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segunda-feira, 25 de maio de 2020

Cinemateca de Quarentena: "Uma obra de arte deve ser como um machado..."



Aprisionados por esta quieta calamidade, esta crise coronariana que talvez finalmente inaugure de fato e de direito o século XXI, sobrevivemos com as reservas e ajudas que podemos. Os que estamos impossibilitados de trabalhar, nadando em ócio, recorremos a tudo: Overdose de redes sociais, tentativas de exercícios no quintal ou na área, retorno à espiritualidade, diuturnas D.R.s (discussão das relações), retomada de leituras que antes se acumulavam, revivals e flashbacks musicais via Youtube, e a ordem do dia: Sites de streaming como Netflix e Amazon Prime, ou mesmo os democráticos sites de, hum, não digamos pirataria, mas facilitação cultural fraternalista.
Mais um entre tantos sitiados, vez por outra lanço-me em busca de algum filme ou série, de preferência que me possam instigar. Nessa vibe acabei por ver, em maratônica sequência, a dois filmes: O laureado sul-coreano Parasita e o anglo-americano Vestígios do Dia.
Não tinha a mínima ideia dos roteiros, e foi uma coincidência macabra perceber que tratam, mesmo que lateralmente, de um mesmo tema: Como os príncipes deste mundo são detestáveis. E talvez aqueles que os celebram – muitas vezes ao custo de seu sangue, sua sanidade.
No ótimo Vestígios do Dia (1993), baseado num romance do nipo-britânico Kazuo Ishiguro, um abnegado mordomo (o sempre fenomenal Anthony Hopkins) vê a vida e suas oportunidades de felicidade lhe escorrerem por entre os dedos, sempre ocupados, sempre asseados, sempre a postos em sua subserviência tão inglesa, tão torpe. Mas essa torpeza da servilidade, esse assalto e rapto de sua própria humanidade não é confrontado pelo personagem que, resignado, se anula em seu papel, como um indiano engessado no sistema de castas, até que seja tarde demais. Sua bovina suspensão dos julgamentos éticos sobre aquilo que vê e ouve (“quem é o servo para julgar o seu $enhor?”) dá o tom do absurdo – que pode ser o de muitos de nós, guardadas as proporções e contextos. Seu sorriso impassível, mantido até o final não feliz da trama, arranca piedade (e um difuso sentimento de revolta) de nossos sentidos já anestesiados.
Sem querer, essa celebração tão inglesa dos de “sangue azul” traz à baila, ao menos para nós, não-monarquistas, o eterno questionamento: O que leva homens a servirem a outros que não possuem mérito algum palpável ou mensurável, senão seu DNA? Um indivíduo é elegido para o poder, outro conquista o poder – mas como pode alguém HERDAR o poder? Numa tribo zulu na Suazilândia (única monarquia absoluta do continente africano) ou num café na Piccadilly Circus em Londres, como abaixar a cabeça a não-escolhidos e não-meritórios, mas janotas impostos “pelo destino”? E pensar que mesmo hoje há quem fale em retorno da Monarquia no Brasil. Diabos, não nos bastam os oligarcas e burgomestres? Esses ao menos não se arrogam ter sangue azul, embora melindrosamente (e mais para o espelho, mais para si próprios) vistam a carapuça. Príncipes e rajás: Não em vão o Cristo afirmou que não haverá espaço nos céus para quase nenhum deles...
Sobre Parasita (2019), é compreensível que a película de Bong Joon Ho tenha faturado o Oscar de melhor filme: Se não capturou o zeitgeist, o espírito do (nosso) tempo de uma maneira plural, capturou ao menos o zeitgeist do estado da arte e pensamento pós-modernos: Relativização moral seguida do esforço de re-significação da (de alguma) moralidade, cansaço frente às estruturas de poder/coesão, celebração não trágica, mas irônica/cínica do absurdo. Um filme de respeito.
Mas a quarentena infelizmente é longa. Sitiados em nossos sofás, avancemos na nossa matinê, imaginando-nos andando livres lá fora, quem sabe nas antigas seções dos cinemas São José ou Cine Nanci.
 Ampliando a mesma linha de questionamentos éticos de Parasita, funcionando como verdadeiras metralhadoras ou roletas russas de solicitações, duas produções, uma de 2015 e outra recente, trazem, igualmente de maneira crua, tal questão.
Em Circle (EUA, 2015), produção independente e barata, 50 atores despertam aprisionados num sinistro ambiente, impossibilitados, sob risco de morte, de saírem de suas posições. Ao centro, uma máquina obscura dispara raios de quando em quando, fulminando um dos convivas do macabro experimento. Mas eles logo descobrem que não há aleatoriedade alguma nos disparos: De certa forma, todos os presentes podem “votar” naquele que irá morrer. O que se segue, embora recorrendo a alguns clichés, é uma célere catarse de julgamentos éticos, exposição de preconceitos e exibição do pior que no homem habita. Nauseante, mas fiel tributário daquilo que a arte deve se propor a ser: Uma perturbação, ou, parafraseando Kafka (que falava sobre livros), “queremos obras que nos afetem como um desastre. Uma obra de arte deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós.”
Já no recente O Poço (2019), suspense/ficção científica espanhol que alcançou rápido sucesso e gerou até memes (“Mas não é óbvio?”), a mesma fórmula se apresenta, mas aqui hiper refinada, operando por véus que vão sendo arrancados – onde loucura se contrapõe à loucura, absurdo (estrutural, existencial, totalitário) é respondido com absurdo, num jogo de embaçamento, perda e retomada do sentimento do ético, culminando no esforço final de redenção/superação sacrificial até o encerramento em aberto, abertura de possibilidades que igualmente cumpre a função da arte de perturbação dos sensos.
Se nossos corpos foram lançados à força em nossas desconfortáveis zonas de conforto, que a sétima arte possa dela nos arrancar, com seus questionamentos que, ao exporem nossa miséria, acabam por nos forçar a sermos melhores, a fim de não perecermos.

Sammis Reachers

Artigo publicado originalmente no Jornal Daki


sábado, 16 de setembro de 2017

First They Killed My Father e Capitalismo: Uma História de Amor - Ou: A esquerda, a direita e o mal


Assisti nesta semana a dois filmes bem diferentes, dois filmes (na Netflix) para você aprender sobre SORDIDEZ.
 Em First They Killed My Father vemos a colheita maldita que foi a implantação do comunismo no Camboja, pela história real de uma família desfeita nas fazendas coletivas, alistamentos compulsórios e outras fornalhas marxistas.
Já em Capitalismo: Uma História de Amor, de Michael Moore, o alcagueta-mor do Império, vemos a sordidez inacreditável do capitalismo e seus mecanismos de vampirização e prostituição daquele que foi feito à imagem e semelhança de Deus.
Dois filmes para aprendermos sobre SORDIDEZ, sobre sistemas que em suas raízes e processos (práxis, práticas) negam o cristianismo ensinado no Sermão do Monte; para aprendermos que um outro caminho precisa ser tomado.
Recomendo que você os assista. Como gosto de provocar, são filmes para serem exibidos nas EBDs das igrejas.

Construir a justiça e viver o Sermão não são tarefas fáceis ou redutíveis a maniqueísmos; pelo contrário, são as cargas mais pesadas já dadas, a longa porta estreita que indica que, sim, um outro mundo é possível, mesmo neste rascunho traçado em pus (nosso mundo), mesmo enquanto esperamos pela nossa Pátria Celeste.


Sammis Reachers

domingo, 5 de março de 2017

Logan, o Filme - Uma breve percepção



Assisti ontem (04/03) a este ensaio. Um filme de ação virulenta, violência virulenta, mas fundamentalmente um filme sobre a decadência. A decadência e suas implicações, a possibilidade (sombra dentro das sombras de nossos humanos demasiado humanos passos) de um futuro não de rosas, mas distópico, violentado pela dor, abandono, ruído, a colheita ruinosa das escolhas erradas, o preço de hesitações se sobrepondo.

Um filme triste, triste para o assistente neutro, triste ainda mais para o fã de quadrinhos, para aqueles que praticamente aprenderam a ler em cima de um gibi, como eu. 
A violência, crua, é apenas pano de fundo para um ensaio, dentro das possibilidades do cinema comercial, sobre paternidade, senilidade, decadência e esperança. A fotografia algumas vezes poética ao extremo amplia a sensação de desolação ao vermos dois ícones X em sua derradeira jornada, derradeira jornada rumo a um Éden que só pode existir em sonhos, ou erigido pelo sacrifício dos já sacrificados. 
Onde uma cruz em X tomba, uma cruz em X ergue-se. Você entenderá. 
Para sempre X-Men.

domingo, 13 de maio de 2012

Festival de cinema sob licença Creative Commons na Cidade do México


De 9 a 14 de julho, os moradores da Cidade do México vai apreciar o seu primeiro festival de cinema sob licenças Creative Commons (CC CMX) . Este é um espaço que será exibido obras audiovisuais, curtas-metragens, longas-metragens, documentários, que estão sob tais licenças de propriedade intelectual com o objectivo de criar uma rede de distribuição para novos criadores. O que é a diferença neste ciclo com o resto do negócio na cidade? Para entender sua importância, é necessário entender um pouco sobre as licenças Creative Commons .

O que é Creative Commons?

Em 2001 veio "Creative Commons, uma organização não governamental sem fins lucrativos, liderada por Lawrence Lessig, professor de Direito na Stanford University. A idéia do projeto foi desenvolver um grupo de licenças de propriedade intelectual (mais conhecido como comuns licenças criativas de bens) menos rigoroso do que no presente, compatível com as várias jurisdições do mundo, e para permitir que o autor para fornecer flexibilidade ao seu trabalho. As licenças Creative Commons são projetados para um modelo de distribuição com base na cópia, em um mundo onde a reprodução ea distribuição de obras estão disponíveis para todos os processos.
Ao longo de mais de uma década, as licenças foram traduzidos e adaptados para serem compatíveis com diversas legislações do mundo, incluindo Espanha, México e Argentina. Licenças Creative Commons permitem que o autor a colocar certas condições em seu trabalho, como o liberdade para o jogo sob atribuição, criar obras derivadas ou restringir a comercialização. Os termos são baseados em copyleft neologismo cunhado, em contraste com o autor, um conjunto de palavras cujo significado pode ser traduzido como "permissão para copiar" (ou no sentido literal, o autor à esquerda).

Onde é que o festival?

O festival de cinema na Cidade do México é uma cópia do Criativo NCCB Barcelona Commons Festival de Cinema . O evento espanhol é a partir de 2010 e está registrado sob uma licença Attribution Noncommercial - Share Alike (CC-NA-SA). Isto significa que qualquer pessoa no mundo pode organizar um festival similar, desde que se reúne duas condições:
  • O licenciado tem o direito de copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados para fins não comerciais.
  • O licenciado tem o direito de distribuir trabalhos derivados sob uma licença idêntica à licença que rege o trabalho original.
Festival de Barcelona terá sua terceira edição nos dias seguintes (10 a 13 de Maio). Além da capital mexicana, outras cidades que já sediaram o ciclo deste ano foram Madrid (19-22 de Janeiro), Lima (28 fevereiro-2 março) e Buenos Aires (13 a 16 de Março).

Qual é o CMX DC?

O CC CMX será mostrado em diferentes locais do Centro Histórico do México, Espanha Centro Cultural, Museu Nacional de Arte da Universidade do Claustro de Sor Juana, entre outros. Além dos filmes, haverá um workshop sobre o uso de licenças Creative Commons em projetos audiovisuais (muito importante para jovens diretores) e um par de mesas-redondas temáticas: "Cinema na era da Internet" e "Os espaços no cinema " . Se eu não tenho nenhuma dúvida sobre o CMX-DC como se inscrever, como participar com seus trabalhos, pode contactar os organizadores diretamente no site do festival.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Filme evangélico faz bilheterias pegarem fogo!

Ao mesmo tempo em que ‘Fireproof’ estoura nas bilheterias, o filme sobre a vida de Billy Graham, ‘Billy: The Early Years’, não alcança o sucesso esperado.

Dois anos atrás, Desafiando Gigantes, um filme de baixo orçamento sobre esportes, feito por voluntários na Igreja Batista de Sherwood, na Albânia, Geórgia, atingiu a marca de US$ 10 milhões, sendo que seu orçamento havia sido de US$ 100 mil.

Este ano, Sherwood atingiu um sucesso maior quando Fireproof, um filme sobre crise no casamento, feito com orçamento de US$ 500 mil, superou até os US$ 25 milhões levados pelo filme da Big Idea Productions, Jonah: A VeggiTales Movie (Jonah e os Vegetais), de 2002 – na realidade, arrecadou US$ 28.327.659, de acordo com BoxOfficeMojo.com.

Mas, enquanto Fireproof atraiu uma grande quantidade de público, Billy: The Early Years, filme sobre Billy Graham, fracassou. Feito com US$ 5 milhões, o filme ganhou apenas US$ 347 mil em suas três primeiras semanas e saiu das salas de exibição. Fireproof alcançou US$ 8.148 por sala em sua semana de abertura; Billy alcançou meros US$ 681.

O produtor de Billy, Larry Mortoff, disse que o sucesso de Fireproof, ironicamente, deve ter prejudicado seu filme. “Talvez o mundo cristão consiga absorver um filme cristão por vez, e Fireproof deve ter ocupado esse lugar.” Mortoff disse que sua equipe estava pensando numa estratégia do tipo “segunda onda” de lançamentos teatrais e estava confiante de que se sairiam bem com as vendas de DVD e as negociações para a TV.

Os distribuidores de Fireproof, incluindo a marca cristã Provident e a secular Samuel Goldwyn, creditam o sucesso do filme ao seu apelo a um problema universal (a crise no casamento) e ao fato de que foi produzido por pessoas da igreja, que representam o público-alvo. O filme também foi divulgado no show do Dr. Phil, que dedicou um episódio ao tema “colocando à prova de fogo seu casamento”.

O sucesso de Fireproof vai além do próprio filme: The Love Dare (Dia do Desafio), um livro com venda casada, co-escrito pelo diretor Alex Kendrick e seu produtor e irmão Stephen (ambos pastores em Sherwood), vendeu 600 mil cópias em semanas, alcançando o primeiro lugar no ranking dos livros de aconselhamento mais vendidos do The New York Times.

Alex Kendrick diz esperar por um orçamento maior para o próximo filme de Sherwood, embora ele e sua equipe ainda não tenham decidido qual será a história a ser contada. Com o dinheiro extra, vem o desafio de equilibrar o ministério com a melhora artística – um desafio parcialmente encontrado em Fireproof, no protagonista Kirk Cameron, que praticamente atuou de graça.

“Queremos utilizar nossos membros da igreja tanto quanto for possível, mas, ao mesmo tempo, reconhecemos que, de fato, em algum ponto você tem de ir além dos membros da igreja para manter a qualidade da arte”, diz Kendrick.

Craig Detweiler, co-diretor do Instituto Reel Spirituality no Seminário Teológico Fuller, diz que os Kendricks descobriram como interagir com um público que não vai muito ao cinema. É porque, diz ele, são pastores que, todo o tempo, trabalham com “pessoas reais e suas lutas do dia-a-dia”.

via Portal Cristianismo Hoje - http://www.cristianismohoje.com.br/

Copyright © 2008 por Christianity Today International
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