Mostrando postagens com marcador humor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador humor. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de outubro de 2025

PHOBOMANIA: Conheça algumas das novas fobias classificadas pela "siência"

 

Fobos, você sabe, é irmão de Deimos, deuses ou diabos gregos representantes do Medo e do Terror, respectivamente. Filhos do miliciano Ares e da messalina Afrodite, boa coisa não poderia mesmo vir dessa mistura de guerra com lascívia e impudicícia. De Fobos (Phobo, com ph, fica mais fofo, não?) derivamos muita coisa, como o tema dessa nossa crônica noticiosa, as fobias.

Talvez você não saiba, mas na pitoresca cidade de Broken Arrow, no estado norte-americano de Oklahoma, fica a sede da Sociedade para o Estudo e Catalogação das Fobias, Medos e Transtornos Correlatos (SSCPFRD, na sigla em inglês).

obscura relativamente invisibilizada organização, com sucursais ou ao menos representantes em cidades como Paris ou a nossa Niterói, de tempos em tempos lança nas fuças e nos ares sua nova compilação de rebentos do tal Phobos, deus caído que parece milho de pipoca premium estourando pela quentura destes nossos tempos.

Nem só de seu maior sucesso, a celebrada transfobia (e sua infinita LGTBQIAFNBWELRTSV+tização) ou da cristofobia (que ela mesma insiste em não designar, mas é a campeã das fobias em certos círculos, universidades, partidos, países, continentes e sabe-se lá se em planetas), vive a organização. Convido você, leitor, leitora, leitore e leitão a dar uma olhada nas novas nomenclaturas que a .org, em seu empenho científico à frente de seu tempo e de sua cultura vem desenvolvendo, em nome da compreensão das incompreensões humanas e do tratamento paliativo de transtornos da psiquê (sim, também me assusta, mas medo ainda é uma doença). Vejamos seis dos nada menos que quarenta e seis(!) novos construtos medrais delimitados e elencados este ano pela ong ianqueana.

 

Erucofobia (do latim eruca, lagarta): Medo de passar sob árvores e uma lagarta (de fogo, água ou carbono como você e eu) cair sobre si. Os reféns da patologia se recusam a andar em áreas arborescentes, e fazem das selvas de pedra seu habitat de salvaguarda. O PCC agradece.

 

Ovifrangerofobia (do latim ovi, ovo, frangere, partir): Medo de assistir a uma das coisas mais centrais e belas da natura: Um ovo eclodindo e um animal saindo dele (seja cobra, calango, dragão ou ave).

 

Masculofobia: Este é medo antigo, pilar dos medos, sobressalto das bruxas que sobreviveram, e que só agora ganha designação oficial, depois de uma longa luta interna, que quase fez rachar aquela abaloada organização sem fins lucrativos. Trata-se do medo de ver, conversar e/ou con-viver com homens héteros autoafirmativos. Não se trata dos tais doentios “red pills” ou “hétero tops”; o termo autoafirmativo designa o simples homem hétero coitado e cotidiano (seu pai, seu irmão, seu avô, seu Antônio o pedreiro, Geremias o açougueiro, o “homem comum” cujo conjunto certamente fez o mundo em que você pisa, respira e teme), que não se envergonha de si, sua opção, ou melhor, naturalista que é, não considera opções. Uma revista de humor inglesa disse que a masculofobia é o medo de “homem de verdade”. Bem, há divergências, mas é um resumo do medo.

 

Punctumfobia: É o medo de apontar lápis (de punctum, apontar). Os especialistas perceberam que, em cidades belgas, dinamarquesas e holandesas, crianças tinham medo de apontar seus lápis, pois a visão de um lápis sendo desbastado lhes causava repulsa e desconforto, afinal o lápis está sendo mutilado naquilo ali. Na Dinamarca, país avant garde, já há funcionários nas escolas encarregados exclusivamente de apontar os lápis do mais sensíveis (não deixem Putin saber disso).

 

Nigergradatiofobia ou simplesmente gradatiofobia (sempre do latim, niger, negro, gradatio, gradação): Essa talvez seja a mais polêmica das novas designações fóbicas, ou ao menos a que tem causado mais estardalhaço na mídia norte-americana e europeia: É a fobia que uma pessoa NEGRA tem de outra pessoa NEGRA, cujo tom de pele é mais escuro que o dela.

No Brasil, país miscigenado pelo amor e pela violência, um dos gargalos entupidos do combate ao racismo é aquele praticado (em geral por crianças e adolescentes) justamente entre negros, onde as falas, sejam francas ou de “humor”, desmerecem este ou aquele negro por ser “mais preto” que aquele que fala. Qualquer rua ou sala de aula é palco para assistir, estarrecido, a este descalabro que se repete ao milhão por dia, ao arrepio da lei, da Djamila e do ex-ministro apalpador de catracas (a tara dele tem nome, mas, calma, o tema de hoje são fobias).

 

Após temas amenos e pesados, vamos terminar com outra amenidade, esta típica da geração Z. É a tarditofobia (tarditas, lentidão, morosidade).

Simplesmente o medo de que um livro não tenha a sua continuação publicada. Vivemos tempos de trilogias, tetralogias e CEOs tarados incansáveis como Ares ou Afrodite dominando a baixa literatura, mas uma raiz desse horror podemos creditar ao nosso primeiro detetive da ficção, Sherlock Holmes, cuja morte no conto O Problema Final (e o fim da “saga”), desesperou a Europa, inundou o autor Arthur Conan Doyle de cartas e o “obrigou” a reviver o personagem, que, passados mais de 130 anos de sua primeira morte, segue ad infinitum, pois centenas de autores escreveram e seguem escrevendo histórias baseadas no mestre londrino dos tirocínios. O episódio bem mais recente, da morosidade de George R. R. Martin em concluir sua saga Crônicas de Gelo e Fogo (Game of Thrones e não, neste 13/09/25 a obra ainda não foi concluída), só ajudou a universalizar a fobia, agora, se não dicionarizada, ao menos já descrita em publicação especializada. Eu falei de tema ameno? Perdão, leitore. Segundo dados da própria SSCPFRD, ao menos 28 pessoas, apenas no Norte global, alegadamente suicidaram-se devido à espera, dura para elas, de continuações de suas tramas diletas. Martin responde por nada menos que 17 dessas mortes...

 

Em tempo: Você, cagão, cagona, cagone, medroso de qualquer (im)potência pode solicitar um distintivo de representante da SSCPFRD, e passar a ser correspondente certificado da .org em sua região. As tarefas do cargo, honorário e não remunerado, vão desde coletar dados a divulgar o trabalho da .org. Mas saiba que o paspalho e proto-ditador do Trump é inimigo figadal da organização, após ela propor o termo aurantiofobia (medo de homens-“laranja”), e seu visto para os EUA pode bem ir para as cucuias. De toda forma, preencha o cadastro no site e boa sorte!

Sammis Reachers


domingo, 21 de setembro de 2025

Graças a Deus não silenciamos nossos políticos à bala - Uma reflexão sulamericana

 


Graças a Deus somos um país civilizado.

Imagine, por um ou dois minutos, se tivéssemos a cultura barbaresca dos outros-americanos do Norte que, desde antes do grande Lincoln, costumam silenciar à bala seus grandes e pequenos homens políticos - que pensam em geral o contrário do atirador:
Já não teríamos, de há muito, Bolsonaro, enterrado ainda deputado e palhaço, não genocida;
De há muito e muito antes, estaríamos pondo velas coloridas (pretas não que ele não gosta da cor) no túmulo do bondoso Lula;
Já não haveria, veja você, um Alexandre de Moraes, um Xandão para odiarmos e amarmos conforme a crise ou o mês.
Fosse nossa Pindorama a América de George Washington, todos estariam fulminados seja por uma nossa Taurus, seja por uma Ruger deles, ou talvez uma Beretta carcamana, para demonstrar nosso não-partidarismo bairrista.
Graças a Deus que não somos aqueles.
Imagine você, PASTOR desgostoso, que perdeu a fé e o medo da sodomia lá, ainda naquele seminário, e que passa os dias defendendo Lula (ou o Bozo): O que faria sem ele? Procuraria OVELHAS para apascentar?
E você, minha amiga, mulher empoderada e feia como o diabo, que passa os dias falando mal de bolsonaristas, de Bolsonaro, dos Bolsonaros e seus babalorissauros, como faria? Procuraria finalmente um MACHO, um domador de feras, para civilizá-la?
E você poderá dizer: "Puxa, Samerson, se eles não existissem aqueles em cuja mente eles alugaram apartamentos, palácios, mansões, arrumariam algo mais ÚTIL para fazer. Seriam LIVRES. É isso que você quer dizer?" Bem, quem sabe?
Uma coisa sei: Há em mim um Bozo, há em mim um Lula, e em você também: E vamos bem, miscigenados de defeitos e bovinidade. Claro, alguns tiveram as mentes estupradas; mas, não fossem os políticos, eles arrumariam outras máscaras para fantasiar e ocupar a própria idiotice.
Porém graças, graças a Deus somos de uma outra e melhor América, fundada na dialogicidade. Como você pôde ler.

Sammis Reachers

domingo, 14 de setembro de 2025

Sammis Reachers: Dez frases sobre a POLÍTICA

 


O extremismo é um corredor veloz, mas sem pernas: precisa sempre das pernas e do lombo de um asno para avançar.


Todo extremo tem a mesma face; só muda de pele. Todo extremista, o mesmo discurso. Só mudam as palavras.

 

Foi obra da esquerda, da direita? Boas ideias não têm lado: contentam-se em ter razão.

 

É preciso dar nomes aos bois, e, antes deles e ainda mais importante, sobrenomes aos lobos.

 

Sou de centro. Vezes centro esquerda, noutros pontos centro direita. Mas sou fundamentalmente uma pessoa desagradável para os fundamentalistas, os radicais: Quando ando, é impossível ouvir o som de correntes sendo arrastadas.

 

Nenhum político merece sua seriedade. Dê-lhe o que restar.

 

Não há democracia fora do chão.

 

Política é isso aí: Tanto rabo preso que você olha e não vê nenhum CÃO, apenas as CAUDAS abanando – e as CORRENTES.

 

Inteligência é a capacidade de solucionar problemas. Sabedoria é a capacidade de evitá-los. E a Política é espúria e magistral soma das duas: Capacidade de criar problemas e lucrar com eles.

 

Além da guerra, a política é a única ocupação onde um porco pode entregar o máximo de sua porquidão. Uma arena onde ele pode ofertar o seu pior para o cosmos.



sábado, 21 de junho de 2025

Sammis Reachers, o charlatão genérico da Shopee: O PRAZER É MEU

 


PRAZER O MEU

O cara que nunca vi na vida me segue pois viu que escrevi um artigo sobre games, faço parte de uma equipe, pareço entender do riscado. Mas aí – o cara para quem os videogames são a vida – vasculha as redes e percebe que quase não falo do assunto, e estou absorto em aleatoriedades as mais insossas, sou o mais infrequente dos jogadores. "ELE DEVERIA SER MAIS GAMER. E NEM COLECIONA BONEQUINHOS!" O cara dessegue.
*
O cara que nunca vi na vida me segue pois leu um texto meu, viu meu nome em algum lugar – eita, que nome estranho, e o tal nome estranho domina a poesia, o conto, a crônica, ele adapta, traduz, ele edita de tudo, um monstrinho, um diabo, um anti-herói? – mas ao dar uma olhada nas redes, o cara que ama a literatura como cátedra e magistério vê que ao lado de literatura falo de videogames, posto fotos de gatos, piadas machistas ou insossas, e simplicidades da maior das indignidades. Um moleque, um charlatão? "ELE DEVERIA SE PORTAR À ALTURA DE UM LITERATO." O cara dessegue.
*
O cara que nunca vi na vida me segue pois sou um mobilizador missionário. Mantenho um blog de duas décadas, já publiquei mais de dezena de livros e recursos, tudo gratuito!, devo ser louco ou herói. Aí vendo minhas redes o cara percebe que não falo de missões nelas, pois são redes de relaxamento. E a teologia também não aparece muito. Sou um crente dos piores, da periferia da fé, da santidade, da virtude que você quiser. O cara – para quem a obra missionária é tudo, com a seriedade que ela exige, (bem, e este deve ser o único certo aqui) – se escandaliza ("ELE DEVERIA SER UM RELIGIOSO") e dessegue.
*
O cara vê que falo mal de Lula e Bolsonaro, que já votei nos dois e sonho com o fim de ambos, isso quando sonho - sou ocupado. O cara dessegue com ódio, sua única força. "UM LIVRE PENSADOR DE VERDADE? ELE OU ISSO NÃO TEM DIREITO DE EXISTIR."
*
Eu me divirto (olha o pecadilho), na falta de coisa melhor pra fazer, com a decepção que esparjo enquanto ando, rolo, marcho ou me arrasto em direção ao céu. Sou o pior dos homens e não tenho mesmo muito tempo. Eu não mudo pois não me importo. Sofri até os 12 tentando um encaixe ou compreender o mundo – minha mãe, anja de roça, me levava em macumba, igreja, psicólogo. Dei trabalho. Dali aos 14 ensaiei entre tumba e crisálida, mas nos 15 estava livre. Era Sammis, meu inferno e minha singularidade. Sem papas na língua, sem dependências, sem associação alguma com qualquer manada, nem submissão a Mamon. Minha mãe partiu em novembro do ano passado, aos meus 46 anos, e eu era o orgulho dela. Isso me importa. O resto é a vida, sua carga, seu fulgor, sua missão. Cheia de pedras, pássaros e próximos, a quem é preciso amar, malgrado o abismo que separa os homens.

Sammis Reachers

sexta-feira, 18 de abril de 2025

A Marcha do C@nsaço ou O Movimento dos Macetados (2028), um conto de humor sci-fi

 


Ao defrontar o amontoado de gentes naquela Copacabana espavorida, a atenção era roubada de chofre pela faixa que encabeçava a passeata, faixa segurada pelo DJ Grillozzilla e pela multisexuada instatriz, DandaXXXara: “Dize a tua palavra e segue o teu caminho. E deixa que a roam até o osso”, creditada na faixa ao filósofo espanhol Ortega y Gasset. Na verdade, a frase é de Unamuno, o Miguel, outro filósofo espanhol. Equívoco que, sem infundir demérito, meio que chancelava e vestia os revoltosos.

Chamaram seu movimento simplesmente de A Marcha do C@nsaço ou, termo adotado pelos opressores midiáticos, O Movimento dos Macetados (“?”), e ele assim há de entrar para a história. O motim, que contou com ampla anunciação midiática (que outra?), encaçapou todo tipo de guapo, duma barafunda de díspares pensares, digno deste fim de Pós-modernidade e início de Idade Índigo.

A ideia central, o eixo da grande hélice que uniu pessoas, roedores e contestadores de várias gerações, é o cansaço em relação à torrente de informação disponível por cada vez mais meios, gadgets e cibertranqueiras.

A um filósofo marroquino, Farkour Bibi, anjo decolonial que escreve em perfeito francês, coube o papel de teórico involuntário do novo movimento, ao propor, em seu filosófico Imanifesto Logofrênico, cujo estilo de pacata ou delicada insubmissão lembra o de Thoureau, um alheamento proposital em relação à toda forma de informação mediada, seja essa mediação realizada por livros, internet etc. E da aceitação apenas do que “o outro”, o ao lado, o vizinho, a mãe, o companheiro proletário, o “usuário de uma mesma territorialidade”, pode ensinar, “olho-no-olho”, o autor avança para a celebração da ignorância, o “prazer de não saber”. A celebração anti-socrática radical, a ignorância como construto positivo.

A música-tema do grupo ou levante foi a inescapável Silício Silenciado (do último álbum de Caetano Veloso, Teimosa Poesia, de 2027). O bumba-que-bumba martelava os ares, marcando o ritmo do pisoteio.

Sim, voltemos aos fatos. Os marchadores, iniciando seu trotar pela Avenida Atlântica, estabeleceram uma inovação significativa: A marcha foi realizada com as pessoas andando para trás, ou de costas. Para evitar tombos entre os pouco afeitos a tal avanço inatural, foram cedidas bengalas de acrílico para apoiar os cansados do saber tão fácil.

Um grupo de festin’lésbicas, oriundas de uma pequena facção (das 82) PCdeBista celebrou outra manobra de catarse, efetuando o despir de suas roupas, uma peça a cada cem passos dados por cada uma de suas membras, membras empoderadas e desmembradas de seu movimento – e agora enxertadas, feito próteses, naquele contra-zeitgeist informacional.

Nas proximidades do Forte de Copacabana, limite entre a Av. Atlântica e a Rua Francisco Otaviano, a primeira culminância: fizeram aquilo o inevitável, qual seja, a QUEIMA DE LIVROS. E no entorno da grande fogueira logolibertária, grupos esparsos realizavam o já tradicional gadcrash: a quebra de gadgets, de smartphones a óculos de realidade aumentada, de Nintendos NeoSwitch a prosaicos Vibradores Poéticos, as maquininhas de consolar inconsoláveis que, além do usual ofício, recitam poemas em oitocentas línguas, ponta-de-lança das exportações cambojanas.

O avanço seguiu para o bairro lindeiro de Ipanema, em que a alegoria final seria encenada: a invasão do data center do Google situado na Rua Farme de Amoedo, e a destruição dos mainframes e servidores que, dali, garantiam o acesso ao virtual a quase todo o país. Na porta, novo pandemônio: um dos muitos movimentos que acompanhavam a marcha, o controverso coletivo Afrobrancos, composto de brancos que se reconhecem e se exigem como africanos d’alma, foi alvo de laranjadas e ovadas de alguns dos manifestantes, ojerizados pelas propostas e ideias do grupo, tido por desconstrucionista e diluidor das pautas de direito dos que têm seu lugar de fala.

No entrevero, uma malta inesperada assumiu a proa do debate sobre o tal estreito e mítico lugar de fala, e em defesa dos afrobrancos (alguns dos quais eram seus pais, afinal): um grupo de therians, os humanos que se afirmam pertencer a outra espécie, neste caso cachorros, marchando e debatendo de quatro, desferiu um motim-no-motim ao afirmar que as ruas eram prioritariamente o seu lugar de fala – e as urinadas nos postes o confirmariam – transe ou transporte de um conceito do metafórico para o concreto que desnorteou alguns teóricos que marchavam no evento – um deles, renomado reitor da PUC que, ainda fedendo a livro queimado, viu ali o nascimento em tema de seu mais novo livro.

Nesse pandemônio, prestes a arrombar as portas da infofortaleza globalista, os já cansados revoltosos tombaram sarrados & surrados por grossos jatos d’água gelada & apimentada, emanados de veículos automáticos. Eram drones blindados do conglomerado BYD-Tesla-Carbon a serviço do grande infocapital, providencialmente enviados pela governadora do Estado. Enxarcada e debelada, a multidão, senhora de algumas razões e diversos equívocos, dispersou-se, cada qual encapsulado de volta à sua micro, nanorevolta, tentando recordar o caminho de casa ou sua necessidade.

Sammis Reachers

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Edição de dezembro da Revista Bulunga, e sorteio de livros. Participe!

 


A nova edição da revista Bulunga já está no ar, divertida, provocante, atiçada contra o marasmo e a maresia. Eu compareço com três contos. Confira ainda resenha de meu romance A Ordem Luterana da Cruz Combatente, e um sorteio de um exemplar deste e também de meu último livro, Fabulário Índigo. Inscreva-se e concorra!




segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

O poeta, esse “figura” da linguagem - Ou uma forma divertida de aprender figuras de linguagem

 


Poeta já nasce metáfora: nem é homem, é bruma

Detesta comparação: sua carne é tal como purpurina

Casa antíteses, juiz de paz de terra e céu

Dispara metonímias lendo Drummond e Gullar

Mata catacreses ao dar nome ao que não o tem:

Braço de sofá vira espuvelo, assim, na caraça

Celebra paradoxos, esses desconstrutores criativos:

Como encher de vazio um balão vazio?

Faz tudo dialogar em prosopopeias, a caneta chora, o chapéu gargalha

É bicho todo trabalhado na sinestesia: degusta a paisagem, ouve seus aromas

Radical, rima o rumo dos versos em aliteração

É um babaquara da assonância, um papa-vatapá

Desafios opera o poeta em hipérbatos

Faz rir nas onomatopeias, feito garnizé cocoricó

Desce pra baixo do mar molhado em seu submarino, o pleonasmo

É polissíndeto: É alegre e loquaz e terno e carmim

Mas tem lá seus momentos assíndetos: solitário, introvertido, fujão

Viaja em anáforas: se eu voasse, se eu pudesse, se eu sonhasse, se...

“Quero morrer de tanto versejar”, vocifera, hiperbólico

“Ou bater as botas de mui cantar”, solfeja em eufemismo e preciosismo

Dias há em que escreve com a delicadeza de uma mula (opa, contém ironia!)

Outros em que lança os versos pela janela com um lacônico “Que tédio!” em apóstrofe

Nesse jogo de encanta e cansa, o bardo executa sua dança

E nos diverte com sua graça, humano que é, esse figuraça...

 

Criei este poema para ajudar estudantes – do aluno do Fundamental ao concurseiro – a aprender se divertindo e, claro, para ajudar também a professores. Se você curtiu, compartilhe o poema para que ele possa divertir a mais necessitados!


Este poema obteve o segundo lugar nacional no Concurso Paulo Setúbal de Literatura 2024 (Tatuí - SP). Obteve ainda menção honrosa no 47º Concurso Literário Felippe D’Oliveira (Santa Maria - RS).

Assista ao vídeo da premiação e dramatização do poema, no Concurso Paulo Setúbal:



quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O tempo em que mandávamos e recebíamos cartas, as piadas da Playboy e o nascimento de um escritor

 


Peguei a reta final do universo das epígrafes, ali pelos anos 90, 2000 (sim, pois daí em diante foi sobrevida).

Ainda criança, tinha o vício da acumulação, do colecionador de tudo (que troquei pela Literatura, tempos depois. Hoje não tenho apego nem a meus livros impressos). Enviava carta para todo lugar que dissesse “receba grátis nosso catálogo”, “receba grátis nosso informativo” etc.

Para além disso, eu já era um escritor, sem saber, sem ninguém me avisar. Mas, como era isso? Eu comprava em banca revistas de piadas da Ediouro, publicações populares na época. Nelas, se dizia que quem enviasse piadas que fossem publicadas, ganharia brindes (mais revistas). AQUI me tornei escritor: Eu copiava e REESCREVIA, com outras palavras, nomes e até transcursos, piadas que vinham na página final da revista Playboy (como eu as conseguia, as Playboys? Ora, eram os anos 80/90, valia de tudo).

O engodo infantil funcionou umas três ou mais vezes, e ganhei diversas revistas. Mas também um “presente” inesperado: O editor colocou num editorial o meu nome e idade, dizendo que “eu era um jovem leitor do RJ e que desejava fazer amizades via cartas”. Não sei de onde diabos ele tirou aquilo. Eu, fazer amizades via cartas? Eu ainda era moleque rueiro, e tinha amigos e inimigos que bastavam. Mas o resultado foi que passei a receber cartas, esparsas, de todo o Brasil. Nessa brincadeira, arrumei uma namoradinha virtual (epa, na época era epistolar) em Minas Gerais, e outra no Rio Grande do Sul. Meninas de minha faixa, 11, 12 anos. Trocávamos fotos, e eram bonitas, as princesinhas.

Bem, bateu até uma saudade aqui, de quando enviávamos - e recebíamos - cartas. Que bom ter vivido aquela época!


terça-feira, 22 de agosto de 2023

Galeria dos Gigantes Gonçalenses: Nonato, o sociopata ressocializador

 


Nobilíssimo leitor, em datas pretéritas já apresentamos aqui, em nossa esporádica coluna, o perfil de gonçalenses exóticos, de personalidade, aceitemos, protuberante. Gente sui generis, já quase nem gente, mas mito. Foram tais: Tardonho (o Lesado), Rogier (o Abraão das Potrancas), seu Onório (o viúvo do Bairro Antonina), Everaldo (o paraguaio de Campina Grande), Manolo (o Buda do Boaçu), Banzé (o mascate vingador)...

No entanto, nosso personagem de hoje se destaca dos demais pelo seu perfil ainda mais exótico que o já exótico de nossa fauna citadina.

Nonato foi a nomenclatura com que o batizaram, esse nome com cara de apelido que mais encobre que revela a natureza de nossa personagem.

Se me fosse possível resumir Nonato numa única expressão, classificação ou epíteto, seria a de “sociopata ressocializador”. Sim, o empenho e missão de vida deste nativo do bairro bimunicipal de Várzea das Moças, às suas sinistras maneiras, é, através de prosaicos atos de justiça/justiçamento, cipoadas de baixo impacto, corrigir erros comuns do dia a dia de nossa sociedade, não apenas gonçalense, mas brasileira, quiçá universal.

Conheci Nonato e suas ações enquanto eu trabalhava como rodoviário, cobrador de ônibus na empresa Auto-Lotação Ingá.

Com o tempo, entabulamos uma certa amizade, e passei a manter breves, mas reveladoras conversas com o ferrabrás, quando nos esbarrávamos, em suas idas e vindas a trabalho. Era representante comercial, atuando em toda a região metropolitana de nosso Estado.

Me horrorizaram ao primeiro contato, não sem certo fascínio juvenil, os trejeitos obtusos de Nonato.

E como afinal era a práxis deste pedagogo da ação, deste lobisomem behaviorista? Você, cidadão que faz ou já fez uso de coletivos, deve conhecer (ser?) aquele elemento, inescapavelmente do sexo macho, que se senta nos assentos coletivos de pernas bem, mas bem abertas. Assim, quem senta do lado do corredor precisa ocupar apenas meio banco, já que o espaçoso – muitas vezes nem obeso, nem obrigado pelas leis da física – ocupa UM BANCO E MEIO. Nonato nunca tentou entrar no mérito de os assentos de ônibus, barca, carroça e avião terem sido pensados para indivíduos de até certa altura e peso, regulando por baixo a heterogeneidade que é riqueza social. Sim, um problema patente das economias urbanas a que o capital nos domesticou. Nonato queimava etapas e problematizações e, numa manobra profundamente antipolítica, paria soluções.

Inventor, pois todo revolucionário é fundamentalmente inventor, Nonato elaborou uma calça jeans de marca genérica, na qual, em conluio com uma prendada costureira de seu bairro, afixou nas laterais das pernas, sempre à altura dos joelhos, pequenas tachinhas, pontiagudas e rigidamente fixadas. Bem, você já pode imaginar? Era para mim sempre um espetáculo pedagógico ver Nonato sentar-se ao lado de espaçosos, e “espetar” as cabeludas pernas dos incivilizados. Na maioria das vezes rolava apenas um desconforto, um susto que obrigava o pernudo a, em constrangido silêncio, fechar suas perninhas. Outros mais, reincidindo na espetada, percebiam o engodo, e levantavam-se, esbaforidos. E alguns poucos, valentinos de porta de bar, roncavam confusão, e não uma única vez vi Nonato chegar às vias de fato da incivilidade que combatia, aplicando no valente da vez cipoadas, agora de alto impacto, com um providencial soco inglês, outro de seus “aparatos civilizatórios”. Pare um instante, e tente imaginar tudo isso, rolando de segunda a segunda, nos muitos coletivos que Nonato pegava por dia. Posso prosseguir?

Pois tome mais. Sabe o indivíduo ou a indivídua que gosta de se sentar no assento e colocar sua mochila, bolsa ou trouxa de panos-de-bunda no banco ao lado, interditando a vaga de quem deseja sentar-se, obrigando o cidadão a pedir licença e chamar no simancol ao joão-ou-maria-sem-braço? Amiguinho, você precisava ver! Chego a me excitar ao rememorar: Nosso herói/anti-herói/vilão (a depender de quem é você no jogo social) SENTAVA-SE desabaladamente sobre as bolsas das pessoas, fossem homens, mulheres, adolescentes! Sempre sem pedir licença, sempre veloz para impedir a retirada da trouxa. Só me lembro de vê-lo poupar idosos e infantes. Quanta confusão, quanto arranca-rabo, quanto torneio de xingamentos, quanto “trincou meu Iphone, seu desgraçado” (nessas, em especial, eu quase tinha um orgasmo anticapitalista), mas principalmente: QUANTA LIÇÃO NONATO APLICOU!

O vidigal sem distintivo virou lenda entre motoristas e cobradores. “O cara pegou seu ônibus hoje? Deu ruim? Conta, conta”...

Me lembro de uma vez indagar, encafifado que andava com aquela impiedosa persona:

– Qual é sua filiação ideológica? Você é o quê, cara? Anarquista, fascista, stalinista?

Respondeu de chofre, de trivela:

– Nem sei o que sou. Nem tenho tempo pra isso, rapaz. Sei o que faço: um mundo melhor todo dia. No sapatinho, devagar e sempre. Agora deixa eu procurar um aluno.

E lá ia ele para a frente do coletivo, calmamente observando os bancos à procura de uma vítima. Ou (re)educando.

Porém era isso a poeira, as franjas das ações assanhadiças deste paladino. Desçamos do busão, vamos para as ruas. Sabe os motoqueiros, e aqui entram os de todos os calibres, sejam vadios – como o filho da sua vizinha – ou trabalhadores – como aquele seu genro – que exercitam passar a alta velocidade no cantinho da rua, naquele espaço entre a lombada/quebra-molas/barricada e o meio fio, aquela parte estreita onde a lombada não chega, para poder permitir o escoamento de água?  Fazem isso em sua pressa diária, manobra perigosa, muitas vezes quase acertando o braço de algum pacato transeunte de calçada. Nonato já levou uma bordoada numa dessas e, brasileiro ao contrário, pensou e executou um corretivo: Nosso amargurado dos passadiços prepara saquinhos de areia, em forma de sacolé e, dentro deles, como recheio gourmet, insere mais uma vez suas tachinhas, além de grampos 106/06mm soltos (deu até receita, o bruxo: 4 partes de areia, uma parte de tachas e grampos e meia parte de óleo queimado). Bolsa municiada, o andarilho desova seus sacolés nesses espacinhos entre uma calçada e um quebra-molas, enriquecendo borracheiros e também lanterneiros (pois muitas vezes o apressado, como todo apressado, dá de cara no chão). Quantos motoqueiros, sob a batuta invisível e retificadora de Nonato, aprenderam a passar pela lombada, receosos das surpresas do canto. E quanto, quanto a economia local de vários bairros gonçalenses foi movimentada – borracheiros, oficinas de motos, farmácias – graças à ação anarco-civilizatória deste intimorato gonçalense!

Ainda sobre motoqueiros, vamos ou desçamos aos tiradores de grau (“tirar um grau” é um otário empinar uma moto – ou bicicleta – numa única roda, em via pública). Você já ouviu o “Rugido da Terra”? Ah, meu leitor... O nome, épico, ele roubou de um anime japonês. Sim, o cara de cinquenta e alguns anos à época via animes, “curto desde Patrulha Estelar, cê nem era nascido”. Retomemos: vossa mercê já viu ou, bem melhor, ouviu aqueles sprays sonoros, que possuem na ponta uma corneta, e cujo som imita à perfeição a estridente buzina de um caminhão, carreta, navio que seja? Peça carnavalesca, infernal. Ora pois: Se um tirador de grau resolve praticar seu desofício (ofício de desocupados) próximo a nosso monstro, ele imediatamente apanha seu berrante na bolsa sempre à tiracolo e aplica contra os ares uma cavernosa buzinada. Sim, já jogou muitos ao chão, com o susto – para novamente a riqueza dos lanterneiros e mecânicos. Sim, já rolou confusão, embora ele tenha o tirocínio de tocar a buzina e logo enfiá-la velozmente na bolsa, seguindo em frente com sua cara de paisagem. Uma vez ia morrendo, pois o vida loka da vez era afinal vida loka pleno, e sacou uma pistola em pleno Colubandê, contra a cara de nosso corneteiro. Nonato, matuto, fingiu demência e driblou a indesejada das gentes.

Eu poderia passar oito, quinze colunas, um livro inteiro, relatando os prodígios deste homem de exceção. Mas seu tempo, como o meu, amigo leitor, é curto. Vamos então a apenas mais duas diabruras, um resumo das pataquadas deste varzeamocense, todas peças de ímpar engenho criativo, cujo anelo único é civilizar nossa sociedade barbaresca:

O monstro possui uma página no Instagram apenas para registrar as fotos e dados de motoristas de UBER que cancelam viagens. É isso mesmo que você leu. A cada UBER chamado, o cara dá print na tela com o nome e dados do motorista. “Vai para onde?”, pergunta o uberman. “Bom dia, boa noite, vou para tal lugar”. Em seguida a corrida é eventualmente cancelada; direito do motorista, claro. Alguns abusam deste direito, ok, ok. Alguns esbanjam, emphoderados, este direito. Abusando ou não, cancelou Nonato, vai pra rede. A página já foi derrubada oito vezes, mas o cara é incansável.

Agora a pior traquinada, pra fechar a coluna: Num dia de chuva, marchando em centros de cidades no horário comercial, quanta sombrinhada você costuma levar por dentro das fuças? Golpear os outros com sua sobrinha/guarda-chuva é a maxmaterialização de nossa miséria egótica, contra-empática, a expressão exterior da bolha de egoísmo em que vivemos, alguns vivemos. Pois Nonato, diabo da urbe, criou vingança: O cara adaptou um bastonete com diversas giletes cruzadas, na ponta, afixadas com Durepoxi. Avançando por ruas impraticáveis como as de nosso Alcântara ou a Uruguaiana e vizinhas, na capital, ele posiciona diante do rosto seu aparato. Cada sombrinha que avança em sua direção, cega, doida para lamber sua face e cegar seus olhos, sai chamuscada, talhada, picotada por suas giletes. O lance é rápido e fulminante. E lá se vai a sombrinha, geralmente de mulheres, embora ele não seja misógino (misantropo é certeza). “Num dia forte em Alcântara, foram vinte-e-uma sombrinhas e guarda-chuvas reeducados. Vinte-e-uma!”, narrou-me duma vez, gostoso de si. Canalha!

“Hã!!! Nonato só sacaneia pobre”, dirá você. Ah! Numa futura resenha, talvez narre o outro lado da moeda de fogo desta besta sem cauda, de como ele encontrava meios de punir também os príncipes, e os príncipes principalmente, como deve ser. Mas, enquanto você não vai acreditar no que eu revelar, “olha o papo do maluco”, outros, esses já vitimados, ligarão o fato à pessoa e tenho medo de, revelando o que sei, ser intimado a depor. 

 

*  *   *

 

Aberração punitivista, apassivador contundente, formiguinha-cortadeira à serviço do acerto, maníaco obsessivo, psicótico. Sociopata ressocializador. Falangista macedônio, cavaleiro cruzado, lanceiro da nação nagô. Paulo Freire do mundo negativo. O melhor do pior de nós.

 

*  *   *

 

Hoje sou um pacato professor de Geografia, militando longe da região metropolitana fluminense, e faz anos não vejo Nonato (terá sido morto por algum outro bicudo? É sempre uma possibilidade, e como que suas ações convergiam mesmo para esse centro equalizador que é a morte). Mas, ao reviver mentalmente tudo isso, desavergonhadamente confesso (afinal um cronista é um confessor concursado) que, se continuo escandalizado, fico igualmente excitado, perturbadoramente excitado com os gatilhos que a saga de Nonato faz disparar em minha cachola. Por isso rogo seu perdão por essa minha torpeza, amigo leitor. Como pesquisador da fauna humana desde meus doze anos, jamais encontrei espécime como este abortivo de Várzea das Moças.

Pra semana, vou finalmente em busca de terapia.

 

Publicado originalmente no Jornal Daki.

*    *    *

 

Sammis Reachers é poeta, escritor e editor, autor de dez livros de poesia e três de contos e crônicas, organizador de mais de cinquenta antologias e professor de Geografia no tempo que lhe resta – ou vice-versa.

Publicou recentemente seu primeiro romance, o thriller de ação A Ordem Luterana da Cruz Combatente (disponível na Amazon).



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


domingo, 30 de abril de 2023

Cantiga de Bem-Dizer, um poema de Mathias Raws

 


Desde a minha juventude e inícios no pot-pourri literário, travo trato com um camarada cujos versos sempre me fizeram rir, mas rir aquele riso culpado, pela força de sua ironia cínica, de seu "veneno".

Com o tempo, seguimos caminhos diferentes, mas nunca deixei de, sempre que possível, acompanhar a produção deste enfant terrible, Mathias Raws, de quem até já publiquei alguns poemas. E falando neles, olha essa pérola do politicamente incorreto, do que NÃO DEVIA SER PUBLICADO, mas aqui devidamente publicado, pois ainda sou desses:

Cantiga de bem-dizer

Mathias Raws

O moçoilo respondia por Mateus ou Enzo, ou outra
Dessas alcunhas de millenial.
Poetastro de sarau, canário de churrascaria
Desprimaverou-se certa feita numa meia lapada
dum marido bravo (uma sapatão espadaúda)
Que tomou por dentre a centralidade do lombo,
Dedos uns quatro acima dos rins, de reverberar
No umbigo bojudo, desses de males-paridos.
Antes de exaurida a semana cataclísmica,
Mudou-se de bairro, despiu camisas tribais. Arrumou
um trabalho fixo na agência Fiat dum padrinho.
Deixou tertúlias e representatividades, endureceu
(Ou ressignificou?) o teso grelo de sua sensibilidade e
Virou foi homem, feito o pai queria, ainda que no susto,
finando o boy progressista. Cancelou-se e foi cancelado,
na frieza das redes que abandonara, nascituro.
Sim, inesperadamente homem, antidecolonial anacronia.
Transmutado, veja você, por uma ninharia dum
Soco, um murro
no meio pitagórico das costas, no olho da meiota.
Um só, um soco
no momento em que declamava um poema num palanquim.
E foi o dia e a tarde da vida camaleônica do fluídico Mateus ou Enzo,
ressignificado, senhorxs,
Pela força contundente dum soco duma sapatão.

terça-feira, 12 de abril de 2022

O salseiro no cemitério São Miguel (conto)

 


Foi no cemitério São Miguel, central em São Gonçalo, lar derradeiro de muitos de nossos amigos e parentes, quiçá um dia o seu, amigo leitor.

O ano era o dois mil e alguma coisinha. O da vez – não o defunto, mas o, digamos, “animador de velório” – um tal Banzé, antigo vendedor de roupas e miudezas, o conhecido e ainda não anacrônico mascate. Com o tempo fizera também as vezes de agiota, atividade margeadora da lei, mas muito bem quista pelos apertados da vez. Chegou para a despedida final de Totonho, mestre da sanfona e estimado dono de birosca, fulminado dia antes pela dengue hemorrágica.

Um abraço na viúva, aquel’olhadela regulamentar nas fuças do defunto, um aperto de mão neste e naqueloutro conhecido... Foi quando Banzé ouviu, em certa rodinha formada entre os enlutados, um cidadão que falava em tom sorrateiro:

E a dívida é essa, minha gente. Nosso amigo – meu melhor amigo!!! –partiu e nem pras despesas do enterro deixou migalha. Era alma santa, sempre ajudando a todos, tocando seu forrozeiro, sua sanfonagem, de graça, vendendo pinga no fiado... Por isso eu peço a cada um de vocês essa pequenina contribuição para custear a despedida de nosso amigo, do nosso eterno Totonho.

Banzé apertou os olhos e mordeu os lábios, balançando a cabeça para ver se a cansada maquinaria espoucava. Será? O coração pulsou mais forte, mais ruim, Banzé nem chegou na rodinha e já foi chamando:

 – Doutor Gilson??? Doutor Gilson??!!

 

Mas vamos a uma paradinha, amigo leitor, para dar vez ao clássico recurso narrativo dito flashback:

 

*******

 

O rolo teve parto lá no antigamente, nas bordas da hoje Favela da Linha, no bairro gonçalense de Rio do Ouro: Banzé, egresso de última leva do sertão nordestino, havia iniciado há pouco na atividade de mascate, e puxava seu burinho-sem-rabo lotado de roupas, panelas e redes.

A década era magra, quase perdida, e as vendas iam de mal a mais mal ainda. Aparando o sol com um boné surrado de campanha política (Moreira Franco Governador ‘86), mastigando poeira com as canelas finas por rua deserta, de poucas e incipientes construções, um berro do portão de um sobrado fez o mascate estacar. Era um possível cliente, chamando o vendedor. A área era ainda mais posse do mato do que de gente, e aquela casa, cuja construção aparentava ainda não estar finalizada, pareceu aos olhos do sertanejo um pequeno palácio de subúrbio. Mascate Banzé encontrou ali a realização, pois o dono do casarão, homem de seus quarenta anos, que se dizia engenheiro da Petrobrás de nome “Doutor Gilson”, comprou de cada item uns três exemplares, que eram para ele, para a casa de sua mãe, e também para certa teúda que o tal, “homem casado e respeitador”, sussurrou manter lá pros lados do Meia Noite, em profundezas de Santa Isabel.

O sistema desses mascates, amigo leitor, deve ser seu conhecido, pois ainda hoje seguem o mesmo modus operandi: A mercadoria ficava no fiado, e uma caderneta humilde ia recebendo as marcações a cada pagamento, que podia ser semanal, quinzenal ou por mês.

Foi com a carrocinha – da qual fazia as vezes de cavalo ou burro –

esvaziada que Banzé chegou na base, sorrindo de orelhão a orelhão. Na central de distribuição foi grande a surpresa do chefe, Paulete, que agenciava mais de trinta vendedores e logo celebrou Banzé como exemplo e funcionário do mês.

E veio o fim do mês. Banzé chama no portão do casarão. Era tempo de recolher a primeira parcela. Chama que chama e eis que uma bela senhora ou senhorita assoma ao portão.

– Pois não?

Era o vendedor, que vinha cobrar do senhor marido da senhorinha, “o Doutor Gilson”, a parcela das vendas.

Marido ela não tinha, nem Gilson algum conhecia. E homem na casa era só seu pai, setenta e tantos anos na cangalha. E o homem que comprara as mercadorias? Bem, realmente não havia ninguém com aquelas características no palacete. Confusão armada, Banzé esperneando até que o velhote deu as caras. Ouvida a história, o ancião alisou a careca pra cá, alisou a careca pra lá e bateu o martelo:

– Olha rapaz... Eu sinto muito em lhe dizer o que vou lhe dizer... Pelo jeito, esse cidadão que lhe comprou as mercadorias foi um tal de Sebastião, que estava trabalhando aqui como pintor. Digo Sebastião pois foi o nome que ele me apresentou. O sacana, depois de pegar a primeira parcela do pagamento, sumiu. E aqui da casa, que estava ainda vazia, ele levou os materiais de pintura que eu havia comprado, além de ferramentas e uma bomba d’água.

Meu sobrinho que é policial soube dele, pela descrição e modo de proceder, em outra freguesia, lá pelos lados do Saco de São Francisco, em Niterói; mas lá ele dizia chamar-se “Senhor Atílio, fiscal de posturas da prefeitura”. E tem mais: O mesmo elemento parece ter aplicado golpe em alguns políticos, se dizendo jornalista do Jornal O Fluminense e prometendo escrever matérias favoráveis, mediante módico pagamento. Nesta aventura o nome que ele utilizava era Abel alguma coisa. Assim, lamento lhe informar que o tal Sebastião ou Atílio ou Abel ou o diabo que o parta, o mesmo que me sacaneou, infelizmente sacaneou também o senhor, e utilizando a minha casa...

História triste desembalada, era Banzé comer o pedaço que conseguisse digerir e rumar de volta pra central, onde o chapéu de otário, feito de couro nobre da terrinha, além da dívida cabulosa, o aguardavam.

Foram meses trabalhando “de graça”, remoendo poeira e ódio, passando fome como na terrinha da qual se surrupiara.

 

*******

 

– Doutor Gilson!, continuou a gritar Banzé, recuperando um nome de duas décadas atrás. O ouvinte, fosse Gilson ou não, ou não ouviu ou se fez de rogado.

– Senhor Atílio, o fiscal da prefeitura de Niterói, é o senhor??? – berrou mais forte Banzé, mudando a nomenclatura e já abrindo caminho por dentre a pequena turba que sacava pingados e requenguelos para a inteira do enterro.

– Está falando comigo, cidadão?

– Oxi! Pois tô!, ô se tô!!! Não se lembra de mim, “doutor”?

– Não, não me lembro, e nem sou doutor, nem fiscal. Por acaso, meu nome é Hélio, e sou líder comunitário lá no Salgueiro. Conhece o Salgueirão?? – disse o arrecadador de inteira pra enterro, agora com o semblante algo acuado ao ouvir um segundo nome, e tentando já assustar o inoportuno pregoeiro.

– Pois me deixe lhe avivar a memória, Abel. Tenho uma boa notícia pro senhor.

A primeira tapanca estrondou nas fuças do envelhecido engenheiro da Petrobrás, logo seguida de um cortejo doutras bordoadas, curtidas por duas décadas de atraso e sol quente. A sessão de descarrego teve o inusitado de, a cada pancada desferida, o vingador Banzé endereçá-la verbalmente a uma das personas ou almas que habitavam aquela carcaça tinhosa: Um soco de esquerda pegando pela lateral desguarnecida do queixo foi nomeada dum “segura, Abel”, enquanto outro murro, um potente e estranho direito desferido de cima para baixo escorreu magoando a cara dum “toma essa, Hélio”, que cambaleou e foi ungido com um chute acima do umbigo, desta vez encomenda para um certo “Gilson, seu filho-da-#&$@”. O engenheiro ou pintor ou fiscal de posturas ou jornalista ou líder comunitário mal teve tempo de acessar aquela de suas personas que fosse a mais valente, pois o conjunto dos tantos-em-um se esborrachou no chão, sendo amaciado a chutes e pontapés.

– 171, safado, filho duma quenga! Passei muita fome por tua causa, desgraça! – gritava o transtornado nêmesis exorcista, vermelho feito pimenta.

E choviam sopapos nomeados, uma tempestade deles, enquanto convivas se evadiam num desespero tal que até o pobre defunto – sacrilégio! – foi derrubado de seu ataúde, enquanto mulheres e crianças expandiam um berreiro de acordar alma penada, num fuzuê que o campo santo jamais vira.

 

*******

 

Na delegacia, levantou-se a planta daninha do pilantra. Nascido em Goiás, onde iniciara a carreira roubando gado, lá curtira breve cadeia, donde fugira justamente para o leste fluminense. Terra de pretensa malandragem, mas onde ele, cujo nome verdadeiro (?) era Cassiodoro Lopes Caiado, encontrara sempre desprevenida & farta manada de otários. Quem diria que, em terras fluminenses, seria um cearense da mulesta quem iria dar freio naquela carreira artística...


Sammis Reachers

Publicado originalmente no Jornal Daki



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Novo livro de Sammis Reachers para download: RENATO CASCÃO & SAMMY MALUCO

 

Nesta obra, memória e humor se entrelaçam para narrar divertidíssimas histórias da infância de dois jovens criados num subúrbio de São Gonçalo (município da região metropolitana do Rio de Janeiro), nos duros anos da década de 80. Relatos de perrengues e peripécias, marcados pela humanidade, o bom-humor e a irreverência da prosa de Sammis Reachers, dão conta de duas pequenas vidas que poderiam ser as vidas de quaisquer moleques daquele tempo, dada sua universalidade. 

O livro é ilustrado e possui 114 págs.

O livro em pdf pode ser baixado GRATUITAMENTE, clicando AQUI.


O livro também está disponível na versão impressa, ao preço de 25 reais (o valor já inclui o frete). Caso queira adquirir, me envie um e-mail o quanto antes, pois a tiragem inicial foi bem pequena:  sreachers@gmail.com

O lançamento do livro impresso acontecerá oficialmente durante a terceira edição do FLISGO, o Festival Literário de São Gonçalo (dia 21/11, às 14h). O evento reunirá expositores literários, atividades e atrações culturais diversas, e irá dos dias 19 a 22, das 10h às 19h. O endereço é o Conjunto Residencial Venda da Cruz – Minha Casa Minha Vida – Antigo 3º. Batalhão de Infantaria, Venda da Cruz, São Gonçalo, RJ

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...