Mostrando postagens com marcador Mathias Raws. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mathias Raws. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de abril de 2023

Cantiga de Bem-Dizer, um poema de Mathias Raws

 


Desde a minha juventude e inícios no pot-pourri literário, travo trato com um camarada cujos versos sempre me fizeram rir, mas rir aquele riso culpado, pela força de sua ironia cínica, de seu "veneno".

Com o tempo, seguimos caminhos diferentes, mas nunca deixei de, sempre que possível, acompanhar a produção deste enfant terrible, Mathias Raws, de quem até já publiquei alguns poemas. E falando neles, olha essa pérola do politicamente incorreto, do que NÃO DEVIA SER PUBLICADO, mas aqui devidamente publicado, pois ainda sou desses:

Cantiga de bem-dizer

Mathias Raws

O moçoilo respondia por Mateus ou Enzo, ou outra
Dessas alcunhas de millenial.
Poetastro de sarau, canário de churrascaria
Desprimaverou-se certa feita numa meia lapada
dum marido bravo (uma sapatão espadaúda)
Que tomou por dentre a centralidade do lombo,
Dedos uns quatro acima dos rins, de reverberar
No umbigo bojudo, desses de males-paridos.
Antes de exaurida a semana cataclísmica,
Mudou-se de bairro, despiu camisas tribais. Arrumou
um trabalho fixo na agência Fiat dum padrinho.
Deixou tertúlias e representatividades, endureceu
(Ou ressignificou?) o teso grelo de sua sensibilidade e
Virou foi homem, feito o pai queria, ainda que no susto,
finando o boy progressista. Cancelou-se e foi cancelado,
na frieza das redes que abandonara, nascituro.
Sim, inesperadamente homem, antidecolonial anacronia.
Transmutado, veja você, por uma ninharia dum
Soco, um murro
no meio pitagórico das costas, no olho da meiota.
Um só, um soco
no momento em que declamava um poema num palanquim.
E foi o dia e a tarde da vida camaleônica do fluídico Mateus ou Enzo,
ressignificado, senhorxs,
Pela força contundente dum soco duma sapatão.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Oito poemas de Mathias Raws: O ciclo de Natália



Ciclo de Natália

Quarta-feira

Pequena fada de porcelana
caminhando leve com seus passos
                                           de borboleta ou
severa deusa
séria - sensual - solitária lua
iluminando com seus olhos de paz
os caminhos adiante

queria seguir seus passos, pisar
onde você pisa
beijar todo dia os seus pés (despet)alados

Quinta-feira

Esse coração, essa dura & firme fortaleza,
como eu queria tomá-la de assalto
e fincar minha bandeira branca
em sua alta torre

Cultivar seus jardins
até enchê-los de rosas
e depois tecer uma cama de pétalas
para você descansar sua beleza
de índia iluminada

Suportar sua fúria e ouvir
suas broncas
com um sorriso impassível no rosto
feliz por tê-la como a tutora de meu coração.

Sexta-feira

Seus cabelos, esse oceano de delícias
de onde eu nunca deveria ter saído
desde aquela mágica/trágica primeira vez
em que entrei por entre eles

Seus cabelos, lugar de nirvana,
quebra dimensional, não-lugar,
onde um monge pode encontrar a (ilum)inação
e tornar-se um buda
um (silen)cioso e realizado buda
vencido por esta dimensão de perfumes, castanha maciez
e amorável loucura

Sábado

Menininha linda & retalhadora
que sorri
enquanto rasga minha pele frágil
com suas unhas de cristal...

Malévola
que pisa quem te adora
sádica senhora
cheia de nãos
não posso - não vou - não deixo - não
me aporrinhe
não sei como posso amar
a brutalidade de suas palavras
seu coraçãozinho de pedra
seus pés que não posso tocar...


Domingo

Sua pele morena & lisa
queria mapeá-la como a uma ilha do tesouro
para conhecer cada canto,
cada curva e esconderijo
e todos os dias
caminhar por essa ilha da fantasia
livre e solitário
como um pirata, um corsário,
ladrão e senhor do maior dos tesouros do mundo.

Segunda-feira

Menininha prematura
de alma tão velha, tão antiga
queria lhe fazer uma cantiga
que lhe rejuvenescesse a alma,
e a tirasse para dançar...
queria saber chegar
nesse seu mau humor
de assalto, dizendo à tristeza:
Mãos ao alto!
e tocando o terror
arrombando todas as portas
rompendo as cadeias e cordas
que lhe impedem de amar.

Queria ser Aquaman ou Namor,
o Príncipe Submarino
para alcançar, Tristeza, seu palácio
no fundo do mar
mas no lugar de nadadeiras, Deus
deu-me embaraçosas asas.

Dane-se o voo: por ti estou pronto
a descer e me afogar.
Deus me perdoará: desço para salvar Sorrisos,
esses nossos lindos e futuros filhos.

Terça-feira

Amazona, guerreira sereia ondina ninfa
minha musa teimosa & má
tesouro escondido no fim do anarco-íris
que eu nunca alcanço, por mais
que me esforce
- tesouro que não quer ser alcançado -
já não sei o que fazer
melhor te idealizar à distância,
e seguir sonhando com a fragrância
de seu perfume narcótico, alucinógeno,
que me viciou para depois degredar.

Você sabe onde me encontrar:
Estática ilha, estou ao alcance de um estalo de seus dedos,
se um dia você esfolar seus traumas, ou ao menos despir seus medos,
medos de felicidade e cumplicidade; o frio medo do aconchego.


BONUS TRACK: Um princípio num precipício

Ao invés de ser seguida, é ela que segue.
Cerca seu avanço em plena urbe, saia de hippie,
aquele perfume masculino que ela sempre usou,
que em seu pescoço se torna a bruma mais fatal,
um hálito da mistura de Diana e Afrodite
que ela consegue realizar.
Índia malsã, onça e cutia, predadora e presa,
primeira presença
primeira notícia a salvar uma triste semana.
Massagem cardíaca desta quinta feira
fôlego recambiado entre dois duros corações,
espelhos desta cidade má, madrasta
sempre ensaiando devorar o seu secreto
corpo de bailarinos.









Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...