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terça-feira, 5 de maio de 2026

O ATEU (Um poeminha)

 



o ateu

 

desgarrado,

agarrou-se à ciência e seus

cabelos arrebentados, arre

bentosos

 

afogou-se em espuma, aluado,

nas bordas e pés na areia

ainda do mistério,

do ainda mistério, descalço

de suas Havaianas de motivos retrô

 

nem meia hora de morto

era já cadáver inchado

baleia ao léu ou um vazio de gás & pus


sammis reachers

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

O poeta, esse “figura” da linguagem - Ou uma forma divertida de aprender figuras de linguagem

 


Poeta já nasce metáfora: nem é homem, é bruma

Detesta comparação: sua carne é tal como purpurina

Casa antíteses, juiz de paz de terra e céu

Dispara metonímias lendo Drummond e Gullar

Mata catacreses ao dar nome ao que não o tem:

Braço de sofá vira espuvelo, assim, na caraça

Celebra paradoxos, esses desconstrutores criativos:

Como encher de vazio um balão vazio?

Faz tudo dialogar em prosopopeias, a caneta chora, o chapéu gargalha

É bicho todo trabalhado na sinestesia: degusta a paisagem, ouve seus aromas

Radical, rima o rumo dos versos em aliteração

É um babaquara da assonância, um papa-vatapá

Desafios opera o poeta em hipérbatos

Faz rir nas onomatopeias, feito garnizé cocoricó

Desce pra baixo do mar molhado em seu submarino, o pleonasmo

É polissíndeto: É alegre e loquaz e terno e carmim

Mas tem lá seus momentos assíndetos: solitário, introvertido, fujão

Viaja em anáforas: se eu voasse, se eu pudesse, se eu sonhasse, se...

“Quero morrer de tanto versejar”, vocifera, hiperbólico

“Ou bater as botas de mui cantar”, solfeja em eufemismo e preciosismo

Dias há em que escreve com a delicadeza de uma mula (opa, contém ironia!)

Outros em que lança os versos pela janela com um lacônico “Que tédio!” em apóstrofe

Nesse jogo de encanta e cansa, o bardo executa sua dança

E nos diverte com sua graça, humano que é, esse figuraça...

 

Criei este poema para ajudar estudantes – do aluno do Fundamental ao concurseiro – a aprender se divertindo e, claro, para ajudar também a professores. Se você curtiu, compartilhe o poema para que ele possa divertir a mais necessitados!


Este poema obteve o segundo lugar nacional no Concurso Paulo Setúbal de Literatura 2024 (Tatuí - SP). Obteve ainda menção honrosa no 47º Concurso Literário Felippe D’Oliveira (Santa Maria - RS).

Assista ao vídeo da premiação e dramatização do poema, no Concurso Paulo Setúbal:



sexta-feira, 8 de março de 2024

Sem Nunca Ter Aberto os Olhos - Um poema sobre o aborto

 


Sem Nunca Ter Aberto os Olhos

 

Sammis Reachers

 

Envenenado enquanto sorria

Para a luz que atravessava

Os tecidos da barriga

Broto de bambu queimado

Para que sobreviva a floresta de incendiários

Queimado enquanto vive a floresta pragmática

 

Tua mão, tão pequena,

Botão de uma rosa silvestre

Ninguém a segurou, não foi?

Somos oito bilhões e

Ninguém de nós segurou

A tua mão enquanto você despencava

 

Na noite mais escura

Dessas que tantas acometem

As almas dos homens

Alguém imaginará

O que você poderia ter sido

Que caminhos e abraços você fluiria

 

E o filme se repetirá

Nas noites mais escuras

Dessas que tantas acometem

As almas das mães

                               que desistiram

 

E será tarde demais

E a pessoa dormirá e acordará

Com este edredom, "tarde demais."

Tarde demais,

Tarde, muito tarde

(Pois quando apagamos uma estrela

Tudo o que resta é a escuridão)

 

Teus olhos nunca chegaram a se abrir

O Universo, esse jardim de

Incredibilidades fulgurantes

Esse jardim que seria teu como é meu

Você nunca o viu

 

Ente guardado num ente

Apunhalado num ente,

Ente descartado, promessa

Abortada

Sem nunca ter aberto os olhos

 

Nos perdoe a loucura, o mar o oceano

De loucuras

Que levaram até teu fim,

– Civil a quem a civilidade

Negou civilização –

Até o assassinato de um começo

– De nosso começo, mãe


Da antologia O ABORTO em Poemas, Frases e Reflexões.

Baixe o seu exemplar gratuitamente pelo Google Drive, clicando AQUI.


(Este texto pode ser livremente republicado em quaisquer mídias e plataformas, sem a necessidade de prévia autorização do autor).


sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Sammis Reachers: Paz para praticar meu perenal ofício



Paz para praticar meu perenal ofício


Visto este andrajo de leão lá fora

Simulo humores em que ajo e interajo

E suores realizo, rito no qual contas quito.

 

Chegar em casa é meu fulcral laurel.

Revolucionário, mestre, pregador, menestrel?

Sou o que disso vai no interstício.

 

Sarau, academia, sodalício? Solitude almejo.

Cego, só por livros vejo: sou tatu cavoucando

Paz para praticar meu perenal ofício.


sexta-feira, 6 de outubro de 2023

REINAÇÕES

 


REINAÇÕES

 

Era outubro, mês revel, mas um outubro setembrino, com seu ar veloz, feliz

 

Obriguei-me, numa quina de rua

ao simulacro ou pretensão de liberdade de um poema

 

Um poema!, veja você

obriguei-me a um poema

ao invés de deitar-me no chão ou seguir minha vida


sábado, 14 de janeiro de 2012

Três poemas de Manuel Adriano Rodrigues



vou aquecer o sol


o dia não nasceu feliz
sou eu
que o quero assim


vou aquecer o sol
com cuidados de alquimista
e a língua de fora


olhos atentos
mãos de abraçar
risos
e as inevitáveis danças
do coração


e o mundo de novo
novo
sentido
no sentido
dos ponteiros do relógio


o amanhã
é hoje




a demanda


destruí as pontes
que cruzei
até aqui


sob os meus pés
a demanda


e não me detive
em arrependimentos
a chorar barato


nos meus precipícios
as tuas mãos


na minha boca
a tua




Olhai os lírios do campo


A casa do grilo é feita
de montanhas, flores, nuvens,
ar
e do seu encanto particular. Um insecto
minúsculo com a inteligência
cósmica das grandes
opções filosóficas. Um buraco no chão,
os olhos nas estrelas
e a música no coração. Enquanto espera
pelo socorro
canta imperturbável, o grilo
sábio
espalhando amor
entre dois pinheiros.


Visite os blogs do autor: 
http://sipofglory.blogspot.com/
http://dozepoemaseumdeusmaior.blogspot.com/

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

IN HOC SIGNO VINCES


Ao jovem Ali Abbas, vitimado pelo bombardeio americano num vilarejo em Bagdá em 2003, ataque que lhe custou a amputação de ambos os braços e a vida dos 16 membros de sua família (17, pois sua mãe estava grávida de seis meses).

Um pouco mais de empenho, Ali,
um pouco mais
de amor
e um outro panorama
nos engolfaria

Se Billy Graham tivesse gritado com
toda a sua força
Se Rick Warren entendesse realmente
se Lucado Hinn Meyer
levantassem um clamor
uma campanha uma
mobilização uma
GREVE
na nação
então talvez Ali Abbas
suas mãos hoje acenariam
suas mãos então
talvez
você ainda tivesse mãos
para acenar

Se Gandhi não estivesse certo, Ali,
se Gandhi não tivesse razão
em toda a miséria da verdade
se os cristãos não fossem como ele
disse
o único defeito do Cristianismo
talvez não houvesse
esta guerra

Talvez ainda mais,
talvez seu país
ainda fosse cristão
desde os dias de Paulo o apóstolo
até aqui
e as malversações satânicas
não pudessem a primazia
que hoje podem,
que hoje explodem.

Talvez não houvesse tantas
explosões no mundo
se os cristãos todos nós o fôssemos
realmente, se a América toda ela
realmente fosse.

Empinarias pipas na Bagdá ainda de pé
empinarias pipas
no grande Festival Anual de Pipas
da Igreja Batista de Bagdá
mas os cristãos
falharam em sua missão
ao longo da história,
ao longo das esquinas
falharam em seu perdão
e devolveram
mil olhos
por cada olho, cada terror.

Mas há um Cristo
que insistentemente morre
em cada um
de nossos pecados
e nos ressuscita,
que torna o mal
em múltiplos bens

há esperança, Ali,
para todo aquele
que se atrela aferra
agarra
à Esperança


sammis reachers

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

DA MATÉRIA DO POEMA

“Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar”
Florbela Espanca, “Torre de névoa”


o meu poema não habita
em torres de névoa não há espera matinal
por D. Sebastião
morreram todos eles para sempre
e os seus corpos secaram
nos dentes dos chacais
em Alcácer-Quibir
no meu poema não ardem baixo os luares
sobre as águas

no meu poema há só o sol a prumo

não há Ítacas, Társis nem Índias
de fuga ou nostalgia
há a amplidão nítida dos rios
que duma mão nascem e na outra desaguam

no meu poema há a outra margem
uma terra toda inteira
ainda sem nome nem padrão
de descoberta

30/09/11



Rui  Miguel Duarte
via http://liricoletivo.blogspot.com/

sábado, 8 de outubro de 2011

A Grande Noite Matricial versus O Amanhecer




Você já teve a sensação ‘matrixial’ de estar
Sempre preso a um pesadelo?
A cada acordar, após cada sorriso,
No centro sutil de cada uma de suas lágrimas?

Eu estou preso a um mesmo e multifacetado pesadelo.
Um dia, ainda num ventre, após meu incipiente cérebro
Atingir determinado número de neurônios,
E estabelecer um limite operacional mínimo
De conexões entre eles,
Eu tive meu primeiro e único sonho.
Era um pesadelo.
Nele, um alguém-entidade,
Meio pó, meio pai, nominado Adão
Me matou.

Estamos todos presos dentro de um pesadelo,
O primeiro, o mesmo e o único de cada um de nós.
Um omnipesadelo do qual Cristo
É nossa única incontornável possibilidade de DESPERTAR.


Sammis Reachers

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Novo acréscimo n'O Poema Sem Fim



Hoje é o dia trinta de agosto do ano de dois mil e onze,
o último dia de meus quinze dias de férias
estou na praia e venta forte (sou
a única pessoa de meu convívio que gosta de ventos)
o mar, batido, chacoalha, ressona e une seu som 
ao do vento que vibra em minhas orelhas
(o mar detém a minha angústia 
quase como o Teu Espírito, Senhor),
e eles (as ondas e o vento, a mais perfeita cópula da natura)
sussurram como numa língua perdida e mística,
desaprendida em Adão:

PAZ...      PAZ...
                                     PAZ...
             PAZ...
PAZ...
                                              PAZ...
(e a singularidade desta sensação de paz - que é apenas intuída! -
é que ela transcende até mesmo a paz das amizades verdadeiras, 
de dois amigos que, quedados em silêncio,
comprazem-se na segura companhia um do outro)
         PAZ...
                                       PAZ...
PAZ...

uma entoação que nada detém,
um cicio que não cessa
ora espaçado, ora massivo, mas sem parar,
como se fosse a respiração de algo aritmeticamente
diluído em tudo, em todos os lugares
fluindo muito além
do que se pode chamar de 'vivo':
uma força que hipervive
como (e apenas par)a falar de um lugar
onde a Paz Ininterrupta freme,
onde a Paz-Sem-Fim
oceanicamente 
É

Visite: http://opoemasemfim.blogspot.com/

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A MÁQUINA DE ESCREVER AZUL



A máquina ao escrever azul, escreve
também estrelas, quando é preciso
salientar qualquer verdade
em rodapé, no limiar 
dos dedos a máquina espera
para escrever um pássaro
enquanto o poeta passa 
os seus olhos pelas cores
também escreve barcos
de quilhas rasuradas pelo mar
a máquina de escrever 
tanto azul
é quase um universo.



J. T. Parreira 
- http://www.papeisnagaveta.blogspot.com/ 

sábado, 16 de julho de 2011

INFÂNCIA, poema de Jorge Pinheiro



Como vão longe os dias
das correrias pelos prados
longos e verdes
dos jardins da minha infância!

Agora, demando
outros portos
talhados na carne negra
das noites da minha solidão.

Como vão longe os tempos
em que as nuvens
eram comboios deslizando
em trilhos imaginários
para países distantes
e encantados!

Agora, debato-me
no revolver
sereno e calmo
agitado e possante
da revolta íntima
de linhas traçadas em espirais
de sonho.

Como vão longe os dias
do esconde-esconde
e da cabra cega
e da vida que era filme
rodado a cada esquina!

Cobre-me a fronte
dispersa
a certeza
da incerteza
inculcada nos poros do sentir.
Vivo o pano a cair
no palco do espectáculo
que segue em sessão contínua!

Lisboa, 11.Agosto.1971


Visite o blog do autor: http://rua-reflex.blogspot.com/

quarta-feira, 29 de junho de 2011

POETA, de Jane Hirshfield


Poeta 



Está a trabalhar agora, numa sala

que não é diferente desta,

onde escrevo, ou aquela em que lês.

A mesa está coberta com papéis.

A luz do candeeiro seria

suavizada por um abajur, onde

a sua crueza única se pudesse diluir,

mas não é; ela tirou-o.

Os seus poemas? Nunca os perceberei bem,

embora sejam aqueles de que mais preciso.

Nem o próprio alfabeto que ela usa

eu consigo decifrar. A sua cadeira -

imaginemos se é de pele

ou lona, de vinil ou verga. Deixemos

que fique com uma cadeira, o candeeiro sem abajur,

a mesa. Que um ou dois daqueles que ama

estejam no quarto ao lado. Porta fechada

e de boa saúde os que dormem.

Dêmos-lhe tempo, e silêncio,

papel que chegue para cometer erros e continuar.




Jane Hirshfield
tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

Via blog http://flor-docearoma.blogspot.com/

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Carta aos Derrotados


Aos derrotados de todas as idades, tempos e lugares:
Jesus já venceu por nós

Aos que escrevem poemas de amor
na língua morta
de um país que já não existe:
Continuemos Poesia contra os muros,
Jesus já venceu por nós

Aos mutilados e deixados pra morrer
em Waterloo e Stalingrado,
Roraima e São Paulo, na próxima esquina,
nos porões das (in)direitas ditaduras
ou nas sibérias comunistas,
no miolo efervescente da multidão
ou nos últimos últimos últimos bancos
das Igrejas:
Olhemos para o alto,
Jesus já venceu por nós

Aos apunhalados enquanto dormiam
por um dos cem milhões
de Judas que Satanás
comissionou e infiltrou
nos mais improváveis meios, famílias e lugares:
Perdoemos,
Jesus já venceu por nós

Aos que sempre ou apenas
numa única hora errada
(apenas)
deram as costas:
Ele é o nosso Grande Perdão
pois Filho do único Onibenevolente;
Jesus já venceu por nós

Aos que nas malfadadas todas
as tantas e tantas e tantas vezes
roubaram e estupraram,
mentiram e abusaram,
traíram e assassinaram;
àqueles e àquelas prostituídos e travestidos,
aos viciados em substâncias, jogos ou pessoas,
aos cães de todas as estirpes,
aos extirpados, a todo aquele
que habita e palmeia
o fundo frio do poço:
Arrependamo-nos, arrependamo-nos, arrependamo-nos
e creiamos:

Em Cristo Jesus somos mais que vencedores.

Sammis Reachers
(texto e imagem)
Reprodução livre em qualquer meio, citando-se autor e fonte

domingo, 12 de junho de 2011

Poietiké

Jurujuba - Niterói - RJ, num dia de solidões
Se a poesia é faca e é forca
a poesia também é mortalha
é a plúmbea bala que estraçalha
o coração sol-crispado de Lorca
é a flor que ofende e enfurece o canalha...

Ela incorporou o feio ao discurso,
a poesia é Lírica e também é Porca
linda deusa que hoje admite a falha

É algo inútil, é uma Vida, é um monte de tralha
é uma dose de palavras que na goela do papel
o poeta emborca

é banco de areia onde - cansado do oceano -
um desesperado encalha.

Sammis Reachers
(texto e imagem)
*Poema antigo, anterior à minha conversão a Cristo, publicado no Livro da Tribo
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