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segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Wagner Sales Entrevista: Sammis Reachers

 No dia 05/07/2024, participei de uma entrevista, ou melhor, um descontraído bate-papo com o jornalista Wagner Sales, em seu programa Wagner Sales Entrevista. A conversa versou sobre a realidade política e cultural de nosso município, São Gonçalo, bem como sobre literatura, educação e meus livros. Confira:



quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Resenha dos JRs com Sammis Reachers - Os 41 anos da Capcom

 


Os amigos e irmãos Junior Braga e Junior Malacarne, meus companheiros de redação na Revista Muito Além dos Videogames, têm promovido mensalmente um bate papo sobre o universo dos jogos eletrônicos, com destaque, claro, para a seara retrogamer. E no mês de julho eu fui o "convidado especial". O tema do programa foram os 41 anos da empresa Capcom, que tantos bons jogos legou (e ainda lega) aos aficionados. Em comemoração à data, a Capcom criou um belíssimo site comemorativo, onde era possível jogar diversos de seus antigos jogos, além de conhecer detalhes da história da empresa e de seus personagens. 

Abaixo, confira nossa conversa, descontraída e muito bem humorada.


sábado, 16 de setembro de 2023

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Resenha e entrevista no site Indicar Livros


A jovem Taynara Mello, promotora cultural à frente do site Indicar Livros, fez uma resenha de meu O Pequeno Livro dos Mortos. Também batemos um papo sobre Literatura et al, que virou uma entrevista, disponível no site.

Confira no link:
 http://www.indicarlivros.com/2016/12/o-pequeno-livro-dos-mortos-escrito-por.html

sábado, 26 de novembro de 2011

Vietnã, 25 anos depois - testemunho da menina Kim Phuc


A foto da garota Kim Phuc, nua, fugindo de seu povoado que estava sofrendo um bombardeio de napalm, até hoje é lembrada como uma das mais terríveis imagens da Guerra do Vietnã.

No momento em que a foto foi tirada, em 8 de junho de 1972, a vida de Kim Phuc, então com 9 anos, mudaria para sempre. Hoje, 32 anos depois, Kim Phuc é Embaixatriz da Boa Vontade da UNESCO. Ela contou à BBC sua experiência.

Em 1972, os americanos lançaram uma bomba de napalm em meu povoado, no sul do Vietnã.
Um fotógrafo, Nick Ut, tirou uma foto minha fugindo do fogo, a foto que hoje é tão famosa.
Eu me lembro que tinha 9 anos, era apenas uma menina. Naquela noite, nós do povoado havíamos ouvido que os vietcongues estavam vindo e que eles queriam usar a vila como base.
Então, quando já era dia, eles vieram e iniciaram os combates no povoado.
Nós estávamos muito assustados.
Eu me lembro que minha família decidiu procurar abrigo em um templo, porque nós acreditávamos que lá era um lugar sagrado.
Nós acreditávamos que, se nos escondêssemos lá, estaríamos a salvo.
Eu não cheguei a ver a explosão da bomba de napalm; só me lembro que, de repente, eu vi o fogo me cercando.
De repente, minhas roupas todas pegaram fogo, e eu sentia as chamas queimando meu corpo, especialmente meu braço.
Naquele momento, passou pela minha cabeça que eu ficaria feia por causa das queimaduras, que eu não ia mais ser uma criança como as outras.
Eu estava apavorada, porque de repente não vi mais ninguém perto de mim, só fogo e fumaça.
Eu estava chorando e, milagrosamente, ao correr meus pés não ficaram queimados.
Só sei que eu comecei a correr, correr e correr.
Meus pais não conseguiriam escapar do fogo, então eles decidiram voltar para o templo e continuar abrigados por lá.
Minha tia e dois de meus primos morreram.
Um deles tinha 3 anos e o outro só 9 meses, eram dois bebês.
Então, eu atravessei o fogo.

Queimaduras

O fotógrafo Nick Ut nos levou para um hospital das redondezas.
Assim que ele nos deixou lá, foi para uma sala escura revelar as fotos.
Depois, me falaram que eu e as outras pessoas feridas seriam transferidas para o hospital de Saigon.
Dois dias depois, meus pais me encontraram no hospital.
Eu passei bastante tempo no hospital: 14 meses.
Os médicos fizeram 17 cirurgias para curar as queimaduras de primeiro grau.
Metade do meu corpo ficou queimada.
Aquele foi um momento decisivo na minha vida.
A partir daí, eu comecei a sonhar em como ajudar outras pessoas. Meus pais guardaram a foto, que tinha saído num jornal, e depois a mostraram para mim."Esta é você, quando você estava ferida", disseram eles. Eu não consegui acreditar que era eu, era uma foto aterrorizante.
Eu acho que todas as pessoas deveriam ver essa foto, mesmo hoje.
Porque essa foto mostra claramente como uma guerra é terrível para as crianças. Você pode ver o terror no meu rosto. Basta ver a foto, para as pessoas aprenderem.

Este texto foi adaptado de uma gravação feita para o site do BBC World Service em inglês.
Fonte: http://www.historianet.com.br

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"O Rodolfo dos Raimundos morreu aos 27 anos", diz ex-vocalista da banda à revista


Rodolfo Abrantes, ex-vocalista do Raimundos, na revista "Rolling Stone Brasil" de outubro de 2011
"Não voltaria por valor algum". Essa é a resposta de Rodolfo Abrantes, ex-vocalista dos Raimundos, sobre um possível retorno à banda que ajudou a formar em Brasília no final dos anos 80. Em entrevista à edição de cinco anos da revista "Rolling Stone Brasil", que chega às bancas na sexta-feira (14), o cantor de 39 anos é enfático ao dizer que "o Rodolfo dos Raimundos morreu aos 27 anos", idade que começou a enfrentar uma crise na banda, numa alusão ao chamado "Clube dos 27" --composto por músicos que morreram nesta idade como Kurt Cobain, Jimi Hendrix e, mais recentemente, Amy Winehouse.
"Amo os caras, não tenho problema com a banda. Meu caminho é este, minha vida é falar de Jesus", diz ele, que agora é missionário da Igreja Bola de Neve de Balneário Camboriú (SC). Nascido em 1972, no Distrito Federal, Rodolfo cresceu em uma cidade com uma geração roqueira local em evidência, que ele viu nascer em um bar a algumas quadras de casa.
"Tudo o que sabiam de mim era 'Rodolfo dos Raimundos'. Parecia que eu era aquilo. Só que eu não era aquilo, eu tinha me tornado aquilo", ele relembra, falando sobre a saída da banda, em 2001, cinco meses depois de ele entrar na Igreja. "Eu estava num tribunal sendo acusado de ter traído o rock", recorda o músico, que diz não sentir rancor das pessoas que o criticaram. "Foi uma opção minha. E tudo tem seu preço. Ouvi bastante, e ouço até hoje. Mas independentemente do que dizem para você, a maneira como você reage é o que determina o quanto isso te afeta".
A última vez que Rodolfo esteve com os antigos parceiros de Raimundos, conforme ele conta na entrevista, foi em 2007, no velório do pai, em Brasília. O guitarrista, Digão, o baterista, Fred, e o baixista, Canisso, apareceram para oferecer os ombros ao amigo, e desde então não se falaram mais. "O Canisso tocou comigo no Rodox um tempo. A gente sempre se deu muito bem. Não que não me desse bem com os outros, mas parece que o Digão e o Fred ficaram muito magoados".
Enquanto se dedica a ministrar cultos, uma nova formação dos Raimundos segue na estrada com Digão nos vocais, Canisso no baixo, Caio na bateria e Marquinho na guitarra. Em junho deste ano, a banda lançou o CD e DVD ao vivo "Roda Viva".
Fonte: Uol

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Surfistas, apaixonados e simpatizantes: entendam o mar

Prof. Elói Melo

Surfar não depende só de ficar em pé na prancha e aprender as manobras. Também é fundamental entender o mar e prestar atenção nos sinais enviados pela natureza.
Atualmente, há diversos sites que disponibilizam a previsão de swell e analisam as condições do mar - facilitandoa muito a vida das surfistas.
Mas o que é mesmo swell ? Para esclarecer as dúvidas de quem está dando os primeiros passos no esporte, consultei o professor Elói Melo, 56 anos, PHD em Ciências Oceânicas pela Universidade da Califórnia (EUA), pós-graduado em engenharia oceânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Ele coordena o Laboratório de Hidráulica Marítima da Universidade Federal de Santa Catarina e é responsável por uma das bóias que fazem o monitoramento das condições do mar no Brasil. Surfista desde os 15 anos, ele esclarece tudo o que você sempre quis saber, mas nunca teve coragem de perguntar.

Qual é o melhor local para entrar e sair do mar?

O canal é o melhor local para entrar e o banco de areia, para sair.


Como reconhecer a vala, o banco de areia e o canal?

A melhor maneira de identificar é observando. A vala é o buraco escavado pelas ondas e pela corrente. Se houver uma vala, observe se ali há correnteza. Ficará mais fácil entrar por ali, que é um canal, que se forma com a água que vai da praia em direção ao mar, facilitando a vida da surfista. O banco de areia é onde as ondas quebram e indica que naquela região a profundidade é mais rasa.


Como se formam as ondas?

As ondas são geradas pelo vento nos oceanos. Para que se forme uma onda, é necessário que haja uma ventania, não necessariamente numa praia próxima ao pico. As ondas formadas dentro da zona de geração (região onde ocorrem as tempestades) são denominadas vagas. Depois de criadas, elas podem viajar por conta própria e ganham o nome de swell, ou ondulação.

Um exemplo de como elas podem viajar são as ondas na costa da Califórnia, que, às vezes, são geradas na Nova Zelândia e atravessam o Oceano Pacífico inteiro para chegar até a costa norte-americana.  Se a tempestade acontece próxima à costa, as ondas acabam rolando dentro da zona de geração e menos tempo o swell terá para se acertar, para chegar perfeito à costa.

O que determina o tamanho das ondas?

Quando elas ainda estão se formando no meio do oceano, três fatores determinam o tamanho: intensidade do vento, pois quanto mais vento, maiores ondas podem aparecer; a área do oceano sobre a qual o vento atua, também chamada de pista; e a duração do vento, ou seja, o tempo que ele atua e transfere energia na forma de ondas.

Ondas grandes são geradas por tempestades com ventos fortes, mas não um furacão, que passa rápido e não tem pista. Para que rolem ondas grandes, é necessário uma tempestade com ventos fortes no oceano, os chamados ciclones extratropicais, que duram cerca de dois ou três dias. O fundo só passa a fazer diferença quando as ondas estão próximas às praias e passam pela plataforma continental.

O que é swell?

Após serem criadas na zona de geração, as ondas normalmente viajam pelos oceanos e são denominadas swell, ou ondulação.


Como funciona a combinação entre swell e vento?

Os ventos estão em constante mudança, conforme o movimento do sistema atmosférico. Se uma tempestade de sul durar dois ou três dias, ela poderá sofrer influência de diversos tipos de ventos, que possivelmente variarão entre norte e nordeste. Só que nesse momento, os ventos não interferem mais porque o que importa é o momento em que a tempestade foi gerada.

Ou seja, o vento interfere no momento em que dissipa energia para gerá-las. O vento cria outras ondas e as primeiras seguem sua trajetória. Já nas praias, é preciso observar qual vento é favorável para fazer quebrar determinado pico e isso depende da posição geográfica da praia. Por exemplo: Maresias tem altas ondas com ondulação de sul e vento leste, porém em Ubatuba, esse mesmo vento deforma as ondas.

O swell de sul sempre traz onda para a costa brasileira em todos os picos?

Tudo depende da orientação da costa em relação à direção do swell. O litoral sudeste é muito bem posicionado geograficamente para receber as ondulações vindas do extremo sul. Geralmente, as tempestades ocorrem numa faixa entre 30º e 50º graus de latitude. Se analisarmos o Atlântico Sul, Florianópolis (SC) está a 27,5º graus de latitude. Ou seja, as tempestades rolam ainda mais para baixo, no que chamamos de Quadrante Sul, que é a região mais ao sul do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. Isso depende da praia estar bem posicionada para receber essas ondulações, além de não ter muito vento. Saquarema, por exemplo, na região dos Lagos (RJ), está otimamente posicionada para receber os swells vindos do sul, além do que, o vento Nordeste, que é dominante no Brasil, também é constante na região proporcionando excelentes ondas. Já no Ceará, onde a posição geográfica está voltada para cima, o swell de sul não influencia em nada as ondas da região. Para rolar onda lá, é necessário que a ondulação venha do Atlântico Norte. Por isso, nessa região, a época de ondas boas ocorre entre dezembro e fevereiro, quando é inverno no Hemisfério Norte. Por isso Fernando de Noronha é tão constante nessa época do ano, enquanto o restante do litoral do Brasil é dominado pelo flat.


O que é vento maral e terral?

O vento maral provém do mar para a terra. Esse vento gera ondas locais, as marolas, e acaba balançando o mar, deixando as ondas irregulares. Já o vento terral não gera onda e vai da terra em direção ao mar. O terral costuma deixar o mar liso.


É verdade que raio é sinal de que o mar vai abaixar?

Não há nenhuma explicação científica. As tempestades de verão, que geralmente são repletas de raios, não fazem onda porque os ventos fortes duram em média meia hora. E isso não faz o mar subir, pois é preciso de tempo para que as ondas subam.


Chuva diminui o tamanho das ondas?

A chuva não tem efeito significativo em relação as ondas.


O que determina o intervalo entre as ondas nas séries?

O período das ondas, que é o intervalo entre as duas ondas, é um fator importante e é preciso prestar bastante atenção nele. O período chega a ser até mais importante do que a altura das ondas e varia de 3 a 4 segundos, até 20 segundos em média. Quanto mais longo for o período, mais perfeitas serão as ondas, independentemente do tamanho. Para que rolem altas ondas, é preciso que uma tempestade atue numa área de oceano muito grande, por pelo menos dois dias. Na Indonésia, muitas vezes os períodos são de 18 a 20 segundos, por isso as ondas são tão perfeitas. Quando o período está entre 4 e 5 segundos as ondas tornam-se bagunçadas, mexidas.


Como funcionam as bóias? Quantas existem no Brasil?

A bóia é uma esfera metálica de um metro de diâmetro com 300 kg, fundeada em pontos estratégicos da costa com cabos e âncora. Ela balança quando as ondas passam e possui um equipamento eletrônico em seu interior que é capaz de dizer a altura da ondas quando elas passam por ela. O Laboratório de Hidráulica Marítima da Universidade Federal de Santa Catarina tem uma há 35 quilômetros da costa de Florianópolis. Ela possui uma antena que registra cerca de 20 minutos a cada hora e  envia as informações via rádio. Nós recebemos, processamos e disponibilizados em nosso site (www.lahimar.ufsc.br). Além do tamanho, ela também mede o período e a direção _as três informações básicas necessárias. Em Arraial do Cabo (RJ), também há outra bóia do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira, que utiliza com o mesmo sistema.


E a maré, como influencia as ondas?

A maneira como a onda quebra depende da profundidade onde ela se encontra. Por exemplo, se for uma praia de perfil declinado, na maré seca as ondas quebrarão de uma maneira. Quando a maré encher, as ondas vão quebrar onde está mais raso, muda o ponto de arrebentação. Ou seja, o tipo da onda varia de acordo com o nível da água ocasionado pela maré.


A Lua influencia, por quê?

A Lua influencia totalmente na maré. Mas as ondas não têm nada a ver com isso, pois a Lua apenas controla as marés. Quando a Lua está cheia, o nível do mar sobe, mas se não tiver swell não vai adiantar nada. Só vai influenciar se a maré for grande. Na região sudeste, a variação é de pequena amplitude. Já no nordeste é preciso prestar mais atenção na maré. Boas ondas dependem de uma combinação de fatores e em algumas praias as ondas quebram melhores com a maré cheia.


Por que o mar fica de ressaca?

Porque acontecem as tempestades nos oceanos. Se ventos fortes atuarem por mais de dois dias, acontece uma tempestade que proporcionará uma ressaca no mar.


Frente fria sempre traz ondas grandes?

Para elas trazerem ondas grandes tem que ter ventos que atendam aos requisitos, como serem fortes e têm que ir na direção certa da costa. É uma coisa que não se pode afirmar. Mas, geralmente as frente frias evoluem para um ciclone extra-tropical, proporcionando as ondulações.


Uma onda perfeita depende de vento, fundo ou swell?

Depende se o swell tiver um período longo, com mais de dez segundos, se o vento local está favorável (terral ou vento fraco) e se a praia está numa posição geográfica favorável. Já ondas espetaculares precisam de um fundo com feições, como um canyon submarino, ou um morro submerso, que faça com que elas quebrem perfeitas. É uma combinação de fatores, não depende só de um deles. 


Como interpretar a previsão de ondas na internet

Waves (www.waves.com.br) - O site oferece um gráfico que disponibiliza a previsão das ondas durante cinco dias, além de mostrar o período, velocidade dos ventos e fotos das principais praias do Brasil para a prática do surf.
Lahimar (www.lahimar.ufsc.br) – Site do Laboratório de Hidráulica Marítima da Universidade Federal de Santa Catarina, responsável por uma das bóias encontradas em nosso litoral. 
Disk Surf (www.disksurf.com.br) – Oferece  previsão das ondas e ventos e ainda o serviço de atendimento ao surfista gratuito. Disponível em alguns Estados é só ligar e saber onda estão as melhores condições.
Inpe (tucupi.cptec.inpe.br/wam) – Site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que apresenta gráficos com a altura e direção das ondas e oferece a possibilidade de controlar o movimento e a velocidade do gráfico..

Como interpretar o gráfico do Waves Check

Na parte superior do gráfico você encontra um seletor representando os próximos cinco dias. O mapa representa as condições para o período destacado em vermelho no seletor. Há duas previsões para cada dia, uma referente às 9 horas e outra para às 21 horas. O mapa das condições do oceano é interativo, sendo possível deslocá-lo horizontal e verticalmente por intermédio das barras de rolagens, ou por intermédio do "zoom" abaixo do mapa.
O botão "animar" altera automaticamente o instante selecionado no seletor, representando a evolução das condições do oceano para os próximos dias. Há duas opções disponíveis de modelo. O modelo global simula os oceanos como bacias oceânicas planas e muito profundas, enquanto o modelo regional considera os efeitos de refração devido às variações da profundidade. Nos dois modelos podemos apresentar no mapa a altura significativa das ondas, o período médio e a intensidade dos ventos.
O primeiro gráfico abaixo do mapa apresenta a previsão para a altura, direção e período das ondas para os próximos dias, tendo como referência uma bóia "virtual" (simulação de presença de bóia) localizada próxima ao pico. O tamanho está apresentado em azul e sua escala fica à esquerda do gráfico. O período está assinalado em vermelho e sua escala está à direita do gráfico. O período das ondas corresponde ao intervalo de tempo entre as ondas. Quanto maior for o período, maior a possibilidade de ocorrer boas ondas.
Na parte inferior temos a direção do swell (ondulação) no início do dia. Para observar eventuais mudanças no decorrer do dia, passe o mouse sobre o gráfico e observe a direção do swell apontada pela bússola. Neste gráfico as regiões escuras representam o período noturno, enquanto o restante representa o período diurno. No segundo gráfico temos a evolução da intensidade e direção do vento para os próximos dias.

quarta-feira, 9 de março de 2011

WWF faz 50 anos


A organização não-governamental foi criada há meio século na Suíça por um grupo de cientistas preocupados com a devastação da natureza. Entre seus fundadores, o suíço Luc Hoffmann. Aos 88 anos, este patrono da conservação da natureza ainda acredita na necessidade de uma organização, que se tornou uma rede mundial de defesa do meio-ambiente, com representações nos principais países do mundo.


29 de abril de 1961 figura nos anais da luta pela preservação da fauna e flora: é a data da criação da ONG com o logotipo do panda. Um momento crucial para Luc Hoffmann, ex vice-presidente da ONG, presente desde o início e que tem "trabalhado em estreita colaboração" com o WWF ao longo destes cinquenta anos.




Apesar de não ter mais nenhuma posição oficial, o suíço - neto do fundador do grupo farmacêutico Hoffman-La Roche - continua financiando alguns projetos da organização por meio de uma fundação com "recursos consideráveis". Leia a entrevista abaixo.



swissinfo.ch: Como foi a participação do Senhor na criação da organização em 1961?



Luc Hoffmann: Eu já estava empenhado na proteção do meio-ambiente, principalmente na UICN [União Internacional para Conservação da Natureza]. A UICN fazia um bom trabalho, reunindo seus membros a cada ano para fazer um balanço dos problemas de conservação da natureza.



Mas alguns de nós, dentro da UICN, lamentavam que esta abordagem não se concretizava em ação. Assim, decidimos criar uma organização que trabalhasse em estreita colaboração com a UICN, mas que iria transformar os resultados dos simpósios em programas de ação.



Juridicamente, o estatuto do WWF foi elaborado pelo Dr. Hans Hüss, um advogado de Zurique que ainda está vivo. Um ótimo estatuto, pois ainda continua sendo o mesmo com apenas poucas modificações.



swissinfo.ch: Qual foi a primeira grande ação do WWF?



LH: "El Coto de Doñana" (a reserva de Doñana), na Espanha. Trabalhava com um amigo espanhol, o Dr. Valverde, para salvar a área. Já havíamos angariado os fundos, quando então fui contatado pelo Dr. [Max] Nicholson e pelo Peter Scott, da Grã-Bretanha, que me falaram de seus planos em criar uma organização internacional para a conservação da natureza, que iria cooperar com a UICN. Eles propuseram a participação deles na ação. Nós já tínhamos recebido uma certa quantia e concordamos, junto com eles, que o Coto de Doñana se tornaria o primeiro grande projeto do WWF.



swissinfo.ch: Na época já havia a preocupação com a proteção da natureza na Suíça e no mundo?



LH: Sim, mas era a preocupação de uma pequena elite. Indivíduos e pequenas organizações engajadas que não envolviam o público em geral.



swissinfo.ch: Como o WWF tem influenciado o mundo durante os últimos cinquenta anos?



LH: Inicialmente, a ideia era comprar as terras para transformá-las em áreas protegidas. Como no Coto de Doñana, mas também no Quênia, no Peru. Mais tarde percebemos que os projetos mais eficazes foram aqueles em que nós tentamos influenciar as decisões.



Ultimamente, procuramos influenciar os governos, encorajando-os a criar reservas naturais e parques nacionais. Há, de fato, diferentes formas de proteção. Não é mais comprando terras que o WWFacredita que terá maior influência, mas pressionando os governos a agir.



swissinfo.ch: A Suíça e o WWF abordam a questão de forma semelhante, racional e equilibrada. É uma coincidência?



LH: É um acidente. A UICN, que acabou se transformando no WWF, foi fundada na Bélgica. Ela foi transferida para a Suíça [em Gland, no cantão de Vaud (oeste)] no momento da descolonização. A Bélgica, uma potência colonial, poderia dar lugar a suspeitas aos olhos dos membros potenciais. A Suíça tinha sua neutralidade e nunca foi colonialista.



swissinfo.ch: Mas a decisão de privilegiar uma abordagem científica, ao invés de dramatizar o problema ainda é adequada em um mundo tão mediatizado?



LH: Observe o desenvolvimento das diversas organizações envolvidas na conservação da natureza. Aquelas baseadas em abordagens científicas têm os melhores resultados.



Uma organização como o Greenpeace, que visa mais o confronto do que a cooperação, obtém alguns resultados oportunos, especialmente em caso de catástrofes. Enquanto que o WWF registra um aumento mais ou menos constante no número de membros e do seu impacto.



swissinfo.ch: Cinquenta anos após a criação do WWF, o planeta está melhor?



L.H.: Não, não está melhor. Mas está certamente melhor do que se oWWF não existisse.



swissinfo.ch: Na sua opinião, ainda há hoje a necessidade doWWF?



LH: Sim, seu principal desafio agora é mudar atitudes e comportamentos. O progresso tem sido feito em termos de empresas e governos. Quanto aos cidadãos, há uma tomada de consciência, mas ainda falta uma mudança no comportamento.



A ecologia política, a abordagem do Partido Verde é interessante. Mas não para mim. A sensibilidade para a natureza deve existir em todas as partes, em qualquer lugar. É verdade que, na prática, alguns partidos estão mais próximos do que outros da ecologia. Mas não é o caminho que devemos seguir.



swissinfo.ch: Haverá um dia em que o WWF será desnecessário?



L.H.: Espero que sim, mas eu não acredito muito. Eu acho que se nós - empresas, governos e cidadãos - continuarmos a agir como hoje, vamos acabar mal. Nós não estamos agindo de forma sustentável, com respeito da biosfera.

FONTE: Swissinfo
Pierre-Francois Besson, Swissinfo.ch
Adaptação: Fernando Hirschy


via http://www.agrosoft.org.br

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O Homem Mais Perigoso do Ciberespaço

Jacob Appelbaum – o hacker norte-americano por trás do WikiLeaks – luta contra regimes opressores no mundo inteiro. Agora, está fugindo do governo de seu próprio país 


Por Nathaniel Rich

Foto: Peter Yang
Jacob Appelbaum no coletivo de hackers de Noisebridge, que ele fundou antes de o FBI começar a segui-lo
Jacob Appelbaum no coletivo de hackers de Noisebridge, que ele fundou antes de o FBI começar a segui-lo
 
 



 
Em 29 de julho, ao voltar de uma viagem para a Europa, Jacob Appelbaum, um rapaz magro e despretensioso de 27 anos, usando uma camiseta preta com o slogan "be the trouble you want to see in the world" ["seja o problema que você quer ver no mundo"], foi detido na alfândega por um grupo de agentes federais. Em uma sala de interrogações no aeroporto Newark Liberty, em Newark, foi questionado sobre seu papel no WikiLeaks, o grupo denunciador que expôs os relatórios de inteligência mais bem guardados do governo norte-americano sobre a guerra no Afeganistão - e que, a cada dia, libera mais documentos na rede. Os agentes fizeram cópias de seus recibos, apreenderam três de seus celulares - ele tem mais de uma dúzia - e confiscaram seu computador. Eles o informaram que estava sob vigilância do governo, questionaram sobre o calhamaço de 91.000 documentos militares confidenciais que o WikiLeaks havia divulgado na semana anterior, um vazamento que Daniel Ellsberg, ativista da era do Vietnã, chamou de "a maior divulgação não autorizada desde os Papéis do Pentágono". Exigiram saber onde Julian Assange, fundador do WikiLeaks, estava se escondendo, pressionaram para saber sua opinião sobre as guerras no Afeganistão e no Iraque. Appelbaum se recusou a responder. Depois de três horas, finalmente foi liberado.

Appelbaum é o único membro norte-americano conhecido do WikiLeaks e o líder evangelista do programa de software que ajudou a possibilitar o vazamento. De uma certa maneira, é uma versão bizarra de Mark Zuckerberg: se a ambição do Facebook é "tornar o mundo mais aberto e conectado", Appelbaum vem dedicando a vida a lutar pelo anonimato e pela privacidade. Um garoto de rua anarquista criado por um pai viciado em heroína, abandonou a escola, aprendeu sozinho as minúcias do código e desenvolveu uma paranoia saudável ao longo do caminho. "Não quero viver em um mundo onde todos são observados o tempo inteiro", diz. "Quero ficar sozinho o máximo possível. Não quero que um rastro de dados conte uma história que não é verdadeira." Transferimos nossas informações mais íntimas e pessoais - contas bancárias, e-mails, fotos, conversas por telefone, históricos médicos - para redes digitais, confiando que está tudo trancado em alguma cripta secreta, mas Appelbaum sabe que essas informações não são seguras. Ele sabe porque consegue encontrá-las.


Demonstra isso quando o encontro, no segundo trimestre, duas semanas antes de o WikiLeaks virar manchete no mundo inteiro ao divulgar um vídeo mostrando soldados dos EUA matando civis no Iraque. Visito seu duplex cavernoso em São Francisco. Os únicos móveis são um sofá preto, uma poltrona preta e uma mesa baixa preta: uma máscara de Guy Fawkes está pendurada em uma parede da cozinha. O chão está coberto de sacos Ziploc com maços de dinheiro estrangeiro: pesos argentinos, francos suíços, leis romenos, dinars iraquianos antigos com o rosto de Saddam Hussein. O saco marcado "Zimbábue" contém uma única nota de $50 bilhões. Fotos, a maioria delas tirada por Appelbaum, cobrem a parede sobre sua mesa: garotas punk em poses sedutoras e um retrato do falecido pai, um ator, vestido como um personagem.


Appelbaum me conta sobre um de seus feitos menos impressionantes em hacking, um programa de software que inventou, chamado Blockfinder. Diz que não foi especialmente difícil de gravar. Na verdade, a palavra que usa para descrever a complexidade do programa é "trivial", um adjetivo cada vez menos usado que ele e seus amigos hackers empregam, como em "Disparar o firewall chinês é trivial" ou "É trivial acessar qualquer conta do Yahoo utilizando ataques de solicitação de senha". Tudo o que o Blockfinder faz é permitir que você identifique, contate e possivelmente invada cada rede de computador no mundo.


Ele me leva até um de seus oito computadores e aperta várias teclas, ativando o Blockfinder. Em menos de 30 segundos, o programa lista todas as alocações de endereço de protocolo internet no mundo - provavelmente lhe dando acesso a cada computador conectado à internet. Appelbaum decide se concentrar em Burma, um pequeno país com um dos regimes mais repressores do mundo. Digita o código de país de duas letras de Burma: "mm", para Mianmar. O Blockfinder instantaneamente começa a cuspir todo endereço IP em Burma.


O Blockfinder informa a Appelbaum que há 12.284 endereços IP alocados em Burma, todos eles distribuídos por provedores de internet controlados pelo governo. Em Burma, como em muitos países fora dos Estados Unidos, o acesso à internet passa pelo Estado. Appelbaum pressiona algumas teclas e tenta se conectar a cada sistema de computação em Burma. Apenas 118 respondem. "Isso significa que praticamente todas as redes em Burma estão bloqueadas para o mundo externo", afirma. "Exceto 118 delas." Esses 118 sistemas de computação sem filtro só poderiam pertencer a organizações e pessoas a quem o governo conceda acesso ilimitado à internet: políticos de confiança, os mais altos escalões de empresas estatais, agências de inteligência.


"Agora, esta", diz Appelbaum, "é a parte boa".


Ele seleciona uma das 118 redes aleatoriamente e tenta entrar nela. Uma janela abre pedindo uma senha. Appelbaum joga a cabeça para trás e dá uma risada alta - uma gargalhada alegre, quase maníaca. A rede roda em um roteador Cisco Systems e está cheia de vulnerabilidades. Invadi-la será trivial.


É impossível saber o que está do outro lado da senha. A conta de e-mail pessoal do primeiro-ministro? O servidor de rede da polícia secreta? O comando central da junta militar? Seja lá o que for, poderá estar logo na ponta dos dedos de Appelbaum.


Ele fará isso?


"Eu poderia", afirma Appelbaum com um sorriso. "Mas seria ilegal, não?"


Ninguém fez mais para espalhar o evangelho do anonimato do que Appelbaum, cujo emprego normal é ser o rosto público do Tor Project, um grupo que promove a privacidade na internet através de um programa de software inventado há 15 anos pelo Laboratório de Pesquisa Naval dos EUA. Ele viaja o mundo ensinando a espiões, dissidentes políticos e ativistas de direitos humanos como usar o Tor para evitar que alguns dos regimes mais repressores do mundo rastreiem seus movimentos online. Acredita ser um absolutista da liberdade de expressão. "A única maneira de progredirmos na raça humana é através do diálogo", afirma. "Todos deviam honrar a carta de direitos humanos da ONU que diz que o acesso à liberdade de expressão é um direito universal. A comunicação anônima é uma boa forma de isso acontecer. O Tor é só uma implementação que ajuda a disseminar a ideia."


Só no ano passado, foram realizados 36 milhões de downloads do Tor. Um suspeito membro de alto escalão do exército iraniano utilizou o Tor para vazar informações sobre o aparato de censura de Teerã. Um blogger tunisiano exilado na Holanda usa o Tor para burlar a censura estatal. Durante as Olimpíadas de Pequim, protestantes chineses usaram o Tor para esconder sua identidade do governo.


O Tor Project recebeu financiamento não apenas de grandes corporações como Google e grupos de ativistas como o Human Rights Watch, mas também do exército norte-americano, que vê no Tor uma ferramenta importante para o trabalho de inteligência. No entanto, o Pentágono não ficou especialmente feliz quando o Tor foi usado para revelar seus segredos. O WikiLeaks roda no Tor, o que ajuda a preservar o anonimato de seus informantes. Embora Appelbaum seja funcionário do Tor, é voluntário do WikiLeaks e trabalha em conjunto com Julian Assange, fundador do grupo. "Não dá para subestimar a importância do Tor para o WikiLeaks", afirma Assange. "Jacob tem sido um promotor incansável nos bastidores de nossa causa."


Em julho, pouco antes de o WikiLeaks divulgar os documentos confidenciais da guerra do Afeganistão, Assange deveria fazer a palestra principal na Hackers on Planet Earth (HOPE), uma grande conferência realizada em um hotel de Nova York. Agentes federais foram vistos na plateia, presumidamente esperando Assange aparecer. Só que quando as luzes se apagaram no auditório, não foi Assange quem subiu ao palco, mas sim Appelbaum.


"Olá a todos os meus amigos e fãs em vigilância nacional e internacional", começou Appelbaum. "Estou aqui hoje porque acredito que podemos fazer um mundo melhor. Infelizmente o Julian não pôde vir, porque não vivemos nesse mundo melhor agora, ainda não chegamos lá. Queria fazer uma pequena declaração aos agentes federais no fundo da sala e para aqueles aqui na frente, e serei muito claro: eu tenho comigo, no bolso, algum dinheiro, a Declaração dos Direitos e uma carteira de motorista, e é só. Não tenho um sistema de computação, nem telefone, chaves, nenhum acesso a coisa alguma. Não há motivo absolutamente algum para me prender ou me incomodar, e caso vocês se perguntem, sou um norte-americano, nascido e criado aqui, que está descontente com como as coisas estão." Fez uma pausa, interrompida por aplausos ensurdecedores. "Citando Tron" acrescentou, "'Luto pelo usuário'".


Nos 75 minutos seguintes, Appelbaum falou sobre o WikiLeaks, pedindo a hackers na plateia para se juntarem à causa. Depois, as luzes se apagaram e Appelbaum, com o capuz cobrindo o rosto, pareceu ser escoltado para fora do auditório por um grupo de voluntários. Só que, no lobby, o capuz foi retirado, revelando um rapaz que não era Appelbaum. O verdadeiro Appelbaum havia fugido pelos bastidores e saído do hotel por uma porta de segurança. Duas horas depois, estava em um voo para Berlim.


Quando Appelbaum retornou aos EUA, 12 dias depois, e foi detido em Newark, jornais noticiavam que os documentos de guerra identificavam dezenas de informantes afegãos e possíveis desertores que estavam cooperando com as tropas norte-americanas (quando perguntado por que o WikiLeaks não revisou os documentos antes de divulgá-los, um porta-voz da organização culpou o grande volume de informações: "Não consigo imaginar alguém revisando 76.000 documentos"). Marc Thiessen, ex-redator de discursos para o ex-presidente George W. Bush, chamou o grupo de "uma empreitada criminosa" e implorou para o exército norte-americano caçá-lo como a Al Qaeda. O congressista republicano Mike Rogers, de Michigan, disse que o soldado que supostamente forneceu os documentos ao WikiLeaks deveria ser executado.


Dois dias depois, após palestrar em uma conferência de hackers em Las Vegas, Appelbaum foi abordado por alguns agentes do FBI disfarçados. "Queremos conversar por uns minutinhos", afirmou um deles. "Achamos que você pudesse não querer, mas às vezes é bom ter uma conversa para esclarecer tudo."


Appelbaum está fora do radar desde então - evitando aeroportos, amigos, estranhos e locais inseguros, viajando de carro pelo país. Passou os últimos cinco anos de sua vida trabalhando para proteger ativistas no mundo inteiro de governos repressores. Agora, está fugindo do governo de seu próprio país.


A obsessão de Appelbaum pela privacidade pode ser explicada pelo fato de que, na infância, ele não teve nenhuma. "Venho de uma família de lunáticos", conta. Seus pais, que nunca se casaram, iniciaram uma batalha de custódia antes mesmo de ele nascer e que durou dez anos. Ele passou os primeiros cinco anos de sua vida com a mãe, que diz ser uma esquizofrênica paranoide. Ela insistia que Jake havia sido molestado de alguma forma pelo pai quando ainda estava no útero. A tia conseguiu a sua guarda quando ele tinha seis anos; dois anos depois, ela o deixou em um lar infantil em Sonoma County. Foi ali, aos oito anos, que ele invadiu sue primeiro sistema de segurança. Um garoto mais velho lhe ensinou como conseguir o código PIN de um teclado de segurança: você o limpa e, da próxima vez em que um segurança digitar o código, sopra pó de giz no teclado e consegue as digitais. Uma noite, quando todos estavam dormindo, os meninos desabilitaram o sistema e fugiram do lugar. Não fizeram nada de especial - só andaram por uma quadra de softball do outro lado da rua por meia hora - mas Appelbaum se lembra nitidamente da noite: "Foi muito bom, por um momento, ser completamente livre".


Quando tinha 10 anos, o tribunal lhe mandou ir morar com o pai, de quem tinha se mantido próximo, mas logo o pai começou a usar heroína e Appelbaum passou a adolescência viajando com ele pelo norte da Califórnia de ônibus, morando em casas de grupos cristãos e abrigos para sem-teto. Ocasionalmente, seu pai alugava uma casa e a transformava em um esconderijo de heroína, sublocando cada quarto para amigos viciados. Todas as colheres na cozinha tinham marcas de queimadura. Uma manhã, quando Appelbaum foi escovar os dentes, encontrou uma mulher tendo convulsões na banheira com uma seringa pendurada no braço. Em uma tarde, ao voltar da escola, encontrou um bilhete de suicídio assinado pelo pai (Appelbaum o salvou de uma overdose naquele dia, mas o pai morreu anos depois em circunstâncias misteriosas). A situação chegou a um ponto de ele não conseguir nem sentar no sofá com medo de ser furado por uma agulha.


Um estranho na própria casa, Appelbaum adotou a cultura outsider. Assombrava o shopping de Santa Rosa, pedindo trocados, vestia-se de drag queen e com camisetas escritas "i love satan", tingia o cabelo de roxo, provocava brigas com cristãos fundamentalistas e dava amassos em meninos na frente da escola (Appelbaum se identifica como "viado", embora mencione uma dezena de namoradas em vários países). Quando o pai de um amigo estimulou seu interesse em computadores e lhe ensinou ferramentas básicas de programação, algo se abriu para Appelbaum. Programar e hackear lhe permitiram "sentir que o mundo não era um lugar perdido. A internet é o único motivo para eu estar vivo hoje".


Aos 20 anos, ele se mudou para Oakland e eventualmente começou a fornecer segurança tecnológica para a Rainforest Action Network e o Greenpeace. Em 2005, poucos meses após a morte do pai, viajou sozinho para o Iraque - atravessando a fronteira a pé - e configurou conexões de internet via satélite no Curdistão. Após o furacão Katrina, dirigiu até Nova Orleans, utilizando documentos falsos de imprensa para passar pela Guarda Nacional, e configurou hot spots sem fio em um dos bairros mais pobres da cidade, para permitir que os refugiados se inscrevessem para casas na FEMA [
agência norte-americana de gerenciamento de emergências].

Ao voltar para casa, começou a experimentar com os cartões de tarifa utilizados pelo sistema de trânsito Bay Area Rapid Transit e descobriu que era possível fazer um cartão ter tarifa ilimitada. Em vez de tirar proveito, alertou oficiais da BART sobre suas vulnerabilidades. Entretanto, durante a conversa, Appelbaum descobriu que a BART armazenava permanentemente as informações codificadas em cada cartão de trânsito - número de cartão de crédito utilizado, onde e quando foi passado - em um banco de dados privado. Ficou indignado. "Guardar essas informações é uma irresponsabilidade", afirma. "Pago impostos e não tive escolha sobre como eles armazenam esses dados. Não é uma decisão democrática, e sim uma diretriz burocrática."


Por causa de suas preocupações com a privacidade, é fácil ver por que Appelbaum foi atraído pelo Tor Project. Ele se voluntariou como programador, mas logo ficou claro de que sua maior habilidade é o proselitismo: ele projeta a mistura perfeita de entusiasmo e medo. "Jake pode fazer uma defesa melhor do que a maioria", conta Roger Dingledine, um dos fundadores do Tor. "Ele diz: 'Se alguém estivesse te procurando, é isso o que faria', e mostra para a pessoa. Ela fica apavorada."


A internet, uma vez considerada uma força implacável de liberalização e democratização, virou a ferramenta essencial para vigilância e repressão. "Não dá para retratar informações depois que elas são divulgadas", diz Appelbaum, "e são necessárias pouquíssimas informações para arruinar a vida de alguém". Os perigos da web podem ser abstratos para a maioria dos norte-americanos, mas para uma boa parte do mundo, visitar websites restritos ou dizer algo polêmico em um e-mail pode levar a prisão, tortura ou morte.


No ano passado, cerca de 60 governos proibiram seus cidadãos de acessar livremente a internet. Há rumores de que a China tenha uma equipe de mais de 30 mil censores que excluíram centenas de milhões de websites e bloquearam uma gama excêntrica de termos - não apenas "Falun Gong" [
grupo que partica atividades físicas e de metitação em busca do equilíbrio - e que é contra o Partido Comunista da China], "opressão" e "Tian'anmen" [referência à Praça da Paz Celestial], mas também "temperatura", "quente", "estudo" e "cenoura".

Em uma tarde ensolarada em São Francisco, antes de o WikiLeaks dominar as manchetes, Appelbaum está vestindo seu uniforme habitual de hacker: botas pretas, meias pretas, calças pretas, óculos pretos de aro grosso e uma camiseta com slogan (a de hoje é "fuck politics - i just want to burn shit down" [
"foda-se a política, quero queimar tudo"]). Embora seu trabalho o faça ficar sentado na maior parte do dia, ele raramente fica quieto. Frequentemente pula e executa uma série de alongamentos acrobáticos rápidos. Levanta a perna contra a parede, estala o pescoço violentamente, estica o braço sobre o peito e, da mesma maneira repentina, senta novamente.

Explica que temos de tomar um táxi para pegarmos sua correspondência. Como ao ser um vegano rígido ou um mórmon, uma vida de anonimato total exige muito sacrifício. Você não pode, por exemplo, receber correspondências em casa, nem listar seu nome na lista do edifício. Todas as cartas para Appelbaum são enviadas para uma caixa postal privada, onde um balconista as recebe. Isso permite que Appelbaum - e os dissidentes e hackers com os quais lida - use o sistema postal anonimamente. A Pessoa 1 pode enviar um pacote para Appelbaum, que pode reembalá-lo e encaminhá-lo à Pessoa 2. Assim, a Pessoa 1 e a Pessoa 2 nunca têm contato direto - nem conhecem a identidade uma da outra.


O Tor funciona de maneira semelhante. Quando você usa a internet, seu computador faz uma conexão com o servidor web que deseja contatar. O servidor reconhece seu computador, anota seu endereço IP e envia a página solicitada. No entanto, não é difícil para uma agência governamental ou um hacker mal-intencionado observar toda essa transação: eles conseguem monitorar o servidor e ver quem está contatando, ou monitorar seu computador e ver quem você está tentando contatar. O Tor evita essa espionagem online ao introduzir intermediários entre seu computador e o sistema que está tentando alcançar. Digamos, por exemplo, que você mora em São Francisco e quer enviar um e-mail para um amigo, um militar de alto escalão da Guarda Revolucionária Iraniana. Se enviar um e-mail diretamente para o amigo, a rede da Guarda poderá facilmente ver o endereço IP do seu computador e descobrir seu nome e informações pessoais. Mas se você instalou o Tor, seu e-mail é roteado para um de 2.000 relays - computadores que rodam Tor - espalhados pelo mundo. Então, sua mensagem vai para um relay em Paris, que o encaminha para um segundo relay em Tóquio, que o envia para um terceiro relay em Amsterdã, de onde é finalmente transmitido para seu amigo em Teerã. A Guarda Iraniana só pode ver que um e-mail foi enviado de Amsterdam. Qualquer pessoa que espia seu computador só veria que você enviou um e-mail para alguém em Paris. Não há conexão direta entre São Francisco e Teerã. O conteúdo de seu e-mail não está oculto - para isso, é necessária tecnologia de criptografia - mas sua localidade está segura.


Appelbaum passa uma boa parte do ano comandando sessões de treinamento do Tor em todo o mundo, frequentemente realizadas em segredo para proteger ativistas sob risco de morte. Alguns, como os defensores de prostitutas do Sudeste Asiático que ensinou, tinham conhecimento limitado em computadores. Outros, como um grupo de estudantes que Appelbaum treinou em um seminário no Qatar, são altamente sofisticados: um trabalho na rede de censura do governo, outro trabalha para uma petroleira nacional, e um terceiro criou um painel de mensagens da Al-Jazeera que permite que os cidadãos façam comentários anonimamente. Na Mauritânia, o regime militar do país foi forçado a abandonar seus esforços para censurar a internet depois que um dissidente, Nasser Weddady, escreveu um guia para o Tor em árabe e o distribuiu a grupos de oposição. "O Tor fez com que os esforços do governo fossem completamente fúteis", afirma Weddady. "Eles simplesmente não tinham o know-how para combater isso."


Ao distribuir o Tor, Appelbaum não diferencia os mocinhos dos vilões. "Não sei a diferença entre uma teocracia e outra no Irã", diz. "O importante para mim é que as pessoas tenham comunicação livre de vigilância. O Tor não deveria ser considerado subversivo, mas sim uma necessidade. Qualquer pessoa em qualquer lugar deveria poder falar, ler e formar suas próprias crenças sem ser monitorada. As coisas tinham de chegar a um ponto no qual o Tor não é uma ameaça, e sim utilizado por todos os níveis da sociedade. Quando isso acontecer, venceremos."


Como o rosto público de uma organização dedicada ao anonimato, Appelbaum se vê em uma posição instável. É do interesse do Tor obter o máximo possível de publicidade - quanto mais pessoas permitirem que seus computadores sirvam de relay, melhor. Mas ele também vive em um estado de vigilância constante, preocupado que seus inimigos - hackers invejosos, regimes estrangeiros repressores, o próprio governo - estejam tentando atacá-lo. Sua concessão é utilizar um sistema de duas camadas. Ele mantém uma conta no Twitter e publicou milhares de fotos no Flickr, mas toma medidas amplas para evitar o aparecimento de qualquer informação privada - números de telefone, endereços de e-mail, fotos de amigos.


"Há graus de privacidade", afirma. "O normal hoje em dia é denunciar conspicuamente outra pessoa de uma maneira que nem a Stasi poderia imaginar. Não faço isso. Não digito meu endereço residencial em computador algum. Pago o aluguel em dinheiro. Para cada conta online, gero senhas aleatórias e crio novos endereços de e-mail. Nunca dou cheques, porque eles são inseguros - seus números de encaminhamento e de conta são o que basta para esvaziar sua conta bancária. Não entendo por que as pessoas ainda usam cheques. É uma loucura."


Quando viaja, se o laptop fica fora de vista por qualquer período de tempo, ele o destrói e joga fora; a preocupação é que alguém possa tê-lo infectado. Frequentemente é levado a medidas extremas para fazer cópias do Tor passarem pela alfândega em países estrangeiros. "Estudei como as 'mulas' que transportam drogas fazem", conta. "Quero derrotá-los no próprio jogo." Ele me mostra uma moeda de cinco centavos e a joga no chão do apartamento. Ela se abre e, dentro, há um minúsculo cartão de memória Micro SD de oito gigabytes, que contém uma cópia do Tor.


Embora o Tor tenha crescido rapidamente, a vigilância do governo na internet se expandiu com rapidez ainda maior. "É inacreditável quanto poder uma pessoa tem se recebe acesso irrestrito aos bancos de dados do Google", afirma Applebaum.


Como rapidamente observa, os regimes opressores estrangeiros são apenas parte do problema. Nos últimos anos, o governo dos EUA está silenciosamente acumulando bibliotecas de dados sobre os próprios cidadãos. A polícia pode intimar seu provedor de internet a dar seu nome, endereço e registros telefônicos. Com um mandado de Justiça, pode solicitar o endereço de e-mail de qualquer pessoa com quem você se comunique e os websites que visita. Seu provedor de telefonia móvel pode rastrear sua localização o tempo todo. "Não é só o Estado", diz Appelbaum. "Se quisesse, o Google poderia acabar com qualquer país. O Google tem sujeira suficiente para destruir qualquer casamento nos Estados Unidos."


Mas o Google não fornece fundos para o Tor?


"Amo o Google", afirma. "E amo as pessoas lá, Sergey Brin e Larry Page são legais, mas estou apavorado com a próxima geração que assumir. Uma ditadura benevolente ainda é uma ditadura. Em algum momento, as pessoas perceberão que o Google tem tudo sobre todos, e principalmente pode ver as perguntas sendo feitas, em tempo real. Ele pode literalmente ler sua mente."


Agora, com a controvérsia do WikiLeaks, Appelbaum desapareceu, escondendo seu paradeiro até dos melhores amigos. Ele suspeita que seus telefones estão grampeados e que está sendo seguido. Uma semana depois de ser interrogado em Newark, ele me liga de um lugar anônimo, depois de meu pedido de contato ter sido passado a ele por uma série de intermediários. Percebe a ironia da situação.


"Usarei o Tor muito mais do que antes - e já usei muito", diz, com a voz incaracteristicamente sóbria. "Virei uma das pessoas que passei os últimos anos da minha vida protegendo. É melhor eu aceitar meu próprio conselho."


Tradução: Lígia Fonseca
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