Provavelmente, o primeiro jogo de videogame que joguei na vida foi um shoot 'em up, um jogo de navinha: River Raid, clássico do Atari, em casa de algum vizinho ou primo. E a primeira e mágica, inaugural, ritualística vez em que coloquei, por minha conta e para meu risco, uma ficha na caçapa de um fliperama, foi para jogar Galaga, também um shmup clássico - jogo que depois vim a possuir numa daquelas fitas de oito jogos de meu Phantom System, primeiro videogame que tive e o mais belo clone nacional do Nintendinho (o convido a concordar, amigo leitor).
Assim, minha relação de amor com os shmups estava selada desde o berço das minhas joganças. Infelizmente, nos tempos de Phantom, tive contato com bem poucos shmups do console. Não eram muito comuns entre a rapaziada, e as locadoras por aqui sempre foram fracas demais. No entanto, vingar não custa nada, ou custa, mas às vezes vale a pena. Adulto, vinguei (vingo quase todo dia) o pequeno Sammis, detonando via emuladores centenas talvez de games do gênero. E é isso que nos propomos a fazer aqui: Detonamos - ou quase - sete bons shmups do console, com uma especificidade: São games baseados não em naves, mas em "bonecos" - e boneco pode ser um cara, um anjo ou uma lapa de mecha, como você sabe. Dito tudo isso, vamos ao que interessa.
Abadox
Em 1989 a Natsume desovou na praça este game "porradeiro", como se diz por aqui (bem, é a molecada meus alunos quem diz). Trata-se um dos melhores shmups do console.
Como era comum na época e no console, o jogo mescla fases com rolagem horizontal com outras de rolagem vertical. Vem forte, pois o perrengue é colossal aqui. Primeira e eterna dica shmupiana: Evite pegar "Ss" (velocidade) demais, pois você estará voando dentro de um por vezes estreito organismo vivo, e um toque na parede é lona certa.
Vamos aos powerups: Voando num traje espacial, seu guerreiro coleta até três orbs (B) (quase) imortais, que engolem tiros e atingem adversários. Também há variação nos tiros: Argolas/esferas (um sinal ou símbolo de "*"), Laser (um sinal de "-"). Você também agrega Mísseis (M) ao seu arsenal. O P aumenta o level de seus tiros e seu life. Você pode aproximar ou afastar os orbs de você, via botão B. Não há barra de life, mas o P garante que seu boneco suporte alguns tiros ou raspões antes de morrer.
As fases possuem chefe e subchefe, belos monstros estomacais ao seu dispor. E, como você está DENTRO do inimigo, alguns chefões são chefões de tela inteira. Para tornar esse shmup ainda mais canônico, no final você precisa escapar do planeta em colapso, a grande velocidade e por um traiçoeiro labirinto.
Action in New York / S.C.A.T. (Natsume, 1992)
Além de sua metranca cósmica, você possui dois orbs imortais, cuja posição pode ser escolhida (pode deixá-las se movimentando em volta de você, atirando para todos os lados, ou pode fixá-las na posição que desejar).
Além do tiro normal, a tradição dá as cartas: Temos Wave, Laser e Bomb (tiro que lança exatamente isso, bombas). O R repõe life, e o S é o tradicional Speed (velocidade).
Em suas cinco fases, Action/S.C.A.T. entrega o que se espera de um bom shmup. Batalhas intensas, belos chefões, com direito a circundar e detonar uma imensa espaçonave feito o porta-aviões aéreo da Shield (tema clássico total no universo shmup).
Perrengue intenso num dos grandes shmups do console. Detalhe: O game é chamado de S.C.A.T. na América do Norte, Final Mission no Japão e Action in New York na Europa.
King's Knight
Aqui você não avoa, mas avança no poder arcano das canelas. E nem vai sozinho: Vossa mercê é membro de uma guilda de heróis, composta, ao melhor estilo Dungeons & Dragons, por um cavaleiro, um mago ancião, um bárbaro e um dragonbaby ou mano reptiliano. King's Knight seria um run and gun com uma pegada shooter e um folclore de RPG, digamos assim.
O avanço (rolagem vertical) consiste em detonar o cenário - rochas, árvores e o que mais aparecer, além dos adversários, claro. Os cenários destruídos liberam itens. Seta direcional para cima, sua barra de life cresce; seta para baixo, diminui. ("Mas que idiota vai pegar a seta para baixo, Samerson?" Na hora do sufoco, acontece...). Esferas melhoram o tiro, botas aceleram sua velocidade, molas aumentam o pulo.
As fases são vencidas por saturação e resistência: Não trazem chefões ao final, basta a ti sobreviver, paladino. Mas, calma lá: No meio das fases é possível encontrar passagens secretas, escadarias para o submundo. Lá, sim, há um chefe a ser defenestrado. E tais descidas são fundamentais: É preciso coletar os elementos secretos, criativamente nomeados de A, B, C e D em tais cavernas. Sem eles, o final do game fica comprometido.
Após superar as quatro fases iniciais - cada personagem se encarrega de uma - você e a guilda são lançados em nova fase, para resgatar a princesa. Ah, deixa eu contar a trama: A princesa Claire de Olthea foi surrupiada pelo dragão sombrio Tolfida. É missão de sua trupe - Ray Jack, Kaliva, Barusa e Toby - proceder com o resgate. Na última fase, a troca entre personagens não ocorre via botões, mas sim passando por cima de setas direcionais de retorno, presentes na tela.
K' K não é um jogo que poderíamos chamar assim de um booom jogo, ainda mais procedendo do útero criativo que é (ou foi, ou se tornaria depois deste jogo) a Square. E ele é bem curtinho. Mas o desafio é sempre agradável.
Metal Fighter
Na verdade, este é um dos muitos jogos "não-licenciados" feitos para o console da Nintendo, jogados no mundo pela desenvolvedora taiwanesa Sachen (no Brasil, a Milmar lançou muitos jogos da firma).
A mudança de tiros neste game de rolagem horizontal é toda especial: Ao apanhar o powerup do tiro correspondente, você é teletransportado até uma tela estática onde precisa combater uma adversário semelhante a você. Somente ao vencê-lo, você retorna à tela normal com o novo tiro. Se perder, volta na mesma. L é a pedida, pois o laser ricocheteia na tela. Mas o M também é dos bons: Cria uma curta barreira de disparos em 360 graus, eliminando quem se aproxima. D aumenta seu poder de fogo somente para a frente. Bom para detonar chefões. Outra curiosidade: Seu mecha começa marchando e pulando apenas. O poder de voar é obtido também via powerup. Outra dica eternal no mundo dos shmups: Cuidado com a pegança dos "Ss" que aumentam sua velocidade: A nave, como em tanto shmup, pode ficar ingovernável. É possível também carregar o tiro, lançando um disparo maior.
Além de tiros, neste esquema também é possível descolar um orb (D). Aprenda a utilizá-lo: Ele é imortal e pode ser empregado como aríete contra os inimigos e tiros. Os chefões são bem maneiros, mas possuem um ponto fraco: Você deve pegá-los por trás (LÁ ELE!).
Esse jogador de shmup aqui pode falar uma coisinha para esse jogador de shmup aí? Metal Fighter é shmup raiz, feito com carinho. Você percebe um esforço até para evitar, na medida do possível, a repetição de inimigos de tela, comum nos tosqueras da vida. Esse game é mais divertido e tem mais desafio que muito shmup da geração 16 bits. Confira.
Isolated Warrior
No enredo, estamos no planeta Pan, acometido por uma "praga" de alienígenas que consomem tudo o que tocam - de seres vivos a edifícios. Os exércitos de Pan são massacrados pela fúria e superioridade dos oponentes. Aos sobreviventes, é ordenado recuarem e logo abandonarem o planeta. Mas, como o herói bíblico Samá, que defendeu sozinho um campo de lentilhas contra hordas filisteias, após seus companheiros baterem em retirada diante do maior número adversário, o capitão Max Maverick decide ficar e oferecer combate ao inimigo.
Seu personagem conta com três tipos de tiros à disposição, além do tiro simples ou "puro" (para frente concentrado, frente e trás, e frente e diagonais superiores), trocáveis via botão select, e upáveis via powerups. Apertando pulo + tiro, ele também lança um fecho de granadas. Outro gadget que vem em seu socorro é um providencial campo de força. Apertando o pulo e mantendo pressionado, seu boneco consegue flutuar por um curto espaço de tempo.
As fases, frenéticas, possuem por vezes chefe e subchefe, o que aumenta a diversão. Uma delas, por sinal, é a bordo de uma fluomoto, e o sufoco é dobrado. Os chefões são maneiríssimos. A dificuldade é considerável em muitos momentos. E o pior: O game possui cutscenes à la Ninja Gaiden - eu sei, irmão, isso é o ápice de uma experiência em oito bits. Aperte start e deixe fluir, neste shmup - melhor, neste game - inescapável do console.
Legendary Wings
O tiro simples pode ser mudado para tiro duplo, triplo, esferas que ricocheteiam, onda (wave) e por fim você ganha uma aura de fênix, a configuração mais forte. Os upgrades também melhoram a cadência de sua "bomba de caída", para eliminar inimigos no solo. Cada tiro que seu anjo leva faz você decair ao tiro anterior (depois do tiro inicial, claro, há a morte, se anjos morrem).
O game apresenta um configuração de chefões especial: No meio das fases de rolagem vertical, é possível (mas não obrigatório) entrar em uma construção subterrânea ou caverna, onde você mudará para rolagem horizontal e deverá eliminar o chefe ou chefes ditos As Lagartas; retornará então à rolagem vertical, e ao final da tela de rolagem vertical, é preciso eliminar um dragão; e somente então, ao retomar a uma tela de rolagem horizontal, é que você chegará ao verdadeiro chefão da fase. Os subchefes e os chefes são sempre os mesmos, apenas aumentam em quantidade, tamanho e/ou dificuldade. Apenas no final há variação, quando você defronta o computador Dark. Repetitividade: Esse é o grande, imenso problema de Legendary Wings, que fora isso é sempre um bom shmup.
Burai Fighter
Sua tarefa aqui é adentrar e implodir as sete Fortalezas Burai espalhadas pela galáxia. Os Burai são uma caterva de ciborgues conquistadores, marionetados por uma poderosa IA, que cria exércitos de ciborgues meio máquina, meio animal.
Seu personagem veste um jetpack, e atira em 360 graus. Diversos powerups ajudam na mudança de tiros, acrescentando mais um disparo ao seu "tiro normal": Mísseis (M), Anéis de energia (R), Laser (L). É possível também encontrar um orb imortal, que circunda seu personagem e detona adversários no poder do encontrão. O S aumenta a velocidade. Os powerups vêm em farta quantidade, mas aqui há vantagem: Eles são acumulados e vão subindo de level. Mesmo estando com um certo tiro e trocando, o level do anterior permanece. Após uma acumulagem de 1 a 9, seu tiro atinge o nível final, o A, e passa a disparar para várias direções, aumentando seu apelo. Por fim, há uma barra de energia, mas ela não mede seu life: É a barra de especial, recarregada via esferas vermelhas que os adversários soltam ao partir. Amigo, dica de amigo: USE os especiais, pois se você recolher esferas até a barra atingir o máximo, a miserável ZERA e o acumulado se perde. Lembre-se da lição de seu pai: Antes eles do que você! E além de espalhar as brasas, o especial come os tiros adversários...
A cada duas fases em rolagem horizontal, vem uma com visão de cima ou aérea (top-down). Ao final de cada uma, chefões belos e desafiadores te aguardam.
Não que o jogo seja assim um desconhecido, mas Burai Fighter é tão bom que merecia ter recebido maior destaque na época.
Sammis Reachers


























