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sexta-feira, 24 de novembro de 2023



Amor (ou caridade), Esperança e Fé: As três principais virtudes cristãs, conforme arroladas pelo apóstolo Paulo no décimo terceiro capítulo da Primeira Carta aos Coríntios, um dos ou talvez mesmo o mais belo capítulo de todo o Novo Testamento. Os católicos chamam-nas de virtudes teologais, que seriam infundidas por Deus no homem, e cuja ação é complementada pelas virtudes cardinais (prudência, justiça, fortaleza e temperança).

Nesta breve seleta, reunimos nada menos que mil (e cem) citações. São textos notadamente de autores cristãos (reformados, católicos e de outras vertentes), mas não somente; autores de outras confissões religiosas aqui comparecem, e mesmo agnósticos e livres pensadores os mais diversos, contribuindo para o entendimento e a reflexão plurais sobre tais temas de infindável profundidade. Assim, mesmo focado na seara cristã, esta pequena antologia é de valia para todo tipo de leitor, todo aquele que tem sua atenção capturada pelo mundo das ideias.

Este livro é uma edição revista e ampliada do e-book “Amor, Esperança e Fé – Uma antologia de citações”, publicado em 2017, e que reunia em torno de 750 citações sobre as três virtudes. Além do acréscimo em citações, aqui inserimos uma nova seção, “As Três Virtudes”, reunindo citações que falem ao mesmo tempo sobre as três, ou ao menos duas delas. O referido e-book foi uma publicação que surgiu no rastro de comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante.

“Bem, as virtudes teologais: o que tem isso a ver com a Reforma?”, perguntará o leitor mais desatento. E que foi a Reforma, senão um retorno ou esforço de retorno aos fundamentos da fé cristã uma vez perdidos ou obnubilados? Anseio desesperado de tornar às bases e raízes que foram amortecidas ou banidas em troca de conceitos débeis e prostituídos? Se assim entendermos, percebemos que nada há de mais basilar em nossa crença do que o consórcio destas três virtudes capitais. São elas que garantem a simplicidade revolucionária da mensagem dAquele que por todos se ofereceu na cruz.

Que esta pequena seleta seja de proveitosa e edificante leitura a você, amigo leitor. Mais do que um livro a ser lido, nosso esforço foi para tornar este volume um livro a ser revisitado enquanto durar nossa peregrinação terrena.

E agora, além da versão em e-book, gratuita, atendemos a um pedido de muitos e disponibilizamos uma versão impressa, à venda no site da Editora UICLAP.


Para baixar o e-book GRATUITO pelo site Google Drive, CLIQUE AQUI.


Caso queira adquirir o livro impresso, confira no site da UICLAP, CLICANDO AQUI.


domingo, 10 de julho de 2022

Onório do Bairro Antonina – e o peixe que faz piscar o Universo

 


Todos os dias, com sábados e domingos neles, ele aguarda as 17h e sai do Bairro Antonina, no município fluminense de São Gonçalo, numa viagem de dois ônibus até a praia de Gragoatá, em Niterói. Escolhe uma posição aleatória no grande calçadão que separa as praias de Boa Viagem e Gragoatá, sempre o ponto mais vazio da noite. Em seguida, lança sua linha de mão – pois jamais gostou de varas de pesca – e aguarda acontecer.

Nunca entendeu o motivo de tal extravagância do Universo, mas, que importa?

Na primeira vez foi assustador, e ele se acreditou morto. Era a terceira ida até o calçadão do Gragoatá, depois de anos pescando apenas na gonçalense Praia da Luz, local que se tornara inviável pela violência. A pesca de linha era sua forma de descontrair as noites, de embriagar – ele que nunca bebia – e engabelar sua solidão. O filho se fora para Anápolis, trabalhar no agro, mas isso era da vida e para tal fora criado. Mas ela... Ela a partida, ela a finada, ela era a sua dor.

Ia pras 20h quando a linha acusou retorno, rompendo a sonolenta divagação do velho solitário.

Ele puxou, e a dádiva do mar e da noite foi uma bela e inesperada raia viola. Susto imediato, pescar uma raia ali na costa, na potência da simples linha!

Ao apanhar o peixe, com cuidado pois jamais manuseara um daqueles, o velho Onório surpreendeu-se sorrindo – sim, sorrindo depois de três anos de um luto travestido de eternidade.

Ao abrir cerimoniosamente a boca do peixe para remover o anzol, aconteceu.

Sua visão pareceu escurecer, como sucede quando se está prestes a um desmaio, mas logo foi inundada por um clarão oceânico. Três ou quatro segundos foram necessários para ele voltar a abrir os olhos, e agora já não havia noite nem mar.

Sentado num banco da praça Carlos Gianelli, no concorrido bairro de Alcântara, em São Gonçalo, sua primeira sensação foi daquela mão macia e aquecida segurando a sua. Olhou para o lado, e era ela, Amária. Não era possível! Antes que pudesse falar alguma coisa, ela se antecipou:

– Fique calmo, Onório. Eu estou aqui, eu estou aqui. – Ela disse, deitando a cabeça em seus ombros. Ele respondeu reclinando sua cabeça de encontro a dela, apertando ainda mais aquela mão, e só então fixando o olhar na paisagem, banhada pelo mais aconchegante dos sóis.

Um Fiat Tempra, retinindo de novo, cruzava a rua. Na outra mão, um ônibus da empresa Santa Isabel parava para o embarque de passageiros. Ele trabalhara naquela empresa que já não era, desfeita que fora em 2006. Só então ele deu-se conta: Aquela praça também já não existia; dera lugar a um obtuso shopping. Amária estava bem mais jovem do que quando partira, e isso tinha motivo, legível na paisagem e nas memórias: ele voltara até os anos 1990.

– Eu te amo tanto, Onório. Essa dor, ela é tanta, mas pra que isso? A vida acontece, e morrer foi da vida. Você precisa ser forte, precisa continuar.

– Eu sei. Eu sei! Mas não consigo, não consigo... De dia fico enfurnado naquela casa, ainda ouço a Rádio Tupi, só pra lembrar de quando ficávamos ouvindo as notícias e causos, eu consertando televisores, você na costura... Mas quando a tarde vai caindo eu não aguento, e preciso esquecer. Saio para pescar, e tentar esquecer você, mas não funciona muito bem. Por tantas vezes pensei em me jogar no mar!

– Nem tem pra que disso, Onório! Te conheci macho, macho te escolhi, então honre o que você foi e é. Tenha brios, homem!

– Ô minha fortuna... Só de estar aqui e falar com você, meu Deus, nunca tive um sonho tão doce, e tão real. Cê voltou dos mortos pra estar comigo!

– Ninguém volta dos mortos, meu carneirinho... E nem tem outra vida além dessa que vivi, que você vive. E sonho não tem cheiro. Sente esse cheirinho de angu à baiana, vindo daquela barraca? Aqui não é sonho nem realidade, é uma outra coisa, não tem nome pra isso. Seu amor que fez esse milagre, Onório.

– Mas é lindo, Amária, é lindo. E como você está linda. Esse vestido azul, nem me lembrava.

– Está na hora de você voltar, meu amor.

– Não, não! Que isso meu doce, aqui é meu lugar, que voltar o quê!

– Aqui nem é lugar, nem é nosso, Onório. Mas aqui estamos, isso foi uma piscadela do Universo, uma graça de Deus. Mas o Universo já está abrindo os olhos.

– Não, não, meu amor, eu te imploro!

– Vai. Amanhã o Universo vai piscar de novo.

Outro clarão acometeu aos olhos do viúvo, seguido por um escuro manso – processo do início da visão, mas ao revés.

Onório ainda estava com a raia nas mãos – peixe raro, de estranho nome científico, Zapteryx brevirostris, tão ameaçado de extinção quanto o amor. Nativo da Baía de Guanabara, sua pesca era proibida. O velho o lançou de volta ao mar.

E todos os dias, com sábados e domingos e tempestades neles, religiosamente o velho sai de seu agora já não tão mal cuidado casebre, situado numa travessa sem saída no Bairro Antonina, e vai até aquele calçadão niteroiense para pescar a mesma raia, em cuja boca o Universo pisca – ressuscitando, noite após noite, o moribundo Onório e seu amor.

Sammis Reachers

 

 


Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


domingo, 11 de outubro de 2020

Menina Minimalista, ou: A letra de uma canção

 


Menina Minimalista

 

Teu amor tão simples tanto satisfaz

Tua luz irrequieta assim

me pega nas mãos e leva, templo da paz

salva, completa o menino em mim

 

Menininhainha

Deus te incumbiu de mim

teus braços dois sóis céus

véus de arder

voz de mil beijos, sim

 

Menina minimalista

rearranja os móveis do meu coração

de tudo basta que você exista

teu amor tem status de canção

 

Menina mínima, minimalista

Deus te incumbiu de mim

teus braços dois sóis céus

véus de arder

voz de mil beijos, sim

 

Colecionadora de desocupações

Estrela solista, solícito olhar e sons

Teus mínimos toques, encantações

Perfeições feitas de tão poucos tons

 

Menininhainha

Deus te incumbiu de mim

teus braços dois sóis céus

véus de arder

voz de mil beijos, sim


Sammis Reachers



sábado, 15 de fevereiro de 2020

Tríptico Paulino (poema)


Tríptico Paulino

Só em Fé
               eu sei

Só em Esperança
                            eu posso

Só em Amor
                    alcanço
                                alcançarei

Sammis Reachers

domingo, 9 de dezembro de 2018

Poemas de Amor em Trânsito, novo livro de Sammis Reachers


      Este livro é um pequenino mimo. Poemas e livro possuem uma única leitora efetiva ou assertiva, que acumula as vezes de musa e destinatária dos versos – minha Érika.

      O título do livro decorre de a franca maioria dos poemas ter sido escrita em trânsito – dentro de ônibus e, em geral, quando eu atravessava a baía de Guanabara em regresso para a São Gonçalo de meu desmazelo, vindo dos encontros no Rio de Janeiro com a minha então (primeiro) amiga, depois namorada, hoje esposa, consorte, âncora de Deus e fofa metade.
                                                                 
      Poemas não ‘trabalhados’, mas instantâneos, escritos no celular e imediatamente remetidos de volta à sua origem – e nisso mesmo mais preciosos, frutos do puro e espontâneo enlevo poético e sua escrita quase automática, irrefreável (e os poetas sabem do que falo).

      Passeios no Jardim Botânico (onde os bancos guardam nossos nomes), na praia de Copacabana – onde enfrentamos duas tempestades climáticas e uma relacional... Tours regados a café expresso pelos museus diversos do centro da cidade... Nossos beijos entre os livros (onde mais?) da aprazível Biblioteca Parque Estadual, e uma tarde edênica, elísia, no Jardim Suspenso do Valongo... A distância e a incompatibilidade de horários tornavam os encontros poucos e esparramados pelo calendário, mas eram sempre repletos daquela magia arcana do amor que já julguei extinta (até vivenciá-la) e que hoje se perde (ou já nem chega a ser divisada) nos relacionamentos líquidos – e redundaram quase todos em poemas.

      Esse livrinho despretensioso é só para ela. Se o torno público, é tão-só para alegrá-la, e porque reza a justiça que compete, aos amores grandes, quando realizados, a comunicação de seu sucesso. No mais, sou um poeta na acepção mais triste do termo: mal tenho onde cair morto. Entanto, se muitas ganham joias e viagens, Pajeros e poodles, quão poucas hoje em dia podem ganhar um humílimo poema que se sustente – ou as sustenha desse ar eletrificado que a poesia insufla... E quão ínfimo é o time daquelas musas, quando musas, que possuem um livro pra chamar de seu.
      E, assim, acerto minha gravata borboleta, meu terno surrado de poeta falido – e declaro sem cerimônias meu profundo e grato amor.

Sammis Reachers

PARA REALIZAR O DOWNLOAD PELO SITE GOOGLE DRIVE, CLIQUE AQUI.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Este poema neste Dia dos Namorados


Hoje é o Dia dos Namorados, ou assim o comemoramos neste Dia do Senhor

Ela está aqui ao meu lado.
Fez um dos pratos mais deliciosos que já comi;
Apanho sua mão perfumada e trago ao meu rosto
Faço-a de travesseiro, berço, trama e tumba a bastar-me:
As linhas de sua mão são a conclusão de meus circuitos

Já tive algumas mulheres, sim, ou
Beijei algumas mulheres, melhor assim
Que isso de posse ao fim e ao cabo cabe a quem assina,
Mas em todo caso dei-me sempre retido, a entrega é sempre retesada
Num homem - ainda que aparentemente lançado
É apenas uma parte de seu coração que ele lança:

Mas eis-me aqui, entregue, catapultado por inteiro
Ao pequeno oceano de amor que essa moça
Tão terna trouxe de tão longe

Hoje é o Dia dos Namorados, e a pele dela todo dia
É um pergaminho branco, um convite ao poema
Apanho sua mão
Sua mão que ao meu rosto arrebanha,
Pastora dos animais que me habitam
Apanho sua mão de unhas azuis
“Olha, sua cor preferida”
Ah! Minha cor preferida é a que você usar, menina
Nem se deu conta ainda, ninfa potestade
Da capitulação das terras de meu coração,
Nem se deu conta ainda
De seu domínio?

Hoje é o Dia dos Namorados
Ela está aqui ao meu lado, vendo vídeos
Falando de minha irmã
Ela a moça mais linda
Rindo sem graça não querendo ver
Este poema que escrevo

Ela a minha alegria, estrela não de hidrogênio e hélio
Mas de sândalo & nitroglicerina
Ela essa coisinha tão pequenina que aterrorizou
A escuridão que me habita, ela que olhou minha escuridão
Olhos nos olhos, e dedo em riste sem medo
A estapeou, “Bom dia, vadia! Vamos, saia por onde eu entrei”
Ela a pequena ninfa que estapeia e vitupera a escuridão e sorri,
Ciosa agente de Elohim, palavra de renovo
Ela que nos venceu a todos os animais em mim.

P/Érika.


terça-feira, 26 de julho de 2016

A pequenina fábula urbana da Beleza que despedaçou o Tempo


Você não gosta de esperar, e afinal quem gosta? Você definitivamente não gosta de esperar. Mas o tempo passa, você espera, ela está vindo, em algum lugar ela está se arrumando e vindo. Você olha as árvores, olha para a estátua do Redentor, é a cidade mais bonita do mundo, esteja feliz! O tempo passa. Seu ímpeto arrefece, você não se estressa, apenas inicia a queda na ladeira do desânimo. Rola. E nada. Que saco, hein? Você circula, vai aqui e ali. Não sabe o que fazer. Uma hora e meia. Seu recorde foi batido, em plena Cidade Olímpica. Vai para fora do jardim, cabisbaixo, contrafeito. Então olha para a calçada. Um vestido verde rompe entre a multidão. É ELA. Num repente a cidade inteira parece exultar de esplendor e ao mesmo tempo desfazer-se, transmutar-se em tela em branco, em vácuo e palco, e todo o seu ser, cada célula, e seu espírito dizem, escravos de uma certeza total, inescapável: "Veja, é ela, a mulher mais bonita de todo o mundo". O desânimo, despedaçado, já não é sequer uma lembrança. Então ela sorri, e seu sorriso é um Universo armado que dispara, e você surta, atingido, e ouve um som frenético dentro da sua cabeça, "plein, plein, plein..." São todas as fichas do mundo que caem no seu cérebro, ao mesmo tempo, e você entende por que Einstein foi o gênio que foi, pois ele deve ter visto ou sido atravessado por uma maravilha assim, que só ocorre uma vez a cada século, e nesse instante ele concebeu sua maior teoria, pois entendeu que o tempo é relativo, o tempo não é nada. 
26/07/2016 

 Sammis Reachers

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O PEQUENO LIVRO DOS MORTOS - Contos de Sammis Reachers em novo livro


O Pequeno Livro dos Mortos (Contos). 
Editora Letras e Versos, 2015. 
96 Págs.

    Seja bem-vindo a esta pequena jornada, amigo leitor. Aqui o humor, o terror, o conto de espionagem, a ficção científica, a fantasia borgeana e a crônica (sub)urbana, com seu traçado agridoce e enlameado de poesia e violência, são os vagões, os gêneros desse comboio, desse trem de memória e invenção de que valho-me para visitar e emoldurar meus mortos. Ficção e realidade interpenetradas, perdição e redenção amalgamadas num caudal de cores de inusitada composição, para falar dos muitos mortos que perdi e ganhei, amigos e não-amigos, reais e imaginários, e suas mortes físicas mas algumas vezes também espirituais. Mortos que precisam de uma voz, prontos para revelar suas histórias de crueza e beleza, e de um como que encantado desencanto.
    
     Um passeio pelas horas da verdade: momentos de encontros com (ou retornos para) o Cristo, ressurreições, chamados cumpridos; mas também desencontros, desvios e desdita. E o trem tragicômico dos mortos e vivos avança: há provocações sutil ou escancaradamente acondicionadas em cada vagão, como passageiros clandestinos. Prontos para abraçar e inquietar, com seu amor ou seu aço, aqueles que se aproximarem...

      A morte é o fato inelutável, a certeza primeva de todo homem - e que por isso mesmo deve ser refletida e ruminada, jamais encoberta, ‘esquecida’ - uma premência filosófica que levou Heidegger, talvez o maior filósofo do século XX, a definir o homem fundamentalmente como ser-para-a-morte.

      Mas ao pensarmos na morte, precisamos atentar para seu caráter duplo, para o fato de que, se cremos na mensagem cristã, há duas mortes possíveis: uma carnal, inevitável neste aqui-e-agora que vivenciamos, e uma espiritual e eterna, representada pelo afastamento de Deus, afastamento este perfeitamente evitável. Cabe sempre lembrar das palavras de Deus em Deuteronômio 30:19: “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua semente...”. Sim, eis a boa-nova, a raiz e o fundamento do cristianismo: a todo homem está franqueada a esperança de não passar pela segunda e verdadeira morte, e galgar à eternidade re-unido com Deus, esperança radical advinda na pessoa e pelo sacrifício vicário do Homem-Deus de Nazaré, Jesus Cristo, expressa em João 11:25,26: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto?”

      No mais, para além de religiosidades (Cristo é uma pessoa, nunca uma religião) e do tema algo lúgubre da morte, eis aqui apenas um livro de ficções, que expressa uma cosmovisão, sim, mas não tem objetivos proselitistas de qualquer monta: se ele puder entretê-lo, amigo leitor, ao lhe permitir devanear, sorrir ou assustar-se, se emocionar e solidarizar, ou talvez, ainda que por meros milímetros, expandir sua forma de perceber, terá cumprido seu humilde papel de livro.

O livro em formato E-BOOK pode ser adquirido no site da Amazon, por R$ 9,50 , CLICANDO AQUI.
O livro IMPRESSO custa apenas R$ 20,00 , já com as despesas de envio (Correio) incluídas. Para saber como adquirir a edição impressa, escreva para: sreachers@gmail.com

sexta-feira, 6 de março de 2015

Oito poemas de Mathias Raws: O ciclo de Natália



Ciclo de Natália

Quarta-feira

Pequena fada de porcelana
caminhando leve com seus passos
                                           de borboleta ou
severa deusa
séria - sensual - solitária lua
iluminando com seus olhos de paz
os caminhos adiante

queria seguir seus passos, pisar
onde você pisa
beijar todo dia os seus pés (despet)alados

Quinta-feira

Esse coração, essa dura & firme fortaleza,
como eu queria tomá-la de assalto
e fincar minha bandeira branca
em sua alta torre

Cultivar seus jardins
até enchê-los de rosas
e depois tecer uma cama de pétalas
para você descansar sua beleza
de índia iluminada

Suportar sua fúria e ouvir
suas broncas
com um sorriso impassível no rosto
feliz por tê-la como a tutora de meu coração.

Sexta-feira

Seus cabelos, esse oceano de delícias
de onde eu nunca deveria ter saído
desde aquela mágica/trágica primeira vez
em que entrei por entre eles

Seus cabelos, lugar de nirvana,
quebra dimensional, não-lugar,
onde um monge pode encontrar a (ilum)inação
e tornar-se um buda
um (silen)cioso e realizado buda
vencido por esta dimensão de perfumes, castanha maciez
e amorável loucura

Sábado

Menininha linda & retalhadora
que sorri
enquanto rasga minha pele frágil
com suas unhas de cristal...

Malévola
que pisa quem te adora
sádica senhora
cheia de nãos
não posso - não vou - não deixo - não
me aporrinhe
não sei como posso amar
a brutalidade de suas palavras
seu coraçãozinho de pedra
seus pés que não posso tocar...


Domingo

Sua pele morena & lisa
queria mapeá-la como a uma ilha do tesouro
para conhecer cada canto,
cada curva e esconderijo
e todos os dias
caminhar por essa ilha da fantasia
livre e solitário
como um pirata, um corsário,
ladrão e senhor do maior dos tesouros do mundo.

Segunda-feira

Menininha prematura
de alma tão velha, tão antiga
queria lhe fazer uma cantiga
que lhe rejuvenescesse a alma,
e a tirasse para dançar...
queria saber chegar
nesse seu mau humor
de assalto, dizendo à tristeza:
Mãos ao alto!
e tocando o terror
arrombando todas as portas
rompendo as cadeias e cordas
que lhe impedem de amar.

Queria ser Aquaman ou Namor,
o Príncipe Submarino
para alcançar, Tristeza, seu palácio
no fundo do mar
mas no lugar de nadadeiras, Deus
deu-me embaraçosas asas.

Dane-se o voo: por ti estou pronto
a descer e me afogar.
Deus me perdoará: desço para salvar Sorrisos,
esses nossos lindos e futuros filhos.

Terça-feira

Amazona, guerreira sereia ondina ninfa
minha musa teimosa & má
tesouro escondido no fim do anarco-íris
que eu nunca alcanço, por mais
que me esforce
- tesouro que não quer ser alcançado -
já não sei o que fazer
melhor te idealizar à distância,
e seguir sonhando com a fragrância
de seu perfume narcótico, alucinógeno,
que me viciou para depois degredar.

Você sabe onde me encontrar:
Estática ilha, estou ao alcance de um estalo de seus dedos,
se um dia você esfolar seus traumas, ou ao menos despir seus medos,
medos de felicidade e cumplicidade; o frio medo do aconchego.


BONUS TRACK: Um princípio num precipício

Ao invés de ser seguida, é ela que segue.
Cerca seu avanço em plena urbe, saia de hippie,
aquele perfume masculino que ela sempre usou,
que em seu pescoço se torna a bruma mais fatal,
um hálito da mistura de Diana e Afrodite
que ela consegue realizar.
Índia malsã, onça e cutia, predadora e presa,
primeira presença
primeira notícia a salvar uma triste semana.
Massagem cardíaca desta quinta feira
fôlego recambiado entre dois duros corações,
espelhos desta cidade má, madrasta
sempre ensaiando devorar o seu secreto
corpo de bailarinos.









domingo, 13 de outubro de 2013

Considerabit Parabellum

© Jindřich Štreit

Sentar-me no banco 023 do Campo de Santana
observar as cutias equilibrando-se sobre duas patas
para roer amêndoas ou um mapa do céu
que algum apressado estudante deixou cair

Pensar em você, Noivinha de Cristo,
escrever o mais lindo poema de amor
de toda uma década, de toda esta
camonicamaleônica língua

Mas não; e se não posso tê-la, que a Literatura
não me possua o poema, que ele morra arquétipo,
abortado em mármore na tumba
das perfeições platônicas.

Os Imperativos Morais, esses radiosos
demônios concebidos na Luz,
a tudo manietam-me,
e dizem
resista soldado
        combata soldado
morra combata resita
combata morra morra

Estou morto, cães de guarda,
sou um de seus santos, sou
uma sua besta de carga.

Teus olhos estelares,
ó Princesa do Planeta Koryander
são a magnum opus de Cristo,
sóis concentrados cujo fogo
queima sem arder
abrasando até as cinzas de cinzas de cinzas
de meu coração,
como quem chama Lázaro para fora...

Gosto de quieto observá-los
como um iogue observa uma mandala
em busca de libertação, de samadhi
ou como um exausto soldado de Cristo
observa todo o esplendor do Fim
deste sistema iníquo de coisas
              que nos separam,

ó grande apocalipse meu.
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