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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

O poeta, esse “figura” da linguagem - Ou uma forma divertida de aprender figuras de linguagem

 


Poeta já nasce metáfora: nem é homem, é bruma

Detesta comparação: sua carne é tal como purpurina

Casa antíteses, juiz de paz de terra e céu

Dispara metonímias lendo Drummond e Gullar

Mata catacreses ao dar nome ao que não o tem:

Braço de sofá vira espuvelo, assim, na caraça

Celebra paradoxos, esses desconstrutores criativos:

Como encher de vazio um balão vazio?

Faz tudo dialogar em prosopopeias, a caneta chora, o chapéu gargalha

É bicho todo trabalhado na sinestesia: degusta a paisagem, ouve seus aromas

Radical, rima o rumo dos versos em aliteração

É um babaquara da assonância, um papa-vatapá

Desafios opera o poeta em hipérbatos

Faz rir nas onomatopeias, feito garnizé cocoricó

Desce pra baixo do mar molhado em seu submarino, o pleonasmo

É polissíndeto: É alegre e loquaz e terno e carmim

Mas tem lá seus momentos assíndetos: solitário, introvertido, fujão

Viaja em anáforas: se eu voasse, se eu pudesse, se eu sonhasse, se...

“Quero morrer de tanto versejar”, vocifera, hiperbólico

“Ou bater as botas de mui cantar”, solfeja em eufemismo e preciosismo

Dias há em que escreve com a delicadeza de uma mula (opa, contém ironia!)

Outros em que lança os versos pela janela com um lacônico “Que tédio!” em apóstrofe

Nesse jogo de encanta e cansa, o bardo executa sua dança

E nos diverte com sua graça, humano que é, esse figuraça...

 

Criei este poema para ajudar estudantes – do aluno do Fundamental ao concurseiro – a aprender se divertindo e, claro, para ajudar também a professores. Se você curtiu, compartilhe o poema para que ele possa divertir a mais necessitados!


Este poema obteve o segundo lugar nacional no Concurso Paulo Setúbal de Literatura 2024 (Tatuí - SP). Obteve ainda menção honrosa no 47º Concurso Literário Felippe D’Oliveira (Santa Maria - RS).

Assista ao vídeo da premiação e dramatização do poema, no Concurso Paulo Setúbal:



quarta-feira, 28 de março de 2012

A morte da águia, magnífico poema de Luís Guimarães




A bordo vinha uma águia.  Era um presente
Que um potentado, — um certo rei do Oriente,
Mandava a outro: — um mimo soberano.
Era uma águia real.  Entre a sombria
Grade da jaula o seu olhar luzia,
Profundo e triste como o olhar humano.

Aos balanços do barco ela curvava
Ao níveo colo a fronte que cismava…
E enquanto as ondas túrbidas gemiam,
Ao som do vento – em fúnebres lamentos
Ela pensava nos longínquos ventos
Que do Himalaia os píncaros varriam.

Fora uma infame e traiçoeira bala,
Que, do régio fuzil negra vassala,
Invisível – uma asa lhe partira:
Cheia de luz, tranqüila, majestosa,
Dobrando a fronde branca e poderosa,
Aos pés de um rei a águia real caíra.

Os bonzos vis, proféticos doutores,
Sondando-lhe a ferida e as cruas dores,
Que um venenoso bálsamo tentava
Apaziguar em vão, — diziam rindo:
“Não há no mundo exemplar mais lindo:
Vale um império!” – E a águia agonizava.

Um dia, enfim, o animal valente
Resistindo aos martírios, — largamente
Respirou a amplidão.  A asa possante
Abrir tentou de novo.  Aberta estava
A jaula colossal que o esperava:
Forçoso era partir.  Desde este instante,

A águia sombria e muda e pensativa,
Solene mártir, vítima cativa,
Terror dos vis e símbolo dos bravos,
Pediu a morte a Deus, — pediu-a ansiosa
Longe, porém, da corte vergonhosa
Desse covarde e baixo rei de escravos.

Pediu a morte a Deus, o cataclismo,
As convulsões elétricas do abismo,
As batalhas finais!  Morrer num grito
Vibrante, imenso, heróico, soberano,
E fremente rolar no azul do Oceano,
Como um titã caído do infinito.

Morrer livre, cercada de vitórias,
Com suas asas – pavilhão de glórias –
Inundadas da luz que o Sol espalha:
Ter o fundo do mar por catacumba,
As orações do vento que retumba,
E as cambraias da espuma por mortalha.

Entanto, melancólica, tristonha,
Como um gigante mórbido que sonha,
Fitava, às vezes, o revolto oceano,
Com esse olhar nublado e delirante,
Com que saudava a César triunfante
O moribundo gladiador romano.

O comandante – urso do mar bondoso —
Disse um dia ao escravo rancoroso,
Ao carcereiro estúpido e inclemente:
“Leve-a ao convés.  Verá que esse desmaio
Basta para apagá-lo um brando raio
Do largo Sol no rúbido oriente.”

Subiu então a jaula ao tombadilho:
Do nato dia ao purpurino brilho
Salpicava de luz o céu nevado…
E a águia elevando a pálpebra dormente
Abriu as asas ao clarão nascente
Como as hastes de leque iluminado.

O mar gemia, lôbrego e espumante,
Açoitando o navio; — além – distante,
Nas vaporosas bordas do horizonte,
As matutinas névoas que ondulavam,
Em suas várias curvas figuravam
Os largos flancos triunfais de um monte.

“Abre-lhe a porta da prisão,” ( ridente
O comandante disse ) “Esta corrente
Para conter-lhe o vôo é mais que forte!
Voar!  pobre infeliz!  causa piedade!
Dê-lhe um momento de ar e liberdade!
Único meio de a salvar da morte.”

Quando a porta se abriu, — como uma tromba,
Como o invencível furacão que arromba
Da tempestade as negras barricadas,
A águia lançou por terra o escravo pasmo,
E desprendendo um grito de sarcasmo,
Moveu as longas asas espalmadas.

Pairou sobre o navio — imensa e bela –
Como uma branca, uma isolada vela
A demandar um livre e novo mundo;
Crescia o Sol nas nuvens refulgentes,
E como um turbilhão de águias frementes,
Zunia o vento na amplidão,  – profundo.

Ela lutou, ansiosa!  Atra agonia
Sufocava-a.  O escravo lhe estendia
Os miseráveis e covardes braços;
Nu o oceano ao longe cintilava
E a rainha do ar, em vão, buscava
Onde pousar os grandes membros lassos. 

Sobre o barco pairou ainda, — e alçando,
Alçando mais os vôos,  e afogando
Na luz do Sol a fronte alvinitente,
Ébria de espaço, ébria de liberdade,
Como um astro que cai da imensidade,
Afundou-se nas ondas de repente.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Três poemas de Manuel Adriano Rodrigues



vou aquecer o sol


o dia não nasceu feliz
sou eu
que o quero assim


vou aquecer o sol
com cuidados de alquimista
e a língua de fora


olhos atentos
mãos de abraçar
risos
e as inevitáveis danças
do coração


e o mundo de novo
novo
sentido
no sentido
dos ponteiros do relógio


o amanhã
é hoje




a demanda


destruí as pontes
que cruzei
até aqui


sob os meus pés
a demanda


e não me detive
em arrependimentos
a chorar barato


nos meus precipícios
as tuas mãos


na minha boca
a tua




Olhai os lírios do campo


A casa do grilo é feita
de montanhas, flores, nuvens,
ar
e do seu encanto particular. Um insecto
minúsculo com a inteligência
cósmica das grandes
opções filosóficas. Um buraco no chão,
os olhos nas estrelas
e a música no coração. Enquanto espera
pelo socorro
canta imperturbável, o grilo
sábio
espalhando amor
entre dois pinheiros.


Visite os blogs do autor: 
http://sipofglory.blogspot.com/
http://dozepoemaseumdeusmaior.blogspot.com/

domingo, 24 de julho de 2011

ÁGUAS VIVAS Volume 2 - Antologia de Poesia Evangélica para download gratuito


Há exatos dois anos, em Julho de 2009, veio a lume a Antologia Poética Águas Vivas, destacando a obra de 10 poetas evangélicos contemporâneos. Dez expoentes dos mais diversos estilos poéticos, unidos num livro editado em formato eletrônico, trazendo uma riquíssima e edificante amostra de poesia, numa obra franqueada a todos os interessados, pois de circulação e cópia gratuitas.

Já naquele momento, muitos talentosos poetas não puderam ser incluídos na obra, cujo projeto editorial inicial era dedicar-se a 10 poetas somente.

Pois eis que agora, em Julho de 2011, a semente que ficou germinou, e é com grande alegria que apresentamos aos leitores este segundo volume de Águas Vivas, imbuído do mesmo espírito da edição anterior, que é destacar e divulgar a excelente poesia cristã produzida atualmente por nossos irmãos, no Brasil e em Portugal.

Desta feita estão antologiados sete autores, sendo quatro deles, os brasileiros:Antonio Costta, Fabiano Medeiros, Flávio Américo e Norma Penido; e três lusitanos:Florbela Ribeiro, Jorge Pinheiro e Rui Miguel Duarte, cada qual comparecendo com 10 poemas. O e-book possui 116 páginas, em formato PDF, e o download é gratuito.

Decerto e mais uma vez, outros poetas de excelência ficaram de fora, pois na presente edição optamos por trabalhar com um número menor de autores. Mas nossa expectativa é dar prosseguimento ao projeto Águas Vivas, vindo daqui a algum tempo a contemplar a obra de outros de nossos bardos, que têm exercitado com multiforme graça o dom divino que o Senhor lhes outorgou.

Querido leitor: tenha uma muito boa leitura, e não deixe de compartilhar este livro e estes poemas com seus amigos e irmãos. Sinta-se livre também para republicar este post em seu blog ou site, sem necessidade de prévia autorização. 

Para baixar o livro, CLIQUE AQUI.

Para ler o livro online, CLIQUE AQUI.

Sammis Reachers, organizador

domingo, 26 de dezembro de 2010

A flauta que me roubaram - Cassiano Ricardo

Foto: Sammis Reachers - uso liberado CC

Era em S. José dos Campos.
E quando caía a ponte

eu passava o Paraíba
numa vagarosa balsa
como se dançasse valsa.
O horizonte estava perto.
A manhã não era falsa
como a da cidade grande.
Tudo era um caminho aberto.
Era em S. José dos Campos
no tempo em que não havia
comunismo nem fascismo
pra nos tirarem o sono.
Só havia pirilampos
imitando o céu nos campos.
Tudo parecia certo.
O horizonte estava perto.

Havia erros nos votos
mas a soma estava certa.
Deus escrevia direito
por pequenas ruas tortas.
A mesa era sempre lauta.
Misto de sabiá e humano
o vizinho acordava
tranqüilo, tocando flauta.
Era em S. José dos Campos.
O horizonte estava perto.
Tudo parecia certo
admiravelmente certo.

Fonte e mais poemas em: http://www.fccr.org.br

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Epopéias resgatadas por brasileiros


O livro Avatares da epopéia na poesia brasileira do final do século XX (2009), escrito pelo pernambucano Saulo Neiva, é um salto na direção de resgatar um estilo poético quase em desuso: aEpopéia. Epos, em grego significa recitação, e o gênero epopéia refere-se a uma narrativa em versos longos, eloquentes, solenes, em que o narrador conta os grandes feitos de um indivíduo, ou de um povo, ou mesmo de uma época. As grandes epopéias, as mais conhecidas, eternizaram lendas e mitos, como “Odisséia”, de Homero, ou A Eneida do poeta romano Virgilio, ou mesmo a obra-prima de Dante Alighieri, A Divina Comédia. A temática das epopéias, em geral, é universal e nela se busca a exaltação, a bravura, o humanismo de uma raça ou de uma civilização, expandindo no imaginário do leitor os atos heróicos de um grande personagem ou de uma sociedade, como ocorreu com a mais conhecida das epopéias em língua portuguesa, Os Lusíadas, de Camões.
Saulo Neiva nasceu em Recife, mas foi para a França estudar e pesquisar. É doutor e livre-docente da Universidade de Paris (Sorbonne) e professor da Université Blaise-Pascal, onde dirige a equipe de pesquisa Écritures et Interactions Sociales. Além disso, coordena com Alain Montandon o projeto do “Dictionnaire raisonné de la caducité des genres littéraires” (dicionário da caducidade dos gêneros literários), que brevemente será publicado na Suíça. Em “Avatares da epopéia na poesia brasileira” Neiva estuda o processo de reabilitação da epopéia na poesia brasileira do século XX. O gênero foi considerado por muitos autores do século XIX uma forma poética antiquada, ou ultrapassada, em extinção, visão também partilhada por vários grandes autores dessa época, como Hegel, Edgar Allan Poe, Victor Hugo e José de Alencar.“Com esse trabalho, eu tento mostrar que a poesia épica, que conta grandes histórias ou faz reflexões sobre a humanidade, continua tão viva quanto a poesia lírica”, explica Neiva. Ainda de acordo com o autor, embora a epopéia pareça incompatível com a estética moderna, inúmeros foram os longos poemas narrativos compostos, em diferentes línguas, durante o século XX, sendo que eles possuem “laços estreitos, explícitos e conscientes com a tradição épica ocidental, inclusive na literatura brasileira”.
Continue lendo:
Em entrevista a jornalista Geórgia Alves, especialista em literatura brasileira, para o portal literário Interpoética, Neiva explicou porque no livro escolheu se concentrar nas obras de quatro autores brasileiros específicos (Carlos Nejar, Marcus Accioly, Gerardo de Mello Mourão e Haroldo de Campos). “Nesse tipo de trabalho, houve vários critérios que se cruzaram para essa escolha. Tanto os limites cronológicos dos poemas estudados, publicados entre 1977 e 2000, como a tentativa de encontrar vozes oriundas de diferentes regiões e aparentemente díspares… Quando relemos as obras deles, na perspectiva da reabilitação da poesia épica, com as ferramentas que tenho tentado forjar, percebemos o quanto, apesar de tantas diferenças, eles se inscrevem na mesma tendência e, principalmente, percebemos que a leitura dos seus poemas ganha muito, quando é feita nessa perspectiva, sem por isso perder de vista o que é específico a cada obra… Outro critério mais subjetivo é, por exemplo, o valor da obra, a de Marcus Accioly, não é reconhecida como deveria, a de Mello Mourão é negligenciada… os laços de Haroldo de Campos com a poesia épica são uma pista que pode ser ainda mais explorada do que foi até agora. No caso de Nejar, acho que o livro “Um país o coração” merece ser relido, por ter momentos extremamente fortes”.
Neiva tem escrito vários artigos e apresentado conferências sobre o tema na França, em Portugal, no Canadá e no Brasil. Quando escreve, trabalha freneticamente, às vezes acordando as 4h30 da manhã para escrever, deixando a escrita invadir e comandar seu cotidiano. Divide sua vida entre a França e o Brasil, mas não descarta viver em outros lugares. Estudioso, disciplinado, atento e fascinado por seu trabalho, Neiva confessa que tem uma gratidão imensa para com o poeta e ensaísta francês Michel de Montaigne(1533 – 1592), com quem aprendeu a ser fiel às suas intuições intelectuais. “Gosto de abri-lo ao acaso, como as pessoas fazem com o I Ching, e relendo um dos Ensaios, sempre encontro motivos para me encantar e rever as coisas do mundo de outro jeito”. 
Outra obra que pode nos ajudar a entender o desenvolvimento desse gênero na literatura brasileira éHistória da Epopéia Brasileira (2007), de Anazildo Vasconcelos da Silva e Christina Bielinski Ramalho(ambos Mestres e Doutores em Letras), que da mesma forma pretendem, a partir do resgate teórico do gênero, realizar uma (re)leitura dos poemas longos do passado e da atualidade, promovendo uma nova compreensão dessas obras no contexto da produção literária brasileira. Entre outras obras, os autores analisam a estrutura épica de O caçador de esmeraldas de Olavo Bilac. Para Anazildo e Christina, além das motivações particulares de cada um de nós em relação ao gênero, é indispensável no âmbito da historiografia literária brasileira ter um olhar mais especifico para as epopéias brasileiras, de forma a resgatar produções jamais reunidas, tratando-as como um “acervo épico” e uma “contemplação antenada com as marcas do épico em tempos de globalização e fragmentação das identidades culturais”.
Para muitos a epopéia teria sido substituída como forma narrativa pelo romance, sendo que a poesia teria se voltado mais ao acento lírico de formas mais breves, se adequando ao gosto dos leitores “modernos”, que desconfiam dos valores épicos tradicionais. Outros, como Saulo Neiva, estimulam a reabilitação do interesse do leitor pelo gênero, propondo novas “tintas”, novos caminhos, certos de que toda transmissão implica necessariamente em transformação, sendo esta última o caminho inevitável para qualquer forma narrativa. Nas palavras do próprio Neiva: “A epopéia, longe de ser incompatível com a condição moderna, revela-se de fato ser uma reação – muito “moderna”, aliás – de rejeição ao prosaísmo ligado a essa mesma condição”.

domingo, 24 de outubro de 2010

Biblioteca Particular de Fernando Pessoa disponível para download

 



Casa Fernando Pessoa digitalizou o acervo particular do autor e disponibilizou-o para download.
Da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa fazem parte 1140 volumes e manuscritos, que até ao momento só estavam disponíveis para consulta na instituição que preserva a memória do escritor.
A digitalização do acervo teve a participação de uma equipe internacional de investigadores e recebeu o apoio da Fundação Vodafone Portugal.


domingo, 3 de janeiro de 2010

Dois poemas de Joanyr de Oliveira sobre a Liberdade



POUCO PARA TANTA NOITE

Não me viram os cárceres
quando o império das sombras
alvejava os vôos em minha terra.
Por que não sepultei as flores?
Por que não detonei o silêncio?
Por que não disse às praças
mil sentenças em chamas?

Entre os mortos pela noite
perfilavam-se lúcidos poetas.
(O sopro de sua arte, sua arma,
mordia o pendão dos tiranos
hasteado nos píncaros do medo.)

As balas não se aperceberam
das penas de um poeta na insônia.
Os cassetetes ignoraram as janelas
pelos braços das brisas,
pelos resíduos dos sonos,
na construção de metáforas.

Os libelos montados por demônios
passavam ao largo, longas flechas,
no rumo de muitas vivendas.
(O poeta da antiga morada
recolhia o rumor dos corpos,
os fragmentos de palavras,
os gemidos dos prisioneiros.)

Chega um incontido rubor
às entranhas, ao rosto, ao coração,
com a memória dos tempos algemados.
Vejo-me inseto, areia ou pedra,
arbusto, muro ou felino,
porquanto venceram ilesos
mas plenos de inocência
a suja marcha das baionetas.

A mesa colhia estrofes,
concebia poemas de fel,
com os gumes da palavra,
com as firmes lâminas do “não”
à presença das botas lunáticas,
das fardas enlouquecidas.
Mas foi pouco para tanta noite.

Beijo os nomes dos mortos,
as cicatrizes, os lábios abertos
nas conchas do pânico.

No âmago das veias navega
o pudor de um homem.

Sobreviver é viver sobre.
Mas não vale a pena.
A poesia cumpre seu mister,
mas a noite é cega e fria.
A noite continua na terra.




Rogério Teruz

LIBERDADE

os pássaros que cantam,
meus espíritos são,
que a voz levantam...
....................................
Camões, Canção III.

Jamais enjaulei um pássaro.
Em singelezas suburbanas
no silêncio de minha casa,
desde cedo pude apreender
em um homem justo e puro
e do mais humilde coração
o que Liberdade vem a ser:
suprema conquista da vida.

Joanyr de Oliveira

in Tempo de Ceifar, Thesaurus Editora, 2002

Fonte: Blog Cidadania Evangélica

sábado, 1 de agosto de 2009

Arménio Vieira, Prêmio Camões 2009: Notícia e poemas


O júri do Prêmio Camões decidiu atribuir o troféu deste ano ao poeta cabo-verdiano Arménio Vieira. O poeta é o primeiro cabo-verdiano a receber o prêmio. Ele nasceu na cidade da Praia, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 24 de janeiro de 1941. Além de escritor, é jornalista, com colaborações em publicações como o Boletim de Cabo Verde, a revista Vértice, de Coimbra, Raízes, Ponto & Vírgula, Fragmentos e Sopinha de Alfabeto.


Arménio Vieira foi redator no jornal Voz di Povo. O Prêmio Camões, criado em 1988 pelos governos português e brasileiro, distingue todos os anos escritores dos países lusófonos. Vieira é o 21º a receber o prêmio no valor de 100 mil euros, que já homenageou nomes como José Saramago, Pepetela ou Agustina Bessa-Luís.

Criado e financiado pelos governos de Portugal e do Brasil, o prêmio foi atribuído pela primeira vez em 1989 a Miguel Torga. O júri, em que Portugal foi representada por José Carlos Seabra Pereira, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e Helena Buescu, da Universidade de Lisboa, reuniu-se hoje num hotel do Rio de Janeiro para anunciar o resultado.

Em anos anteriores, o Prêmio Camões, considerado o mais importante da língua portuguesa, distinguiu os portugueses Vergílio Ferreira (1992), José Saramago (1995), Eduardo Lourenço (1996), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Eugénio de Andrade (2001), Maria Velha da Costa (2002), Agustina Bessa-Luís (2004) e António Lobo Antunes (2007).

Quanto a autores brasileiros, já foram agraciados nomes como João Cabral de Mello Neto (1990), Rachel de Queiroz (1993), Jorge Amado (1994), Antênio Cândido (1998), Autran Dourado (2000), Rubem Fonseca (2003), Lygia Fagundes Telles (2006) e João Ubaldo Ribeiro (2008).

De Angola, foram premiados Pepetela, em 1997, e Luandino Veira, em 2006. O moçambicano José Craveirinha recebeu o Camões em 1991.



SER TIGRE


O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,

Ele será
quando for tempo disso.


(in "Vozes poéticas da lusofonia", Sintra, 1999)



POEMA

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Quem sentiu mar?

Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia

Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar

Mar!

Raiva-angústia
de revolta contida

Mar!

Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos

Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?

(1962)




Quiproquó
.

Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto
.

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicído de um poeta
.

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.

Fontes: http://www.amigosdolivro.com.br, http://br.geocities.com/poesiaeterna, http://amantedarosa.blogspot.com/

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