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terça-feira, 24 de setembro de 2024

O ano era 2000, e os caras fizeram um (bom!) beat 'em up da Mulan - Mas esqueceram de avisar a Disney! (Legend of Heroes)

 


Primeiro, pera lá: Este post tem outro título, bem mais sério e respeitável: Legend of Heroes - Combata hunos na China antiga neste beat 'em up... coreano. Mas logo você vai entender a escolha do título acima.

Dia desses publiquei uma resenha ou artigo intitulado Viajando pela história e pelas culturas através dos beat em ups. Um dos games resenhados, Warriors of Fate, discorre sobre certo período da história mítica chinesa.

Hoje aproveito, nesta resenha especial, meio que continuação/spin off da anterior, para falar sobre outro game que narra parte da história chinesa. Trata-se de Legend of Heroes. Jogo desenvolvido pela Sonnori e publicado pela Limenko, empresas coreanas, lançado para arcades no ano 2000.
Num período em que a China se dividia em Dinastias do Norte e do Sul, num momento em que o país enfrentava invasões sucessivas de hunos. Tendo rechaçado a primeira investida huna, uma segunda carga tombou sobre a China, e a princesa Falan se levanta para impedir que os "bárbaros" (re)conquistem seu país.

Um detalhe do jogo que talvez você hoje não perceberia se não te contassem, querido amigo retrô: a imensa, cabal, catastrófica semelhança dos personagens e cenários com os do desenho Mulan, da Disney, lançado em 1998. Imensa demais, e sem pedir licença, copiança feita na cara dura mesmo. Bem, a Disney não chiou até hoje, você vai chiar?

E se você acha pouco, então tome: até uma de minhas personagens favoritas de Fatal Fury/The King of Fighters, a Mai Shiranui, aparece, devidamente copiada, com a mesma e já corriqueira cara de pau. Doideira total!

Mas o papo aqui é andar e bater, senhores. Vamos ao que nos interessa: o game apresenta quatro personagens jogáveis, e é possível jogar com os quatro em tela ao mesmo tempo: Falan, a tal princesa guerreira, Liang, o cavaleiro (o personagem balanceado), o pequenino Jili (alguém precisa fazer o papel de troll) e o grandalhão Cheng. Como os muitos beat em ups surgidos a partir de meados da década de 90 (considere um 1994 em diante), Legend os Heroes permite que se apliquem combos contados (hoje isso já virou bagunça, mas não entremos no mérito). O jogo chega a sinalizar quando você aplica um combo que supera o recorde de golpes ou hits de seu combo anterior. 
Os golpes são diversos, com alguma variação de personagem para personagem. Movimentos tradicionais como a corridinha estão presentes. Temos rasteira deslizante (baixo + pulo, muito útil para atingir inimigos caídos ou concatenar mais golpes em seu combo). E com este deslizante, logo o pior personagem (o baixote Jili) consegue, talvez como compensação, aplicar combos "infinitos": Você rola para cá e para lá sobre os adversários caídos, amaciando suas carnes. O brutinho tem até rolamento aéreo (pulo + direcional para baixo + soco). Parece o Blanka! Uma (quase) ausência notável são os agarramentos, não muito fáceis ou automáticos de se realizar, salvo com o personagem fortão, que por sinal possui o golpe que a meu humilde ver consagra um beat em up: o pilão (pular ao chão com o adversário preso, invertido, entre as pernas). Ele possui dois agarrões: soco 2X + toque para a frente 2x = agarrão levantando e socando o adversário no chão; soco 2X + toque para baixo 2x, pilão. Já os demais personagens agarram fazendo um C ao contrário + soco. Outra ausência é o que eu tenho chamado de especial corporal (aquele feito pressionando soco + pulo, e que faz o personagem girar os braços ou algo assim). 
Apesar de tudo isso, na movimentação do game você acaba não sentindo falta de tais movimentos, que são supridos talvez pela mecânica de armas que se apanham na tela, das quais falaremos logo.
Um destaque do jogo são certamente as telas, que enfocam ao fundo lindas paisagens asiáticas - algumas são verdadeiras pinturas.



O game possui um mecanismo esquisito de avanços e retrocessos entre telas a cada fase. Um mapa indica para qual tela você deve rumar - ou retornar - para dar cumprimento à história do game. Como não podia deixar de ser, a cada final de fase você enfrenta um chefão, combate sempre precedido por diálogos, bravatas e até palavrões (alô, Disney!!! Alô, Mickey!! Alô, miseráveis!!!) entre você e o bruto/a da vez.
Durante seu avanço, você irá se deparar com armadilhas e percalços pelo cenário, como chuvas de flechas, "minas" explosivas, moitas de espinho e até avalanches de bolas de neve. E entre uma bordoada e outra trocada com hunos, você ainda enfrenta águias e até búfalos adestrados pelos caras. Nunca foi fácil pra ninguém.
As armas de mão do game são outro caso à parte. Você pode acumular sem limites armas como flechas, kunais, bombas de mão, lança-rojões (cabeças-de-dragão) e ainda pergaminhos de magia. Você seleciona o que deseja utilizar num botão específico, e é mostrado o quanto você possui de cada item. Dá pra acumular 100, 150 kunais, por exemplo! Os pergaminhos permitem desde invocação de um deus do gelo que libera uma linda sequência de raios nos calhordas, até um que confere maior força e velocidade ao seu personagem, facilitando a atividade de moer mongóis (ops, perdão: moer hunos). 

Mas o melhor, ao menos para mim, de todo o jogo (não apenas o melhor pergaminho, mas o melhor detalhe), é o pergaminho que lhe permite invocar um pequeno dragão vermelho, ilustrado em estilo cartoon, feito desenho animado do Nickelodeon. É a xerox do personagem Mushu, de Mulan. O dragãozinho, em pé sobre duas patas, fica simplesmente cuspindo fogo nos adversários. Com toda vontade. Ele bate e apanha como você. Junto com você. Tomba e se levanta, e continua a lutar sem cessar, um soldado e sua missão. Eventualmente morre feito você. Você acaba sentindo uma irmandade com o miserável do dragão antropomorfizado, uma simpatia (o camaradinha enfezado é muito carismático). Em algumas fases a tela realmente se enche de inimigos, e ele está ali, apanhando junto contigo, lutando, ombreando, fazendo frente. Quando você cresce e vê que os fliperamas ficaram na memória, os irmãos se foram em seu caminho, os filhos ou esposa não chegam juntos na jogatina e o que lhe resta mesmo é jogar SOZINHO, ah, você entende que todo beat tinha que ter um auxiliar desses!

O game é bem interessante, a distribuição de pancadas é inesperadamente agradável, e ele apresenta os já citados elementos pouco usuais ou mesmo inusitados para um beat em up, o que de alguma maneira acabam enriquecendo a experiência. Possui seus senãos, como a quase inevitável (até hoje, ao menos) repetitividade de adversários. E, na verdade, os próprios elementos díspares que o game possui, podem fazer o nariz de alguns jogadores conservadores se torcer.
De toda forma, o jogo é divertido tanto para aquele que desconhece a história de Mulan e da descarada cópia feita, quanto para aquele que conhece a trama do desenho e a tramóia cara-de-pau da Sonnori.
Que situação, hein? A Disney que lute! Com um sorriso cínico, Capitão, aquele chefe pinguim de Madagáscar (e da concorrente da Disney, a DreamWorks), nos diria "sorriam e acenem, rapazes. Sorriam e acenem". 
Bem, eu digo apenas andem e batam
É o que importa. 
O resto é história.

Sammis Reachers

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Viajando pela história e pelas culturas através dos... jogos beat 'em up!

 


O universo dos beat 'em ups, os nossos queridos, queridíssimos jogos de "andar e bater" ou "briga de rua", pode ser uma boa oportunidade de adentrar, ainda que pelo poder do murro e da espada, a outras culturas e períodos históricos - e aprender enquanto você se diverte! Aqui, um pouco sobre a origem e o embasamento histórico e literário de três desses jogos que, embora analisados em suas versões para arcade, tiveram ports para diversas plataformas.


Knights of the Round - No bem conhecido Knights of the Round (Capcom, 1991), desembarcamos nos anos iniciais da Idade Média, fins dos séculos V e VI d.C., assumindo a luta do Rei Arthur e sua Távola Redonda contra os saxões e outros inimigos. Uma luta alimentada por lâminas: além da encantada Excalibur, temos o machado do forte Percival e a espada com ares de cimitarra do charmoso Lancelot. O game, de grande beleza e característicos (e inesquecíveis) efeitos sonoros, encantou mais de uma geração. Eu era uma criança quando o vi num dos primeiros fliperamas em que entrei e aquilo, como diriam os antigos, calou fundo em minh'alma. De quando em quando o jogo mais uma vez, o que não faço comumente com outros do gênero... 

Até hoje não se sabe se o Rei Arthur realmente existiu; sua lenda proliferou no final da Alta Idade Média, a partir do século X, em obras como Anais de Gales, ou na História dos Reis da Bretanha, de Godofredo de Monmouth, revivendo - com variações, invenções e ampliações - ao longo de muitos séculos e até os dias (e jogos) atuais, pelas mãos dos mais variados autores.

 

Warriors of Fate (Capcom, 1992)  - É baseado numa histórica mítica (meio fato, meio lenda) chinesa. A narrativa é relatada no imenso Romance dos Três Reinos, obra chinesa do século XIV, de autoria do dramaturgo Luo Guanzhong (e no mangá Tenchi no Kurau), e que já rendeu muitos jogos. Em Warriors of Fate você assume os punhos e lâminas de nada menos que cinco guerreiros/generais lendários, que precisam defender a China num tempo de divisões e conflitos entre senhores feudais. O jogo possui cenários e sistema muito parecidos, ou derivados, de Knights of the Round, mas aqui o ano baila pelas cercanias de 180/280 d.C., e a antiga cultura chinesa, com seus objetos, armas e paisagens, dá o tom. Os cinco personagens (já algo inusual nos beats) possuem golpes variados e amplos, sendo um dos muitos pontos fortes do jogo. A narrativa de fundo entre as versões japonesa (original) e americana muda, algo tão comum quanto sem sentido na época. Eram os tempos da Barbária! No somatório, este jogo entra no TOP 10 dos melhores beat 'em ups de toda a velha guarda. Se nunca jogou, já deu tempo!

Warriors of Fate é um tipo de continuação do game Dynasty Wars (1989), um esquisito beat 'em up/shooter a cavalo, e que não lembra em quase nada o irmão mais novo. De toda forma, se está à toa, vá lá tomar umas flechadas.

Sobre mais passagens da história da China em beat em ups, jogue também Legend of Heroes (guerra contra as invasões dos hunos) e Knights of Valour 1 & 2 (ambos sobre a mesma temática e personagens de Warriors of Fate, dando a impressão de que os 5.000 anos de história da China não são assim tãããoooo movimentados. Ou é preguiça dos desenvolvedores.).


Arabian Magic (Taito, 1992) - Um jogo pouco conhecido dos aficionados de beat em ups, pois não foi comum nos fliperamas por aqui. Agora desembarcamos na Mesopotâmia, ou melhor, em toda a extensão do Oriente Médio mítico. Toda a riqueza visual da cultura islâmica pode ser vista nos cenários e imagens. Por ser usualmente contrário a representações pictóricas de seus personagens, o Islã desenvolveu uma arte toda especial, baseada em traços artísticos geométricos e abstratos (por isso chamados de "arabescos"), e tal arte de grande beleza pode ser vista em muitos dos cenários do game. O jogo possui a pegada de As Mil e Uma Noites, a imensa coleção de narrativas árabes e sul-asiáticas compiladas a partir do século IX d.C., e de onde vieram, por exemplo, Aladin, Simbad o Marujo e Ali Babá e seus Quarenta Ladrões. Inimigos formidáveis, lâmpadas mágicas e seus gênios, tapetes voadores, armadilhas... A imersão é total. A cada grande chefão vencido (na verdade libertado) você passa a poder utilizá-lo em invocação (é o especial do jogo) nas próximas fases, que avançam até que você logre libertar o seu rei, que fora transformado num macaco. 

Na mesma linha de temática da antiga Arábia, e do mesmo ano (1992), temos o beat 'em up Arabian Fight, da Sega. Vale também a sua conferida.


E aí, você sabe de mais algum beat 'em up que se enquadraria em nossa lista? Tem que ser retro e tem que ter rolado em arcades. Se souber, comente aqui!

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Sammis Reachers

Professor de Geografia e História por profissão, escritor, poeta e editor por vocação e retrogamer por diversão e, claro, um mui sadio saudosismo. Colaborador da Revista Muito Além dos Videogames. 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Estranho horror na senzala da Fazenda Colubandê

 


Como professor de História, tendo que trabalhar com duas matrículas para sobreviver (nos municípios de Itaboraí e São Gonçalo, ambos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro), nunca me sobrava muito tempo para nada. Os períodos de férias eram aguardados como o dia de um parto; sua espera era mesmo uma pesada gravidez.

A certa altura de minha vida e carreira, se é que posso utilizar esta última palavra para designar minha lide de historiador e docente, resolvi me dedicar a alguns projetos de cunho particular, pesquisas de variado âmbito, retomando uma atividade que infelizmente só havia realizado quando de minha formação como historiador, nos tempos ainda mais magros de corredores da Unirio e seu bandejão lotado.

Um de meus projetos era fazer o levantamento de alguns pontos históricos dos municípios de São Gonçalo e Itaboraí. A ideia era elaborar uma proposta de roteiro turístico conjunto envolvendo os pontos de interesse desses municípios limítrofes, com o diferencial de um forte embasamento geohistórico, correlacionando pontos, famílias e eventos, buscando, dentro do possível, sintetizar uma coesão temática e temporal que lhes conferisse relevância e atratividade. Algo, por sinal, nunca feito sobre os patrimônios geohistóricos de tais depauperadas municipalidades.

Num de meus períodos de férias, no ano dois de minha pesquisa (que, é forçoso afirmar, corria por minha conta, e ao sabor dos ventos de minha intermitente disponibilidade, disposição e recursos), resolvi retornar à Fazenda Colubandê, ponto histórico de São Gonçalo. A fazenda, com sua casa grande, capela e uma senzala subterrânea, é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e possui uma história agitada de trocas de donos – cristãos novos, jesuítas, um militar barão e sua descendência – com toda a carga de traições e mistérios que esse tipo de dinâmica sucessória pode envolver.

Já estivera por algumas vezes na fazenda. Mas me ocorrera uma ideia de algum espalhafato: ir até lá durante a noite. Sim, pois imaginara a elaboração de um roteiro turístico noturno contemplando tal ponto, uma espécie de imersão na realidade da escravidão, com o adicional da experiência à luz de tochas e velas – com direito a encenações, cantorias e tudo o mais. Assim, mesmo ciente dos riscos, pois o tráfico de drogas estava já espalhado por quase toda a São Gonçalo, e a fazenda, que já fora uma base da Polícia Florestal em tempos recentes, estava agora abandonada – lá fui eu para a minha aventura.

Eu aparentemente escolhera a noite certa: A temperatura era agradável e, num céu límpido, uma Lua minguante aquarelava tons interessantes ao lugar. Eu avançava elucubrando enquadramentos e cenas para já compor um provável vídeo de divulgação do roteiro turístico.

Ao descer para a antiga senzala, que espraiava-se numa espécie de porão, iluminava a trilha com a lanterna de meu celular, sempre imaginando-me na pessoa de um turista que ali descesse pela primeira vez. Ao fundo daquele recinto, enquanto mirabolava possibilidades cênicas, percebi uma presença: um homem assentado no chão, talvez sobre um toco de madeira ou algum tijolo. Ele tinha a cabeça curvada, parecendo dormir. Pelos trajes rotos, me pareceu ser um morador em situação de rua, um sem teto ali abrigado. Fiz menção de retornar, aproveitando que ele parecia absorto em seu sono, para não aborrecê-lo e para poupar-me de qualquer dissabor ou perigo adicional, naquela incursão temerária.

Ao principiar minha meia volta, ouvi em rajada um “bom dia boa tarde boa noite bom homem”, assim, em fluxo. Virei-me e, ao iluminar o rosto de meu interlocutor, faceei uma expressão de riso e pacífica loucura. Cabelos desgrenhados e já mais brancos do que castanhos, olhos arregalados e com aparência de maiores que o normal – se há normais dentre os olhos. Um sorriso largo e algo debochado completava a certamente ensandecida personagem.

– Me perdoe amigo, não queria lhe acordar, não vim fazer mal. Sou historiador e estava fazendo uma pesquisa – vociferei, como uma criança amedrontada diante dos pais.

– Eu não estava dormindo, apenas esperando. Vim em busca de um velho amigo, que conheci aqui neste buraco. Um negro do tamanho dessa noite aí fora... Eu tenho algo para lhe devolver, mas ele teme nosso reencontro. Meu nome é Cambizo.

– Perdão senhor... Cambizo, não é? Eu não sabia que havia alguém aqui. Pode continuar a dormir, eu já estou indo embora, boa noite.

– Espere, tenho uma troca a lhe oferecer. Como você, eu também sou fascinado pelo tempo. É quase minha comida – disse, com um rictus de aparente ironia em seus lábios, o ainda mais surpreendente “maluco”. Imaginei que era mais um morador de rua enlouquecido, e talvez não fosse me oferecer perigo; eu era bem mais jovem do que ele.

Enquanto refletia, estaquei um instante entre os impulsos contrários do ir e do permanecer. Fechei os olhos um instante, já despido do grosso do medo, mas agora confuso pela curiosidade. Ao reabri-los, o homem que estava sentado há uns cinco metros de mim estava agora em pé, há menos de cinquenta centímetros de meu corpo.

– Baratinha do tempo, o tempo é tudo o que temos, o tempo é tudo o que somos – e me tocou.

Senti uma vertigem imediata. Estiquei instintivamente o braço esquerdo, tentando alcançar uma parede para apoio, mas não a encontrei. Flashes pipocavam e eu não sabia se eram em meus olhos ou em minha mente. Nessa vertigem, ainda pude observar algo que não notara, seja pela posição em que estava o indivíduo, seja pela cobertura da penumbra: Cambizo possuía diversos relógios afixados em ambos os braços, relógios de pulso, de variados modelos, alguns aparentando antiguidade e amarrados por barbantes ou finas cordas... Enquanto rodopiava tentando fixar aquele detalhe macabro, ainda divisei aquele ermitão citar, como quem cantarola: “Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado”. Era um versículo bíblico?, eu me indagava; minhas pernas perderam as forças e eu desabei.

Ao despertar, eu estava sozinho naquele chão húmido. O celular, caído, iluminava o baixo teto da antiga senzala.

 

... ... ...

 

Após o horror, em rescaldo, considerei vantagem enorme, fosse aquilo o que fosse, o ter rejuvenescido.

No entanto, os dias se acumulavam e eu não sabia o que fazer, a quem falar. Trancara-me naquele apartamento de que eu tinha tão poucas lembranças. Pois o espelho, que me dera a surpresa alegre, logo me intuíra do furto: havia de repente não um detalhe – uma chave de porta perdida, uma nota de dez reais que esquecera em algum bolso, uma data de aniversário cara ou que o deveria ser – havia um vácuo, uma obstrução cognitiva causada pela ausência ou profusão de ausências de memória, de experiências. Eu estava mais jovem, sim, mas não era mais eu.

Eu não estava, assim me parecia com grande, inamissível premência, uma “tábula rasa” a ser livre e graciosamente reescrita; não recebera uma chance milagrosa de re-começar a vida: eu era um frangalho, uma coleção de carências, uma lacuna (des)articulada por lacunas.

Inane, refém de uma inanição existencial, me transformara numa anomalia antropocronológica. A realidade, o que quer que ela seja, ganhou uma outra textura... perdeu consistência, e era então, ou então mais do que nunca, um tecido podre.

Nos dias seguintes, mesmo embotado pela lacuna de memórias, como num surto de alzheimer aleatório, pude reconstruir parte de minha vida e as ações de meus últimos dias graças à abençoada prática de redigir diários. Consultando-os, pude tecer este relato.

Não sei o que acontecerá daqui em diante; mas o absurdo, a flatulência do inverossímil que o universo lançou em meu rosto, precisa ficar relatado. Mesmo erodido, traído pelo tempo, ainda sou um historiador.

Pensei em contatar meus parentes distantes, e mesmo alguma autoridade. Mas a possibilidade de ser internado como louco me horrorizava. E seu eu estivesse realmente louco? Abandonei o emprego na docência municipal, não atendia mais o telefone. Um dia uma pessoa veio bater à porta, à minha procura, uma pessoa que eu não conhecia ou, mais acertadamente, de quem não me lembrava. Ela notara minha semelhança com o “eu” envelhecido. Disse-lhe que eu era um primo tomando conta do apartamento, e que o “eu” a quem ela procurara precisou fazer uma viagem às pressas para Itabapoana, para realizar o funeral de um ente querido e resolver assuntos de herança. Passei a ter medo da reação das pessoas a esse outro eu, a esse não-eu que aquele homem ou demônio (in)criara.

Retornei àquela senzala noutra noite e noutra noite e noutras mais à procura daquele ser, diabo ou sonho que fosse. E foi sempre vã minha caçada. Seu nome, “Cambizo”, não retornava em minhas buscas, negava referências em bibliografias virtuais ou impressas que consultei.

Meu quadro de desmemoriação e inadequação geral piorava. Cessei de procurá-lo, para tentar entender ao menos o que me acontecera. Em meio a toda aquela angústia, retomei o estudo do tempo. Agostinho, Kant, Teilhard de Chardin... Confrontando a obscura frivolidade das teorias com a amarga realidade que me esmagava, cheguei a algumas conclusões embaraçosas.

O tempo não nos pode ser devolvido e nem dividido (existir independentemente) de nós. E não podemos ser reinseridos no fluxo do tempo pois somos esse fluxo: Fios de um tecido. Quando cortado o fio, o tecido ganha um buraco, um buraco que não devia existir e que nada pode remendar.

Sinistramente não vivemos no tempo, mas o que vivemos é o tempo; o casamento entre o pretenso fenômeno “físico” do continuum espaço-tempo exterior e independente, e a fenomenologia de minhas internas percepções e vivências, de meu ser-aí, ser-no-tempo, como se eles fossem duas coisas diferentes que se combinam, é ilusória.

Refém de uma angústia avassaladora, tudo que minha frágil razão reprisava era: não há tempo fora de mim, não há tempo fora de mim, não há tempo fora... Aquele demônio, ao me rejuvenescer, não me dera, mas roubara-me vida!

Somos tempo e tempo vivido, pois o tempo vivido, experienciado, realizado, é todo o tempo que existe; assemelhando-se a uma construção subjetiva, é afinal a realização máxima da realidade, tão sólido quanto um tijolo. Tijolo, no meu caso, do qual lascas haviam sido arrancadas, e não se pode, agora entendo e temo, repô-las.

Tal impossibilidade de repor o tempo perdido ou roubado – pois se meu corpo e mente rejuvenesceram, eu não poderia continuar simples e perfeitamente, a partir deste ponto, minha (agora nova) vida? – é perturbadora e fala de sacralidade, de destinação. Como se o tempo fosse uma dádiva contada e confiada a cada ente vivo, como moedas numa sacola; moedas que, de alguma forma, aquele demônio me roubou.

Assim, no tempo não há subjetividade, pelo menos não como estamos acostumados a pensar o conceito de subjetividade. Mas sim materialidade e pessoalidade, pois somos o eixo sobre o qual ele se realiza. Só há tempo se há algo que o sofra, o realize, e isso, por paradoxal que seja, não é uma percepção subjetiva, pois o meu tempo me fora roubado!, e não há ideia que se furte.

Sinto meu ser como que esvair-se neste momento mesmo em que escrevo; é um estado nauseante de embriaguez, um torpor como que narcótico. O furto do vivido, o roubo do meu tempo, do meu ente realizado no fluxo, não foi certamente completo – ou eu teria expirado no chão frio daquela senzala. Mas muito me fora tirado, e quem sabe o quanto me resta?

 Sammis Reachers



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).



sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Novo livro de Sammis Reachers para download: RENATO CASCÃO & SAMMY MALUCO

 

Nesta obra, memória e humor se entrelaçam para narrar divertidíssimas histórias da infância de dois jovens criados num subúrbio de São Gonçalo (município da região metropolitana do Rio de Janeiro), nos duros anos da década de 80. Relatos de perrengues e peripécias, marcados pela humanidade, o bom-humor e a irreverência da prosa de Sammis Reachers, dão conta de duas pequenas vidas que poderiam ser as vidas de quaisquer moleques daquele tempo, dada sua universalidade. 

O livro é ilustrado e possui 114 págs.

O livro em pdf pode ser baixado GRATUITAMENTE, clicando AQUI.


O livro também está disponível na versão impressa, ao preço de 25 reais (o valor já inclui o frete). Caso queira adquirir, me envie um e-mail o quanto antes, pois a tiragem inicial foi bem pequena:  sreachers@gmail.com

O lançamento do livro impresso acontecerá oficialmente durante a terceira edição do FLISGO, o Festival Literário de São Gonçalo (dia 21/11, às 14h). O evento reunirá expositores literários, atividades e atrações culturais diversas, e irá dos dias 19 a 22, das 10h às 19h. O endereço é o Conjunto Residencial Venda da Cruz – Minha Casa Minha Vida – Antigo 3º. Batalhão de Infantaria, Venda da Cruz, São Gonçalo, RJ

terça-feira, 12 de outubro de 2021

A Concha Azul - Mistério, Aventura e Pirataria na Baía de Guanabara, um conto de Sammis Reachers


Um conto de fantasia histórica e mistério tendo por pano de fundo a Baía de Guanabara dos séculos XXI e XVIII. Uma concha enigmática arroja três mergulhadores da Petrobrás a séculos no passado - para uma aventura que lhes custará praticamente tudo.

Transformei este conto num pequenino e-book, de vinte páginas. Você pode baixá-lo (em formato PDF) pelo Google Drive, CLICANDO AQUI.

Ou pode ler o conto aqui abaixo.


A Concha Azul

 

Mistério e aventura

na Baía de Guanabara

Os oito mil reais mensais auferidos por seu trabalho como mergulhador da Petrobrás permitiam a Juliano oferecer uma muito cômoda vida à sua família. A profissão de mergulhador, para além disso, o levara a conhecer quase meio mundo. O regime de trabalho, por plantões, lhe permitia muito tempo livre, que dedicara ao seu crescimento pessoal, com viagens e duas graduações – em História e Filosofia – que ele fizera apenas pelo prazer da realização intelectual.

Nos últimos tempos Juliano estava à frente de uma pequena equipe especializada em realizar sondagens e pequenos reparos em plataformas petrolíferas, mas já não indo até elas: elas é que “vinham” a eles. A Petrobrás passara a ancorar plataformas petrolíferas a serem consertadas ou aprimoradas dentro da Baía de Guanabara – dita Iguaá-Mbara pelos primeiros índios que habitaram seu entorno – o que permitia aos mergulhadores daquela equipe privilegiada não ter que viajar constantemente.

Numa dessas missões, a equipe se dirigira para o litoral da cidade de Niterói, um dos sete municípios que compõem o circuito litorâneo da Baía. A bordo de uma pequena lancha, amparados por uma equipe de três tripulantes e um engenheiro naval, os três mergulhadores submergiram próximo aos bairros niteroienses de Boa Viagem e Gragoatá, local onde estava fundeada a plataforma que seria avaliada.

Os mergulhadores iniciaram as inspeções de rotina, observando coluna por coluna de sustentação dos flutuadores daquela imensa estrutura metálica semissubmersível. Foi quando, na terceira das colunas vistoriadas, o mergulhador experimentado que encabeçava a equipe viu aquela concha. Azul rutilante entre o caos calcário das cracas e algas, aquilo era uma impossibilidade mineralógica intuível até por um leigo. Era mesmo como se aquela concha, dentre a profusão turva de dejetos, pulsasse. Juliano fez sinal para Edvaldo, que carregava sua máquina fotográfica padrão. Deixando seu afazer, aproximou-se e fotografou a concha. Fez um sinal de OK com os dedos para Juliano, que sorriu para si dentro de seu snorkel. Belíssima foto.

Enquanto Juliano e Edvaldo se comunicavam por sinais, o terceiro membro da equipe, Mauro, que fora alertado pelo flash da máquina fotográfica, se aproximou da esplendorosa carcaça do crustáceo, e puxou-a.

Não se saberá jamais se foi o simples toque naquele objeto, ou se o fato dele ter sido arrancado da cracaria o que deflagrara um tipo de gatilho: um clarão azul inundou o entorno, fremente como uma onda de choque, adensando por um instante a água com seu pulso, cegando e atordoando os três mergulhadores. Após dissipar-se, não havia mais turbidez maculando a água, agora límpida. Junto com a poeirenta fuligem marinha, desaparecera a própria plataforma.

- O que você fez? – gritou Juliano pelo rádio. Mauro, desnorteado e com a concha nas mãos, não podia falar, e com a mão livre fez sinal de espalmá-la na horizontal, como quem diz “não sei!”

Edvaldo, após olhar em todas as direções, comunicou o sumiço da plataforma.

- A plataforma sumiu! Será que a explosão nos lançou para longe dela?

Mas aquela explosão fora mais de luz do que de ondas de choque. Juliano instintivamente apertou com mais força a coronha de seu arpão.

A tentativa de comunicação via rádio com a superfície redundara apenas em silêncio. Sequer as mudanças de frequência do rádio davam algum sinal. Juliano, líder da equipe, fez sinal para o grupo emergir.

Além do espelho d’água, uma paisagem arcana, feita de azuis e matas intactas, os saudara. Nenhum navio, nenhum edifício. Um horror frágil e desconcertante tomou conta dos mergulhadores, emudecendo-os.

Ao longe, divisaram a luz de uma fogueira, que ardia apesar do sol que ainda brilhava naquele final de tarde. Juliano fez sinal para que eles avançassem para a praia.

Mauro, menos experiente, não se conteve:

– Juliano, o que está acontecendo? Fomos jogados pra longe? Cara, olhe para o outro lado da baía!!!

Somente então, alguns minutos depois de emergirem da deflagração daquela singularidade que os atordoara, puderam divisar à distância o contorno do Pão de Açúcar. Se não havia respostas, tampouco dúvidas restavam: estavam no mesmo lugar em que haviam mergulhado, às margens da praia de Gragoatá, em Niterói. Mas o contorno da orla estava diferente: a praia era muito mais longa, pois os imensos aterros que expandiram a região do centro de Niterói, mar adentro, inexistiam; o pequeno Forte do Gragoatá, única construção visível naquelas margens verdejantes, estava algo diferente, derramado por sobre uma grande pedra. Nenhuma sentinela ou vivalma que fosse era visível por sobre as amuradas. O que era tudo aquilo?

Do outro lado da baía de Guanabara, o que fora ou seria um dia o Rio de Janeiro refulgia em seu esplendor de rocha e mata. Praticamente nenhum prédio, nenhum construto humano era visível.

Um breve diálogo de horror se estabeleceu e morreu entre os três mergulhadores. Se não havia respostas, havia a fogueira, sinal humano, e onde há homens há esclarecimentos – ou ao menos essa era a intuição que lhes animava.

Ao aproximarem-se um quilômetro mais daquela grande fogueira, notaram figuras humanas em seu derredor. Avançando agora em cautela, logo perceberam que eram indígenas. Índios aprisionados. Em torno de 15 indivíduos, dentre aparentemente homens, mulheres e crianças, estavam de pé, e amarrados com uma mesma e longa corda, que lhes cruzava os pulsos e pescoços, formando uma sinistra corrente humana.

O relevo sobre o qual os mergulhadores avançavam margeava em curva a linha do litoral. A princípio se perguntaram o porquê de os aprisionados não se moverem, ou buscarem escapar. Mas ao seguir sua marcha em curva, logo receberam, dum único golpe, as respostas àquelas dúvidas. A alguns metros do grupo indígena que circundava a grande fogueira, seis indivíduos brancos faziam guarda, quatro em pé, dois sentados, aparentemente manuseando seus armamentos. E, na ponta de seu campo visual, viram um grande navio, velha caravela de escura madeira.

Os três abrigaram-se sob a capa de um arbusto e debateram sobre o que fazer. Edvaldo falou que estava claro que haviam viajado no tempo. Mauro apenas ria e chorava de nervoso. Juliano, o silencioso líder, soltou alguns resmungos e disse que poderiam estar talvez numa outra dimensão. Falou também o que deveriam fazer: Esconder o máximo possível de apetrechos e trajes que causassem estranhamento naquelas pessoas, e avançar até elas, contando alguma história sobre serem de algum povo do interior, fruto talvez de uma incursão de algum desbravador português. Sim, pois certamente aqueles eram portugueses; e estranhariam o sotaque dos três desterrados do tempo ou do espaço multidimensional.

Ao aproximarem-se ainda mais, sempre às ocultas, o experimentado Juliano julgou ouvir alguns gritos. Observando, percebeu que um dos brancos gritava ordens a um outro, fora do campo de visão, talvez vindo da direção em que estava fundeado o navio deles. Uma nova pausa, enquanto ouvia atento, foi seguida de um novo descarte de impropérios e palavrões. Juliano ouvira bem diversas das palavras gritadas, mas nenhuma delas soava em português. Se não compreendeu perfeitamente o que era falado, ao menos a língua ficou logo clara, a velha língua dos francos. Eram franceses aqueles captores de indígenas. O líder da equipe falava algo da língua, de quando trabalhara na Líbia, no início de sua carreira como mergulhador. Mas havia algo diferente dos diversos sotaques franceses com que lidara naqueles quase nova anos de trabalho: aqueles indivíduos eram falantes de um francês acobreado, crioulo, um francês calcinado pela maresia.

O mergulhador soltou mais alguns palavrões.

Na verdade, era o historiador nele quem vomitava impropérios, pois, passado o primeiro susto, um horror mais calmo se estabeleceu, uma fagulha de compreensão.

Juliano se graduara em História e era bom leitor, mas não um especialista naquele período. No entanto, as vestimentas daqueles prováveis franceses, a forma com que caçoavam uns dos outros, enquanto bebiam o líquido rubro de algumas garrafas, possivelmente algum destilado, levou Juliano a sugerir que se tratavam na verdade de piratas.

Nesse caso, o risco de uma aproximação era muito maior. Bem fariam em dar meia volta e procurar alguma povoação, ou simplesmente tentar a sobrevivência em meio à mata, pois a noite já descia seu véu negro sobre a paisagem.

Juliano bem sabia que a Baía de Guanabara é cercada por fortes. O Forte do Gragoatá, embora um pouco diferente do que ele conhecia, ali estava como prova. Eram o instrumento de defesa – nem sempre efetivo – contra incursões de conquistadores ou corsários.

Tudo de que ele se lembrava era que aconteceram ao menos duas grandes incursões de corsários franceses seguidas na Guanabara, a primeira sendo rechaçada, o que induziu o governo colonial a erro acreditando que as fortalezas que guarneciam a entrada ou barra da baía eram inexpugnáveis; no ano seguinte, uma armada mais poderosa em homens e em armas, e chefiada por um pirata de maiores capacidades, de cujo maldito nome Juliano não conseguia se lembrar, apanhou a cidade de calças arriadas, e permaneceu aqui certo tempo, só saindo após obter duro resgate.

Só agora ocorria ao historiador que nada aprendera sobre alguma eventual chegada dos franceses à Vila Real da Praia Grande, a que hoje é Niterói. Mas seria natural que, em busca de saques e de debelar focos de resistência como aquele forte, eles chegassem ao outro lado da Baía, sendo tão próximo da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Seriam assim aqueles lobos do mar membros da armada que tomara a cidade do Rio?

Enquanto confabulavam, Juliano mantinha o olhar fixo na movimentação daquela clareira. Foi quando percebeu que um dos indígenas, aparentemente um idoso, devido aos seus longos cabelos brancos, estava virado na direção em que eles se encontravam, e parecia mesmo observar fixamente aquela posição. Mesmo a boa distância, esse breve momento de cruzamento de olhares fez o velho, que tinha como os demais as duas mãos amarradas à frente de seu corpo, abrir uma de suas mãos, de onde deixou escapar um fulgor azul de grande singularidade. Era a concha! A concha que os jogara naquele pesadelo brilhava nas mãos do índio que dera as costas aos franceses e parecia ter certeza de que alguém estava ali, naquela mata, observando-os.

Havia algo familiar no olhar daquele ancião. E havia algo de sinistro no fato dele não suspender os olhos que pesavam sem cessar sobre a figura de Juliano – e como que apenas sobre a dele.

Agora o mistério ganhava novas cores; melhor, uma única e fulminante cor azul, uma concha ou gema ou olho-do-diabo ou que diabos fosse que tinha ou precisava ter a resposta. A explicação para tudo aquilo poderia esperar, mesmo que pelas eternidades. Mas era preciso apossar-se da concha; ela os lançara naquele sonho-pesadelo, e talvez fosse a porta de saída. No entanto, para isso talvez fosse necessário não apenas aproximar-se mais do grupo de índios, mas provavelmente libertá-los – pois o velho exibira a concha como um chamariz –, o que aconteceria não sem luta contra aquele corpo de piratas, que eles sequer sabiam quantos eram. O que quer que fosse toda aquela desgraça, a maldita concha era o graal a ser reconquistado.

Edvaldo, exausto, propôs que esperassem o dia seguinte e o andamento da situação, para analisar uma melhor maneira de proceder. Mas a questão era clara para Juliano: eles estavam favoravelmente próximos do pequeno acampamento pirata, e a noite já caíra. Era preciso se aproximar e soltar os índios, e apanhar a concha daquele estranho personagem, e se necessário fosse, dar cabo daquelas brancas ratazanas do mar.

Juliano perguntou se algum de seus companheiros já havia matado alguém. Espantadas, cabeças balançaram-se lateralmente em resposta. De toda forma, ambos foram militares antes de optarem pela mais rentável profissão de mergulhadores civis da Petrobrás. Ao menos possuíam treinamento militar.

*    *      *

 

O trio esperou por horas até que a maior parte dos franceses de guarda adormecesse.

Ao perceber a aproximação do grupo, o velho, como quem já aguardasse aquele movimento, cutucou alguns dos outros índios que lhe estavam próximos, acordando-os. Com sua faca de mergulho Morakniv, por acaso comprada numa loja de militaria nesta mesma futura cidade de Niterói, Juliano cortou primeiro as cordas de seu pulso. Rapidamente outros foram desenlaçando-se.

Enquanto isso, os dois vigias que montavam guarda mais próximos aos indígenas foram alcançados pelos demais mergulhadores. Edvaldo não hesitou em cortar, mesmo desajeitado, a garganta do francês, adormecido sobre uma pedra de granito.

Foi o jovem Mauro, mais uma vez, quem pôs tudo a perder. Ao aproximar a faca da garganta do embriagado francês, Mauro cometera o erro de puxar primeiro sua cabeça, agarrando-o pela farta cabeleira, como se desejando melhor expor o alvo de sua navalhada. Aquilo foi o suficiente para o pirata despertar em susto e em ação, dirigindo um soco para trás, que, embora pegasse de raspão no rosto de Mauro, lhe atrapalhou o movimento de corte. O que se seguiu foi uma luta corporal, barulhenta pelos gritos do francês.

Juliano foi pego de surpresa pela gritaria; estava absorto e algo desesperado não tanto em libertar os demais indígenas, mas em inquirir, mesmo sem palavras, ao velho índio que aparentemente, ao abrir as mãos, não mostrava mais a maldita concha. Outros gritos em francês se fizeram ouvir à distância. Agora era tarde para dar atenção ao velho. Gritando, Juliano alertou Edvaldo:

– Apanhe a espada do francês e vá ajudar Mauro! Depois recuem!

De posse da gasta espada do corsário que abatera, afoito e tremendo pelo desespero da situação, Edvaldo lançou-se sobre os dois corpos que se engalfinhavam na escuridão, atravessando a barriga do francês bem à direita de seu umbigo, mas causando um pequeno talho num dos braços de Mauro.

O primeiro clarão espocou pela noite da Guanabara, detonado a partir do bacamarte de uma sentinela dos sicários.

Dando a mão ao igualmente trêmulo Mauro, Edvaldo o puxou para junto de si e ambos correram em desabalada carreira em direção a Juliano e alguns indígenas. A maioria dos quais havia fugido, mas sete deles permaneceram e, apanhando paus e pedras, faziam menção de oferecer combate aos seus captores.

No entanto, em campo aberto e contra o fogo de bacamartes, a causa estaria perdida. Assim, Juliano, tocando o idoso e o forte índio de meia idade que parecia ser o líder daqueles que ficaram, apontou para um amontoado de arbustos a alguma distância, justamente de onde ele e seus companheiros vieram, antes de iniciar o assalto ao acampamento.

Agora eram já diversos os franceses que vinham em socorro de seus companheiros. Da mata, sem condições, pela geografia do lugar, de prosseguir na fuga, os fugitivos espreitavam o avanço dos franceses.

Nesse entrevero, Juliano, sempre perseguido pelo olhar severo do velho, que talvez fosse um pajé, pelo diferenciado de plumas que tinha enfeixado em pulseiras em seus braços, apanhou a mão do ancião e fez o movimento que o mesmo fizera antes, exibindo a concha à distância. Em resposta, o velho, que não emitia palavra, balançou a cabeça negativamente, enquanto Juliano se enchia de fúria. Num rompante, garroteou o pescoço do velho com uma de suas fortes mãos, enquanto seus olhos se cruzavam, uma vez mais, em silêncio. O velho não tentou se desvencilhar, e manteve sua expressão impassível, como que em desafio. Mas, daquele olhar firme, porém cansado, um brilho diferente refletiu a suave luz da lua minguante que abraçava os céus daquela noite fantástica. Eram lágrimas.

Foi então que Juliano sentiu o maior dos desconcertos. Havia algo de familiar naquele olhar mudo. Familiar o bastante para o fazer afrouxar sua pegada, e por fim soltar o velho.

Em meio à confusão, uma outra ação precipitada pôs novamente tudo em risco: vendo a aproximação de dois franceses, que se achegavam à posição em que se acoitavam, três dos indígenas, ao invés de aguardarem uma maior proximidade, lançaram-se em ataque sobre a dupla, emitindo gritos de guerra. Dois deles atiraram pedras, uma das quais logrou atingir o ombro de um dos corsários, mas o golpe foi impotente para derrubá-lo ou tirá-lo de combate. Em resposta, os franceses dispararam suas garruchas, atingindo um dos atacantes. Sacando logo suas espadas, os navegantes habituados a sangue rapidamente perfuraram os dois indígenas da vanguarda, cujos paus foram impotentes para impedir os golpes fulminantes dos floretes.

Apanhados pela ação temerária dos índios, Mauro e Edvaldo lançaram-se em socorro aos companheiros. Uma batalha de floretes, paus e socos se seguiu; ao custo de mais uma vida indígena, e um belo corte na perna de Edvaldo, os piratas foram sobrepujados.

Mas agora sua posição estava descoberta; pelo menos quatro outros franceses avançavam sobre o grupo formado pelos dois mergulhadores e o indígena restante. Era tarde demais para recuos; Juliano despediu-se de entre as moitas em direção aos seus companheiros, ansioso por chegar a um dos corpos franceses – e a uma das espadas, pois tudo que portava era uma faca – antes da aproximação dos demais atacantes.

Por sorte, apenas um elemento dessa nova leva de piratas portava uma garrucha, que disparou a esmo, sem acertar ninguém. Juliano, alcançando um dos corpos, apanhou a espada e cerrou fileira, lâmina em punho, ao lado de Mauro e Edvaldo, como três desmazelados ou ao menos improvisados mosqueteiros. O índio que os acompanhava apanhou um pedaço de pau; outros dois indígenas que seguiram Juliano logo se juntaram ao corpo de resistentes, um deles apanhando também uma das espadas. O velho, débil demais para combater, ficara sob a cobertura das moitas.

A luta que se seguiu, talhada pela penumbra, foi marcada pelo despreparo dos mergulhadores no manejo da espada, o que foi suprido pela fúria dos indígenas, que lutavam com um furor surpreendente, como se fossem vikings ou guerreiros berserkers normandos. Corsários, indígenas e aqueles viajantes temporais, dimensionais ou egressos do sonho se engalfinharam num amontoado de faíscas, gritos e sangue.

Dos mergulhadores, o primeiro a tombar fora Edvaldo; sua barriga fora rasgada. Sentindo uma dor excruciante, caíra ao chão enquanto segurava tecidos pegajosos e quentes – suas vísceras. Impossibilitado de levantar-se, era pisoteado pelos combatentes, e enquanto o tempo transcorria ele se espantava, segundo a segundo, do fato de que ainda não morrera. Se era um sonho tudo aquilo, ele não devia ter acordado?

Apoiado por dois dos indígenas, que se atracaram a um dos franceses, Mauro conseguira desferir uma estocada certeira no rosto de seu oponente; mas a inexperiência em batalha o fizera baixar a guarda, acreditando estar vencido o inimigo. Avançando como um touro, mesmo tendo um dos índios agarrado em seu cangote, antes de tombar sem forças o ferido francês estocou de raspão o pescoço de Mauro, cujo sangue passou a jorrar. Empapado pelo sangue que mal podia divisar num momento em que nuvens cobriam a fraca luz da lua, Mauro cruzava finalmente a tênue linha vermelha que separa a sanidade da loucura.  Desnorteado e gritando palavras desconexas, pensava apenas em fugir. Retornar ao mar, mergulhar em busca daquela estranha concha, aquela que deflagrara o clarão. E foi o que fez: correu para a praia, correu em busca do mar que nunca esquece os seus. Seu sangue esvaía-se como petróleo ruim, fino, enquanto as águas já lineavam seus joelhos. “A concha, a concha!”, gritava enquanto misturava seu sangue com a água salgada; a concha que ele morreria antes de encontrar...

Ocupado em duelar contra o último dos franceses em pé, Juliano nada pôde fazer pelo amigo; enquanto mais dois franceses se aproximavam, nosso involuntário libertador de escravos contabilizava as baixas: seus dois companheiros aparentemente se haviam perdido; dos seis indígenas combatentes, apenas dois deles estavam ainda em pé, um deles amargando uma profunda ferida na costela, enquanto, armado com um florete, fazia cerco ao francês. Aproveitando o momento de pausa, enquanto os quatro combatentes se mediam, Juliano apanhou mais uma espada, ocupando agora suas duas mãos. Era preciso eliminar aquele francês antes que os outros chegassem ao teatro de batalha; imediatamente avançou contra seu oponente, sendo seguido pelos dois indígenas. Aproveitando-se das duas espadas, após o primeiro ataque, a título de distração, executou um movimento em forma de X, recebendo – como imaginara – o contra-ataque do francês, prendendo momentaneamente sua lâmina. O suficiente para um ataque do indígena, que, se errou seu golpe, ao menos distraiu o oponente o suficiente para que Juliano lhe apunhalasse no peito.

À distância, um dos franceses que acorriam em socorro de seus comparsas, armado com um bacamarte, ajoelhou-se para fazer pontaria e disparou. O instintivo grito de “abaixem-se” de Juliano não surtiu efeito algum sobre seus companheiros, falantes talvez de alguma língua do tronco tupi-guarani; um deles foi atingido. O outro dos franceses, armado de uma garrucha, seguia avançando, enquanto seu companheiro parecia estar já recarregando a arma.

Era o momento da verdade; apanhando as duas espadas numa única mão, Juliano arremeteu contra o francês, correndo à toda, no que foi seguido pelo índio que sobrevivera.

A certa distância, enquanto o francês tentava fazer pontaria enquanto corria, Juliano aproveitou sua mão livre – para isso a deixara vaga – para lançar sua faca de mergulho como um dardo em direção ao seu oponente. A faca acertou o gorducho pirata num dos braços, por sorte o que empunhava a garrucha. O francês a soltou, mas imediatamente se pôs a catá-la por entre as moitas. Antes que pudesse encontrá-la, Juliano já saltava sobre o sicário com suas duas espadas, atravessando-o em pontos paralelos, pouco abaixo do pescoço. O homem que sempre fora um bom aprendiz no que quer que se propusesse a fazer, demonstrava já uma insuspeita habilidade na antiga arte de retalhar carne humana.

Enquanto isso, o indígena avançara em direção ao outro pirata. O sicário finalizava a recarga de seu grande trabuco, enquanto o índio, como que cavalgando um corcel de puro ódio, gritava e corria a uma velocidade que pareceu a Juliano sobrenatural. Ao levantar a ponta da espada, como se fora uma lança, para atravessar o atirador agachado, foi freado pelo impacto das bolotas de ferro contra seu peito. Tombou a menos de cinquenta centímetros de seu oponente.

Agora era Juliano quem corria em direção ao atirador, que se levantara e, sacando sua espada, aguardava como que pacientemente a investida do mergulhador. A perícia daquele último corsário fez-se logo evidente; mesmo com uma única espada, defendia-se com certa facilidade dos ataques das duas espadas de Juliano. Em pouco tempo, dois talhos, um num braço, pouco abaixo do deltoide, e outro num antebraço, faziam Juliano sangrar.

A hiena do mar, até ali em silêncio, perguntou naquele seu estranho francês, quem era Juliano. O mergulhador, mesmo julgando compreender o teor da pergunta, nada respondera; seu oponente então fez a mesma pergunta, agora em espanhol. O jogo de esgrimas continuava, e a situação era desfavorável para nosso cansado e não treinado combatente.

Mas um flash mudou sua sorte. De longe, um brilho azul muito intenso iluminou o local em que combatiam – um brilho que Juliano já conhecia, mas agora muito mais forte; a momentânea distração que afetou o hábil espadachim francês foi suficiente para Juliano estocar-lhe no baixo-ventre. Seu adversário, como que refeito do susto, imediatamente reagiu causando-lhe um profundo corte no rosto, antes que Juliano pudesse furá-lo mais uma vez, agora com sua outra espada.

Recuando, o mergulhador soltou uma das espadas para apalpar sua ferida; o francês, arrancando forças sabe-se lá de onde, tentou ainda avançar contra seu oponente, mas viu-se impossibilitado pela dor que provavelmente era causada pela perfuração de sua bexiga; tombou ao chão.

Respirando com dificuldade, exausto e empapado do rublo fluído vital, somente agora Juliano percebera que o corte em seu antebraço vertera muito sangue, e o fluxo ainda não estancara. Voltando a atenção para seus companheiros caídos, recuou averiguando e confirmando a morte de todos eles, enquanto tornava para a posição em que deixara o velho.

Após alguns minutos de trôpega marcha, chegou à moita onde deixara o pajé.

Seus olhos cansados e mudos mais uma vez se cruzaram; um inesperado abraço fez com que Juliano largasse as lâminas escuras de sangue coagulado e quedasse em espantado silêncio. Soltando-o, o velho abriu a boca, donde imediatamente explodiu o clarão azul. O sagaz pajé escondera a pedra, todo aquele tempo, dentro de sua boca, que por sinal jamais se abrira até então. Por isso Juliano não a encontrara, quando da libertação do velho e dos demais.

Apanhando a concha rutilante numa das mãos, o ancião agachou-se, como que iluminando o solo. Apanhando com a outra mão um graveto, traçou um pequeno risco no chão. A partir deste, traçou diversos outros riscos, como se fossem galhos de uma grande árvore. Apontando então para o primeiro risco que fizera, levou o dedo em direção ao próprio peito, como dando a entender que aquele risco o representava; levando o dedo então a um dos últimos “ramos” daquela grande árvore, apontou para Juliano. Em seguida levantou-se, abaixou a cabeça como que em cumprimento, e depositou a pedra nas mãos do mergulhador.

Após ou apesar do baque daquela estranha comunicação, Juliano acreditou, mesmo contra o improvável, compreender o que o velho tentara explicar. Talvez Juliano fosse um descendente daquele ancião; sim, um descendente de quase quinze gerações posteriores. Mas, como?!!! E ainda que o fosse, o que aquele pajé, velho antepassado do mergulhador, poderia saber sobre o tempo e suas singularidades? Como ele pudera trazê-lo até ali? E para quê? Um tal poder, magnífico, seria usado para levar a ele e a seus companheiros até ali, apenas para libertar aqueles índios e para morrer? Uma tão incompreensível viagem no tempo, por tão pouco? – pensava o historiador enquanto segurava a concha.

Antes que pudesse tentar, por sinais ou como fosse, indagar ao seu “antepassado” como utilizar a concha para retornar ao seu ponto de origem, pois ele a empunhara e nada acontecera, o idoso apontou para a direção de onde Juliano e seus companheiros vieram, onde haviam encontrado a concha, que por sinal era a mesma direção donde parecia que o sol, que já dava seus primeiros sinais, iria nascer.

Sem poder dizer palavra, sequer para expressar sua revolta contra a arbitrariedade daquela situação que custara a vida de seus companheiros, sequer para perguntar que tipo de poder mágico era aquele, Juliano, confuso e sentindo, somente agora, os humores do terror, pôs-se a correr.

Segurando firme a pequena concha anil, correndo em desespero buscando como que acordar, ainda sangrando, Juliano pôde ver, sob um promontório, os demais indígenas que ajudara a libertar – crianças, mulheres e idosos –, observando-o em silêncio, enquanto ele avançava na direção donde nasce o sol.

 

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NOTAS:

 

O Rio de Janeiro sofreu dois ataques corsários consecutivos, no século XVIII. Em 1710, uma tentativa capitaneada pelo pirata Jean-François Duclerc foi rechaçada pelo fogo coordenado das fortalezas que margeavam a barra da Baía. Os portugueses haviam sido providencialmente avisados da chegada dos piratas. O que não aconteceu no ano seguinte, em 1711, quando uma maior armada (tendo quase o triplo de navios da anterior), aproveitando-se da bruma da manhã e do fato de parte dos fortes estavam desguarnecidos, penetrou ousadamente na Guanabara, venceu suas defesas e saqueou durante dois meses a cidade, tendo boa parte da população fugido para o interior. Somente após receberem resgate, deixaram a cidade. Seu chefe era o pirata e aventureiro francês René Duguay-Trouin.

 

Quase dois séculos antes, quando franceses sob o comando de Vilegagnon se aliaram a índios tamoios no domínio da Baía de Guanabara (onde fora fundada a colônia francesa denominada França Antártica), o cacique temiminó Araribóia auxiliou os portugueses na expulsão dos conquistadores franceses e também dos tamoios, tribo inimiga da sua, em 1567. Como recompensa, recebeu as terras onde fundou Niterói.

 

O Forte de São Domingos do Gragoatá foi originalmente construído em volta de uma grande pedra, que em tempo posterior foi cortada para a abertura de uma estrada, margeando a costa. Disso decorre a diferença entre o forte conhecido pelos mergulhadores, e o que encontraram no “passado”.

A região que margeia o forte era constituída por uma longa linha de praia; aterramentos posteriores diminuíram essa linha, mas deram espaço para a expansão do centro niteroiense, e para construções tais como os prédios do campus Gragoatá da UFF (Universidade Federal Fluminense).

 

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