sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Ilha (Secreta) de Patmos


Foi num dia em que eu estava, como já me era costumeiro, assentado na praia deserta. Olhava absorto o mar. Ao volver a vista para ocidente, vi de repente uma criança assentada na areia, construindo castelos. Estava de costas para mim, mas virou-se no exato momento em que a mirei, e pude ver-lhe o rosto. Era o rosto de um velho. Tinha um sorriso sinistro na face, algo de meio maníaco, caricatural e doentio, como um vilão de desenho animado. Uma máscara? Não. Ele erguia as torres de seu castelo de areia com sofreguidão. Forçoso era admitir que a criança era um prodígio; a perícia arquitetural de seu castelo era de maravilhar, mesmo se fruto das mãos de um adulto. Ele soltava em tom sempre crescente e intermitente grunhidos ininteligíveis, grunhidos que eram como os de um bebê, num tom primal e indefinível, mas que de alguma maneira me soavam familiares. Balbúrdia de chiados e vozes que me impedia de sequer discernir quando ria ou chorava; seu lamuriar era ora como grito, ora como canção; e houve mesmo instantes em que eu julguei ouvir a abertura de uma ópera de Bellini, ou um trecho de Espinosa... Após certo ponto, ao atingir o que parecia ser o ápice de sua música caótica, ele golpeava com alegre fúria o castelo de grãos de areia, de homens amontoados, que construíra. E recomeçava outro castelo. E outro. Incansável em sua empresa. Inamovível de seu sorriso doentio. Antigo e novo. Tinha também um nome o menino, nome de funda raiz semítica, denotando talvez sua origem: Satanás.

Sammis Reachers

2 comentários:

Antonio Lopes disse...

Caro mestre :

é como dizem : o inimigo pode ter um rosto angelical,vários rostos e tipos e estar em todos os lugares. É preciso sempre estar atento..
Abraços fraternos

Sammis Reachers disse...

Nobre Touché, pobre de mim, de mestre não tenho nada rsrsrs.

Mas realmente, como se diz, quem vê cara não vê coração.

Um abraço forte meu amigo!

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