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sábado, 19 de setembro de 2026

Histórias para guardar do Esquecimento – Uma coletânea de pequenas histórias para ressignificar as nossas vidas

 


Fábulas e parábolas são utilizadas há milênios por povos e culturas para transmitir os mais preciosos valores e ensinamentos: Aqueles que falam sobre a natureza da vida e de nosso procedimento, nossa busca por justiça, paz e felicidade.

Este livro reúne uma coleção de narrativas assim — fábulas, parábolas, contos breves e também histórias reais — escolhidas com um critério simples: o de que tenham algo de valor a dizer sobre a experiência de ser humano. Sobre perdão, sobre o tempo, sobre orgulho e humildade, sobre o que escolhemos alimentar dentro de nós. Os temas são universais, e as histórias que os carregam pertencem a diferentes tradições e culturas — algumas com origem conhecida, outras que a memória coletiva já não consegue rastrear com precisão.

Há uma razão antiga para que povos tão diferentes tenham recorrido à parábola. A verdade dita diretamente pode ser ignorada ou esquecida. Mas a verdade que chega “disfarçada” numa história — com personagens, com tensão, com um desfecho inesperado — tem o curioso hábito de se instalar sem pedir licença. Os homens não gostam de encarar a Verdade nua; preferem-na vestida.

Esta pequena parábola nos ajuda a entender perfeitamente a questão:

 

A Verdade e a Parábola

A Verdade visitava os homens; sem roupa e sem adornos, tão nua quanto o seu nome.

E todos os que a viam viravam-lhe as costas de vergonha ou de medo, e ninguém lhe dava as boas-vindas.

Assim a Verdade percorria os confins da Terra, rejeitada e desprezada.

Numa tarde, muito desolada e triste, encontrou a Parábola, que passeava alegremente, num traje belo e muito colorido.

— Verdade, por que estás tão abatida? — perguntou a Parábola.

— Porque devo ser muito feia e repulsiva, já que os homens me evitam tanto!

— Que disparate — riu a Parábola. — Não é por isso que os homens te evitam. Toma, veste algumas das minhas roupas e vê o que acontece.

Então a Verdade pôs algumas das lindas vestes da Parábola e, de repente, por toda a parte onde passava era bem vinda.

Então a Parábola disse:

— A verdade é que os homens não gostam de encarar a Verdade nua; eles a preferem disfarçada!

 

O leitor encontrará aqui histórias que tocam em questões éticas e espirituais com naturalidade, nascidas da convicção de que a dimensão interior da vida não pode ser ignorada quando se fala em ressignificar a própria existência. Mas o convite não é doutrinal — é um convite à pausa, à reflexão, a sentar com uma história curta e deixar que ela pergunte alguma coisa. Cada narrativa vem acompanhada de versículos bíblicos, não como imposição, mas como camadas adicionais de sentido.

Histórias para Guardar do Esquecimento é exatamente o que o título promete: narrativas que merecem não se perder — não porque sejam perfeitas ou inéditas, mas porque dizem coisas que a vida moderna tem uma habilidade particular de nos fazer esquecer. Sobre como tratamos os outros. Sobre o que priorizamos. Sobre quem queremos nos tornar.

Nosso desejo é que ao menos uma dessas narrativas lance raiz em seu coração — e reapareça, algum dia, quando mais for preciso.

O livro é gratuito na versão eletrônica (e-book), mas também está disponível na modalidade impressa, a preços acessíveis.

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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Gás Hélio - Um conto sobre acolhimento e cura, e a periferia

 


Gás Hélio

 

Foi nomeado pela paixão do pai e fonte de sustento da família, desde antes dele fazer parte da mesma: Hélio.

Seu pai, Airton, era vendedor de balões ou bexigas infladas por gás hélio, aqueles bólidos flutuantes em forma de peixe, escudo do flamengo ou cabeça do Mickey.

Aluno destaque do sexto ano do CIEP 051 Municipalizado Anita Garibaldi, em São Gonçalo/RJ, Helinho nutria carinho todo especial pelos balões que ajudaram a nomeá-lo e a provê-lo. O menino auxiliava o pai nos enchimentos e montagens, e sempre que podia era levado aos pontos de venda: Rotineiramente o Campo de São Bento, em Niterói, ou eventos sazonais, um aniversário de Itaboraí aqui, um feriado de São Gonçalo acolá, um festival de pipas em Maricá, por trás-os-montes. O menino já conhecia toda a Região Metropolitana do Estado do Rio.

O mesmo não ocorrera com seu predecessor em chegada na família, Heitor, irmão mais velho. Aliciado no portão de casa, ponto de revenda de drogas no depauperado bairro Jardim Catarina, cedo tomou o caminho da marginalidade.

Morreu no dia primeiro do segundo ano de carreira, a 200 metros do portão da casa do “seu Airton do Gás”; seu portão, seu pai.

Baque no sonhador Helinho, bordoada de moer menino tenro. Notas decaíram, participação nas aulas, na igreja. Seu sangue e companheiro de pelada no quintal, seu parceiro de PlayStation, seu incentivador nas paqueras, seu torto herói se fora.

Na velha coleção de biografias achada por seu pai no lixo, nas portas de um grande edifício, ao chegar pela manhazinha lá no niteroiense Campo de São Bento, Helinho mergulhava sua solidão. Numa das biografias, a do padre brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nosso primeiro inventor e pai do balão a ar quente, um estalo.

Inspirado numa prática de produção textual que aprendera na escola, o aluno destaque do Anita Garibaldi passou a escrever cartas; primeiro para si mesmo, refletindo sobre sua perda. Logo as endereçava a seu irmão. Por fim, o salto humanitário, digno de um Gusmão, uma Anita: Helinho passou escrever ternas mensagens para pessoas que tivessem perdido alguém, tal como ele perdera. E assim surgiram “Carta a uma mãe que perdeu um filho”, “Carta à criança que perdeu a avó”, “Carta a quem perdeu um irmão”. Contando brevemente sua história, Hélio contextualizava sua mensagem para diversos leitores em potencial.

Um belo dia, tendo imprimido uma quantidade de cópias de cada cartinha, Helinho as atou a balões inflados de hélio – não os artísticos balões vendidos pelo pai, mas a modelos simples, como as bexigas de festa de aniversário – e, subindo para a laje de sua humilde casa, soltou os balões, vagões de sonho lotados de afeto, nos ares de sua São Gonçalo.

No primeiro dia foram 30. Quinze dias depois, o menino despachava mais 15. E assim, usando de suas economias, o menino adquiria os balões e inflava-os com os botijões de gás do pai, liberando suas mensagens pelo ar.

Em apenas três dias depois dos primeiros lançamentos, duas marcações no perfil do menino no Instagram apareceram. Pessoas curiosas, que encontraram uma das mensagens, nas quais constava também o endereço do menino, e seu perfil naquela rede social. Mas demorou 45 dias para chegarem as primeiras cartas. Cartas de papel, como as de Helinho. Uma mãe e uma irmã.

“Querido menino Hélio. Encontrei seu balão pendurado nos galhos de uma árvore em Alcântara. Era de manhazinha, eu ia pro meu trabalho nos Correios. Sua mensagem me fez chorar no ônibus, pois perdi minha mãe há seis meses. Ainda sofro. Mas acredito que Deus usou você para me mandar uma mensagem de conforto. Obrigado, meu filho. Não te conheço, mas você já conquistou uma amiga.”

A segunda carta – outras viriam – era de uma adolescente de 17 anos, Ágatha. Ela vira o balão do menino caído em seu quintal, de tarde, ao chegar do cursinho pré-vestibular. Com a mensagem em mãos, Ágatha entrou no quarto de seu irmão, deitou-se em sua cama e chorou. Mateus partira ia pra um ano.

“Oie!

Me chamo Ágatha, sou moradora aqui do Vila Três, em São Gonçalo também. Cara, sua cartinha chegou a mim, bem no meu quintal! Eu perdi meu irmão assim como você. Meus sentimentos por sua perda.

Sua mensagem me trouxe uma alegria que não sei expressar; era como um recado de meu irmão, dizendo para mim e minha mãe sermos fortes, que ele está bem.

Precisei escrever para você. Ia mandar mensagem no privado em seu perfil, mas resolvi escrever uma carta, assim como você. Minha primeira carta. Nem sei como enviar! Mas vou no correio me informar.

Estou escrevendo essa carta na cama de meu irmão. Minha mãe doou as coisas dele, roupas e tals, mas deixou a cama como estava. Pra lembrar dele, sabe? Mas não sei se isso é saudável, pra nós duas. Pois ambas choramos muito nesta cama. Já a peguei de madrugada ajoelhada aos pés da cama dele, chorando sozinha, e dizendo ‘onde foi que eu errei?’ Mas somos tantas famílias nessa situação...

Hélio, venho agradecer seu gesto, sua forma de ajudar as pessoas. Você é um anjo que, não tendo asas, criou as suas com palavras e bexigas de gás. Obrigado obrigado obrigadooooo!”

 

Voa, Helinho. Voa e trabalha, que faltam anjos no mundo, e os que desistem, no lugar de uma segunda chance, são mortos a bala.


Sammis Reachers



sábado, 28 de fevereiro de 2026

AMPLITUDE n.7 - Revista Cristã de Literatura e Artes para download GRÁTIS

 

AMPLITUDE aqui está, firme em seu papel de resgatar, promover, divulgar e viver a literatura cristã em toda a sua vivacidade, singularidade e fortuna.

Neste número, a razão de ser de Amplitude se apresenta em toda a sua força: a poesia e a prosa de ficção ocupam a quase totalidade de nossas cinquenta e nove páginas.

Por sinal, este é um número eminentemente poético: São nada menos que dezenove páginas de poesia.

Nos contos, temos a presença de nomes como Joanyr de Oliveira, Rute Salviano Almeida e o norte-americano Walter Wangerin Jr., que somam-se a Eber Rocha, Seles Gonçalves, Valnei Nascimento da Silva e este que vos escreve.

Abrimos este número com um artigo especial, uma conversa sobre a autopublicação, com dicas práticas e links de interesse.

Falando em especial, fizemos um apanhado de poemas da literatura universal sobre (a Parábola d)o Filho Pródigo, um tema central da cultura cristã, em treze páginas de alta poesia.

Nas seções tradicionais, figuras impactantes e até surpreendentes: Em Jardim dos Clássicos, temos um conto do missionário escocês Robert Reid Kalley, pioneiro do evangelho em nossas terras e na lusofonia.

Em Hot Spots, uma seleção de frases de Henry Ward Beecher, prolífico autor com tão pouca bibliografia em língua portuguesa.

O Poeta em Destaque deste número — uma seção que sempre deu espaço a autores vivos — desta vez contempla um nosso irmão já na glória: O lusitano J. T. (João Tomaz) Parreira.

Amplitude ganhou uma nova seção, a Torre de Oração, que buscará apresentar, a cada número, significativas obras do gênero.

E as demais seções? Nossa Pharmacia apresenta textos de autosocorro imediato. Parlatorium continua sua insurgência contra a mediocridade, com frases de impacto e frescor criativo. Notas Culturais traz algumas notícias sobre a cena cultural cristã. Download apresenta três e-books gratuitos que merecem sua leitura, como a antologia que organizamos reunindo os 50 melhores poemas cristãos de Jorge de Lima.

O resto você sabe: Amplitude circula apenas em formato eletrônico, com periodicidade semestral  — e é gratuita, para a glória de Deus.

Pegue seu café, seu chá, seu isotônico, água ou o que for, busque uma sombra — e boa leitura!

 

      Sammis Reachers, editor


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terça-feira, 7 de outubro de 2025

PHOBOMANIA: Conheça algumas das novas fobias classificadas pela "siência"

 

Fobos, você sabe, é irmão de Deimos, deuses ou diabos gregos representantes do Medo e do Terror, respectivamente. Filhos do miliciano Ares e da messalina Afrodite, boa coisa não poderia mesmo vir dessa mistura de guerra com lascívia e impudicícia. De Fobos (Phobo, com ph, fica mais fofo, não?) derivamos muita coisa, como o tema dessa nossa crônica noticiosa, as fobias.

Talvez você não saiba, mas na pitoresca cidade de Broken Arrow, no estado norte-americano de Oklahoma, fica a sede da Sociedade para o Estudo e Catalogação das Fobias, Medos e Transtornos Correlatos (SSCPFRD, na sigla em inglês).

A obscura relativamente invisibilizada organização, com sucursais ou ao menos representantes em cidades como Paris ou a nossa Niterói, de tempos em tempos lança nas fuças e nos ares sua nova compilação de rebentos do tal Phobos, deus caído que parece milho de pipoca premium estourando pela quentura destes nossos tempos.

Nem só de seu maior sucesso, a celebrada transfobia (e sua infinita LGTBQIAFNBWELRTSV+tização) ou da cristofobia (que ela mesma insiste em não designar, mas é a campeã das fobias em certos círculos, universidades, partidos, países, continentes e sabe-se lá se em planetas), vive a organização. Convido você, leitor, leitora, leitore e leitão a dar uma olhada nas novas nomenclaturas que a .org, em seu empenho científico à frente de seu tempo e de sua cultura vem desenvolvendo, em nome da compreensão das incompreensões humanas e do tratamento paliativo de transtornos da psiquê (sim, também me assusta, mas medo ainda é uma doença). Vejamos seis dos nada menos que quarenta e seis(!) novos construtos medrais delimitados e elencados este ano pela ong ianqueana.

 

Erucofobia (do latim eruca, lagarta): Medo de passar sob árvores e uma lagarta (de fogo, água ou carbono como você e eu) cair sobre si. Os reféns da patologia se recusam a andar em áreas arborescentes, e fazem das selvas de pedra seu habitat de salvaguarda. O PCC agradece.

 

Ovifrangerofobia (do latim ovi, ovo, frangere, partir): Medo de assistir a uma das coisas mais centrais e belas da natura: Um ovo eclodindo e um animal saindo dele (seja cobra, calango, dragão ou ave).

 

Masculofobia: Este é medo antigo, pilar dos medos, sobressalto das bruxas que sobreviveram, e que só agora ganha designação oficial, depois de uma longa luta interna, que quase fez rachar aquela abaloada organização sem fins lucrativos. Trata-se do medo de ver, conversar e/ou con-viver com homens héteros autoafirmativos. Não se trata dos tais doentios “red pills” ou “hétero tops”; o termo autoafirmativo designa o simples homem hétero coitado e cotidiano (seu pai, seu irmão, seu avô, seu Antônio o pedreiro, Geremias o açougueiro, o “homem comum” cujo conjunto certamente fez o mundo em que você pisa, respira e teme), que não se envergonha de si, sua opção, ou melhor, naturalista que é, não considera opções. Uma revista de humor inglesa disse que a masculofobia é o medo de “homem de verdade”. Bem, há divergências, mas é um resumo do medo.

 

Punctumfobia: É o medo de apontar lápis (de punctum, apontar). Os especialistas perceberam que, em cidades belgas, dinamarquesas e holandesas, crianças tinham medo de apontar seus lápis, pois a visão de um lápis sendo desbastado lhes causava repulsa e desconforto, afinal o lápis está sendo mutilado naquilo ali. Na Dinamarca, país avant garde, já há funcionários nas escolas encarregados exclusivamente de apontar os lápis do mais sensíveis (não deixem Putin saber disso).

 

Nigergradatiofobia ou simplesmente gradatiofobia (sempre do latim, niger, negro, gradatio, gradação): Essa talvez seja a mais polêmica das novas designações fóbicas, ou ao menos a que tem causado mais estardalhaço na mídia norte-americana e europeia: É a fobia que uma pessoa NEGRA tem de outra pessoa NEGRA, cujo tom de pele é mais escuro que o dela.

No Brasil, país miscigenado pelo amor e pela violência, um dos gargalos entupidos do combate ao racismo é aquele praticado (em geral por crianças e adolescentes) justamente entre negros, onde as falas, sejam francas ou de “humor”, desmerecem este ou aquele negro por ser “mais preto” que aquele que fala. Qualquer rua ou sala de aula é palco para assistir, estarrecido, a este descalabro que se repete ao milhão por dia, ao arrepio da lei, da Djamila e do ex-ministro apalpador de catracas (a tara dele tem nome, mas, calma, o tema de hoje são fobias).

 

Após temas amenos e pesados, vamos terminar com outra amenidade, esta típica da geração Z. É a tarditofobia (tarditas, lentidão, morosidade).

Simplesmente o medo de que um livro não tenha a sua continuação publicada. Vivemos tempos de trilogias, tetralogias e CEOs tarados incansáveis como Ares ou Afrodite dominando a baixa literatura, mas uma raiz desse horror podemos creditar ao nosso primeiro detetive da ficção, Sherlock Holmes, cuja morte no conto O Problema Final (e o fim da “saga”), desesperou a Europa, inundou o autor Arthur Conan Doyle de cartas e o “obrigou” a reviver o personagem, que, passados mais de 130 anos de sua primeira morte, segue ad infinitum, pois centenas de autores escreveram e seguem escrevendo histórias baseadas no mestre londrino dos tirocínios. O episódio bem mais recente, da morosidade de George R. R. Martin em concluir sua saga Crônicas de Gelo e Fogo (Game of Thrones e não, neste 13/09/25 a obra ainda não foi concluída), só ajudou a universalizar a fobia, agora, se não dicionarizada, ao menos já descrita em publicação especializada. Eu falei de tema ameno? Perdão, leitore. Segundo dados da própria SSCPFRD, ao menos 28 pessoas, apenas no Norte global, alegadamente suicidaram-se devido à espera, dura para elas, de continuações de suas tramas diletas. Martin responde por nada menos que 17 dessas mortes...

 

Em tempo: Você, cagão, cagona, cagone, medroso de qualquer (im)potência pode solicitar um distintivo de representante da SSCPFRD, e passar a ser correspondente certificado da .org em sua região. As tarefas do cargo, honorário e não remunerado, vão desde coletar dados a divulgar o trabalho da .org. Mas saiba que o paspalho e proto-ditador do Trump é inimigo figadal da organização, após ela propor o termo aurantiofobia (medo de homens-“laranja”), e seu visto para os EUA pode bem ir para as cucuias. De toda forma, preencha o cadastro no site e boa sorte!

Sammis Reachers


sexta-feira, 11 de julho de 2025

Revista AMPLITUDE 6 (Jul/2025) - Revista Cristã de Literatura e Artes para download grátis

 

Meados de 2025: AMPLITUDE chega a seu sexto número, pela graça de Deus. Sim, apenas o sexto número, mas esta revista está fazendo sólidos dez anos. Foi no ano (pacífico, olhando de agora) de 2015 que nosso primeiro número chegava às tribunas virtuais.

Neste número, como se diz no hodierno jargão futebolístico, "a base vem forte": ficção e poesia, bases, lajes e pilares desta revista, entram em campo com uma seleção especialmente de peso, potente de autores do norte ao sul, do nadir ao zênite do Brasil. E até de Portugal e Moçambique.

As seções que o leitor tem aprendido a amar estão aqui, com acréscimos e ausências, que fazem parte do jogo.

Não apenas divulgar, mas estimular a produção artística é um de nossos motivos. Na página 12, temos o artigo O Credo de Um Artista, onde Jason Harms, apesar de seu empenho assaz puritano (calma, você não precisa concordar com tudo), oferece bons tópicos de reflexão e adesão para colocarmos Deus no centro de nossa produção criativa. No embalo, o artigo 12 Passos para ser criativo (pág. 27) dá excelentes — e simples — dicas que entregam o que prometem.

Em Jardim dos Clássicos, um conto de um clássico até que bem recente, o escritor e imortal da ABL Orígenes Lessa.

Temos crônica daquele que muitos consideram nosso maior poeta evangélico, Gióia Júnior, falando sobre aquele que ele, Gióia, considera o maior poeta brasileiro.

A revista abre com um papo sobre o trabalho editorial que realizamos no ministério Veredas Missionárias. Em nosso entendimento, não há como ser cristão (seja indivíduo, família, igreja, denominação, nação) sem ser missionário. Estamos aqui a trabalho, um trabalho penoso e simples, levar o Evangelho até o último povo, língua e nação. O mais que escapa ou bordeja esta prerrogativa é passeio ou tergiversação, ou, quando muito, ensaio. Assim, seguindo e ampliando uma iniciativa que começou em nossa última edição, veiculamos aqui gratuitamente (e mesmo à revelia) anúncios sobre empresas, pessoas e serviços que contribuem de forma direta com a causa missionária. Se este é o seu caso, entre em contato e nos traga sua história, que no próximo número você poderá aqui figurar.

Em tempo, pois há tempo: O leitor perspicaz perceberá opiniões (políticas, teológicas, cosmovisionais) díspares ao longo dos textos de AMPLITUDE. Veículo plural, as opiniões dos autores não refletem necessariamente a opinião da revista (sei que é ridículo ter que dizer isso, mas até a The New Yorker, a Granta e a The Paris Review o fazem. Pobres de nós).

Editarmos sozinhos uma revista como esta, com tantos textos, tantas seções, tantas especializações, é estafante. Mas o resultado gratifica: A literatura, e mais, o conhecimento, dom de Deus, celebra sua pequena e cordata festa, da qual você, leitor, é um convidado de honra. O Cordeiro é digno!

Por favor, não apenas leia, mas compartilhe esta revista gratuita, que existe para entreter, edificar e desmistificar vidas.

 

      Sammis Reachers, editor


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sexta-feira, 18 de abril de 2025

A Marcha do C@nsaço ou O Movimento dos Macetados (2028), um conto de humor sci-fi

 


Ao defrontar o amontoado de gentes naquela Copacabana espavorida, a atenção era roubada de chofre pela faixa que encabeçava a passeata, faixa segurada pelo DJ Grillozzilla e pela multisexuada instatriz, DandaXXXara: “Dize a tua palavra e segue o teu caminho. E deixa que a roam até o osso”, creditada na faixa ao filósofo espanhol Ortega y Gasset. Na verdade, a frase é de Unamuno, o Miguel, outro filósofo espanhol. Equívoco que, sem infundir demérito, meio que chancelava e vestia os revoltosos.

Chamaram seu movimento simplesmente de A Marcha do C@nsaço ou, termo adotado pelos opressores midiáticos, O Movimento dos Macetados (“?”), e ele assim há de entrar para a história. O motim, que contou com ampla anunciação midiática (que outra?), encaçapou todo tipo de guapo, duma barafunda de díspares pensares, digno deste fim de Pós-modernidade e início de Idade Índigo.

A ideia central, o eixo da grande hélice que uniu pessoas, roedores e contestadores de várias gerações, é o cansaço em relação à torrente de informação disponível por cada vez mais meios, gadgets e cibertranqueiras.

A um filósofo marroquino, Farkour Bibi, anjo decolonial que escreve em perfeito francês, coube o papel de teórico involuntário do novo movimento, ao propor, em seu filosófico Imanifesto Logofrênico, cujo estilo de pacata ou delicada insubmissão lembra o de Thoureau, um alheamento proposital em relação à toda forma de informação mediada, seja essa mediação realizada por livros, internet etc. E da aceitação apenas do que “o outro”, o ao lado, o vizinho, a mãe, o companheiro proletário, o “usuário de uma mesma territorialidade”, pode ensinar, “olho-no-olho”, o autor avança para a celebração da ignorância, o “prazer de não saber”. A celebração anti-socrática radical, a ignorância como construto positivo.

A música-tema do grupo ou levante foi a inescapável Silício Silenciado (do último álbum de Caetano Veloso, Teimosa Poesia, de 2027). O bumba-que-bumba martelava os ares, marcando o ritmo do pisoteio.

Sim, voltemos aos fatos. Os marchadores, iniciando seu trotar pela Avenida Atlântica, estabeleceram uma inovação significativa: A marcha foi realizada com as pessoas andando para trás, ou de costas. Para evitar tombos entre os pouco afeitos a tal avanço inatural, foram cedidas bengalas de acrílico para apoiar os cansados do saber tão fácil.

Um grupo de festin’lésbicas, oriundas de uma pequena facção (das 82) PCdeBista celebrou outra manobra de catarse, efetuando o despir de suas roupas, uma peça a cada cem passos dados por cada uma de suas membras, membras empoderadas e desmembradas de seu movimento – e agora enxertadas, feito próteses, naquele contra-zeitgeist informacional.

Nas proximidades do Forte de Copacabana, limite entre a Av. Atlântica e a Rua Francisco Otaviano, a primeira culminância: fizeram aquilo o inevitável, qual seja, a QUEIMA DE LIVROS. E no entorno da grande fogueira logolibertária, grupos esparsos realizavam o já tradicional gadcrash: a quebra de gadgets, de smartphones a óculos de realidade aumentada, de Nintendos NeoSwitch a prosaicos Vibradores Poéticos, as maquininhas de consolar inconsoláveis que, além do usual ofício, recitam poemas em oitocentas línguas, ponta-de-lança das exportações cambojanas.

O avanço seguiu para o bairro lindeiro de Ipanema, em que a alegoria final seria encenada: a invasão do data center do Google situado na Rua Farme de Amoedo, e a destruição dos mainframes e servidores que, dali, garantiam o acesso ao virtual a quase todo o país. Na porta, novo pandemônio: um dos muitos movimentos que acompanhavam a marcha, o controverso coletivo Afrobrancos, composto de brancos que se reconhecem e se exigem como africanos d’alma, foi alvo de laranjadas e ovadas de alguns dos manifestantes, ojerizados pelas propostas e ideias do grupo, tido por desconstrucionista e diluidor das pautas de direito dos que têm seu lugar de fala.

No entrevero, uma malta inesperada assumiu a proa do debate sobre o tal estreito e mítico lugar de fala, e em defesa dos afrobrancos (alguns dos quais eram seus pais, afinal): um grupo de therians, os humanos que se afirmam pertencer a outra espécie, neste caso cachorros, marchando e debatendo de quatro, desferiu um motim-no-motim ao afirmar que as ruas eram prioritariamente o seu lugar de fala – e as urinadas nos postes o confirmariam – transe ou transporte de um conceito do metafórico para o concreto que desnorteou alguns teóricos que marchavam no evento – um deles, renomado reitor da PUC que, ainda fedendo a livro queimado, viu ali o nascimento em tema de seu mais novo livro.

Nesse pandemônio, prestes a arrombar as portas da infofortaleza globalista, os já cansados revoltosos tombaram sarrados & surrados por grossos jatos d’água gelada & apimentada, emanados de veículos automáticos. Eram drones blindados do conglomerado BYD-Tesla-Carbon a serviço do grande infocapital, providencialmente enviados pela governadora do Estado. Enxarcada e debelada, a multidão, senhora de algumas razões e diversos equívocos, dispersou-se, cada qual encapsulado de volta à sua micro, nanorevolta, tentando recordar o caminho de casa ou sua necessidade.

Sammis Reachers

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Sammis Reachers lança novo livro, o volume de contos FABULÁRIO ÍNDIGO

 



A presente coleção de contos, caprichosa ou inconsequentemente designada Fabulário Índigo, é um pequeno tour de force cujas narrativas transitam desde a ficção científica utópica e distópica à hodierna crônica da violência urbana, da fábula moral ao experimentalismo metafísico, do suave horror ao humor mais escrachado. Tais eixos genéticos/genéricos não são de todo insulares, independentes, mas costumam se interpenetrar ao longo dos trinta e um contos aqui reunidos.

Costumo dizer que escrever poesia é encontrar imagens, enquanto escrever prosa é encontrar saídas. Poeta com infiltrações na prosa, aqui busquei saídas, embora, fiel à minha nomeadura, não me esqueci nem escarneci do poder fundacional e transcendental das imagens.

Em termos bibliográficos, iniciei minha produção ficcional com O Pequeno Livro dos Mortos, volume de contos publicado em 2015. De lá até aqui, a produção se desdobrou em momentos de maior ou menor euforia, ao sabor dos ventos benfazejos/malsãos da inspiração. Este Fabulário, espero, é a continuação e o alargamento não de um esforço, mas de um tão humano prazer de contar.

*   *   * 

Alguns dos contos do livro receberam boa acolhida em concursos e revistas literárias.

O conto que abre a obra, A Segunda Vida de Gregor Samsa, foi escrito imediatamente após a publicação de O Pequeno Livro dos Mortos, e foi publicado na Revista Philos v.3 n°.24 (2017). Em 2020, saiu na Revista LiteraLivre (v. 04, n. 21).

Sahhir, o Perscrutador, encontra-se com Deus foi igualmente publicado pela Philos, ainda em 2017 (Philos v.3 n°.24), sendo veiculado também na Revista Ligeiro Guarani (v. 03, n. 03, 2020).

A Solução Final foi publicado na revista Brasil Nikkei Bungaku (n.64, 2020), bem como no site Escrita Cafeína.

A Ilha obteve a primeira colocação em sua categoria no II Concurso Literatura de Circunstância, organizado pela Universidade Federal de Roraima; recebeu ainda Menção Honrosa no 19º Concurso Literário Paulo Setúbal, promovido pela cidade de Tatuí – SP, ambos em 2021.

O conto Na Véspera de Um Dia Santo Numa Cidade Fulminante foi um dos vencedores do concurso promovido pela Editora Dando a Letra, sendo publicado na antologia Quem Será Pela Favela?.

Seu Onório do Bairro Antonina foi igualmente um dos vencedores do primeiro concurso Contos Fantásticos Niteroienses, sendo publicado em livro pela Vira-Tempo Editora.

O conto Estranho Horror na Senzala da Fazenda Colubandê foi publicado na Revista Mystério Retrô em sua edição de n.15/2021.

Como Quem Guarda Uma Cidadela foi publicado no primeiro volume da Revista Estrofe, em 2022. E também saiu na Revista Sarau Subúrbio, em 2021.

Para além disso, a maioria dos contos foi publicada em minha coluna no Jornal Daki, veículo de informação e opinião de terras gonçalenses.


O livro impresso (formato 14x21cm; 204 páginas) está disponível para aquisição diretamente com o autor, ao preço de R$ 30,00, já com valor de frete incluído. Escreva para o e-mail:  sreachers@gmail.com ou pelo Whatsapp, (21) 98766-5576 .

Se você desejar o livro eletrônico, ele está disponível pela Amazon, ao preço de R$ 4,99, ou gratuito para aqueles que possuem a assinatura Kindle Unlimited. Confira AQUI.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Fanzine SAMIZDAT #6 - Baixe o seu

 


Eia! Chegamos quase ao fim de 2023 e nosso fanzininho, nascido em 2021 e cuja periodicidade é a mais irregular concebível, ganha sua sexta edição. Desta feita, trazemos dois contos curtos, em ritmo de fábula, e a prata da casa, os já tradicionais poemas e frases de nossa autoria.

Você pode baixar o seu exemplar em PDF clicando AQUI.

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terça-feira, 22 de agosto de 2023

Galeria dos Gigantes Gonçalenses: Nonato, o sociopata ressocializador

 


Nobilíssimo leitor, em datas pretéritas já apresentamos aqui, em nossa esporádica coluna, o perfil de gonçalenses exóticos, de personalidade, aceitemos, protuberante. Gente sui generis, já quase nem gente, mas mito. Foram tais: Tardonho (o Lesado), Rogier (o Abraão das Potrancas), seu Onório (o viúvo do Bairro Antonina), Everaldo (o paraguaio de Campina Grande), Manolo (o Buda do Boaçu), Banzé (o mascate vingador)...

No entanto, nosso personagem de hoje se destaca dos demais pelo seu perfil ainda mais exótico que o já exótico de nossa fauna citadina.

Nonato foi a nomenclatura com que o batizaram, esse nome com cara de apelido que mais encobre que revela a natureza de nossa personagem.

Se me fosse possível resumir Nonato numa única expressão, classificação ou epíteto, seria a de “sociopata ressocializador”. Sim, o empenho e missão de vida deste nativo do bairro bimunicipal de Várzea das Moças, às suas sinistras maneiras, é, através de prosaicos atos de justiça/justiçamento, cipoadas de baixo impacto, corrigir erros comuns do dia a dia de nossa sociedade, não apenas gonçalense, mas brasileira, quiçá universal.

Conheci Nonato e suas ações enquanto eu trabalhava como rodoviário, cobrador de ônibus na empresa Auto-Lotação Ingá.

Com o tempo, entabulamos uma certa amizade, e passei a manter breves, mas reveladoras conversas com o ferrabrás, quando nos esbarrávamos, em suas idas e vindas a trabalho. Era representante comercial, atuando em toda a região metropolitana de nosso Estado.

Me horrorizaram ao primeiro contato, não sem certo fascínio juvenil, os trejeitos obtusos de Nonato.

E como afinal era a práxis deste pedagogo da ação, deste lobisomem behaviorista? Você, cidadão que faz ou já fez uso de coletivos, deve conhecer (ser?) aquele elemento, inescapavelmente do sexo macho, que se senta nos assentos coletivos de pernas bem, mas bem abertas. Assim, quem senta do lado do corredor precisa ocupar apenas meio banco, já que o espaçoso – muitas vezes nem obeso, nem obrigado pelas leis da física – ocupa UM BANCO E MEIO. Nonato nunca tentou entrar no mérito de os assentos de ônibus, barca, carroça e avião terem sido pensados para indivíduos de até certa altura e peso, regulando por baixo a heterogeneidade que é riqueza social. Sim, um problema patente das economias urbanas a que o capital nos domesticou. Nonato queimava etapas e problematizações e, numa manobra profundamente antipolítica, paria soluções.

Inventor, pois todo revolucionário é fundamentalmente inventor, Nonato elaborou uma calça jeans de marca genérica, na qual, em conluio com uma prendada costureira de seu bairro, afixou nas laterais das pernas, sempre à altura dos joelhos, pequenas tachinhas, pontiagudas e rigidamente fixadas. Bem, você já pode imaginar? Era para mim sempre um espetáculo pedagógico ver Nonato sentar-se ao lado de espaçosos, e “espetar” as cabeludas pernas dos incivilizados. Na maioria das vezes rolava apenas um desconforto, um susto que obrigava o pernudo a, em constrangido silêncio, fechar suas perninhas. Outros mais, reincidindo na espetada, percebiam o engodo, e levantavam-se, esbaforidos. E alguns poucos, valentinos de porta de bar, roncavam confusão, e não uma única vez vi Nonato chegar às vias de fato da incivilidade que combatia, aplicando no valente da vez cipoadas, agora de alto impacto, com um providencial soco inglês, outro de seus “aparatos civilizatórios”. Pare um instante, e tente imaginar tudo isso, rolando de segunda a segunda, nos muitos coletivos que Nonato pegava por dia. Posso prosseguir?

Pois tome mais. Sabe o indivíduo ou a indivídua que gosta de se sentar no assento e colocar sua mochila, bolsa ou trouxa de panos-de-bunda no banco ao lado, interditando a vaga de quem deseja sentar-se, obrigando o cidadão a pedir licença e chamar no simancol ao joão-ou-maria-sem-braço? Amiguinho, você precisava ver! Chego a me excitar ao rememorar: Nosso herói/anti-herói/vilão (a depender de quem é você no jogo social) SENTAVA-SE desabaladamente sobre as bolsas das pessoas, fossem homens, mulheres, adolescentes! Sempre sem pedir licença, sempre veloz para impedir a retirada da trouxa. Só me lembro de vê-lo poupar idosos e infantes. Quanta confusão, quanto arranca-rabo, quanto torneio de xingamentos, quanto “trincou meu Iphone, seu desgraçado” (nessas, em especial, eu quase tinha um orgasmo anticapitalista), mas principalmente: QUANTA LIÇÃO NONATO APLICOU!

O vidigal sem distintivo virou lenda entre motoristas e cobradores. “O cara pegou seu ônibus hoje? Deu ruim? Conta, conta”...

Me lembro de uma vez indagar, encafifado que andava com aquela impiedosa persona:

– Qual é sua filiação ideológica? Você é o quê, cara? Anarquista, fascista, stalinista?

Respondeu de chofre, de trivela:

– Nem sei o que sou. Nem tenho tempo pra isso, rapaz. Sei o que faço: um mundo melhor todo dia. No sapatinho, devagar e sempre. Agora deixa eu procurar um aluno.

E lá ia ele para a frente do coletivo, calmamente observando os bancos à procura de uma vítima. Ou (re)educando.

Porém era isso a poeira, as franjas das ações assanhadiças deste paladino. Desçamos do busão, vamos para as ruas. Sabe os motoqueiros, e aqui entram os de todos os calibres, sejam vadios – como o filho da sua vizinha – ou trabalhadores – como aquele seu genro – que exercitam passar a alta velocidade no cantinho da rua, naquele espaço entre a lombada/quebra-molas/barricada e o meio fio, aquela parte estreita onde a lombada não chega, para poder permitir o escoamento de água?  Fazem isso em sua pressa diária, manobra perigosa, muitas vezes quase acertando o braço de algum pacato transeunte de calçada. Nonato já levou uma bordoada numa dessas e, brasileiro ao contrário, pensou e executou um corretivo: Nosso amargurado dos passadiços prepara saquinhos de areia, em forma de sacolé e, dentro deles, como recheio gourmet, insere mais uma vez suas tachinhas, além de grampos 106/06mm soltos (deu até receita, o bruxo: 4 partes de areia, uma parte de tachas e grampos e meia parte de óleo queimado). Bolsa municiada, o andarilho desova seus sacolés nesses espacinhos entre uma calçada e um quebra-molas, enriquecendo borracheiros e também lanterneiros (pois muitas vezes o apressado, como todo apressado, dá de cara no chão). Quantos motoqueiros, sob a batuta invisível e retificadora de Nonato, aprenderam a passar pela lombada, receosos das surpresas do canto. E quanto, quanto a economia local de vários bairros gonçalenses foi movimentada – borracheiros, oficinas de motos, farmácias – graças à ação anarco-civilizatória deste intimorato gonçalense!

Ainda sobre motoqueiros, vamos ou desçamos aos tiradores de grau (“tirar um grau” é um otário empinar uma moto – ou bicicleta – numa única roda, em via pública). Você já ouviu o “Rugido da Terra”? Ah, meu leitor... O nome, épico, ele roubou de um anime japonês. Sim, o cara de cinquenta e alguns anos à época via animes, “curto desde Patrulha Estelar, cê nem era nascido”. Retomemos: vossa mercê já viu ou, bem melhor, ouviu aqueles sprays sonoros, que possuem na ponta uma corneta, e cujo som imita à perfeição a estridente buzina de um caminhão, carreta, navio que seja? Peça carnavalesca, infernal. Ora pois: Se um tirador de grau resolve praticar seu desofício (ofício de desocupados) próximo a nosso monstro, ele imediatamente apanha seu berrante na bolsa sempre à tiracolo e aplica contra os ares uma cavernosa buzinada. Sim, já jogou muitos ao chão, com o susto – para novamente a riqueza dos lanterneiros e mecânicos. Sim, já rolou confusão, embora ele tenha o tirocínio de tocar a buzina e logo enfiá-la velozmente na bolsa, seguindo em frente com sua cara de paisagem. Uma vez ia morrendo, pois o vida loka da vez era afinal vida loka pleno, e sacou uma pistola em pleno Colubandê, contra a cara de nosso corneteiro. Nonato, matuto, fingiu demência e driblou a indesejada das gentes.

Eu poderia passar oito, quinze colunas, um livro inteiro, relatando os prodígios deste homem de exceção. Mas seu tempo, como o meu, amigo leitor, é curto. Vamos então a apenas mais duas diabruras, um resumo das pataquadas deste varzeamocense, todas peças de ímpar engenho criativo, cujo anelo único é civilizar nossa sociedade barbaresca:

O monstro possui uma página no Instagram apenas para registrar as fotos e dados de motoristas de UBER que cancelam viagens. É isso mesmo que você leu. A cada UBER chamado, o cara dá print na tela com o nome e dados do motorista. “Vai para onde?”, pergunta o uberman. “Bom dia, boa noite, vou para tal lugar”. Em seguida a corrida é eventualmente cancelada; direito do motorista, claro. Alguns abusam deste direito, ok, ok. Alguns esbanjam, emphoderados, este direito. Abusando ou não, cancelou Nonato, vai pra rede. A página já foi derrubada oito vezes, mas o cara é incansável.

Agora a pior traquinada, pra fechar a coluna: Num dia de chuva, marchando em centros de cidades no horário comercial, quanta sombrinhada você costuma levar por dentro das fuças? Golpear os outros com sua sobrinha/guarda-chuva é a maxmaterialização de nossa miséria egótica, contra-empática, a expressão exterior da bolha de egoísmo em que vivemos, alguns vivemos. Pois Nonato, diabo da urbe, criou vingança: O cara adaptou um bastonete com diversas giletes cruzadas, na ponta, afixadas com Durepoxi. Avançando por ruas impraticáveis como as de nosso Alcântara ou a Uruguaiana e vizinhas, na capital, ele posiciona diante do rosto seu aparato. Cada sombrinha que avança em sua direção, cega, doida para lamber sua face e cegar seus olhos, sai chamuscada, talhada, picotada por suas giletes. O lance é rápido e fulminante. E lá se vai a sombrinha, geralmente de mulheres, embora ele não seja misógino (misantropo é certeza). “Num dia forte em Alcântara, foram vinte-e-uma sombrinhas e guarda-chuvas reeducados. Vinte-e-uma!”, narrou-me duma vez, gostoso de si. Canalha!

“Hã!!! Nonato só sacaneia pobre”, dirá você. Ah! Numa futura resenha, talvez narre o outro lado da moeda de fogo desta besta sem cauda, de como ele encontrava meios de punir também os príncipes, e os príncipes principalmente, como deve ser. Mas, enquanto você não vai acreditar no que eu revelar, “olha o papo do maluco”, outros, esses já vitimados, ligarão o fato à pessoa e tenho medo de, revelando o que sei, ser intimado a depor. 

 

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Aberração punitivista, apassivador contundente, formiguinha-cortadeira à serviço do acerto, maníaco obsessivo, psicótico. Sociopata ressocializador. Falangista macedônio, cavaleiro cruzado, lanceiro da nação nagô. Paulo Freire do mundo negativo. O melhor do pior de nós.

 

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Hoje sou um pacato professor de Geografia, militando longe da região metropolitana fluminense, e faz anos não vejo Nonato (terá sido morto por algum outro bicudo? É sempre uma possibilidade, e como que suas ações convergiam mesmo para esse centro equalizador que é a morte). Mas, ao reviver mentalmente tudo isso, desavergonhadamente confesso (afinal um cronista é um confessor concursado) que, se continuo escandalizado, fico igualmente excitado, perturbadoramente excitado com os gatilhos que a saga de Nonato faz disparar em minha cachola. Por isso rogo seu perdão por essa minha torpeza, amigo leitor. Como pesquisador da fauna humana desde meus doze anos, jamais encontrei espécime como este abortivo de Várzea das Moças.

Pra semana, vou finalmente em busca de terapia.

 

Publicado originalmente no Jornal Daki.

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Sammis Reachers é poeta, escritor e editor, autor de dez livros de poesia e três de contos e crônicas, organizador de mais de cinquenta antologias e professor de Geografia no tempo que lhe resta – ou vice-versa.

Publicou recentemente seu primeiro romance, o thriller de ação A Ordem Luterana da Cruz Combatente (disponível na Amazon).



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


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