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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Resenha e entrevista no site Indicar Livros


A jovem Taynara Mello, promotora cultural à frente do site Indicar Livros, fez uma resenha de meu O Pequeno Livro dos Mortos. Também batemos um papo sobre Literatura et al, que virou uma entrevista, disponível no site.

Confira no link:
 http://www.indicarlivros.com/2016/12/o-pequeno-livro-dos-mortos-escrito-por.html

domingo, 17 de agosto de 2014

Assista de graça o documentário sobre o ativista Aaron Swartz

Lembra que no início de maio nós divulgamos em primeira mão o trailer legendado de “The internet's own boy”, o documentário sobre a vida do ativista Aaron Swartz? Pois é, agora o filme já saiu e está disponível para download!
E não podia ser diferente né? Swartz foi um dos ícones na luta pelo conhecimento livre e foi preso e processado por baixar artigos acadêmicos. Aos 26 anos o norte-americano se suicidou, após ser condenado a 35 anos de prisão e a uma multa de US$ 1 bilhão. Até hoje ele é lembrado por aqueles que lutam para difundir cultura e informação de forma livre e universal.
O filme de Brian Knappenberger retrata a vida e a luta de Swartz, que  foi um dos criadores do feed de notícias RSS (aos 13 anos), fundou o Reddit e participou do processo de criação do Creative Commons.
“The internet's own boy” foi viabilizado por meio de financiamento coletivo e lançado no último dia 27. Para assistir o filme completo acesse aqui o Internet Archive
(link is external)
.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Be-a-bá sobre Creative Commons




Por que eu preciso de CC mesmo?!? 

Cenário 1:
Você é um compositor, e decide colocar suas músicas online "a titulo gratuito", na esperança de se tornar conhecido e conseguir oportunidades de trabalho.
Alguns meses se passam, e você descobre que uma agência de publicidade está usando suas músicas em comerciais na rádio e televisão, sem citar sua autoria e sem lhe pagar nenhum tostão.
Eles estão no direito deles, e você não tem a quem recorrer.
Como a Creative Commons poderia ter te ajudado?
Se você tivesse utilizado a licença Creative Commons BY, a empresa de publicidade ainda poderia usar sua obra, mas seria obrigada a lhe dar os devidos créditos:
Se você tivesse usado a licença Creative Commons BY-NC, as pessoas poderiam baixar e ouvir suas músicas online; mas você preservaria o direito de exploração comercial da obra:


Cenário 2:
Você não quer impedir o uso comercial. Quer apenas que as pessoas ouçam sua música, compartilhem, e sejam felizes.
Alguns meses se passam, e você descobre que um cantor famoso gravou um CD com suas músicas. Até aí tudo bem. Mas você também descobre que esse cantor não compartilha seus ideais: ele proíbe terminantemente que as pessoas copiem seus CDs, e sua gravadora chega a enviar notificações judiciais para pessoas que baixam suas músicas online.
Eles estão no direito deles, pois a gravação é daquele cantor; e, novamente, você não tem a quem recorrer.
Como a Creative Commons poderia ter te ajudado?
Se você tivesse utilizado a licença Creative Commons BY-SA ("share-alike"), o cantor ainda poderia gravar suas músicas -- desde que ele as disponibilizasse segundo a mesma licença, que permitiria a cópia. Ou seja: ele não poderia tirar dos outros a liberdade que recebeu de você.
***
Estes dois cenários mostram como a Creative Commons pode ser útil para os criadores que queiram liberar alguns, mas não todos os seus direitos; ou mesmo para aqueles que queiram liberar todos os direitos e garantir que ninguém possa revogá-los.
Quem usa a Creative Commons? A Wikipedia, o MIT OpenCourseWare, entre tantos outros projetos de cunho social ou educacional.
Tudo isso sem precisar pagar um único centavo, pois as licenças estão disponíveis na internet, para quem quiser usar.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Pela pirataria na internet


Por Wilton Cardoso, editor de Vida Miúda

A internet é, por natureza, uma biblioteca composta pelos conteúdos digitais (e digitalizáveis) de todas as épocas e culturas. Uma biblioteca total, gratuita, interativa, livre de controles e acessível a quem quer que tenha um chip plugado na rede. Esta pelo menos é a potência da internet, é no que ela pode facilmente se transformar num piscar de olhos. E o que impede a concretização desta potência? Basicamente interesses de mercado e do estado.

Internautas, artistas e programadores simpatizantes ou ativistas da cultura livre se debatem entre o velho e o novo mercado pop. Por um lado o velho mercado, formado por editoras, estúdios, gravadores e emissoras, deseja manter o status quo das rígidas leis de direitos autorais e de cópia (copyright) que o beneficia. Por outro lado, o novo mercado, formado por empresas telefônicas e sites de serviços e conteúdos como o Google, deseja a flexibilização das leis de direitos autorais e de copyright em nome de novos marcos legais que regularizem suas atividades baseadas na publicidade. Um artigo esclarecedor sobre o jogo do mercado na internet e a posição da cultura livre neste jogo pode ser lido aqui.

A crítica aos mercados não se trata de uma reclamação típica de esquerdistas frustrados e sonhadores. Vale ressaltar o quanto o novo mercado pop (ao que tudo indica, o que sairá vencedor na batalha dos mercados) coloca em risco a privacidade das pessoas, pois seu negócio é exatamente a armazenagem e o cruzamento de dados privados dos internautas para vendê-los à publicidade dirigida – e, eventualmente, entregá-los ao estado. Se o direito ao acesso livre e gratuito aos conteúdos é um assunto caro às “esquerdas”, o direito à privacidade, pelo que eu saiba, é muito estimado pelos liberais. O problema, portanto, é de todo mundo. Para saber mais sobre os riscos que o mercado e o estado trazem à privacidade do internauta, sugiro este artigo.

UM EXEMPLO CONCRETO

A internet trouxe problemas às leis de direitos autorais e de copyrightpois é impossível impedir ou controlar a cópia de conteúdo na rede.Isto por vários motivos: a cópia de conteúdo digital não tem qualidade inferior ao “original”, seu custo é praticamente zero, é rápido e fácil copiar qualquer conteúdo. Chaves de proteção são facilmente quebradas por hackers. Na verdade, a internet funciona, entre outras coisas, por meio da cópia de bytes – para ler esta página de blog, por exemplo, seu computador local está fazendo uma cópia temporária dela na memória. A cópia de conteúdo pertence, portanto, à natureza da internet. 

Um bom exemplo de como a internet bagunça as leis do copyright é o caso da música.

Vamos aos fatos: já é possível baixar gratuitamente qualquer música por meio de torrents ou sites de armazenamento. Todo mundo baixa/ouve (vê o clipe da) música gratuitamente e sem o menor peso na consciência de estar lesando gravadoras, autores, músicos, técnicos etc… Algumas gravadoras e artistas já entenderam que as pessoas não querem pagar por conteúdo digital/digitalizável (LPs esgotados também se tornam mp3 disponíveis para download) e disponibilizam as músicas gratuitamente para baixar. Vão ganhar o seu com shows e outros serviços, fora do ambiente da internet: veja o caso da Trama Musical.

Se for pra cobrar de alguém, a única chance é que se cobre das empresas de telecomunicações, sites de armazenamento, Youtube ou portais de torrents, que faturam com publicidade: o internauta não aceita pagar e já considera, mesmo que incosncientemente, que o acesso gratuito às músicas (a qualquer conteúdo) é um direito seu.

É altamente provável que os internautas não queiram nem mesmo se expor à publicidade para consumir música gratuitamente, pois isto significa literalmente vender sua privacidade, seus gostos, sonhos e desejos em troca de conteúdo. Negociar a privacidade é como vender a alma ao mercado por intermédio do publicitário (este padre hedonista), um negócio pior que vendê-la ao diabo. Este pelo menos remunera o mortal com riquezas terrenas, já o mercado só retribui com contas a pagar. É que ainda não há alternativas na internet à publicidade: caso surja um espaço na rede que seja gratuito, sem publicidade e livre de controles de mercado e dos governos, certamente os internautas correriam pra lá sem pestanejar.

INTERNET: TERRITÓRIO EM DISPUTA 

A internet se trata, portanto, de uma mídia técnica na qual se digladiam várias potências, várias vontades de poder, vários interesses conflituosos: 

1. Os do velho mercado pop, que gostaria que a rede nunca tivesse nascido e que será, provavelmente, derrotado;

2. Os do estado, sempre acometido de paranóia e desejo de controle, ávido por saber os passos de cada cidadão seu. Neste aspecto, a internet é uma ferramenta muito poderosa, pois ela grava todos os eventos da rede e o cálculo computacional proporciona um cruzamento de dados que torna o universo de controle do filme 1984uma brincadeira de criança;

3. Os do novo mercado pop, ávido pelos bancos de dados da alma de cada pessoa a fim de maximizar suas receitas publicitárias;

4. Os de artistas, programadores, hackers e internautas adeptos da cultura livre em geral, que veem na internet um espaço potencialmente livre dos controles do mercado e do estado, no qual a criatividade desenvolve toda a sua potência e a privacidade e o acesso gratuito ao conhecimento (aos conteúdos) é um direito.

É possível que outras forças surjam na internet, que algumas se extingam ou se transformem e outras permaneçam. Uma coisa é certa: a potência da rede como biblioteca total e gratuita, como espaço da cultura livre, faz parte de sua natureza maquínica e vai de encontro com o desejo das pessoas pelo acesso livre e gratuito ao conhecimento. A adesão praticamente irrestrita da população internauta à pirataria digital confirma que as pessoas já escolheram o direito à informação em detrimento ao direito de propriedade intelectual. Tacitamente as pessoas dizem:

“vamos copiar todos os conteúdos independente de leis ou vontades autorais, estatais ou mercadológicas em contrário, contra o autor, os produtores, distribuidores e o estado. Acessar, copiar e (usu)fruir gratuitamente todo e qualquer conteúdo digital ou digitalizável no ambiente da internet é legítimo, é um direito nosso. “

Por que não explicitar tal desejo coletivo numa declaração de princípios, trazendo-a para a consciência e exigindo leis que cumpram tais princípios? 

CINCO PRINCÍPIOS DA CULTURA LIVRE NA INTERNET 

Qualquer lei que atenda aos anseios por uma cultura livre na internet teria que se basear, pelo menos, nos seguintes princípios: 

1. É direito do internauta que todo conteúdo digital/digitalizável seja disponibilizado gratuitamente na internet;

2. Todo conteúdo disponibilizado na internet poderá ser copiado de forma ilimitada;

3. É vedada a disponibilização de conteúdo com qualquer tipo de proteção contra cópias ou limitações ao uso gratuito (No máximo, poderá haver um “pague se quiser” ou “pague a mim, mas pode repassar gratuitamente”);

4. O conteúdo gratuito não pode sofrer restrições de acesso/download por conta de contratos publicitários. Obs. 1: Por outras palavras, todos os conteúdos podem ser remixados para a retirada de publicidade ou disponibilizados em ambientes livres de publicidade. Obs. 2: Este item é controverso, mas não acho que hackers, piratas e praticantes da cultura livre queiram abrir mão dele, pois é ele que dá direito ao internauta de escapar da nova indústria cultural que vive de publicidade, como o Google;

5. Se houver exploração comercial de um conteúdo na internet, o seu criador (ou criadores) terá direito de ser remunerado. Obs.1: Por outro lado, o autor não tem direito à remuneração no caso do uso não comercial da obra. Obs. 2: Outro ponto polêmico: o autor poderia criar obstáculos à fruição desinteressada de seu trabalho no ambiente da internet? O direito ao conhecimento não se sobreporia ao direito de propriedade do autor sobre sua obra, pelo menos no espaço da biblioteca total que é a internet?

Isto valeria para vídeo, imagem, som, escrita, games, programas, etc. Tudo que seja digital…

Tenho certeza que tais princípios são moralmente concretos e tecnicamente factíveis de se atingir. Moralmente, eles já estão entranhados firmemente no espírito das pessoas e são, portanto, legítimos: as pessoas já escolheram privilegiar, em detrimento dos outros direitos, o direito irrestrito ao conhecimento e à informação.Tecnicamente não há o que comentar, a internet é, por natureza, uma biblioteca total de conteúdos digitais/digitalizáveis, gratuita e disponível a todos que tenham um chip conectado na rede: a única coisa que falta é fazer upload das obras ainda fora da rede e catalogar tudo com precisão, para evitar conteúdos em duplicidade e dificuldades na busca.

Não tenho ilusões que o mercado e o estado permitirão a aprovação de leis que atendam a estes princípios que, como disse, são legítimos e deveriam ser alçados à condição de direitos da população (global). Uma lei assim só sairá do papel quando a pirataria for tão maciça, disseminada e incontrolável que o mercado e o estado não tenham nada mais a perder. E ela vai atingir tal estágio de virulência, estejam certos disso: se existe uma praga determinada, tenaz e invencível neste mundo do Deus Mercado, é a pirataria digital.

É ela, a pirataria digital, esta guerra suja empreendida pelos vagabundos da rede, que irá efetuar a potência máxima da internet, tornando-a efetivamente uma biblioteca total.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Beachionary – Mapas e descrições das praias no mundo


beachionary.com é um projeto com um grande objetivo: chegar a ser o maior diretório de praias no mundo todo.
Podemos ler detalhes sobre a estrutura existente em cada praia, ver opiniões, desfrutar de fotos.. tudo com a opção de dar nossas sugestões para ampliar o banco de dados do sistema.
Ainda que no momento não tem muitos dados incluídos, a facilidade de uso e o design limpo e intuitivo podem fazer do beachionary todo um sucesso na sua categoria.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Lançado RPG on-line com aventuras bíblicas


A Bíblia também virou entretenimento lúdico. Uma produtora de jogos alemã, chamada FIAA GMBH, vem desenvolvendo um RPG on-line baseado nos textos e cenários bíblicos. O novo game, batizado The Bible Online, é inspirado no livro de Gênesis. 

O primeiro de uma série de capítulos da aventura foi lançado como piloto, em setembro passado, sob o títuloHeroes (Heróis). Nessa fase, os jogadores deverão cumprir as missões de Abraão em busca da Terra Prometida (Canaã). Para isso, terão de construir e manter suas tribos nômades, prover os recursos e alimentos, além de entrar em batalha com outros povos tribais até chegar ao destino traçado. 

Para iniciar o jogo, também disponível em inglês, basta fazer um cadastro gratuito no site www.bibleonlinegame.com

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O Homem Mais Perigoso do Ciberespaço

Jacob Appelbaum – o hacker norte-americano por trás do WikiLeaks – luta contra regimes opressores no mundo inteiro. Agora, está fugindo do governo de seu próprio país 


Por Nathaniel Rich

Foto: Peter Yang
Jacob Appelbaum no coletivo de hackers de Noisebridge, que ele fundou antes de o FBI começar a segui-lo
Jacob Appelbaum no coletivo de hackers de Noisebridge, que ele fundou antes de o FBI começar a segui-lo
 
 



 
Em 29 de julho, ao voltar de uma viagem para a Europa, Jacob Appelbaum, um rapaz magro e despretensioso de 27 anos, usando uma camiseta preta com o slogan "be the trouble you want to see in the world" ["seja o problema que você quer ver no mundo"], foi detido na alfândega por um grupo de agentes federais. Em uma sala de interrogações no aeroporto Newark Liberty, em Newark, foi questionado sobre seu papel no WikiLeaks, o grupo denunciador que expôs os relatórios de inteligência mais bem guardados do governo norte-americano sobre a guerra no Afeganistão - e que, a cada dia, libera mais documentos na rede. Os agentes fizeram cópias de seus recibos, apreenderam três de seus celulares - ele tem mais de uma dúzia - e confiscaram seu computador. Eles o informaram que estava sob vigilância do governo, questionaram sobre o calhamaço de 91.000 documentos militares confidenciais que o WikiLeaks havia divulgado na semana anterior, um vazamento que Daniel Ellsberg, ativista da era do Vietnã, chamou de "a maior divulgação não autorizada desde os Papéis do Pentágono". Exigiram saber onde Julian Assange, fundador do WikiLeaks, estava se escondendo, pressionaram para saber sua opinião sobre as guerras no Afeganistão e no Iraque. Appelbaum se recusou a responder. Depois de três horas, finalmente foi liberado.

Appelbaum é o único membro norte-americano conhecido do WikiLeaks e o líder evangelista do programa de software que ajudou a possibilitar o vazamento. De uma certa maneira, é uma versão bizarra de Mark Zuckerberg: se a ambição do Facebook é "tornar o mundo mais aberto e conectado", Appelbaum vem dedicando a vida a lutar pelo anonimato e pela privacidade. Um garoto de rua anarquista criado por um pai viciado em heroína, abandonou a escola, aprendeu sozinho as minúcias do código e desenvolveu uma paranoia saudável ao longo do caminho. "Não quero viver em um mundo onde todos são observados o tempo inteiro", diz. "Quero ficar sozinho o máximo possível. Não quero que um rastro de dados conte uma história que não é verdadeira." Transferimos nossas informações mais íntimas e pessoais - contas bancárias, e-mails, fotos, conversas por telefone, históricos médicos - para redes digitais, confiando que está tudo trancado em alguma cripta secreta, mas Appelbaum sabe que essas informações não são seguras. Ele sabe porque consegue encontrá-las.


Demonstra isso quando o encontro, no segundo trimestre, duas semanas antes de o WikiLeaks virar manchete no mundo inteiro ao divulgar um vídeo mostrando soldados dos EUA matando civis no Iraque. Visito seu duplex cavernoso em São Francisco. Os únicos móveis são um sofá preto, uma poltrona preta e uma mesa baixa preta: uma máscara de Guy Fawkes está pendurada em uma parede da cozinha. O chão está coberto de sacos Ziploc com maços de dinheiro estrangeiro: pesos argentinos, francos suíços, leis romenos, dinars iraquianos antigos com o rosto de Saddam Hussein. O saco marcado "Zimbábue" contém uma única nota de $50 bilhões. Fotos, a maioria delas tirada por Appelbaum, cobrem a parede sobre sua mesa: garotas punk em poses sedutoras e um retrato do falecido pai, um ator, vestido como um personagem.


Appelbaum me conta sobre um de seus feitos menos impressionantes em hacking, um programa de software que inventou, chamado Blockfinder. Diz que não foi especialmente difícil de gravar. Na verdade, a palavra que usa para descrever a complexidade do programa é "trivial", um adjetivo cada vez menos usado que ele e seus amigos hackers empregam, como em "Disparar o firewall chinês é trivial" ou "É trivial acessar qualquer conta do Yahoo utilizando ataques de solicitação de senha". Tudo o que o Blockfinder faz é permitir que você identifique, contate e possivelmente invada cada rede de computador no mundo.


Ele me leva até um de seus oito computadores e aperta várias teclas, ativando o Blockfinder. Em menos de 30 segundos, o programa lista todas as alocações de endereço de protocolo internet no mundo - provavelmente lhe dando acesso a cada computador conectado à internet. Appelbaum decide se concentrar em Burma, um pequeno país com um dos regimes mais repressores do mundo. Digita o código de país de duas letras de Burma: "mm", para Mianmar. O Blockfinder instantaneamente começa a cuspir todo endereço IP em Burma.


O Blockfinder informa a Appelbaum que há 12.284 endereços IP alocados em Burma, todos eles distribuídos por provedores de internet controlados pelo governo. Em Burma, como em muitos países fora dos Estados Unidos, o acesso à internet passa pelo Estado. Appelbaum pressiona algumas teclas e tenta se conectar a cada sistema de computação em Burma. Apenas 118 respondem. "Isso significa que praticamente todas as redes em Burma estão bloqueadas para o mundo externo", afirma. "Exceto 118 delas." Esses 118 sistemas de computação sem filtro só poderiam pertencer a organizações e pessoas a quem o governo conceda acesso ilimitado à internet: políticos de confiança, os mais altos escalões de empresas estatais, agências de inteligência.


"Agora, esta", diz Appelbaum, "é a parte boa".


Ele seleciona uma das 118 redes aleatoriamente e tenta entrar nela. Uma janela abre pedindo uma senha. Appelbaum joga a cabeça para trás e dá uma risada alta - uma gargalhada alegre, quase maníaca. A rede roda em um roteador Cisco Systems e está cheia de vulnerabilidades. Invadi-la será trivial.


É impossível saber o que está do outro lado da senha. A conta de e-mail pessoal do primeiro-ministro? O servidor de rede da polícia secreta? O comando central da junta militar? Seja lá o que for, poderá estar logo na ponta dos dedos de Appelbaum.


Ele fará isso?


"Eu poderia", afirma Appelbaum com um sorriso. "Mas seria ilegal, não?"


Ninguém fez mais para espalhar o evangelho do anonimato do que Appelbaum, cujo emprego normal é ser o rosto público do Tor Project, um grupo que promove a privacidade na internet através de um programa de software inventado há 15 anos pelo Laboratório de Pesquisa Naval dos EUA. Ele viaja o mundo ensinando a espiões, dissidentes políticos e ativistas de direitos humanos como usar o Tor para evitar que alguns dos regimes mais repressores do mundo rastreiem seus movimentos online. Acredita ser um absolutista da liberdade de expressão. "A única maneira de progredirmos na raça humana é através do diálogo", afirma. "Todos deviam honrar a carta de direitos humanos da ONU que diz que o acesso à liberdade de expressão é um direito universal. A comunicação anônima é uma boa forma de isso acontecer. O Tor é só uma implementação que ajuda a disseminar a ideia."


Só no ano passado, foram realizados 36 milhões de downloads do Tor. Um suspeito membro de alto escalão do exército iraniano utilizou o Tor para vazar informações sobre o aparato de censura de Teerã. Um blogger tunisiano exilado na Holanda usa o Tor para burlar a censura estatal. Durante as Olimpíadas de Pequim, protestantes chineses usaram o Tor para esconder sua identidade do governo.


O Tor Project recebeu financiamento não apenas de grandes corporações como Google e grupos de ativistas como o Human Rights Watch, mas também do exército norte-americano, que vê no Tor uma ferramenta importante para o trabalho de inteligência. No entanto, o Pentágono não ficou especialmente feliz quando o Tor foi usado para revelar seus segredos. O WikiLeaks roda no Tor, o que ajuda a preservar o anonimato de seus informantes. Embora Appelbaum seja funcionário do Tor, é voluntário do WikiLeaks e trabalha em conjunto com Julian Assange, fundador do grupo. "Não dá para subestimar a importância do Tor para o WikiLeaks", afirma Assange. "Jacob tem sido um promotor incansável nos bastidores de nossa causa."


Em julho, pouco antes de o WikiLeaks divulgar os documentos confidenciais da guerra do Afeganistão, Assange deveria fazer a palestra principal na Hackers on Planet Earth (HOPE), uma grande conferência realizada em um hotel de Nova York. Agentes federais foram vistos na plateia, presumidamente esperando Assange aparecer. Só que quando as luzes se apagaram no auditório, não foi Assange quem subiu ao palco, mas sim Appelbaum.


"Olá a todos os meus amigos e fãs em vigilância nacional e internacional", começou Appelbaum. "Estou aqui hoje porque acredito que podemos fazer um mundo melhor. Infelizmente o Julian não pôde vir, porque não vivemos nesse mundo melhor agora, ainda não chegamos lá. Queria fazer uma pequena declaração aos agentes federais no fundo da sala e para aqueles aqui na frente, e serei muito claro: eu tenho comigo, no bolso, algum dinheiro, a Declaração dos Direitos e uma carteira de motorista, e é só. Não tenho um sistema de computação, nem telefone, chaves, nenhum acesso a coisa alguma. Não há motivo absolutamente algum para me prender ou me incomodar, e caso vocês se perguntem, sou um norte-americano, nascido e criado aqui, que está descontente com como as coisas estão." Fez uma pausa, interrompida por aplausos ensurdecedores. "Citando Tron" acrescentou, "'Luto pelo usuário'".


Nos 75 minutos seguintes, Appelbaum falou sobre o WikiLeaks, pedindo a hackers na plateia para se juntarem à causa. Depois, as luzes se apagaram e Appelbaum, com o capuz cobrindo o rosto, pareceu ser escoltado para fora do auditório por um grupo de voluntários. Só que, no lobby, o capuz foi retirado, revelando um rapaz que não era Appelbaum. O verdadeiro Appelbaum havia fugido pelos bastidores e saído do hotel por uma porta de segurança. Duas horas depois, estava em um voo para Berlim.


Quando Appelbaum retornou aos EUA, 12 dias depois, e foi detido em Newark, jornais noticiavam que os documentos de guerra identificavam dezenas de informantes afegãos e possíveis desertores que estavam cooperando com as tropas norte-americanas (quando perguntado por que o WikiLeaks não revisou os documentos antes de divulgá-los, um porta-voz da organização culpou o grande volume de informações: "Não consigo imaginar alguém revisando 76.000 documentos"). Marc Thiessen, ex-redator de discursos para o ex-presidente George W. Bush, chamou o grupo de "uma empreitada criminosa" e implorou para o exército norte-americano caçá-lo como a Al Qaeda. O congressista republicano Mike Rogers, de Michigan, disse que o soldado que supostamente forneceu os documentos ao WikiLeaks deveria ser executado.


Dois dias depois, após palestrar em uma conferência de hackers em Las Vegas, Appelbaum foi abordado por alguns agentes do FBI disfarçados. "Queremos conversar por uns minutinhos", afirmou um deles. "Achamos que você pudesse não querer, mas às vezes é bom ter uma conversa para esclarecer tudo."


Appelbaum está fora do radar desde então - evitando aeroportos, amigos, estranhos e locais inseguros, viajando de carro pelo país. Passou os últimos cinco anos de sua vida trabalhando para proteger ativistas no mundo inteiro de governos repressores. Agora, está fugindo do governo de seu próprio país.


A obsessão de Appelbaum pela privacidade pode ser explicada pelo fato de que, na infância, ele não teve nenhuma. "Venho de uma família de lunáticos", conta. Seus pais, que nunca se casaram, iniciaram uma batalha de custódia antes mesmo de ele nascer e que durou dez anos. Ele passou os primeiros cinco anos de sua vida com a mãe, que diz ser uma esquizofrênica paranoide. Ela insistia que Jake havia sido molestado de alguma forma pelo pai quando ainda estava no útero. A tia conseguiu a sua guarda quando ele tinha seis anos; dois anos depois, ela o deixou em um lar infantil em Sonoma County. Foi ali, aos oito anos, que ele invadiu sue primeiro sistema de segurança. Um garoto mais velho lhe ensinou como conseguir o código PIN de um teclado de segurança: você o limpa e, da próxima vez em que um segurança digitar o código, sopra pó de giz no teclado e consegue as digitais. Uma noite, quando todos estavam dormindo, os meninos desabilitaram o sistema e fugiram do lugar. Não fizeram nada de especial - só andaram por uma quadra de softball do outro lado da rua por meia hora - mas Appelbaum se lembra nitidamente da noite: "Foi muito bom, por um momento, ser completamente livre".


Quando tinha 10 anos, o tribunal lhe mandou ir morar com o pai, de quem tinha se mantido próximo, mas logo o pai começou a usar heroína e Appelbaum passou a adolescência viajando com ele pelo norte da Califórnia de ônibus, morando em casas de grupos cristãos e abrigos para sem-teto. Ocasionalmente, seu pai alugava uma casa e a transformava em um esconderijo de heroína, sublocando cada quarto para amigos viciados. Todas as colheres na cozinha tinham marcas de queimadura. Uma manhã, quando Appelbaum foi escovar os dentes, encontrou uma mulher tendo convulsões na banheira com uma seringa pendurada no braço. Em uma tarde, ao voltar da escola, encontrou um bilhete de suicídio assinado pelo pai (Appelbaum o salvou de uma overdose naquele dia, mas o pai morreu anos depois em circunstâncias misteriosas). A situação chegou a um ponto de ele não conseguir nem sentar no sofá com medo de ser furado por uma agulha.


Um estranho na própria casa, Appelbaum adotou a cultura outsider. Assombrava o shopping de Santa Rosa, pedindo trocados, vestia-se de drag queen e com camisetas escritas "i love satan", tingia o cabelo de roxo, provocava brigas com cristãos fundamentalistas e dava amassos em meninos na frente da escola (Appelbaum se identifica como "viado", embora mencione uma dezena de namoradas em vários países). Quando o pai de um amigo estimulou seu interesse em computadores e lhe ensinou ferramentas básicas de programação, algo se abriu para Appelbaum. Programar e hackear lhe permitiram "sentir que o mundo não era um lugar perdido. A internet é o único motivo para eu estar vivo hoje".


Aos 20 anos, ele se mudou para Oakland e eventualmente começou a fornecer segurança tecnológica para a Rainforest Action Network e o Greenpeace. Em 2005, poucos meses após a morte do pai, viajou sozinho para o Iraque - atravessando a fronteira a pé - e configurou conexões de internet via satélite no Curdistão. Após o furacão Katrina, dirigiu até Nova Orleans, utilizando documentos falsos de imprensa para passar pela Guarda Nacional, e configurou hot spots sem fio em um dos bairros mais pobres da cidade, para permitir que os refugiados se inscrevessem para casas na FEMA [
agência norte-americana de gerenciamento de emergências].

Ao voltar para casa, começou a experimentar com os cartões de tarifa utilizados pelo sistema de trânsito Bay Area Rapid Transit e descobriu que era possível fazer um cartão ter tarifa ilimitada. Em vez de tirar proveito, alertou oficiais da BART sobre suas vulnerabilidades. Entretanto, durante a conversa, Appelbaum descobriu que a BART armazenava permanentemente as informações codificadas em cada cartão de trânsito - número de cartão de crédito utilizado, onde e quando foi passado - em um banco de dados privado. Ficou indignado. "Guardar essas informações é uma irresponsabilidade", afirma. "Pago impostos e não tive escolha sobre como eles armazenam esses dados. Não é uma decisão democrática, e sim uma diretriz burocrática."


Por causa de suas preocupações com a privacidade, é fácil ver por que Appelbaum foi atraído pelo Tor Project. Ele se voluntariou como programador, mas logo ficou claro de que sua maior habilidade é o proselitismo: ele projeta a mistura perfeita de entusiasmo e medo. "Jake pode fazer uma defesa melhor do que a maioria", conta Roger Dingledine, um dos fundadores do Tor. "Ele diz: 'Se alguém estivesse te procurando, é isso o que faria', e mostra para a pessoa. Ela fica apavorada."


A internet, uma vez considerada uma força implacável de liberalização e democratização, virou a ferramenta essencial para vigilância e repressão. "Não dá para retratar informações depois que elas são divulgadas", diz Appelbaum, "e são necessárias pouquíssimas informações para arruinar a vida de alguém". Os perigos da web podem ser abstratos para a maioria dos norte-americanos, mas para uma boa parte do mundo, visitar websites restritos ou dizer algo polêmico em um e-mail pode levar a prisão, tortura ou morte.


No ano passado, cerca de 60 governos proibiram seus cidadãos de acessar livremente a internet. Há rumores de que a China tenha uma equipe de mais de 30 mil censores que excluíram centenas de milhões de websites e bloquearam uma gama excêntrica de termos - não apenas "Falun Gong" [
grupo que partica atividades físicas e de metitação em busca do equilíbrio - e que é contra o Partido Comunista da China], "opressão" e "Tian'anmen" [referência à Praça da Paz Celestial], mas também "temperatura", "quente", "estudo" e "cenoura".

Em uma tarde ensolarada em São Francisco, antes de o WikiLeaks dominar as manchetes, Appelbaum está vestindo seu uniforme habitual de hacker: botas pretas, meias pretas, calças pretas, óculos pretos de aro grosso e uma camiseta com slogan (a de hoje é "fuck politics - i just want to burn shit down" [
"foda-se a política, quero queimar tudo"]). Embora seu trabalho o faça ficar sentado na maior parte do dia, ele raramente fica quieto. Frequentemente pula e executa uma série de alongamentos acrobáticos rápidos. Levanta a perna contra a parede, estala o pescoço violentamente, estica o braço sobre o peito e, da mesma maneira repentina, senta novamente.

Explica que temos de tomar um táxi para pegarmos sua correspondência. Como ao ser um vegano rígido ou um mórmon, uma vida de anonimato total exige muito sacrifício. Você não pode, por exemplo, receber correspondências em casa, nem listar seu nome na lista do edifício. Todas as cartas para Appelbaum são enviadas para uma caixa postal privada, onde um balconista as recebe. Isso permite que Appelbaum - e os dissidentes e hackers com os quais lida - use o sistema postal anonimamente. A Pessoa 1 pode enviar um pacote para Appelbaum, que pode reembalá-lo e encaminhá-lo à Pessoa 2. Assim, a Pessoa 1 e a Pessoa 2 nunca têm contato direto - nem conhecem a identidade uma da outra.


O Tor funciona de maneira semelhante. Quando você usa a internet, seu computador faz uma conexão com o servidor web que deseja contatar. O servidor reconhece seu computador, anota seu endereço IP e envia a página solicitada. No entanto, não é difícil para uma agência governamental ou um hacker mal-intencionado observar toda essa transação: eles conseguem monitorar o servidor e ver quem está contatando, ou monitorar seu computador e ver quem você está tentando contatar. O Tor evita essa espionagem online ao introduzir intermediários entre seu computador e o sistema que está tentando alcançar. Digamos, por exemplo, que você mora em São Francisco e quer enviar um e-mail para um amigo, um militar de alto escalão da Guarda Revolucionária Iraniana. Se enviar um e-mail diretamente para o amigo, a rede da Guarda poderá facilmente ver o endereço IP do seu computador e descobrir seu nome e informações pessoais. Mas se você instalou o Tor, seu e-mail é roteado para um de 2.000 relays - computadores que rodam Tor - espalhados pelo mundo. Então, sua mensagem vai para um relay em Paris, que o encaminha para um segundo relay em Tóquio, que o envia para um terceiro relay em Amsterdã, de onde é finalmente transmitido para seu amigo em Teerã. A Guarda Iraniana só pode ver que um e-mail foi enviado de Amsterdam. Qualquer pessoa que espia seu computador só veria que você enviou um e-mail para alguém em Paris. Não há conexão direta entre São Francisco e Teerã. O conteúdo de seu e-mail não está oculto - para isso, é necessária tecnologia de criptografia - mas sua localidade está segura.


Appelbaum passa uma boa parte do ano comandando sessões de treinamento do Tor em todo o mundo, frequentemente realizadas em segredo para proteger ativistas sob risco de morte. Alguns, como os defensores de prostitutas do Sudeste Asiático que ensinou, tinham conhecimento limitado em computadores. Outros, como um grupo de estudantes que Appelbaum treinou em um seminário no Qatar, são altamente sofisticados: um trabalho na rede de censura do governo, outro trabalha para uma petroleira nacional, e um terceiro criou um painel de mensagens da Al-Jazeera que permite que os cidadãos façam comentários anonimamente. Na Mauritânia, o regime militar do país foi forçado a abandonar seus esforços para censurar a internet depois que um dissidente, Nasser Weddady, escreveu um guia para o Tor em árabe e o distribuiu a grupos de oposição. "O Tor fez com que os esforços do governo fossem completamente fúteis", afirma Weddady. "Eles simplesmente não tinham o know-how para combater isso."


Ao distribuir o Tor, Appelbaum não diferencia os mocinhos dos vilões. "Não sei a diferença entre uma teocracia e outra no Irã", diz. "O importante para mim é que as pessoas tenham comunicação livre de vigilância. O Tor não deveria ser considerado subversivo, mas sim uma necessidade. Qualquer pessoa em qualquer lugar deveria poder falar, ler e formar suas próprias crenças sem ser monitorada. As coisas tinham de chegar a um ponto no qual o Tor não é uma ameaça, e sim utilizado por todos os níveis da sociedade. Quando isso acontecer, venceremos."


Como o rosto público de uma organização dedicada ao anonimato, Appelbaum se vê em uma posição instável. É do interesse do Tor obter o máximo possível de publicidade - quanto mais pessoas permitirem que seus computadores sirvam de relay, melhor. Mas ele também vive em um estado de vigilância constante, preocupado que seus inimigos - hackers invejosos, regimes estrangeiros repressores, o próprio governo - estejam tentando atacá-lo. Sua concessão é utilizar um sistema de duas camadas. Ele mantém uma conta no Twitter e publicou milhares de fotos no Flickr, mas toma medidas amplas para evitar o aparecimento de qualquer informação privada - números de telefone, endereços de e-mail, fotos de amigos.


"Há graus de privacidade", afirma. "O normal hoje em dia é denunciar conspicuamente outra pessoa de uma maneira que nem a Stasi poderia imaginar. Não faço isso. Não digito meu endereço residencial em computador algum. Pago o aluguel em dinheiro. Para cada conta online, gero senhas aleatórias e crio novos endereços de e-mail. Nunca dou cheques, porque eles são inseguros - seus números de encaminhamento e de conta são o que basta para esvaziar sua conta bancária. Não entendo por que as pessoas ainda usam cheques. É uma loucura."


Quando viaja, se o laptop fica fora de vista por qualquer período de tempo, ele o destrói e joga fora; a preocupação é que alguém possa tê-lo infectado. Frequentemente é levado a medidas extremas para fazer cópias do Tor passarem pela alfândega em países estrangeiros. "Estudei como as 'mulas' que transportam drogas fazem", conta. "Quero derrotá-los no próprio jogo." Ele me mostra uma moeda de cinco centavos e a joga no chão do apartamento. Ela se abre e, dentro, há um minúsculo cartão de memória Micro SD de oito gigabytes, que contém uma cópia do Tor.


Embora o Tor tenha crescido rapidamente, a vigilância do governo na internet se expandiu com rapidez ainda maior. "É inacreditável quanto poder uma pessoa tem se recebe acesso irrestrito aos bancos de dados do Google", afirma Applebaum.


Como rapidamente observa, os regimes opressores estrangeiros são apenas parte do problema. Nos últimos anos, o governo dos EUA está silenciosamente acumulando bibliotecas de dados sobre os próprios cidadãos. A polícia pode intimar seu provedor de internet a dar seu nome, endereço e registros telefônicos. Com um mandado de Justiça, pode solicitar o endereço de e-mail de qualquer pessoa com quem você se comunique e os websites que visita. Seu provedor de telefonia móvel pode rastrear sua localização o tempo todo. "Não é só o Estado", diz Appelbaum. "Se quisesse, o Google poderia acabar com qualquer país. O Google tem sujeira suficiente para destruir qualquer casamento nos Estados Unidos."


Mas o Google não fornece fundos para o Tor?


"Amo o Google", afirma. "E amo as pessoas lá, Sergey Brin e Larry Page são legais, mas estou apavorado com a próxima geração que assumir. Uma ditadura benevolente ainda é uma ditadura. Em algum momento, as pessoas perceberão que o Google tem tudo sobre todos, e principalmente pode ver as perguntas sendo feitas, em tempo real. Ele pode literalmente ler sua mente."


Agora, com a controvérsia do WikiLeaks, Appelbaum desapareceu, escondendo seu paradeiro até dos melhores amigos. Ele suspeita que seus telefones estão grampeados e que está sendo seguido. Uma semana depois de ser interrogado em Newark, ele me liga de um lugar anônimo, depois de meu pedido de contato ter sido passado a ele por uma série de intermediários. Percebe a ironia da situação.


"Usarei o Tor muito mais do que antes - e já usei muito", diz, com a voz incaracteristicamente sóbria. "Virei uma das pessoas que passei os últimos anos da minha vida protegendo. É melhor eu aceitar meu próprio conselho."


Tradução: Lígia Fonseca

sábado, 27 de novembro de 2010

Entrevista com Alexandre Oliva sobre copyleft, cibercrimes, cultura livre e software livre

por Manuela Andreoni 
1. A Free Software Foundation alerta para o surgimento de diversas licenças em seu site, aconselhando as pessoas a saberem se existe alguma licença que supre suas necessidades antes de criar uma. O que você pensa da diversidade de licenças que existem hoje disponíveis? Desnorteadoras ou inspiradoras? Por quê?
Excesso de licenças cria um problema prático, particularmente para o software. Cada licença oferece um conjunto de permissões, sujeitas a algumas condições. Quando se cria uma obra derivada, como por exemplo um software que utiliza trechos de outros programas, modificando-os ou não, é necessário cumprir com as condições de todas elas. É comum que as condições entrem em conflito, de forma que, ainda que os autores dos programas utilizados não se oponham em princípio à modificação e à distribuição das obras derivadas, a combinação das permissões condicionadas resulta insuficiente para que isso seja permitido.
Infelizmente, as licenças de Software Livre disponíveis hoje não foram criadas com o cuidado para que fossem compatíveis entre si. De fato, lamentavelmente houve um tempo em que alguns grupos introduziram incompatibilidades intencionais, a fim de dividir a comunidade e minar a força da licença mais popular, que tem o copyleft mais forte: a GNU GPL.
2. Há diferença conceitual entre copyleft para softwares e obras artísticas?
Copyleft é um conceito que surgiu no software: é usar o poder de exclusão do direito autoral não para cercear as liberdades dos outros com relação a uma obra, mas sim para preservar essas liberdades, não concedendo permissão para distribuição de formas que cerceariam as liberdades.
O mesmo conceito pode ser utilizado para outros tipos de obras, mas pode variar o conjunto de liberdades consideradas essenciais. Para obras com finalidades práticas, que eu chamo de obras funcionais, como software, manuais, receitas, livros texto, as 4 liberdades do Software Livre se aplicam perfeitamente: a de acionar a finalidade prática da obra para qualquer propósito, a de estudar como ela desempenha essa finalidade prática e adaptá-la para que o faça de forma diferente, a de copiar, publicar e distribuir cópias da obra, e a de melhorar a obra, publicar e distribuir as melhorias. Há justificativas éticas, morais e sociais para cada uma dessas liberdades, assim como para o conjunto delas, no que diz respeito a software e outras classes de obras com finalidades práticas.
As mesmas ideias não se aplicam a obras destinadas a entretenimento. Estas não geram o mesmo tipo de dependência que as obras com finalidades práticas podem gerar, portanto nem todas as justificativas éticas, morais e sociais se aplicam. De fato, há quem defenda que as únicas liberdades essenciais para obras artísticas para entretenimento sejam as de apreciar e de compartilhar, isto é, distribuir sem fins de lucro. Já outros propõem uma analogia mais completa com as 4 liberdades do Software Livre, mas não se limitando a obras artísticas para entretenimento, estendendo a proposta a todas as obras culturais.
Dado esse embasamento, um copyleft para outros tipos de obras, isto é, um mecanismo de licenciamento que vise a não apenas respeitar, mas também a defender as liberdades essenciais, pode variar de um tipo de obra a outro, de acordo com a variação nas liberdades consideradas essenciais para aquele tipo de obra, mas conceitualmente é a aplicação da mesma técnica jurídica.
3. O que você pensa do Creative Commons? Qual é a sua importância?
Tenho opiniões divergentes a respeito. De um lado, é bom levantar questões de liberdades e respeito ao próximo para um público mais diverso que usuários de software, estendendo a discussão para outros tipos de obras culturais.
De outro, faltou ao Creative Commons por muito tempo uma fundação ideológica moral, ética e social para justificar as opções de licenciamento, não só do ponto de vista do conjunto de licenças disponíveis, como também do ponto de vista de orientação aos titulares a respeito de como escolher o licenciamento adequado para respeitar as liberdades essenciais em cada tipo de obra. Assim, limitava-se a oferecer um conjunto de opções de flexibilização das restrições estabelecidas pelo direito autoral.
Hoje, com a evolução do embasamento ideológico dos movimentos de Cultura Livre, Creative Commons descontinuou algumas das formas de licenciamento recomendadas anteriormente. Todas as licenças hoje recomendadas respeitam, no mínimo, as liberdades de apreciar e de compartilhar. Isso pode ser suficiente para alguns tipos de obras, mas certamente não para outros, como software. De fato, para software, o CC recomenda licenças que respeitam as 4 liberdades essenciais para software.
Falta ainda (e não só da parte do CC) chegar a algum consenso sobre as liberdades essenciais, para daí criar guias que as levem em conta para orientar autores no licenciamento ético de suas obras.
Chama-me a atenção uma distinção importante entre CC e SL, Software Livre. Embora nos dois haja toda uma gama de licenças disponíveis, no caso do SL todas elas têm como característica mínima respeitar as liberdades essenciais, enquanto no caso do CC, há licenças que não respeitam liberdades que muitos consideram essenciais para determinados tipos de obras, sem que CC deixe de recomendá-las. Isso é um ponto fraco.
Apesar de todos esses pontos, considero CC extremamente positivo, por levar a discussão aonde ela não estava. Meu maior receio era de que se perdesse a distinção entre tipos de obras, e que se acabasse por recomendar indiscriminadamente um licenciamento insuficiente livre para os tipos de obras com que mais me preocupo. Após algum realinhamento ideológico do CC internacional, esse receio já não mais existe, e fico feliz de recomendar o uso de licenças CC adequados a cada tipo de obra.
Mas ainda alerto contra a prática de dizer “sob licença CC”. Há no projeto tantas licenças, com características tão diferentes entre si, e praticamente sem nenhum ponto em comum, que “sob licença CC” não carrega o significado que se poderia esperar do termo “Commons”.
4. Quando discutimos copyleft, sempre caimos na questão “tudo bem, temos que aumentar o acesso aos bens imateriais, mas como fica o bolso dos autores?” Em relação ao software livre, diz-se que o dinheiro pode vir do suporte e de consultorias. De onde viria a renda dos artistas?
De onde sempre veio: shows, palestras, trabalhos desenvolvidos sob contrato, mecenato, venda direta ao consumidor ou a conjuntos de consumidores, e serviços associados às obras. Não é diferente do software.
O artista tem algo que ninguém mais tem antes da publicação de uma obra: a própria obra. Pode se recusar a entregá-la se não lhe pagarem o preço que pede. Claro que pode acabar não vendendo a obra, se ninguém estiver disposto a pagar o preço estabelecido, ou a formar um grupo suficiente para reunir o preço pedido. Se a sociedade como um todo não considera que a obra valha o que pede o autor, por que deveríamos oferecer-lhe uma maneira de conseguir o que quer?
Há que se lembrar que direito autoral surgiu não para privilegiar o autor, mas a sociedade. Ambos eram ameaçados pelo cartel constituído pela indústria editorial do século XVII/XVIII, quando máquinas de imprensa eram caríssimas, mas não havia empecilho legal para copiar ou publicar. A sociedade viu por bem buscar reduzir o poder desses cartéis, que compravam as obras dos autores por preços baixos, pois eles não tinham a quem mais vendê-las. Por isso conferiu aos autores um controle maior sobre a exploração das obras pelos cartéis. O objetivo era com isso incentivar a publicação de obras, cujos autores muitas vezes deixavam de publicar por não encontrarem condições favoráveis. O objetivo do incentivo à publicação era que, ainda que após um curto período de sacrifício da sociedade, todos passassem a poder se beneficiar da obra para sempre.
Não funcionou. A indústria conseguiu anular o poder conferido aos autores de obras literárias, pois eles ainda não tinham a quem mais vender as obras, e passou a se valer desse poder para coibir o uso pela sociedade dos avanços tecnológicos na imprensa. Depois conseguiu estender o mesmo modelo para obras musicais, audiovisuais, software e todas as demais criações do espírito. Passou a buscar estender o prazo de exclusividade, negando à sociedade o usufruto das obras. Passou a usar medidas tecnológicas para impor exclusividade até mesmo sobre os direitos que a lei excluía do sacrifício. E continua explorando os autores e a sociedade, agora não mais porque detém uma exclusividade quase natural dos meios de reprodução das obras, mas porque cria uma escassez artificial através de medidas jurídicas e técnicas, e tem poder suficiente para subverter a lei fazendo-a funcionar contra os interesses da sociedade, ameaçando o potencial de publicação e acesso democráticos que a tecnologia atual oferece.
5. O Partido Pirata é hoje o terceiro maior partido da Suécia. Ou seja, a questão do copyleft já inspira movimentos políticos oficiais. O que você pensa disso? Era esse um dos objetivos no momento da criação do novo tipo de licenciamento?
Não tenho conhecimento de que o Partido Pirata defenda o copyleft como se o entende na comunidade do Software Livre, onde surgiu esse conceito. Copyleft não é a anulação do copyright, é o *uso* do copyright em benefício da sociedade, e não de forma mesquinha. Mas, baseado no copyright (direito autoral), é ainda uma manifestação da vontade do autor, a quem a lei confere esse poder injusto.
A posição desse Partido, segundo a entendo e compartilho, é de que esse poder de exclusão é injusto e anacrônico, e deve ser anulado, ou ao menos severamente limitado, para deixar de servir a poucos em detrimento de quase todos, para servir ao bem comum, como deveria fazer toda lei.
Enquanto ele permanece, podemos criar e manter, através de recursos como copyleft, um corpo de obras culturais dos quais todos que quiserem podem se valer, quase como se não houvesse o direito autoral. Digo “quase” porque a natureza do copyleft é justamente condicionar esse valer ao respeito às liberdades essenciais: obras derivadas de outras obras copyleft, caso divulgadas, devem ser divulgadas sob os mesmos termos, de modo que acrescentem ao corpo de obras livres.
O Movimento Software Livre é um movimento de cunho político, não técnico, e o copyleft é uma inovação jurídica de profundo cunho social. A única surpresa que tenho é que essas ideias maravilhosas demorem tanto para ganhar larga aceitação popular. Certamente contribui para essa demora o controle dos meios de publicação e divulgação pela indústria editorial, antagônica a esses modelos democráticos e sem intermediários que a tornam obsoleta.
6. Quando inventamos alguma coisa, podemos colocar qualquer licença no que criamos, ou simplesmente colocá-la em domínio público. Posso escolher colocar minha obra em copyright e ter os direitos de sua comercialização até 70 anos depois da minha morte. Na Suécia, o Partido Pirata quer mudar isso, limitando a exploração comercial exclusiva da minha obra para cinco anos. O que você pensa dessa proposta. Acha que ela poderia se aplicar ao Brasil?
Deixa eu primeiro mencionar que “inventar” é um termo que tem a ver com patentes, que nada têm a ver com obras de direito autoral. Patentes têm a ver com uso exclusivo de ideias em aplicações industriais, enquanto direito autoral tem a ver com expressões de ideias (e não às próprias ideias), com a exclusividade em sua modificação, distribuição, publicação e execução pública. São não só conceitos diferentes, como também são reguladas por leis que nada têm em comum entre si. Não convém alimentar a confusão que a indústria editorial semeia empacotando essas duas e outras ideias na contraditória noção de propriedade sobre o imaterial, o não-rival, que pode ser compartilhado por multiplicação, ao invés de por divisão.
À pergunta. Quando, numa conferência sobre direito autoral, Richard Stallman (o pai do Software Livre e do copyleft) propôs a redução do prazo de exclusividade nos usos de obras autorais a 10 anos, um autor de ficção científica relativamente conhecido chamado Cory Doctorov protestou imediatamente: “É um absurdo! Qualquer coisa além de 5 anos é um roubo!”
De fato, as obras são exploradas comercialmente em prazos muito curtos, de um a dois anos, às vezes três, em raríssimos casos mais que isso. Cercear o uso da obra por mais 70 anos além da vida do autor é um contrasenso, ainda mais considerando que o objetivo do direito autoral era justamente trazer mais obras para o domínio público, para que todos as pudessem usar. Mas a indústria editorial, de alguma forma, consegue convencer legisladores a estender o direito autoral por mais 20 anos a cada vez que o primeiro filme com o camundongo Mickey está para cair no domínio público nos EUA. Como isso tornaria Walt Disney retroativamente mais criativo para fazer jus a esse incentivo adicional é uma dúvida que há muito me atormenta.
7. Qual é a posição da FSF em relação ao caso do PirateBay?
Isso é algo que você teria de perguntar à FSF. Sou ligado a uma organização irmã da FSF original, a FSF América Latina. Mesmo que sua pergunta se referisse à FSFLA, uma organização independente, não tenho autoridade para falar por ela, e não discutimos o assunto a ponto de termos uma posição consolidada.
De todo modo, pelo que conheço da posição ideológica de seus membros e das liberdades que defendemos, em todas as FSFes, não arrisco muito em afirmar que estamos todos em favor do livre compartilhamento.
8. Richard Stallman não gosta de se associar ao termo "pirata". Como você define a pirataria?
É a invasão de navios para roubar a carga e sequestrar, escravizar ou assassinar a tripulação. Nada parecido com copiar e compartilhar.
9. O que você pensa das licenças mais permissivas, como a "copie", criada pelo Partido Pirata Brasileiro? 
Não a conhecia. Adorei o protesto, mas não recomendaria seu uso, por ter sérias dúvidas sobre seu valor jurídico.
Por exemplo, ela não concede explicitamente permissão para distribuição, reprodução e derivação, que, pela lei de direito autoral, exigem permissão explícita do titular. Apenas estabelece condições para permissões que parecem não ser concedidas em lugar algum. Levando em conta que, segundo a lei, licenças de direito autoral devem ser interpretadas de maneira restritiva, temo que talvez a licença não tenha o efeito pretendido, o que é uma pena. Mas não sou advogado, apenas um estudioso do assunto.
10. A Lei Azeredo é vista pela maioria dos entendidos como um retrocesso. Qual seria a alternativa a ela para a inclusão da internet na legislação brasileira de forma mais atual e realista?
Não entendo a necessidade das alterações propostas no projeto. Dos crimes que o projeto confessa pretender prever, todos já estão previstos na lei vigente. Falsidade ideológica, fraude, estelionato e violação de segredo comercial e de privacidade já são crimes.
Estão chovendo no molhado tentando empurrar pra frente um projeto delineado a partir de um “acordo” assinado por uma dúzia de países ainda sob os ecos do 11 de setembro de 2001, para prever de forma redundante os mesmos crimes, enquanto tentam inventar jeitos de regulamentar o intangível, com consequências daninhas que negam.
O problema maior são os interesses inconfessáveis e a redação plena de problemas. Buscam atender aos interesses (i) dos bancos de empurrar para a sociedade os custos provenientes de transações eletrônicas fraudulentas, mantendo exclusivamente para os bancos as vantagens econômicas das transações sem receber os clientes nas próprias agências, e (ii) da indústria editorial, negando sempre que têm algo a ver com isso, exceto quando a verdade escapa em atos falhos.
Valem-se, para este último, de uma redação ambígua que torna um pedaço de papel um dispositivo de comunicação, sobre o qual se criminalizam a obtenção e a divulgação da informação nele contida, caso ocorra sem a concordância de seu titular. Mesmo que a informação seja pública, mesmo que seja obtida de outra fonte, mesmo que seja de interesse público. É o fim da liberdade de imprensa, a nova censura. Daí chamá-lo de AI-5 digital.
Estabelecem, ainda para promover esses interesses, um clima de terror e de vigilantismo através da violação paulatina da privacidade na Internet, substituindo redes abertas e democráticas por burocráticas redes vigiadas, antagônicas à inclusão digital. Para justificar esses abusos, não deixam de se valer da desculpa do combate à pedofilia, apesar de projeto de lei no mesmo sentido já ter sido aprovado nas duas casas do congresso nacional, um deles na mesma madrugada em que se aprovou o projeto Azeredo no Senado. É uma vergonha sem tamanho.
11. Você citaria o governo de algum país como tendo lidado melhor com a questão da internet na legislação?
A Internet não é um mundo à parte que exige legislação diferenciada. Os crimes são cometidos por pessoas reais, no mundo real: dinheiro é tomado, pessoas são ofendidas, informação sigilosa vai parar onde não era pra estar, e tudo isso já tem previsão em lei. Ninguém precisou redefinir todo o código penal quando inventaram o telégrafo, o rádio, o telefone ou o celular, para que fraudar, ludibriar, enganar, extorquir ou chantagear continuassem sendo crimes quando praticados através desses meios de comunicação. Por que seria diferente no caso das redes de computador?
Diversos países europeus têm tomado o caminho correto: privilegiar os direitos civis, os direitos humanos, as liberdades e a presunção da inocência, introduzindo leis de proteção à privacidade. Ao invés de condenar o provedor que não vigia seus clientes, condena aquele que coleta e armazena informação que identifique os clientes. Provedor não é polícia.
Já pensou condenar a companhia telefônica porque não grava todas as suas ligações, para o caso de a polícia precisar ouvir as ligações que você fez antes de alguém denunciá-lo por alguma suspeita de crime? É isso que estão querendo fazer no Brasil, só que não pras telefônicas, mas pra provedores de Internet, donos de cybercafés, administradores de sítios, telecentros, redes municipais e abertas.
E não é só porque você não está fazendo nada de errado que qualquer um, mesmo que seja da polícia ou tenha interesses comerciais enquanto provedor, pode sair vasculhando toda a sua vida digital. A privacidade é um direito de cada um, existem leis injustas sendo compradas por interesses contrários à sociedade, e a desobediência civil é um recurso legítimo e necessário para combatê-las.
E, assim como tem gente que se vale de ferramentas de informática para exercer liberdade de expressão e de imprensa para enfrentar ditaduras e escapar das garras de governos injustos, podemos um dia precisar novamente combater um governo autoritário por aqui. Se ele tiver o poder de um Grande Irmão (1984, George Orwell), que uma lei como essas tenta estabelecer, que faremos?
Vale lembrar que essas mesmas ferramentas hoje são usadas por aqui, tanto por quem quer legitimamente defender sua privacidade quanto por criminosos que se escondem da lei. O resultado do estabelecimento de uma lei como essas é que aqueles que têm seus computadores controlados por criminosos à distância, sem seu conhecimento ou consentimento, seriam acusados, transtornados e possivelmente até condenados por crimes que não cometeram, enquanto os verdadeiros criminosos continuariam à solta. Lei penal que pune inocente e deixa o criminoso livre é pior que lei nenhuma.
12. Quando abrimos qualquer coisa na internet, nosso computador cria umarquivo temporário para ela –– faz uma cópia. Ou seja, qualquer conteúdo protegido por copyright na internet tem sua licença sistematicamente violada. Pode o copyright sobreviver na internet? O copyleft seria a única resposta para esse problema? É possível conter os avanços contra o copyright?
Primeiro, deixa eu reclamar do termo “protegido”. Copyright não protege informação, ele a aprisiona. Informação é pra ser livre, até porque é um direito humano “procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão”.
Além do mais, nem copyright nem direito autoral são um poder absoluto sobre as obras. Lembre que não é um direito natural, é uma concessão da sociedade, um sacrifício limitado e temporário. Também são direitos humanos “fruir as artes” e “tomar parte livremente na vida cultural da comunidade”.
Historicamente, direito autoral respeitou esses direitos humanos: nunca foi necessária permissão para apreciar uma obra cultural a que se tenha acesso, ou para compartilhá-la com seus amigos.
Nem bibliotecas nem ninguém precisa de permissões especiais para emprestar cópias de obras a quem queira, nem quem as empresta necessita permissão para poder apreciá-las.
Não é necessária permissão para fazer cópias temporárias de obras para apreciá-las depois; o direito de gravar programas de TV para assistir depois já foi reconhecido até nos EUA.
Não é necessária permissão para assistir a um DVD a que se tenha acesso, embora isso envolva inúmeros processos de decodificação, descompressão, cópia temporária e transferência entre dispositivos. Por que faria diferença se a tela está ao lado ou a quilômetros do computador que faz a leitura da mídia, seja o computador de propósito geral ou programado exclusivamente para executar DVDs? Essas cópias e transformações não são reguladas por direito autoral, são parte do processo de apreciação da obra, que é um direito humano de todos, não um direito exclusivo concedido ao seu autor.
A indústria editorial quer nos fazer crer que não temos esses direitos, a ponto de ir às escolas, com permissão de governos, para ensinar às crianças que compartilhar, que ser solidário com os amigos, é o equivalente moral de invadir navios, saquear sua carga e assassinar sua tripulação. Enquanto isso, nos rouba nossos direitos, nossa cultura, e usa o fruto do roubo para comprar legisladores e nos tornar criminosos.
Escrevi mais sobre esses e outros direitos humanos relacionados a obras culturais no sítio da Fundação Software Livre América Latina: http://fsfla.org/texto/copying-and-sharing-in-self-defense
Copyleft, estando apoiado no copyright, não é uma solução, é apenas um remendo que tenta tornar a vida num mundo contaminado por copyright menos intolerável. A solução ideal talvez seja extinguir o copyright, ou algo próximo disso, mas hoje já temos preocupação suficiente apenas tentando conter seu avanço sobre e contra os interesses da sociedade.

Valeu, Manuela!

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