me pareceu sempre mais uma solução) que ele carregava. 
      Meu outro passageiro, o Morcego, era um refém da normalidade, um como eu e você, portador da velha cruz estacionária cujos quatro braços são a repetição, o enfado, a aceitação e o auto-engano.
      Por diversas vezes falei de Jesus para Morcego. “Aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.”
      – E se um bandido levar um tiro e na hora que tiver morrendo invocar o nome do Senhor, ele vai pro céu?
      – Se ele crer que Jesus é Deus e morreu em seu lugar, para o perdoar e salvar, ele será salvo.
      – Assim é mole.
      – A salvação é um presente, Morcego. Se fôssemos comprá-la, nenhum homem poderia pagar o preço. Ela só poderia ser dada.
      Espero que ele tenha invocado o Senhor no momento propício.

      Mas agora voltemos a Sinistro, e ao fundamento deste relato. Sinistro não era de muita conversa. Ele vinha, pedia para passar por baixo da roleta, com seu sorriso impassível. Eu sorria de volta e dizia, “vai lá, Sinistro.” Sentava-se, colocava a cara na janela e não falava mais. Na volta me esperava (pois aprendera por tentativa e erro que comigo a carona era certa), e eu perguntava:
      – Como estava a praia, Sinistro?   
      – Boa – pois sempre estava boa.
      O Louco é um privilegiado dentro do Absurdo. Saco de pancadas, lixo do panteão reverso humano, a ele é concedida a salvação direta. Incapaz de avaliar, como seria julgado? Incapaz de crer ou plenamente capaz, pois são os dois extremos do mesmo e tensionado arco, não estará justificado, como as crianças pequeninas de que é feito o reino dos céus?
      Mas o trágico tece os homens, como fiandeiro da Realidade que é. Certo dia, retornando da praia em meu ônibus, Sinistro e Morcego descansavam os corpos cheios da tão carioca lombeira, exauridos e felizes em sua silenciosa fraternidade. Ônibus vazio. No ponto próximo ao Plaza Shopping, subiram seis camaradas, cinco ‘conhecidos’ da favela e um outro que eu jamais vira, talvez do morro do Estado, que fica ali nas adjacências, quase contíguo ao luxuoso Shopping, e é dominado pela mesma Facção que o bairro das Palmeiras. Bandidos, claro. Sentaram-se espalhados pelo carro, e tudo ia bem. Mas eis o trágico levantando impudicamente suas saias: um bloqueio policial, uma blitz na Alameda São Boaventura, a menos de um quilômetro do ponto final, logo antes de entrarmos no bairro. Foi tudo muito rápido, um dos malandros percebeu o bloqueio à frente, “e a bolsa, e a bolsa?!?”, perguntou para os demais. Colocaram-na sob o banco, no chão. Os policiais sinalizaram para o motorista, o ônibus encostou. Os caras desesperaram-se, um deles pegou a bolsa e jogou para Sinistro,
      – Segura aí menor, se perguntarem diz que é seu.
       Morcego esboçou uma reação, – não, não, segura aí vocês, querem ferrar a gente?
      – Segura aí menor, se piar vai apanhar na favela!
      Morcego silenciou. Eu percebi a cena, os malandros estavam tensos, olhos esbugalhados. Eu também silenciei.
      Os policiais vieram revistando um por um. Chegaram em Sinistro. Pediram-no para abrir a mochila, ele não conseguiu, apenas ria e silenciava, aquele silêncio de Jesus frente a Pilatos. O policial falou alguns palavrões, apanhou a bolsa, abriu, uma arma e muitos papelotes.
      – Isso é seu? Isso é seu???
      Sinistro sorria. O policial deu-lhe um murro na cara. Eu não suportei,
      – Ele é especial, é maluco. – Um dos malandros, que estava em pé, olhou-me de soslaio.
      – Eles estão com você? – perguntou a Sinistro.
     Sinistro abriu a boca para falar inocentemente a verdade:
      – Eles não. Tamo só eu e ele – e apontou para Morcego.
      Morcego passou a tremer e gaguejar, – eu não eu não eu não – mas não denunciou os marginais. A polícia desconfiou de algo, levou três dos malandros e mais Sinistro e Morcego. Outros três conseguiram se safar, fingindo, claro, estarem separados. O ônibus seguiu viagem.
      Minha covardia perdeu poder, eu não me contive.
      – Vocês são muito filhos-da-####, hein, ferraram o moleque, sabendo que ele é deficiente!
      Um deles sabia que eu era crente:
      – Que isso irmão, tá nervoso? Ele é de menor, vai sair hoje mesmo.

* * *

      Não tive mais notícias de toda aquela desgraça até dois dias depois.  Dois dias que o Espírito Santo fez com que fossem longos, distendidos dias de vergonha e arrependimento. Então encontrei Morcego na padaria, ponto final do ônibus.
      – Sinistro ficou agarrado, e os três caras também. Eu consegui sair.
      – Mas Sinistro não é de menor?
      – Não, ele já tinha dezoito anos.
      Dissolvido em sua alienação, sequer tivera tempo de envelhecer: aparentava quinze anos.
      Nos dias seguintes tudo se esclareceu: os policiais não acreditaram em Morcego, mas o liberaram, pois possuía apenas dezesseis, e os marginais resolveram ‘inocentá-lo’. Sinistro não teve a mesma sorte: eles precisavam de um bode, de um bucha. Atestada sua demência, Sinistro foi transferido para o Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, em Niterói.
      Com uma semana que Sinistro havia sido preso, e três dias depois de transferido para o hospício, sua família foi visitá-lo. Morcego quis ir junto.
      Ao retornar, Morcego trazia transtornos e constatações em suas fragilizadas asas. Transtornos por ver o amigo, a própria encarnação da paz, ferido e sedado, transfeito de sorridente monge zen em patético e pálido zumbi. E a constatação maior, geral: era possível resgatá-lo. A segurança era baixa, nada comparado à cadeia de verdade.
      Nos dias seguintes, o covarde Morcego iniciou uma cruzada na favela. O objetivo de sua pregação: convencer o ‘dono’ do morro, Simiano, que não gostara de saber o que seus subordinados haviam feito, a resgatar Sinistro. Isso mesmo: o covarde Morcego, que temia tiros e pancadas da polícia, tinha um plano e buscava homens de verdade para realizá-lo.
      Um dia ele veio falar comigo. Falou dos sofrimentos de Sinistro. Em seus olhos de culpa, espelhei minha culpa: seu silêncio no momento capital fora também meu silêncio, sua lendária covardia não fora menor que a minha, eu, o muito crente e muito homem e muito culto cobrador do carro 110 da linha 24, que não abaixava a cabeça pra ninguém. Mentalmente eu vislumbrava o sorriso de Sinistro, eu contemplava a sua paz, e eu senti então, aos vinte e cinco anos, o que Judas sentiu depois do beijo. Eu me ofereci para tomar parte no resgate, ofereci meu braço, minha mente. “Perdoe-me, Jesus. Eu preciso desfazer a merda que eu fiz.”
      Um dia depois Morcego intimou-me: o patrão sabia que eu desejava tomar parte na empreitada, e ‘mandava’ que eu fosse ao morro, após largar do serviço. Trabalhava no turno da tarde, das 12:00 às 19:00. Às 20:00, estava no alto do morro, onde nunca havia subido. A mãe de Sinistro também estava lá. Tive estranhas sensações, não sabia se orava ou se me rebelava, mesmo que numa micro-rebelião, tentando inútil e miseravelmente deixar Deus ‘de fora’ daquilo.
      No dia seguinte, Sammis, o branco com cara de bobo ou de cidadão respeitável iria ao hospício, avaliar o cenário. Quem suspeitaria?

* * *

      No dia da ação, todos iriam armados. Ainda segundo o plano traçado no alto do morro, utilizaríamos três carros (certamente roubados; eu já não queria saber ou me informar, como se minha falseada inocência fosse diminuir-me a pena na contagem de meus pecados). O teatro da ação seria uma das áreas mais nobres de Niterói. O próprio hospício ficava defronte ao mar. Localizado no bairro de Charitas, ladeado pelos bairros de São Francisco, de um lado, e Jurujuba do outro, que é um bairro sem saída, estendido sobre o mar em forma de istmo. Fugiríamos então via São Francisco. Faríamos uma troca de veículos dentro do túnel Raúl Veiga, que por sua vez liga o bairro de São Francisco a Icaraí, por onde se daria nossa fuga em direção ao bairro das Palmeiras.
A ideia da troca de veículo foi minha, era fácil fechar o túnel ou armar barreiras do outro lado, em caso de alguém alertar a polícia. E do outro lado do túnel, a míseros quatrocentos metros, estava exatamente a 77º DP. Próximo ao Hospício ficava a 79º DP. A realizar-se o pior, teríamos um terrível cenário, digno daqueles ridículos filmes de ação americanos e suas batalhas assimétricas, de um contra cem, um contra mil, pois seriam muitos policiais mobilizados em curto espaço de tempo. Só que, ao contrário dos filmes, ali as balas seriam letais, fundidas no rude metal da realidade, e a garra do destino estaria em nossos pescoços. Satanás sorria enquanto varria o salão para o grande baile, feliz em saber da presença de um convidado especial, um ‘crente’ se não desviado de direito, já desviado de fato. Ou já prestes.

      No dia decidido eu e mais dois rapazes da boca entramos no hospício, a título de levar uma doação para os internos. Eu e minhas malditas ideias. Não era hora de visitações, mas a mãe de Sinistro já estava lá: a estória era que ela estava com câncer, com prognóstico de poucos meses de vida, e precisava ver o filho antes de uma cirurgia arriscada. Sim, eu tinha imaginação. Ela se encarregaria de levá-lo para fora do edifício, para o pátio, onde conversaria com ele. Nós simplesmente renderíamos os dois guardas do portão, e faríamos a extração do paciente, para a van que aguardava do lado de fora. Morcego estava no calçadão da praia, quase em frente à 79º DP, para vigiar a movimentação policial. Jô, um dos enviados de Simiano, estava próximo à 77º DP, onde aguardava o momento de fechar com um carro a estreita rua Dr. Carlos Halfeld, que fica ao lado da 77º, dificultando assim o acesso dos policiais à Rua Roberto Silveira, por onde dar-se-ia nossa fuga. Os policiais não seriam impedidos, mas ao menos atrasados. Embora a rua fosse tão próxima que poderiam simplesmente ir a pé. Mas a ideia era atrasar seus veículos, em caso de perseguição.

      Como já referi, Sinistro só andava sem camisa. Sol quente ou dia frio, lá ia ele, de peito nu impávido como um andorinhão. No hospício foi obrigado a andar no padrão, uniforme de bermuda longa e uma camisa verde de grosso tecido.
      Ao ganharmos a rua, a primeira coisa que ele fez (acreditei que só então entendendo e assimilando a libertação em processo), foi arrancar a camisa. Como um Adão que, em sublime transcendência, tornasse à inocência, ao estado de luminoso torpor que é a graça.
      De acordo com a cosmovisão de cada homem, ou a corcunda que cada um traz no entendimento, ele poderia ser visto como um deficiente, um sub-humano, um indivíduo sempre carente de cuidados; para outros entendimentos, dissonantes do massivo coro, era um super-cara, um liberto sem luta e sem trauma, um pacificado, ou numa melhor palavra, um transcendente. Li livros demais em minha vida; se não pudesse reconhecer um transcendente, e se não estivesse apto para reconhecer uma causa, um motivo, um sentido, não seria um cristão.

      Quando prestes a entrarmos na van, os tiros caíram sobre nós. Um dos caras da boca, que segurava aberta a porta para que entrássemos no veículo, foi o primeiro alvejado. Os tiros vinham de dentro do hospício: algum segurança interno miseravelmente percebera a ação. Talvez passasse próximo à portaria no momento. O outro rapaz sacou a arma e começou a disparar. Um carro da polícia vinha trafegando em direção aonde fugiríamos; ouviram o som dos disparos. Ligaram a sirene. Do outro lado da rua, na calçada do canteiro central, em posição à boa distância por trás da viatura, Morcego sacou a pistola com que nunca atirara e começou a disparar contra o veículo. O outro rapaz da boca disparava contra o segurança do hospício, enquanto eu me dividia entre colocar o rapaz ferido dentro da van e tentar impedir o que atirava, pois havia diversas pessoas no pátio. Ao perceber que, mesmo à distância, a polícia começara a disparar, o terceiro elemento, ao volante da van, simplesmente acelerou e partiu com o veículo. Cão. O segurança do hospício parou de disparar, seu 38 deve ter ficado sem balas. A viatura, agora parada há alguns metros na estrada, disparava contra Morcego e contra nós. Morcego, atingido, largou a pistola, atravessando a rua e correndo em direção à praia.
      Sinistro, que até então ficara estático, sem entender a violência célere dos acontecimentos, ao ouvir o grito de seu amigo e vê-lo fugindo, correu atrás dele. Foi somente então que saquei a arma que me fora emprestada no morro. Disparei contra os policiais da viatura, para cobrir a fuga de Morcego e Sinistro em direção ao mar. Estávamos em campo aberto, o rapaz que ficara comigo gritava:
      – Babou, babou irmão, a casa caiu, vombora!
      Correu em direção contrária, me deixando só, como um dos alvos dos disparos da polícia, que fazia fogo também contra as costas de dois anjos de pó que fugiam sem saber de que, sem saber para onde.
      É assustador, e se Deus não estava ali, foi a pura eficácia do mal: atingi dois dos três policiais, enquanto o terceiro ficou em posição inalcançável, atrás da viatura. Com o tiroteio, o trânsito nas duas mãos da via havia parado, mas outra viatura se aproximava, dessa vez da Polícia Civil, avançando dividida entre a calçada e o acostamento. Quem mandou bolar um resgate a quinhentos metros de uma delegacia? Corri em direção à outra mão, em direção ao mar. Outros policiais, esses militares, vinham já correndo pelo calçadão em direção a Morcego e Sinistro, que entraram na água. Os policiais dispararam. Disparei contra eles, a 14ª e última bala da pistola se foi sem encontrar carne alguma. Não havia carregador sobressalente, não pensamos que seria necessário. Atiraram contra mim, abaixei-me, levantei as mãos, estava cercado pelos dois lados.
      Pude ver quando um deles, disparando sem parar, atingiu Sinistro, pois ele imediatamente afundou. Morcego, ferido no ombro, já havia sumido no mar calmo da praia de Charitas.

      Depois de receber o soco na cara e os chutes, fui colocado numa viatura, a mesma que ajudara a perfurar com minhas balas, balas certeiras demais para um amador.  Atingira um na mão, e ele agora, em pé ao lado da viatura, me olhava com olhos prenhes de ódio; o outro estava vivo, mas estendido no chão.
      Suado, sozinho, ferido e empapado pelo sangue que meu nariz vertia, como Bonhoeffer conspirando para matar Hitler, fiz-me a pergunta retórica fundamental, por isso talvez não-retórica: os fins justificam os meios? Não, a não ser que seja pelo bem supremo. E a Redenção é o fim, o bem supremo, a equalização do caos.
Sinistro alcançou o fim pelo qual tudo no Universo digladia-se, de quarks até galáxias, passando pelo Homem de pó: Redenção. Pois redenção é o amor em ação, é a sua perfeita práxis.

      Adeus, Sinistro. Primeiramente teu é o Reino dos céus.

      Confúcio diz que virtude é realização. Amigos até a morte, que, impotente para separá-los, uniu-os, ambos afogaram-se na virtude, realizaram-se.

      De Morcego, espero que ele tenha invocado o Senhor no momento propício.

* * *


      Hoje estou preso na carceragem da 76º DP, em Neves, São Gonçalo. Há irmãos aqui, fazemos cultos, dou aulas de rudimentos de teologia, filosofia, história, repasso o que acumulei.
      Outro dia um dos irmãos, Aloísio, viu-me rabiscando algo na página de guarda de um livro. É um homem humilde, mas entendeu que tratava-se de uma rota, um plano. Depois, durante o banho de sol ele se aproximou e bastante sem jeito me perguntou se eu iria fugir.
      - Lutei para desfazer uma injustiça, que os homens e as circunstâncias jamais desfariam a tempo; não tenho parte com leis injustas. Se há um maquinário, um sistema disposto a oprimir, de minha parte estou disposto a resistir-lhe, a ir contra a chibata. Sim, pretendo sair daqui.
      Estávamos sentados no chão, de cabeças baixas, recostados numa parede cuja umidade o calor do sol, com toda a sua inclemência e seu chicotear, era impotente para eliminar. Aloísio abaixou ainda mais a cabeça, entre escandalizado e confuso.      Observando o espanto incrédulo por trás de sua face humilde, um flash obscuro me fez pensar se eu estaria ensandecido. Mas, espasmo de luz que era, desfez-se.   

      Ficamos em silêncio; ele ruminaria as informações que se contradiziam em sua cosmovisão, sua corcunda. Agora era ele e Deus. Não sei qual foi seu crime, em quais linhas do destino ele embaraçou-se ou foi embaraçado. Mas se for inocente, o levarei comigo na fuga. Deus proverá.

De O Pequeno Livro dos Mortos (Ed. Letras e Versos, 2015). Para adquirir seu exemplar, escreva para: sreachers@gmail.com

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O enfado a esquina a amizade e o sentido da vida

 

Aquele dia melancólico. Enfadante de lidar com enfadantes. De lidar consigo, pois contrário ao que errou Sartre, o inferno é o espelho. O primeiro deles. Quando a vida fica esvaziada de sentido, esse sopro pueril. Contando as horas para o fim do expediente, para ir para casa - mas que há em casa? Os mesmos afazeres, projetos e livros.
Você sai do trabalho, come umas esfihas, pois nem almoço tenciona preparar. Avança sorumbático pelas ruas, torre de melancolia que sinistramente respira e anda, e então encontra um dos velhos amigos. De repente, nesse horário tão improvável. A conversa se inicia, o crime, a política, a pouca-vergonha, fulano que enfartou, coitado.
Mas eis que um outro amigo, de infância e sempre, vem pela mesma rua. Três destinos que há tanto se contemplam, e que em muito marcharam juntos. E a conversa agora é uma explosão - gargalhadas e mímicas, eventos sujos e hilariantes que só os homens sabem relatar, anedotas e saudades preenchem duas horas de três homens, em pés numa esquina.
E você vai embora, mas agora a vida, essa vacuidade, está plena de sentido, transbordante de razões para ser. Se o inferno é o espelho, é sempre o próximo quem poderá quebrá-lo.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Este poema neste Dia dos Namorados


Hoje é o Dia dos Namorados, ou assim o comemoramos neste Dia do Senhor

Ela está aqui ao meu lado.
Fez um dos pratos mais deliciosos que já comi;
Apanho sua mão perfumada e trago ao meu rosto
Faço-a de travesseiro, berço, trama e tumba a bastar-me:
As linhas de sua mão são a conclusão de meus circuitos

Já tive algumas mulheres, sim, ou
Beijei algumas mulheres, melhor assim
Que isso de posse ao fim e ao cabo cabe a quem assina,
Mas em todo caso dei-me sempre retido, a entrega é sempre retesada
Num homem - ainda que aparentemente lançado
É apenas uma parte de seu coração que ele lança:

Mas eis-me aqui, entregue, catapultado por inteiro
Ao pequeno oceano de amor que essa moça
Tão terna trouxe de tão longe

Hoje é o Dia dos Namorados, e a pele dela todo dia
É um pergaminho branco, um convite ao poema
Apanho sua mão
Sua mão que ao meu rosto arrebanha,
Pastora dos animais que me habitam
Apanho sua mão de unhas azuis
“Olha, sua cor preferida”
Ah! Minha cor preferida é a que você usar, menina
Nem se deu conta ainda, ninfa potestade
Da capitulação das terras de meu coração,
Nem se deu conta ainda
De seu domínio?

Hoje é o Dia dos Namorados
Ela está aqui ao meu lado, vendo vídeos
Falando de minha irmã
Ela a moça mais linda
Rindo sem graça não querendo ver
Este poema que escrevo

Ela a minha alegria, estrela não de hidrogênio e hélio
Mas de sândalo & nitroglicerina
Ela essa coisinha tão pequenina que aterrorizou
A escuridão que me habita, ela que olhou minha escuridão
Olhos nos olhos, e dedo em riste sem medo
A estapeou, “Bom dia, vadia! Vamos, saia por onde eu entrei”
Ela a pequena ninfa que estapeia e vitupera a escuridão e sorri,
Ciosa agente de Elohim, palavra de renovo
Ela que nos venceu a todos os animais em mim.

P/Érika.


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