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terça-feira, 7 de junho de 2022

NADA SE CRIA, NADA SE PERDE, TUDO SE TRANSFORMA - Um conto sobre justiça e viagens no tempo

 

Ano 2082. A Boate Tanganica fica na cobertura do edifício Von Humboldt, 18° andar. O enclave alemão de Stadt der Sonne, neocolônia de 730 quilômetros situada no coração da Tanzânia, reúne alguns dos mais ricos homens da África.

Johanes Blunt é um deles. Homem de meia idade, bem apessoado, os leves cabelos grisalhos lhe conferiam o charme que, ao lado de seu deus particular, o dinheiro, lhe franqueavam acesso à quase toda mulher que desejasse. Acoitava essa singularidade que o diferenciava entre os seus coetâneos da exótica colônia: Gostava apenas de mulheres.

Afastando-se do salão principal da festa, Johanes ruma à toalete. Ele vai aplicar, na própria veia, uma das poucas drogas proibidas, mesmo na babélica Stadt der Sonne: Nintol. É um estimulante que acelera a atividade de todas as células. Johanes irá aplicar a droga e também irá morrer em seguida, em menos de dois minutos, sozinho no cubículo de um banheiro àquela altura da festa já imundo, tombado sobre uma privada.

Isso, pela cronologia alfa.

Johanes, o grande empresário de soja da África, responsável pelo desmatamento de duas Namíbias inteiras, aplica a nova droga que, misturada à medicação que ele tomara horas atrás, causa uma reação anafilática que o derruba sobre a privada da qual havia acabado de levantar-se. Nesse instante, a cronologia beta se inicia. A portinhola do cubículo é arrancada, e uma injeção contendo contramedidas é enfiada no pescoço do moribundo.

Antes que pudesse recuperar a consciência e entender o que estava acontecendo, braços fortes levantam o corpo esmorecido de Johanes. E algo sinistro ocorre, no exato momento em que o alemão entreabre os olhos: Ele julga ver a ele mesmo sendo jogado de volta sobre a privada. O ele ou outro dele que voa parece um boneco sem vida.

Em seguida, o indivíduo que o apanhara pelos braços toca a outros dois elementos, militarmente paramentados e mascarados, e todos os quatro desaparecem numa espécie de mini-buraco negro que chega a absorver a própria luz do lugar.


***

Ano de 2061. Gotardo Mahles foi, há quarenta anos atrás, um ministro de estado, empossado na década de vinte do vigésimo primeiro século, no então continental país conhecido por Brasil. Durante seus pouco mais de dois anos de atuação, ele foi responsável direto e indireto pelo aumento do desmatamento em toda a floresta amazônica. Sob sua tutela e do então presidente da república, Aldir Maldonaro, criminosos brasileiros e de outros países praticaram dezenas de crimes ambientais, crimes que Mahles se esforçou por encobrir, contextualizar, e mesmo descriminalizar, ao fazer lobby por leis mais brandas.

Após sua saída daquele governo, transcorreram ainda quarenta anos antes do ex-ministro morrer, numa queda de avião. Mahles seguiu, até seu fim, praticando crimes outros, ligados à exploração sexual, notadamente para satisfazer às suas muitas luxúrias. Sequer destes deu-se notícia, durante sua vida: O frio Gotardo jamais experimentou o chão de um cárcere. As tentativas de puni-lo criminalmente por suas atividades quando no governo redundaram sempre em nada, até seus crimes prescreverem.

O avião, um Tesla Lightining, aeronave elétrica de 28 lugares, rumava de Caracas para Curitiba, capital do Brasil do Sul. Ao sobrevoar Anápolis, ainda sobre o país de Araguaia, ambos os motores elétricos entraram em pane. O piloto poderia ter acionado as contramedidas de praxe – ejeção da célula de passageiros – mas não o fez. O motivo? Nunca se soube, e já não importa.

Três homens surgem dum pequeno estouro, uma espécie de célula escura que emitiu um som de vento ao eclodir. Imediatamente, um deles ativou um pequeno aparelho de bloqueio de sinais eletromagnéticos, cujo objetivo era impedir que imagens do interior da aeronave fossem transmitidas para fora da mesma, pelo mecanismo de monitoração em tempo real. Apanhando pelo braço ao apavorado Gotardo, com a mesma velocidade com que surgiram, desapareceram. Deixaram caído ao chão um corpo: Um corpo idêntico ao do velho covarde. A ação toda fora percebida por alguns dos passageiros, mas principalmente pela aeromoça que, da porta da cabine, observava o salão do avião, enquanto a nave demonstrava passar por algum problema. Ela se aproximou daquele corpo que fora deixado para trás, e lhe admirou a semelhança com o passageiro que, há segundos, fora pego e levado para dentro de um buraco negro. Seu susto não teve muito tempo para entabular conjecturas, pois o veículo chocou-se contra um edifício, matando tudo e despedaçando a maioria daqueles corpos a bordo.

 

***

Ano de 1859. Austrália, dois séculos antes da ilha se tornar uma neocolônia chinesa, após a Grande Guerra do Pacífico. Thomas Austin, um agricultor, cometeu o mesmo erro que dezenas de seus patrícios, fato que faz da antiga Austrália um dos países mais visitados pelos misteriosos saltadores de buracos-negros. Seu crime foi introduzir uma espécie exótica – no caso, coelhos nativos da Europa – no frágil ecossistema australiano. Os eventos desencadeados a partir desse estopim foram catastróficos, e geraram uma reação em cadeia de sandices, como a introdução dos inimigos europeus dos coelhos, as raposas-vermelhas, na esperança de combater sua reprodução desenfreada. Raposas que, estabelecidas, acharam mais vantajoso caçar os lentos coalas do que coelhos serelepes. E esse foi apenas o princípio das dores.

A porta da choupana em que o moribundo Thomas se encontrava, já prestes a morrer, foi aberta pelos dois agentes, que acreditavam estar diante de um velho canceroso com apenas uma hora de vida. E assim era; mas a reação do velho diabo os surpreendeu. Sem mostrar apavoramento diante daqueles homens imbuídos em estranhíssimas vestes e armas, o australiano apanhou uma velha garrucha de pederneira que jazia numa mesinha ao lado de seu catre e fez fogo contra os agentes, fulminando no peito o primeiro deles. O segundo agente conseguiu recuar, puxando rapidamente seu companheiro pelo braço para fora do pequeno cômodo, praguejando em termos de “maldita Austrália” e “lugar almadiçoado”. Imediatamente iniciou os procedimentos de retorno temporal: Um pequeno buraco-negro, ele sempre, engoliu os dois aventurosos.

Uma nova incursão se fez necessária, ativando uma terceira linha do tempo, a gama, menos por temor do moribundo e sua arma, do que pela necessidade de salvar a vida do agente que fora atingido.

 

***

2109, tempo presente.

Os chamados Comandos Temporais de Ecojustiçamento realizaram, até aqui, 92 viagens.

Na maioria delas, com perfeito sucesso: Apenas a cronologia beta foi ativada. Sim, pois se possível era voltar no tempo, o número de idas a um determinado, específico ponto temporal era limitado. Mesmo sem causar alterações tempo-processuais, que são aquelas acarretadas por intervenções/alterações diretas (como voltar a 1939 e assassinar Hitler), a reles presença ou penetração num mesmo ponto temporal, por mais de três ou quatro vezes, infringia um tipo sinistro de dano à linha do tempo, de consequências assaz desastrosas.

Assim, os gestores das viagens estabeleceram um limite convencionado de no máximo três incursões sobre um mesmo evento ou momento. Somente seria possível, sobre a chamada cronologia alfa ou cronologia base (original) estabelecer uma cronologia beta, gama ou delta, a derradeira.

Das noventa e duas viagens empreendidas pelos cronoagentes, o sucesso foi mais que satisfatório: apenas uma delas chegou a delta, e cinco a gama.

 

***

Vamos agora aclarar os fatos? O objetivo das viagens era, sempre sem alterar a linha temporal, capturar grandes criminosos ambientais no momento exato de suas mortes. Para evitar problemas, seus corpos eram substituídos por réplicas sem vida, clones previamente engendrados: Assim as mudanças nos fatos temporais eram suprimidas ou minimizadas ao máximo possível. Para todos os efeitos, aquele que iria morrer dentro de instantes... morreu, e estava ali seu corpo.

Sua captura tinha um objetivo único: Julgá-los por seus crimes, crimes que afetaram toda a vida planetária. Sua condenação era certa, e sempre a mesma: Seus corpos, agora com sobrevida garantida pela medicina em uso, serviriam como COMBUSTÍVEL VIVO para reatores de energia ôntica – a poderosíssima energia da vida, élan ou força vital que, de reles lenda ou especulação espiritualista, para-filosófica, foi descoberta como uma das forças elementares da natureza, em 2098. Uma vez descoberta, logo se conseguiu utilizar tal força para gerar quantidades milagrosas (não há outra palavra) de energia, mas ao custo de sugá-la de um ser vivo, algo eticamente impensável pela cosmovisão vigente.

Mas, e se fosse possível utilizar as vidas de criminosos – não os poucos e reles criminosos do tempo, mas os maiores dentre os maiores, aqueles responsáveis por danos massivos não apenas à antroposfera, esfera dentre muitas da vida no planeta, mas aqueles que danificaram muitas e muitas (se não todas) as esferas de vida do sistema-Terra?

O programa se iniciou há exatos oito meses, especificamente em agosto de 2108. Fabuloso foi o debate que nele desembocou, como é de se imaginar.

Toda pessoa omniconectada opinou e votou: Deveríamos capturar os que cometeram crimes contra a humanidade, ou apenas os que cometeram crimes contra a base que permite ou não a humanidade subsistir: O planeta Terra? Tais crimes eram mesmo maiores? A era entendeu que sim. Era o zeitgeist, o espírito daquele tempo.

O pragmatismo venceu. Sim, ainda hoje gera embates éticos dignos de uma ágora ateniense. Mas está feito.

A pouquíssima possibilidade de retornar no tempo, e a impossibilidade de mudar suas linhas mestras, tornaram a operação toda direcionada ao que se deu. E aquela civilização pôs-se à caça.

Assim, a lei de Lavoisier e lei maior da matéria, “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” era celebrada por aqueles corpos, fadados a consumir-se lentamente, alimentados por equipamentos de biosustentação, doando sua energia mais íntima, mais fundamental – a energia própria da vida – para justamente manter a vida no planeta que tentaram destruir.

Utilizados como tochas humanas. Imóveis. Padecendo de dor, dor considerável, e não por crueldade: Não havia como minorá-la. Sim, uma afronta aos mecanismos vigentes de proteção da vida, aos chamados direitos omnivitais. Ainda assim, a exceção – corporificada naquela pena barbaresca – era aplicada.

Não apenas os altos custos e o altíssimo risco das viagens pelo tempo ditaram a regra para a punição apenas dos criminosos ambientais – que tinham até um apelido, os megadeths. A própria ética da era, amparada numa firme concepção de afirmação da vida, oriunda seja da filosofia secular, seja do neobudismo, seja do cristianismo positivo do (então reabilitado) Albert Schweitzer, deixaram claro o entendimento de que um crime contra a natureza era um crime contra todos, contra todo o conjunto dos terraviventes – dos quais os homens, veja você, são apenas uma das milhões de formas manifestas.

 

Sammis Reachers



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


sábado, 26 de fevereiro de 2022

Um poema educativo sobre as frutas nativas do Brasil - Cantiga das Crianças Fruteiras

CANTIGA DAS CRIANÇAS FRUTEIRAS -  Este pequeno material é um poema que, de forma divertida, fala sobre as frutas nativas de nosso Brasil, apresentando em seu corpo diversos nomes, a maioria “desconhecidos”, de algumas de nossas mais de 300 frutas nativas. O objetivo é informar e despertar a curiosidade de crianças e jovens (e adultos também) para um universo que muitos ignoram. 

É um material simples: Uma única folha A4 impressa em frente e verso e depois dobrada. Ele pode ser utilizado em aulas de português, ciências, geografia e mesmo outras disciplinas ou atividades transversais, a critério do educador. Pode ser livremente impresso e compartilhado. 

O arquivo em PDF traz duas versões, uma colorida e outra já otimizada para a impressão em preto-e-branco.

Para baixar o arquivo pelo Google Drive, CLIQUE AQUI. 

quarta-feira, 9 de março de 2016

CONTO: A Segunda Vida de Gregor Samsa

Mary Swanzy

A segunda vida de Gregor Samsa

      Não posso ver: tudo é sensação, para além ou de antes do visual, transcendência táctil: energias?
      Não me lembro completamente quem sou. Lembro trechos. Pedaços de rostos, cadeias de palavras que já não entendo e são música boa ou ruim.
      Estou nalguns braços. Alguém me move. Energias fluem, posso senti-las quase como odores. Atravessamos linhas de campos magnéticos. É magnífico este novo sentido, este meu único multisentido, seu caudal de silenciosa epifania.
      Lembro-me de destruir o jardim. Apanhei o taco e destruí as roseiras de alguém que não me lembro, alguém muito importante, alguém que importava. Destruí todas aquelas plantas de nomes débeis e frescos que não sei, aqueles nomes inúteis que sempre mantive aquém de mim.
      Espalhei as terras, derribei as pequenas contenções, como meios-fios, que delimitavam aquele inferninho verde. Estranho como disso me lembro bem. Cada movimento acertado.
      Parei de ser movimentado: sinto o vento, quentura. Ela é como uma canção. Suas ondas borrifam o que quer que sejam meus receptores, me deitam num torpor adocicado. Sou feliz.
      A pulsação que me movimentou aproxima-se, sinto seu avanço pelas linhas do campo magnético, ela deita água em meu pés. Não posso movê-los, nem tento: não anseio o movimento, anseio os movimentos que me vêm: flutuações do campo, comunicações que ainda não decodifico – mas o farei – a viscosidade do calor solar que banha-me, e este furor, esta fome consumindo meus pés: este fausto manjar de águas. Água. Água. Como nunca percebi? Como ela pode ser tão doce, e ter me passado incógnita, obscurecida? Para cada nova sensação faltam-me as palavras, conceitos de perfeito encaixe, mas tal abismo se avoluma ao toque da água. Fruição, tepidez... uma quase promiscuidade, coquetel de psicotrópicos conflitando e equalizando-se, a um só tempo, em meu corpo possuído. Agora percebo que o céu é feito de água, e para ela e para a luz é o meu desejo.
      Os campos magnéticos ondulam. O sol cintila. Meus pés alimentam-me. Dormi furioso ontem, não falei com Maria (agora me aflora tal nome), mal lavei as mãos sujas de terra, rolei como um diabo antes de conciliar o sono. Acordei dentro da paz.

      Sou planta. 

Sammis Reachers

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

VI Seminário sobre Direito e Ética Animal na USP - 20 e 21 de Setembro




O VI Seminário sobre Direito e Ética Animal na USP, organizado pelo DIVERSITAS vai ocorrer nos próximos dias 20 e 21 de setembro. Participações de Artur Matuck, Carlos Naconecy, Christian Nucker, Daniel Lourenço, Juliana Prado, Laerte Levai, Renata Zancan, Renato Queiroz, Sara Albieri e Vanice Orlandi. INSCRIÇÕES ABERTAS, É GRATUITO

Como evento paralelo a exposição PASSARINHO NA GAIOLA NÃO CANTA, LAMENTA, com ilustrações em grandes painéis de vários ilustradores que acreditam na importância da liberdade das aves, a favor da desarticulação do comércio legal ou ilegal de pássaros e contra o tráfico de animais silvestres, que é o terceiro comércio ilícito no mundo a movimentar grandes fortunas, depois do tráfico de drogas e de armas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

BARU: Amêndoa de fruto do Cerrado supera peixes e outras castanhas




Amêndoa de baru
Mais que uma iguaria saborosa e nutritiva, o baru - fruto castanho do Cerrado pouco conhecido no país - tem alto potencial antioxidante.
Seus efeitos benéficos à saúde incluem a possibilidade de combater processos inflamatórios e doenças crônicas e degenerativas, como câncer, hipertensão, diabetes, artrite e enfermidades cardiovasculares.
A descoberta é da cientista de alimentos Miriam Rejane Bonilla Lemos, em um estudo desenvolvido em uma parceria entre a Universidade de Brasília e a Universidade Federal de Pelotas.

Melhor que peixe
A partir da análise de compostos bioativos em amêndoas de baru, a pesquisadora comprovou a eficiência desses fitoquímicos no controle dos radicais livres - apontados como responsáveis por inúmeras enfermidades.
"Nossos estudos em laboratório identificaram esses grupos com reconhecida ação contra as moléculas causadoras do estresse oxidativo", explica. "Os fitoquímicos contribuem como potentes agentes preventivos de doenças graves."
A pesquisadora descobriu também que os óleos da amêndoa do baru são mais ricos em ômega 3, 6 e 9, com 81% mais ácidos graxos insaturados que os próprios peixes, tão recomendados em dietas saudáveis.
"Em relação a seu potencial oxidativo, na família de leguminosas - pistache, amendoim, noz, macadâmia -, sem dúvida alguma, a amêndoa do baru se sobressai", diz.

Propriedades farmacológicas
"A pesquisa é um pontapé inicial no reconhecimento das propriedades farmacológicas do baru, geralmente mais estudado em seus aspectos nutricionais," afirmou a professora Egle Machado Siqueira.
Para ela, a identificação de altos níveis de fenólicos, antioxidantes mais poderosos que as vitaminas C e E, constitui, sem dúvida, uma grande contribuição científica.
Outro ponto positivo da pesquisa apontado pela professora Egle é a valorização do Cerrado, segundo maior bioma do Brasil, "flora ainda pouco notada em seu potencial produtivo", de acordo com o estudo.

quarta-feira, 28 de março de 2012

A morte da águia, magnífico poema de Luís Guimarães




A bordo vinha uma águia.  Era um presente
Que um potentado, — um certo rei do Oriente,
Mandava a outro: — um mimo soberano.
Era uma águia real.  Entre a sombria
Grade da jaula o seu olhar luzia,
Profundo e triste como o olhar humano.

Aos balanços do barco ela curvava
Ao níveo colo a fronte que cismava…
E enquanto as ondas túrbidas gemiam,
Ao som do vento – em fúnebres lamentos
Ela pensava nos longínquos ventos
Que do Himalaia os píncaros varriam.

Fora uma infame e traiçoeira bala,
Que, do régio fuzil negra vassala,
Invisível – uma asa lhe partira:
Cheia de luz, tranqüila, majestosa,
Dobrando a fronde branca e poderosa,
Aos pés de um rei a águia real caíra.

Os bonzos vis, proféticos doutores,
Sondando-lhe a ferida e as cruas dores,
Que um venenoso bálsamo tentava
Apaziguar em vão, — diziam rindo:
“Não há no mundo exemplar mais lindo:
Vale um império!” – E a águia agonizava.

Um dia, enfim, o animal valente
Resistindo aos martírios, — largamente
Respirou a amplidão.  A asa possante
Abrir tentou de novo.  Aberta estava
A jaula colossal que o esperava:
Forçoso era partir.  Desde este instante,

A águia sombria e muda e pensativa,
Solene mártir, vítima cativa,
Terror dos vis e símbolo dos bravos,
Pediu a morte a Deus, — pediu-a ansiosa
Longe, porém, da corte vergonhosa
Desse covarde e baixo rei de escravos.

Pediu a morte a Deus, o cataclismo,
As convulsões elétricas do abismo,
As batalhas finais!  Morrer num grito
Vibrante, imenso, heróico, soberano,
E fremente rolar no azul do Oceano,
Como um titã caído do infinito.

Morrer livre, cercada de vitórias,
Com suas asas – pavilhão de glórias –
Inundadas da luz que o Sol espalha:
Ter o fundo do mar por catacumba,
As orações do vento que retumba,
E as cambraias da espuma por mortalha.

Entanto, melancólica, tristonha,
Como um gigante mórbido que sonha,
Fitava, às vezes, o revolto oceano,
Com esse olhar nublado e delirante,
Com que saudava a César triunfante
O moribundo gladiador romano.

O comandante – urso do mar bondoso —
Disse um dia ao escravo rancoroso,
Ao carcereiro estúpido e inclemente:
“Leve-a ao convés.  Verá que esse desmaio
Basta para apagá-lo um brando raio
Do largo Sol no rúbido oriente.”

Subiu então a jaula ao tombadilho:
Do nato dia ao purpurino brilho
Salpicava de luz o céu nevado…
E a águia elevando a pálpebra dormente
Abriu as asas ao clarão nascente
Como as hastes de leque iluminado.

O mar gemia, lôbrego e espumante,
Açoitando o navio; — além – distante,
Nas vaporosas bordas do horizonte,
As matutinas névoas que ondulavam,
Em suas várias curvas figuravam
Os largos flancos triunfais de um monte.

“Abre-lhe a porta da prisão,” ( ridente
O comandante disse ) “Esta corrente
Para conter-lhe o vôo é mais que forte!
Voar!  pobre infeliz!  causa piedade!
Dê-lhe um momento de ar e liberdade!
Único meio de a salvar da morte.”

Quando a porta se abriu, — como uma tromba,
Como o invencível furacão que arromba
Da tempestade as negras barricadas,
A águia lançou por terra o escravo pasmo,
E desprendendo um grito de sarcasmo,
Moveu as longas asas espalmadas.

Pairou sobre o navio — imensa e bela –
Como uma branca, uma isolada vela
A demandar um livre e novo mundo;
Crescia o Sol nas nuvens refulgentes,
E como um turbilhão de águias frementes,
Zunia o vento na amplidão,  – profundo.

Ela lutou, ansiosa!  Atra agonia
Sufocava-a.  O escravo lhe estendia
Os miseráveis e covardes braços;
Nu o oceano ao longe cintilava
E a rainha do ar, em vão, buscava
Onde pousar os grandes membros lassos. 

Sobre o barco pairou ainda, — e alçando,
Alçando mais os vôos,  e afogando
Na luz do Sol a fronte alvinitente,
Ébria de espaço, ébria de liberdade,
Como um astro que cai da imensidade,
Afundou-se nas ondas de repente.

sexta-feira, 9 de março de 2012

LIBERDADE PARA OS PÁSSAROS: 10 poemas contra o comércio e o encarceramento de pássaros


Reunindo 10 poemas de Antonio Costta, com edição e arte de Sammis Reachers, este breve opúsculo é uma pequena iniciativa para, através da poesia, estimular a reflexão, denunciando e combatendo o encarceramento de aves e também seu comércio ilegal. 


O encarceramento de aves é um dos poucosabsurdos ainda de alguma maneira ‘aceitos’ por nossa sociedade. Culturalmente acostumados, ou melhor, anestesiados, muitos deixam de perceber que isto é algo terrivelmente cruel e sistematicamente desrespeitoso para com os direitos dos animais. É já a hora de proclamarmos um grande basta!

Aprisionar asas: poderia haver um crime maior?

Os poemas e as imagens, bem como esta seleta inteira, se com fins não-comerciais, podem ser livremente republicados e divulgados, sem a necessidade de prévia autorização dos autores.

Compartilhe, imprima, disponibilize a partir de seu blog ou site, presenteie crianças e adultos, utilize em sua escola, distribua para sua lista de e-mails...

Para baixar o e-book, CLIQUE AQUI.
Para ler online no Scribd, CLIQUE AQUI.

Abaixo, dois poemas da obra:


PASSARINHO TRISTE

Pássaro triste, tardo no trinado,
Sequer sem repetir seu repertório,
Por que o teu silêncio de velório,
Nessa gaiola tua, em tom dourado?


Estarás triste ou hás de estar cansado
De tanto canto por ninguém ouvido?
Ou, por tentar o vôo, estás ferido
Das grades onde estás aprisionado?


Quem das aves calou a voz mais bela?
A saudade? Só pode ser por ela,
Que vem do ninho por detrás da serra...


Mas em teus olhos a esperança é certa:
Quando esquecerem a gaiola aberta,
Hás de voar de volta à tua terra!




O HOMEM E O PÁSSARO NA MESMA GAIOLA

Coitado do homem da grande cidade,
Trancado em casa, entre a grade e o portão;
Tal qual passarinho, sem liberdade,
Quase vivendo em igual condição!

Os dois na prisão, cantando saudade,
O homem trancado na sua mansão;
Um por causa da humana crueldade,
E o outro com medo do astuto ladrão!

Coitado do homem, não se dá por conta,
Que a liberdade ele mesmo afronta,
Ao manter o pássaro na prisão...

Na realidade ele está mais preso
Do que o passarinho que vive a esmo,
Sem nunca saber o motivo, a razão!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Ilustrações em defesa dos direitos dos animais - Iniciativa contra o confinamento e o comércio ilegal de pássaros

Ana Maria Moura

Mais de 60 ilustradores, brasileiros e estrangeiros, expõe trabalhos que alertam para o confinamento e comércio ilegal de pássaros. É a exposição 'Passarinho na gaiola não canta, lamenta', realizada em São Paulo (maiores informações AQUI).
Veja algumas das ilustrações:


Alecrim

 Alexandre Beck

 Cecília Esteves

 Eldes

 Gilberto Lefevre

 João Lin

 Laerte Silvino

 Marcos Guilherme

 Marlowa

 Monica Fuchshuber

 Paladino

 Patrícia Machado

 Paulo Fradino

 Sandra Ronca

Yara Kono


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