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domingo, 16 de agosto de 2026

[BALA] GAROTO DE HORTELÃ, um poema saudosista

 


[BALA] GAROTO DE HORTELÃ

 

Nela a infância rescende, reacende,

Reata os pedaços de nós

Que o tempo rebentou a cru

 

Seu sabor é da quadratura da infância,

Seu dulçor, a redondez,

frescância, fragrância, fluidez

 

Por laicos um real e dez centavos

A escuridão ou cinza turbidez gangrena

E a vida, essa hortelã, dá seus estouros


Sammis Reachers


domingo, 20 de outubro de 2024

Bicudo, o Lobisomem - E seu apagamento cultural e "gamerístico"



Um desenho de que eu gostava muito (um dos poucos que conseguiam fazer a criança meio mal humorada que eu fui rir de verdade) era o Bicudo, o Lobisomem (Fangface no original). Mas o desenho veio de uma empresa que não estava exatamente nas cabeças (leia-se Hanna-Barbera e Warner Bros., além da Disney, claro), a Ruby-Spears Productions (fundada pelos criadores do Scooby-Doo e ex-funcionários da então onipresente Hanna-Barbera), e credito a isso não ter feito tanto sucesso, ou ao menos conseguido maior longevidade. Só teve duas temporadas, me parece. 

No Brasil, foi transmitido pela Globo e depois pela saudosa TV Manchete. Pesquisei sobre algum game da franquia e não encontrei nada, apenas um jogo de tabuleiro. Taí algo em que eu investiria se fosse desenvolvedor da games. Ajudaria até a “ressuscitar” o personagem para novas gerações, ou retrocoroas que não conheceram o desenho na época. 

De um clássico jogo de plataforma, com ou não acréscimo de puzzles, até um baita beat 'em up com o Bicudo fazendo o que fazia de melhor: Moendo a monstraiada e as almas tinhosas que lhe aparecessem pela frente, tudo com muito humor.

Falando em retro, essa empresa foi a mesma que, em associação com a Capcom, criou o desenho animado do Megaman. Hoje, o espólio da empresa pertence à Warner, dona também da sua ex-concorrente, a Hanna-Barbera.


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O tempo em que mandávamos e recebíamos cartas, as piadas da Playboy e o nascimento de um escritor

 


Peguei a reta final do universo das epígrafes, ali pelos anos 90, 2000 (sim, pois daí em diante foi sobrevida).

Ainda criança, tinha o vício da acumulação, do colecionador de tudo (que troquei pela Literatura, tempos depois. Hoje não tenho apego nem a meus livros impressos). Enviava carta para todo lugar que dissesse “receba grátis nosso catálogo”, “receba grátis nosso informativo” etc.

Para além disso, eu já era um escritor, sem saber, sem ninguém me avisar. Mas, como era isso? Eu comprava em banca revistas de piadas da Ediouro, publicações populares na época. Nelas, se dizia que quem enviasse piadas que fossem publicadas, ganharia brindes (mais revistas). AQUI me tornei escritor: Eu copiava e REESCREVIA, com outras palavras, nomes e até transcursos, piadas que vinham na página final da revista Playboy (como eu as conseguia, as Playboys? Ora, eram os anos 80/90, valia de tudo).

O engodo infantil funcionou umas três ou mais vezes, e ganhei diversas revistas. Mas também um “presente” inesperado: O editor colocou num editorial o meu nome e idade, dizendo que “eu era um jovem leitor do RJ e que desejava fazer amizades via cartas”. Não sei de onde diabos ele tirou aquilo. Eu, fazer amizades via cartas? Eu ainda era moleque rueiro, e tinha amigos e inimigos que bastavam. Mas o resultado foi que passei a receber cartas, esparsas, de todo o Brasil. Nessa brincadeira, arrumei uma namoradinha virtual (epa, na época era epistolar) em Minas Gerais, e outra no Rio Grande do Sul. Meninas de minha faixa, 11, 12 anos. Trocávamos fotos, e eram bonitas, as princesinhas.

Bem, bateu até uma saudade aqui, de quando enviávamos - e recebíamos - cartas. Que bom ter vivido aquela época!


quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Sobre quadrinhos, literatura e ciclos completados

 

Boa parte de minha adolescência foi devotada aos quadrinhos. Na época, juntava dinheirinho por meses para poder ir aos sebos e bancas de Niterói, comprar revistas usadas. Com o tempo, a melhora econômica me permitiu até a poder comprar regularmente algumas revistas novas, em banca. Mas, paralelamente, meu interesse por literatura crescia, e avançou até um ponto de inflexão, onde eu conclui que teria que optar entre quadrinhos e literatura, pois o tempo e os recursos gastos com HQs passaram a me significar de menor valia.

O tempo passou, li os clássicos e os cretinos, li de quase tudo e entendi que tudo era quase nada, pois o oceano da literatura não tem fim ou fundo. Na memória do ex-marvete, ex-dcnauta, ficaram algumas lacunas, histórias inconclusas, pois nunca pude encontrar em sebos as revistas onde elas foram contadas, e não havia internet, a que hoje me permite comprar o livro ou revista que eu quiser. E houve a troca de foco, e houve a vida, esse tumulto.

Então hoje, após o período produtivo de um dia de folga (dedicado a criá-los, a meus sequestradores, os livros), fazendo uma busca aleatória após o almoço, fui jogado num blog que publica quadrinhos antigos.

E meus olhos cansados de menino viram o de há muito cobiçado e desistido. E eu, durante o resto da tarde e noite, pude tributar ao menino, pude ler duas histórias (mais de 400 páginas no total!), na verdade a conclusão de duas sagas da Marvel dos anos 80/90: o desfecho da Guerra dos Espectros, travada pelo cavaleiro espacial Rom, uma espécie de Surfista Prateado que, como seu modelo, sacrificou a vida para salvar seu planeta. 32 anos de espera do menino a quem os livros soterraram...

Por fim, a conclusão de outra saga, Ataques Atlantes, cuja segunda parte busquei naqueles idos por anos, em vão.

E a sensação de retornar ao momentum formador, e o prazer da conclusão, o gozo do desfecho, de completar um círculo cuja circunferência havia perdido, mereceu até este texto mais ou menos poético.

O garoto - agora com cabelos brancos -, empurrando filósofos alemães e romancistas russos para o lado da cama, vibrou novamente a velha corda.

Sammis Reachers


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