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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Trás-frente, baixo-cima: Uma crônica STREET FIGHTER

 



Nos anos 90 do século pretérito, a febre mundial representada pelo jogo Street Fighter 2, que colocou nosso planeta em polvorosa, claro que não deixou incólume o bairro gonçalense onde até hoje moro: O game simplesmente jogou tudo para o ar, com quase todos os moleques virando aficionados. O jogo, quase todos sabemos, inaugurou uma nova era dos fliperamas, sendo responsável central pela abertura de diversas casas no gênero. No final, era ele que pagava sozinho a luz e o aluguel...

Minha história com SF é atrapalhada, mas interessante: Como de início eu tinha dificuldade de realizar o simples “C” para dar as magias dos personagens (hadoken), e era para mim impossível aplicar o Shoryuken (aqui chamado de hoiuguer), logo me afeiçoei aos personagens cujos golpes eram baseados em trás-frente ou cima-baixo: Blanka, Honda, Guile, Shun-Li e principalmente meu preferido: Bison. Com este último me apurei nas manetes, e chegava a vencer alguns jogadores que usavam os apelões Ryu e Ken, para surpresa geral. Desenvolvi mesmo um preconceito contra os dois personagens e seus usuários, pois jogar com eles era “mole demais”. Moleque de coração duro, tinha seus adeptos na conta de retardados mentais. Ops, perdão, mas eram os tempos! De toda forma, até hoje não sou muito fã dos personagens com movimentos relacionados aos dois (como os posteriores Akuma, Dan, Sakura etc.). Mas, calma: Claro que aprendi a realizar os movimentos perfeitamente. Só ficou o ranço...

Aqui tínhamos um fliperama bem aconchegante, o bar da Dona Zeza, que ficava próximo a uma “favelinha” ou área mais carente do bairro, na beira do rio Alcântara (por sinal, chamamos aquela parte do bairro de Beira Rio ou Beira do Rio). Quantas vezes cheguei ali sete da manhã, esperando a birosca abrir! Quantas vezes eu mesmo ligava as máquinas na tomada, para “adiantar” a jogatina, enquanto o filho de Dona Zeza abria as portas e varria o pequeno varandão? Nada de eufemismos, amigos: É vício que chama.

Logo veio o maior frisson e a maior sofrência com o game: Tentar zerar com TODOS os personagens, tarefa que só dois do bairro ousaram (desafio que, anos depois, se repetiu em outro choque em minha vida, quando conheci KoF 95, mas essa é outra história). Amiguinho, naqueles tempos de barbárie, onde não tínhamos vídeos de Youtube ou grandes jogadores para emular (emular é copiar), e revistas eram raras, zerar o jogo com Dhalsim, Honda e Zanguief (eu não conseguia aplicar o pilão, principal golpe do personagem!) foi aventura cara e infernal. Mas consegui! Eu estava ou ao menos me sentia no time dos “PROs”...

No entanto, se tiver de hoje matar a saudade num emulador ou me deparar por acaso com um fliperama, a seleção de personagens vai parar logo nele, el villano, Mestre Bison/Vega. O resto é como andar de bicicleta: Vai no automático.

 

Sammis Reachers


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Compilador, uma parábola

 


E, quando estou enfadado até à morte de mim e dos homens, meu enfado de mim e meu enfado dos homens, em conluio, me conclamam: “Apruma, bípede besta! Recolhe-te à tua biblioteca e faze o trabalho de um antologista.”

Remediado ou acolhido sob um falso sentimento de filiação, às vezes cismo: “E os outros homens, para onde se recolhem?”

“Cuida tu deles? Até os livros que fazes, faze-os apenas para ti. Quanto a nós, nós cuidamos apenas de ti.”

Sammis Reachers


terça-feira, 7 de outubro de 2025

PHOBOMANIA: Conheça algumas das novas fobias classificadas pela "siência"

 

Fobos, você sabe, é irmão de Deimos, deuses ou diabos gregos representantes do Medo e do Terror, respectivamente. Filhos do miliciano Ares e da messalina Afrodite, boa coisa não poderia mesmo vir dessa mistura de guerra com lascívia e impudicícia. De Fobos (Phobo, com ph, fica mais fofo, não?) derivamos muita coisa, como o tema dessa nossa crônica noticiosa, as fobias.

Talvez você não saiba, mas na pitoresca cidade de Broken Arrow, no estado norte-americano de Oklahoma, fica a sede da Sociedade para o Estudo e Catalogação das Fobias, Medos e Transtornos Correlatos (SSCPFRD, na sigla em inglês).

obscura relativamente invisibilizada organização, com sucursais ou ao menos representantes em cidades como Paris ou a nossa Niterói, de tempos em tempos lança nas fuças e nos ares sua nova compilação de rebentos do tal Phobos, deus caído que parece milho de pipoca premium estourando pela quentura destes nossos tempos.

Nem só de seu maior sucesso, a celebrada transfobia (e sua infinita LGTBQIAFNBWELRTSV+tização) ou da cristofobia (que ela mesma insiste em não designar, mas é a campeã das fobias em certos círculos, universidades, partidos, países, continentes e sabe-se lá se em planetas), vive a organização. Convido você, leitor, leitora, leitore e leitão a dar uma olhada nas novas nomenclaturas que a .org, em seu empenho científico à frente de seu tempo e de sua cultura vem desenvolvendo, em nome da compreensão das incompreensões humanas e do tratamento paliativo de transtornos da psiquê (sim, também me assusta, mas medo ainda é uma doença). Vejamos seis dos nada menos que quarenta e seis(!) novos construtos medrais delimitados e elencados este ano pela ong ianqueana.

 

Erucofobia (do latim eruca, lagarta): Medo de passar sob árvores e uma lagarta (de fogo, água ou carbono como você e eu) cair sobre si. Os reféns da patologia se recusam a andar em áreas arborescentes, e fazem das selvas de pedra seu habitat de salvaguarda. O PCC agradece.

 

Ovifrangerofobia (do latim ovi, ovo, frangere, partir): Medo de assistir a uma das coisas mais centrais e belas da natura: Um ovo eclodindo e um animal saindo dele (seja cobra, calango, dragão ou ave).

 

Masculofobia: Este é medo antigo, pilar dos medos, sobressalto das bruxas que sobreviveram, e que só agora ganha designação oficial, depois de uma longa luta interna, que quase fez rachar aquela abaloada organização sem fins lucrativos. Trata-se do medo de ver, conversar e/ou con-viver com homens héteros autoafirmativos. Não se trata dos tais doentios “red pills” ou “hétero tops”; o termo autoafirmativo designa o simples homem hétero coitado e cotidiano (seu pai, seu irmão, seu avô, seu Antônio o pedreiro, Geremias o açougueiro, o “homem comum” cujo conjunto certamente fez o mundo em que você pisa, respira e teme), que não se envergonha de si, sua opção, ou melhor, naturalista que é, não considera opções. Uma revista de humor inglesa disse que a masculofobia é o medo de “homem de verdade”. Bem, há divergências, mas é um resumo do medo.

 

Punctumfobia: É o medo de apontar lápis (de punctum, apontar). Os especialistas perceberam que, em cidades belgas, dinamarquesas e holandesas, crianças tinham medo de apontar seus lápis, pois a visão de um lápis sendo desbastado lhes causava repulsa e desconforto, afinal o lápis está sendo mutilado naquilo ali. Na Dinamarca, país avant garde, já há funcionários nas escolas encarregados exclusivamente de apontar os lápis do mais sensíveis (não deixem Putin saber disso).

 

Nigergradatiofobia ou simplesmente gradatiofobia (sempre do latim, niger, negro, gradatio, gradação): Essa talvez seja a mais polêmica das novas designações fóbicas, ou ao menos a que tem causado mais estardalhaço na mídia norte-americana e europeia: É a fobia que uma pessoa NEGRA tem de outra pessoa NEGRA, cujo tom de pele é mais escuro que o dela.

No Brasil, país miscigenado pelo amor e pela violência, um dos gargalos entupidos do combate ao racismo é aquele praticado (em geral por crianças e adolescentes) justamente entre negros, onde as falas, sejam francas ou de “humor”, desmerecem este ou aquele negro por ser “mais preto” que aquele que fala. Qualquer rua ou sala de aula é palco para assistir, estarrecido, a este descalabro que se repete ao milhão por dia, ao arrepio da lei, da Djamila e do ex-ministro apalpador de catracas (a tara dele tem nome, mas, calma, o tema de hoje são fobias).

 

Após temas amenos e pesados, vamos terminar com outra amenidade, esta típica da geração Z. É a tarditofobia (tarditas, lentidão, morosidade).

Simplesmente o medo de que um livro não tenha a sua continuação publicada. Vivemos tempos de trilogias, tetralogias e CEOs tarados incansáveis como Ares ou Afrodite dominando a baixa literatura, mas uma raiz desse horror podemos creditar ao nosso primeiro detetive da ficção, Sherlock Holmes, cuja morte no conto O Problema Final (e o fim da “saga”), desesperou a Europa, inundou o autor Arthur Conan Doyle de cartas e o “obrigou” a reviver o personagem, que, passados mais de 130 anos de sua primeira morte, segue ad infinitum, pois centenas de autores escreveram e seguem escrevendo histórias baseadas no mestre londrino dos tirocínios. O episódio bem mais recente, da morosidade de George R. R. Martin em concluir sua saga Crônicas de Gelo e Fogo (Game of Thrones e não, neste 13/09/25 a obra ainda não foi concluída), só ajudou a universalizar a fobia, agora, se não dicionarizada, ao menos já descrita em publicação especializada. Eu falei de tema ameno? Perdão, leitore. Segundo dados da própria SSCPFRD, ao menos 28 pessoas, apenas no Norte global, alegadamente suicidaram-se devido à espera, dura para elas, de continuações de suas tramas diletas. Martin responde por nada menos que 17 dessas mortes...

 

Em tempo: Você, cagão, cagona, cagone, medroso de qualquer (im)potência pode solicitar um distintivo de representante da SSCPFRD, e passar a ser correspondente certificado da .org em sua região. As tarefas do cargo, honorário e não remunerado, vão desde coletar dados a divulgar o trabalho da .org. Mas saiba que o paspalho e proto-ditador do Trump é inimigo figadal da organização, após ela propor o termo aurantiofobia (medo de homens-“laranja”), e seu visto para os EUA pode bem ir para as cucuias. De toda forma, preencha o cadastro no site e boa sorte!

Sammis Reachers


domingo, 21 de setembro de 2025

Graças a Deus não silenciamos nossos políticos à bala - Uma reflexão sulamericana

 


Graças a Deus somos um país civilizado.

Imagine, por um ou dois minutos, se tivéssemos a cultura barbaresca dos outros-americanos do Norte que, desde antes do grande Lincoln, costumam silenciar à bala seus grandes e pequenos homens políticos - que pensam em geral o contrário do atirador:
Já não teríamos, de há muito, Bolsonaro, enterrado ainda deputado e palhaço, não genocida;
De há muito e muito antes, estaríamos pondo velas coloridas (pretas não que ele não gosta da cor) no túmulo do bondoso Lula;
Já não haveria, veja você, um Alexandre de Moraes, um Xandão para odiarmos e amarmos conforme a crise ou o mês.
Fosse nossa Pindorama a América de George Washington, todos estariam fulminados seja por uma nossa Taurus, seja por uma Ruger deles, ou talvez uma Beretta carcamana, para demonstrar nosso não-partidarismo bairrista.
Graças a Deus que não somos aqueles.
Imagine você, PASTOR desgostoso, que perdeu a fé e o medo da sodomia lá, ainda naquele seminário, e que passa os dias defendendo Lula (ou o Bozo): O que faria sem ele? Procuraria OVELHAS para apascentar?
E você, minha amiga, mulher empoderada e feia como o diabo, que passa os dias falando mal de bolsonaristas, de Bolsonaro, dos Bolsonaros e seus babalorissauros, como faria? Procuraria finalmente um MACHO, um domador de feras, para civilizá-la?
E você poderá dizer: "Puxa, Samerson, se eles não existissem aqueles em cuja mente eles alugaram apartamentos, palácios, mansões, arrumariam algo mais ÚTIL para fazer. Seriam LIVRES. É isso que você quer dizer?" Bem, quem sabe?
Uma coisa sei: Há em mim um Bozo, há em mim um Lula, e em você também: E vamos bem, miscigenados de defeitos e bovinidade. Claro, alguns tiveram as mentes estupradas; mas, não fossem os políticos, eles arrumariam outras máscaras para fantasiar e ocupar a própria idiotice.
Porém graças, graças a Deus somos de uma outra e melhor América, fundada na dialogicidade. Como você pôde ler.

Sammis Reachers

sábado, 21 de junho de 2025

Sammis Reachers, o charlatão genérico da Shopee: O PRAZER É MEU

 


PRAZER O MEU

O cara que nunca vi na vida me segue pois viu que escrevi um artigo sobre games, faço parte de uma equipe, pareço entender do riscado. Mas aí – o cara para quem os videogames são a vida – vasculha as redes e percebe que quase não falo do assunto, e estou absorto em aleatoriedades as mais insossas, sou o mais infrequente dos jogadores. "ELE DEVERIA SER MAIS GAMER. E NEM COLECIONA BONEQUINHOS!" O cara dessegue.
*
O cara que nunca vi na vida me segue pois leu um texto meu, viu meu nome em algum lugar – eita, que nome estranho, e o tal nome estranho domina a poesia, o conto, a crônica, ele adapta, traduz, ele edita de tudo, um monstrinho, um diabo, um anti-herói? – mas ao dar uma olhada nas redes, o cara que ama a literatura como cátedra e magistério vê que ao lado de literatura falo de videogames, posto fotos de gatos, piadas machistas ou insossas, e simplicidades da maior das indignidades. Um moleque, um charlatão? "ELE DEVERIA SE PORTAR À ALTURA DE UM LITERATO." O cara dessegue.
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O cara que nunca vi na vida me segue pois sou um mobilizador missionário. Mantenho um blog de duas décadas, já publiquei mais de dezena de livros e recursos, tudo gratuito!, devo ser louco ou herói. Aí vendo minhas redes o cara percebe que não falo de missões nelas, pois são redes de relaxamento. E a teologia também não aparece muito. Sou um crente dos piores, da periferia da fé, da santidade, da virtude que você quiser. O cara – para quem a obra missionária é tudo, com a seriedade que ela exige, (bem, e este deve ser o único certo aqui) – se escandaliza ("ELE DEVERIA SER UM RELIGIOSO") e dessegue.
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O cara vê que falo mal de Lula e Bolsonaro, que já votei nos dois e sonho com o fim de ambos, isso quando sonho - sou ocupado. O cara dessegue com ódio, sua única força. "UM LIVRE PENSADOR DE VERDADE? ELE OU ISSO NÃO TEM DIREITO DE EXISTIR."
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Eu me divirto (olha o pecadilho), na falta de coisa melhor pra fazer, com a decepção que esparjo enquanto ando, rolo, marcho ou me arrasto em direção ao céu. Sou o pior dos homens e não tenho mesmo muito tempo. Eu não mudo pois não me importo. Sofri até os 12 tentando um encaixe ou compreender o mundo – minha mãe, anja de roça, me levava em macumba, igreja, psicólogo. Dei trabalho. Dali aos 14 ensaiei entre tumba e crisálida, mas nos 15 estava livre. Era Sammis, meu inferno e minha singularidade. Sem papas na língua, sem dependências, sem associação alguma com qualquer manada, nem submissão a Mamon. Minha mãe partiu em novembro do ano passado, aos meus 46 anos, e eu era o orgulho dela. Isso me importa. O resto é a vida, sua carga, seu fulgor, sua missão. Cheia de pedras, pássaros e próximos, a quem é preciso amar, malgrado o abismo que separa os homens.

Sammis Reachers

domingo, 23 de fevereiro de 2025

As Casas de Fliperama e seus muitos tipos: De volta aos anos 80 e 90

 



Saudade doída, curtida no álcool feito pimenta no pote, e no formol até, é a saudade de fliperama. Pra quem viveu a vibe arcadiana, a lembrança de um fliperama consegue trazer quase a época toda no bojo ou gabinete. A época que digo são os anos oitenta e noventa, ou ainda mais especificamente o meinho, a meiota, de meados de uma década até meados da outra.

E fliperama, você sabe, tinha de todo feitio. E aqui não falo da cabine de madeirite com tela de tubo, mas do ambiente onde eles eram alocados, do bar à casa de dedicação exclusiva. Cada um com seu charme e sua feiura, sua carga de alegria ou perniciosidade.

Vamos exercitar a memória. Vou rememorar alguns tipos de fliperamas que vivi, e espero que você, que viveu a época, possa se reconhecer e reconhecer alguns deles, se não todos. E, a você que não viveu, que possa aprender e se divertir com a variedade dos tais. 

O melhor fliperama era o Fliperama Capital: aquele que unia proximidade, quantidade e qualidade de máquinas e frequência considerável de jogadores. Geralmente esse era aquele fliperama fiel, em que você ia com mais frequência, ou deixava para os fins de semana e outras datas episódicas. Era a casa de diversões por natureza, por apresentar uma boa quantidade (6, 8, 12?) de máquinas, permitindo a variação – ainda que você no final fosse ali por uma ou duas máquinas, apenas. Normal. Ah, importante: Ele apresentava um ambiente geralmente neutro, sadio (na medida do possível), ou, para uma expressão mais atual, não-tóxico.


Falando em casa de diversões, vamos logo para eles, os Fliperamas de Shopping. Sim, esses fliperamas de shopping atuais, onde todos os jogos são mecanicamente interativos, ou seja, unem eletrônica com mecânica e cibernética (mecatrônica), a sementinha do mal já estava lá, nos primeiros deles nos anos 90. Bonitos, caros, grandes, caros, nem sempre cheios, CAROS. Sim, caro definia e define o fliperama de shopping. Mas era legal, tinham máquinas que você não encontrava em outro lugar. Me lembro de uma do Exterminador do Futuro (Terminator) cujos controles eram duas metrancas UZI, e cada uma tinha o nome de um personagem. Um deles era Sammy, um atrativo a mais para este coroa que vos escreve. Outra coisa interessante é que o fliperama de shopping permitia a você ver jogadores “haoles” (termo havaiano para designar surfista não-local, estrangeiro e até “trouxa”), de fora do universo flipermaníaco – pais com seus filhos pequenos, meninas curiosas ou acompanhando o namoradinho, e outros mais que nunca entrariam num fliperama “de rua”.

Sabe aquele personagem inescapável de todo fliperama (sim, de todos os que citei ou vou citar), o cara duro, viciado, geralmente bom jogador, e que ficava à toa o dia inteiro no fliperama, só à espera de uma chance de “salvar” alguém, garantir a ficha de um jogador inábil (“pegar uma aba”, como dizíamos por aqui)? Os fliperamas de shopping eram paraísos, oásis, haréns para esses caras. Ei, se você foi um desses, não se ofenda! Tive bons amigos no ofício, e já fui salvo mais vezes do que gostaria de admitir... E, confessemos: ver um desses viciados pegar uma ficha já “perdida”, com seu personagem já “na alma”, só com um risquinho de life, e fazer uma arruaça, virando a mesa para o nosso lado (sim, agora somos uma equipe) era dos espetáculos que faziam a ida a um fliperama valer a pena, quase tanto quanto simplesmente poder jogar.

Mas voltemos para a rua, lá aconteciam as coisas. 

Outro tipo de fliperama podemos chamar de Monaural ou Binaural (feito aquele CD do Pearl Jam). É aquele um, solitário, ou aqueles dois flipers colocados no barzinho da esquina, na porta da locadora, até no barbeiro. Um quebra-galho para uma hora de necessidade, uma tábua de salvação para um lugar desprovido. Lanterna dos afogados!

O fliperama talvez mais agradável de nossa lista era o Secret Point” (opa, mais um termo do mundo do surfe). Aquele fliperama com três, quatro, cinco cabines, bons jogos e o melhor – ZERO crowd, zero população. Era chegar e, na maior parte das vezes, as máquinas estarem vazias, te esperando, quase convidando como uma princesa chama por um Don Juan. Aqui tínhamos o Bar do Djalma, um bar “escondido” numa rua sem saída, acessível, para piorar, por uma pequena ponte que só comportava bicicletas ou motos. Para melhorar, dentro de uma das três cabines havia um Neo Geo, e os jogos eram constantemente trocados. Conheci quase toda a carteira de jogos do console assim, no aconchego. Lugar de paz e alegria, saudade forte!

Dentre os fliperamas de rua, de considerável tamanho, podemos elencar um (sub)gênero que podemos chamar de Cave, ou Caverna mesmo. Era aquele fliperama escuro, sombrio, com ares de anos 70 ainda. Talvez tivesse até uma – ou várias – máquina de pinball por lá. Não ficavam muito cheios, atraíam roqueiros, alguns adultos ou adolescentes finais, e o cigarro era um mal onipresente. Cenário de filme noir!

Mas o pior dos lugares era o que hoje podemos chamar, num termo que não se usava na época aqui no RJ, de Quebrada.

Esse podia estar situado no centro da cidade – geralmente numa das ruas mais sujas (física e/ou metafisicamente), onde fazia vizinhança com casas de baixo meretrício, biroscas e cabeças-de-porco (pesquise, meu jovem). Podiam estar também no interior ou sopé de favelas. Essa casa de diversões sortidas reunia uma galera pesadérrima – pivetes e pivetões, batedores de carteira, viciados em tóxicos (cigarro na época era vento), e até gangues. Entrar num lugar desses, sem ser um de seus habitués, era atividade temerária.

Aqui tínhamos um no centro da cidade de Niterói, na rua São João (sim, que reunia casas de prostituição, biroscas, pontos de jogo do bicho, bancas de camelô, moradores em situação de rua e duas igrejas neopentecostais, para promover o equilíbrio na força e salvação para aqueles que acordassem daquele torpor). Lugar pesado, uma mão no joystick e outra na carteira. Sombrolhos enfezados, desconfiança, moleque olhando moleque de cima a baixo, gírias ainda mais restritas circulando entre os locais. Uma memória pitoresca: Morando em São Gonçalo, uma vez por mês ia ao centro de Niterói, cidade vizinha, comprar quadrinhos nas bancas de gibi usado. Geralmente ia acompanhado de meu amigo Ronaldo. Era ou vínhamos de uma fase ruim e, crias da periferia, nós dois poderíamos ser colocados no time dos brigões, ou ao menos gostávamos de nos acreditar assim. Quando entrávamos em tal espelunca, eu, mais centrado, avisava ao amigo: “Ronaldo, já sabe. Aqui só tem pivete, e esses caras todos se conhecem. Se começar uma briga aqui, não dá pra gente não. Então é o seguinte: Caso algum malandro meta a mão no seu bolso enquanto estiver jogando, ou tente pegar nossa bolsa (estava cheia de nosso tesouro, gibis Marvel/DC!), você prancha logo a cara dele e a gente corre pro terminal rodoviário (que ficava próximo). E eu faço o mesmo. Bota logo um a zero e vaza!” Acredite, era nesse espírito marcial, misto de burrice, presunção e coragem, que ali entrávamos. Sim, amigos, hoje é engraçado, mas era loucura – e risco de vida – total!

Pulemos para outro tipo, um todo especial: O fliperama “Cápsula do Tempo”. Aquele lugar onde a máquina ou as máquinas só e sempre tinham jogos antigos, atrasados em relação ao entorno, ao momento. Um exemplo raso: Em tempos de Street Fighter 2 e Samurai Aces nos arcades, você chegava lá no bar do tiozinho e se deparava com Pac-Man e um Galaga. E quando, um ano depois, os jogos finalmente eram trocados, eram substituídos por mais games do tempo do ronca. E você pensava, decepcionado: “Mas quem administra essa bagaça??!!!”. Tais lugares ou jogos, okay, tinham seu ar cult, e atraíam talvez não apenas coroas e jogadores desavisados, mas também galera fiel e informada, que curtia de boas um jogo véio.

Por fim, o derradeiro: Os fliperamas foram feridos de morte pelos consoles caseiros que, tornados poderosos-e-acessíveis o suficiente a partir do PlayStation 1, trouxeram os melhores jogos dos arcades – e muitos outros – direto para o sofá. Mas esse caminho foi precedido pelo surgimento das LAN Houses, ali pela meiuca dos anos 90. As lan houses, que começaram ofertando PCs para acesso à internet (alô Orkut, alô MSN) e jogatina, logo passaram a oferecer os tais novos consoles. E nessa onda a lan house virou foi maremoto, passando as casas de consoles a pulularem em cada esquina e garagem desse continente brasileiro. Nesse ínterim, surgiu um movimento herético, típico do capitalismo, esse despudorado: Alguns empreendedores passaram a unir, num mesmo espaço, consoles onde antes só havia cabines de fliperama, ou cabines de fliperama onde só havia consoles. E alguns ainda reacrescentaram os PCs e até mesas de sinuca e totó. A essa mixagem podemos chamar de Pot-pourri ou fliperama tipo Medley. Ou Salseiro, ou somente Casa de Jogos, aqui na acepção máxima, em maiúsculas.

Mas, e você, meu amigo? Se viveu a época, recorda de algum outro tipo de fliper que deveria aqui figurar? Conta pra gente!

 Sammis Reachers



quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O tempo em que mandávamos e recebíamos cartas, as piadas da Playboy e o nascimento de um escritor

 


Peguei a reta final do universo das epígrafes, ali pelos anos 90, 2000 (sim, pois daí em diante foi sobrevida).

Ainda criança, tinha o vício da acumulação, do colecionador de tudo (que troquei pela Literatura, tempos depois. Hoje não tenho apego nem a meus livros impressos). Enviava carta para todo lugar que dissesse “receba grátis nosso catálogo”, “receba grátis nosso informativo” etc.

Para além disso, eu já era um escritor, sem saber, sem ninguém me avisar. Mas, como era isso? Eu comprava em banca revistas de piadas da Ediouro, publicações populares na época. Nelas, se dizia que quem enviasse piadas que fossem publicadas, ganharia brindes (mais revistas). AQUI me tornei escritor: Eu copiava e REESCREVIA, com outras palavras, nomes e até transcursos, piadas que vinham na página final da revista Playboy (como eu as conseguia, as Playboys? Ora, eram os anos 80/90, valia de tudo).

O engodo infantil funcionou umas três ou mais vezes, e ganhei diversas revistas. Mas também um “presente” inesperado: O editor colocou num editorial o meu nome e idade, dizendo que “eu era um jovem leitor do RJ e que desejava fazer amizades via cartas”. Não sei de onde diabos ele tirou aquilo. Eu, fazer amizades via cartas? Eu ainda era moleque rueiro, e tinha amigos e inimigos que bastavam. Mas o resultado foi que passei a receber cartas, esparsas, de todo o Brasil. Nessa brincadeira, arrumei uma namoradinha virtual (epa, na época era epistolar) em Minas Gerais, e outra no Rio Grande do Sul. Meninas de minha faixa, 11, 12 anos. Trocávamos fotos, e eram bonitas, as princesinhas.

Bem, bateu até uma saudade aqui, de quando enviávamos - e recebíamos - cartas. Que bom ter vivido aquela época!


terça-feira, 22 de agosto de 2023

Galeria dos Gigantes Gonçalenses: Nonato, o sociopata ressocializador

 


Nobilíssimo leitor, em datas pretéritas já apresentamos aqui, em nossa esporádica coluna, o perfil de gonçalenses exóticos, de personalidade, aceitemos, protuberante. Gente sui generis, já quase nem gente, mas mito. Foram tais: Tardonho (o Lesado), Rogier (o Abraão das Potrancas), seu Onório (o viúvo do Bairro Antonina), Everaldo (o paraguaio de Campina Grande), Manolo (o Buda do Boaçu), Banzé (o mascate vingador)...

No entanto, nosso personagem de hoje se destaca dos demais pelo seu perfil ainda mais exótico que o já exótico de nossa fauna citadina.

Nonato foi a nomenclatura com que o batizaram, esse nome com cara de apelido que mais encobre que revela a natureza de nossa personagem.

Se me fosse possível resumir Nonato numa única expressão, classificação ou epíteto, seria a de “sociopata ressocializador”. Sim, o empenho e missão de vida deste nativo do bairro bimunicipal de Várzea das Moças, às suas sinistras maneiras, é, através de prosaicos atos de justiça/justiçamento, cipoadas de baixo impacto, corrigir erros comuns do dia a dia de nossa sociedade, não apenas gonçalense, mas brasileira, quiçá universal.

Conheci Nonato e suas ações enquanto eu trabalhava como rodoviário, cobrador de ônibus na empresa Auto-Lotação Ingá.

Com o tempo, entabulamos uma certa amizade, e passei a manter breves, mas reveladoras conversas com o ferrabrás, quando nos esbarrávamos, em suas idas e vindas a trabalho. Era representante comercial, atuando em toda a região metropolitana de nosso Estado.

Me horrorizaram ao primeiro contato, não sem certo fascínio juvenil, os trejeitos obtusos de Nonato.

E como afinal era a práxis deste pedagogo da ação, deste lobisomem behaviorista? Você, cidadão que faz ou já fez uso de coletivos, deve conhecer (ser?) aquele elemento, inescapavelmente do sexo macho, que se senta nos assentos coletivos de pernas bem, mas bem abertas. Assim, quem senta do lado do corredor precisa ocupar apenas meio banco, já que o espaçoso – muitas vezes nem obeso, nem obrigado pelas leis da física – ocupa UM BANCO E MEIO. Nonato nunca tentou entrar no mérito de os assentos de ônibus, barca, carroça e avião terem sido pensados para indivíduos de até certa altura e peso, regulando por baixo a heterogeneidade que é riqueza social. Sim, um problema patente das economias urbanas a que o capital nos domesticou. Nonato queimava etapas e problematizações e, numa manobra profundamente antipolítica, paria soluções.

Inventor, pois todo revolucionário é fundamentalmente inventor, Nonato elaborou uma calça jeans de marca genérica, na qual, em conluio com uma prendada costureira de seu bairro, afixou nas laterais das pernas, sempre à altura dos joelhos, pequenas tachinhas, pontiagudas e rigidamente fixadas. Bem, você já pode imaginar? Era para mim sempre um espetáculo pedagógico ver Nonato sentar-se ao lado de espaçosos, e “espetar” as cabeludas pernas dos incivilizados. Na maioria das vezes rolava apenas um desconforto, um susto que obrigava o pernudo a, em constrangido silêncio, fechar suas perninhas. Outros mais, reincidindo na espetada, percebiam o engodo, e levantavam-se, esbaforidos. E alguns poucos, valentinos de porta de bar, roncavam confusão, e não uma única vez vi Nonato chegar às vias de fato da incivilidade que combatia, aplicando no valente da vez cipoadas, agora de alto impacto, com um providencial soco inglês, outro de seus “aparatos civilizatórios”. Pare um instante, e tente imaginar tudo isso, rolando de segunda a segunda, nos muitos coletivos que Nonato pegava por dia. Posso prosseguir?

Pois tome mais. Sabe o indivíduo ou a indivídua que gosta de se sentar no assento e colocar sua mochila, bolsa ou trouxa de panos-de-bunda no banco ao lado, interditando a vaga de quem deseja sentar-se, obrigando o cidadão a pedir licença e chamar no simancol ao joão-ou-maria-sem-braço? Amiguinho, você precisava ver! Chego a me excitar ao rememorar: Nosso herói/anti-herói/vilão (a depender de quem é você no jogo social) SENTAVA-SE desabaladamente sobre as bolsas das pessoas, fossem homens, mulheres, adolescentes! Sempre sem pedir licença, sempre veloz para impedir a retirada da trouxa. Só me lembro de vê-lo poupar idosos e infantes. Quanta confusão, quanto arranca-rabo, quanto torneio de xingamentos, quanto “trincou meu Iphone, seu desgraçado” (nessas, em especial, eu quase tinha um orgasmo anticapitalista), mas principalmente: QUANTA LIÇÃO NONATO APLICOU!

O vidigal sem distintivo virou lenda entre motoristas e cobradores. “O cara pegou seu ônibus hoje? Deu ruim? Conta, conta”...

Me lembro de uma vez indagar, encafifado que andava com aquela impiedosa persona:

– Qual é sua filiação ideológica? Você é o quê, cara? Anarquista, fascista, stalinista?

Respondeu de chofre, de trivela:

– Nem sei o que sou. Nem tenho tempo pra isso, rapaz. Sei o que faço: um mundo melhor todo dia. No sapatinho, devagar e sempre. Agora deixa eu procurar um aluno.

E lá ia ele para a frente do coletivo, calmamente observando os bancos à procura de uma vítima. Ou (re)educando.

Porém era isso a poeira, as franjas das ações assanhadiças deste paladino. Desçamos do busão, vamos para as ruas. Sabe os motoqueiros, e aqui entram os de todos os calibres, sejam vadios – como o filho da sua vizinha – ou trabalhadores – como aquele seu genro – que exercitam passar a alta velocidade no cantinho da rua, naquele espaço entre a lombada/quebra-molas/barricada e o meio fio, aquela parte estreita onde a lombada não chega, para poder permitir o escoamento de água?  Fazem isso em sua pressa diária, manobra perigosa, muitas vezes quase acertando o braço de algum pacato transeunte de calçada. Nonato já levou uma bordoada numa dessas e, brasileiro ao contrário, pensou e executou um corretivo: Nosso amargurado dos passadiços prepara saquinhos de areia, em forma de sacolé e, dentro deles, como recheio gourmet, insere mais uma vez suas tachinhas, além de grampos 106/06mm soltos (deu até receita, o bruxo: 4 partes de areia, uma parte de tachas e grampos e meia parte de óleo queimado). Bolsa municiada, o andarilho desova seus sacolés nesses espacinhos entre uma calçada e um quebra-molas, enriquecendo borracheiros e também lanterneiros (pois muitas vezes o apressado, como todo apressado, dá de cara no chão). Quantos motoqueiros, sob a batuta invisível e retificadora de Nonato, aprenderam a passar pela lombada, receosos das surpresas do canto. E quanto, quanto a economia local de vários bairros gonçalenses foi movimentada – borracheiros, oficinas de motos, farmácias – graças à ação anarco-civilizatória deste intimorato gonçalense!

Ainda sobre motoqueiros, vamos ou desçamos aos tiradores de grau (“tirar um grau” é um otário empinar uma moto – ou bicicleta – numa única roda, em via pública). Você já ouviu o “Rugido da Terra”? Ah, meu leitor... O nome, épico, ele roubou de um anime japonês. Sim, o cara de cinquenta e alguns anos à época via animes, “curto desde Patrulha Estelar, cê nem era nascido”. Retomemos: vossa mercê já viu ou, bem melhor, ouviu aqueles sprays sonoros, que possuem na ponta uma corneta, e cujo som imita à perfeição a estridente buzina de um caminhão, carreta, navio que seja? Peça carnavalesca, infernal. Ora pois: Se um tirador de grau resolve praticar seu desofício (ofício de desocupados) próximo a nosso monstro, ele imediatamente apanha seu berrante na bolsa sempre à tiracolo e aplica contra os ares uma cavernosa buzinada. Sim, já jogou muitos ao chão, com o susto – para novamente a riqueza dos lanterneiros e mecânicos. Sim, já rolou confusão, embora ele tenha o tirocínio de tocar a buzina e logo enfiá-la velozmente na bolsa, seguindo em frente com sua cara de paisagem. Uma vez ia morrendo, pois o vida loka da vez era afinal vida loka pleno, e sacou uma pistola em pleno Colubandê, contra a cara de nosso corneteiro. Nonato, matuto, fingiu demência e driblou a indesejada das gentes.

Eu poderia passar oito, quinze colunas, um livro inteiro, relatando os prodígios deste homem de exceção. Mas seu tempo, como o meu, amigo leitor, é curto. Vamos então a apenas mais duas diabruras, um resumo das pataquadas deste varzeamocense, todas peças de ímpar engenho criativo, cujo anelo único é civilizar nossa sociedade barbaresca:

O monstro possui uma página no Instagram apenas para registrar as fotos e dados de motoristas de UBER que cancelam viagens. É isso mesmo que você leu. A cada UBER chamado, o cara dá print na tela com o nome e dados do motorista. “Vai para onde?”, pergunta o uberman. “Bom dia, boa noite, vou para tal lugar”. Em seguida a corrida é eventualmente cancelada; direito do motorista, claro. Alguns abusam deste direito, ok, ok. Alguns esbanjam, emphoderados, este direito. Abusando ou não, cancelou Nonato, vai pra rede. A página já foi derrubada oito vezes, mas o cara é incansável.

Agora a pior traquinada, pra fechar a coluna: Num dia de chuva, marchando em centros de cidades no horário comercial, quanta sombrinhada você costuma levar por dentro das fuças? Golpear os outros com sua sobrinha/guarda-chuva é a maxmaterialização de nossa miséria egótica, contra-empática, a expressão exterior da bolha de egoísmo em que vivemos, alguns vivemos. Pois Nonato, diabo da urbe, criou vingança: O cara adaptou um bastonete com diversas giletes cruzadas, na ponta, afixadas com Durepoxi. Avançando por ruas impraticáveis como as de nosso Alcântara ou a Uruguaiana e vizinhas, na capital, ele posiciona diante do rosto seu aparato. Cada sombrinha que avança em sua direção, cega, doida para lamber sua face e cegar seus olhos, sai chamuscada, talhada, picotada por suas giletes. O lance é rápido e fulminante. E lá se vai a sombrinha, geralmente de mulheres, embora ele não seja misógino (misantropo é certeza). “Num dia forte em Alcântara, foram vinte-e-uma sombrinhas e guarda-chuvas reeducados. Vinte-e-uma!”, narrou-me duma vez, gostoso de si. Canalha!

“Hã!!! Nonato só sacaneia pobre”, dirá você. Ah! Numa futura resenha, talvez narre o outro lado da moeda de fogo desta besta sem cauda, de como ele encontrava meios de punir também os príncipes, e os príncipes principalmente, como deve ser. Mas, enquanto você não vai acreditar no que eu revelar, “olha o papo do maluco”, outros, esses já vitimados, ligarão o fato à pessoa e tenho medo de, revelando o que sei, ser intimado a depor. 

 

*  *   *

 

Aberração punitivista, apassivador contundente, formiguinha-cortadeira à serviço do acerto, maníaco obsessivo, psicótico. Sociopata ressocializador. Falangista macedônio, cavaleiro cruzado, lanceiro da nação nagô. Paulo Freire do mundo negativo. O melhor do pior de nós.

 

*  *   *

 

Hoje sou um pacato professor de Geografia, militando longe da região metropolitana fluminense, e faz anos não vejo Nonato (terá sido morto por algum outro bicudo? É sempre uma possibilidade, e como que suas ações convergiam mesmo para esse centro equalizador que é a morte). Mas, ao reviver mentalmente tudo isso, desavergonhadamente confesso (afinal um cronista é um confessor concursado) que, se continuo escandalizado, fico igualmente excitado, perturbadoramente excitado com os gatilhos que a saga de Nonato faz disparar em minha cachola. Por isso rogo seu perdão por essa minha torpeza, amigo leitor. Como pesquisador da fauna humana desde meus doze anos, jamais encontrei espécime como este abortivo de Várzea das Moças.

Pra semana, vou finalmente em busca de terapia.

 

Publicado originalmente no Jornal Daki.

*    *    *

 

Sammis Reachers é poeta, escritor e editor, autor de dez livros de poesia e três de contos e crônicas, organizador de mais de cinquenta antologias e professor de Geografia no tempo que lhe resta – ou vice-versa.

Publicou recentemente seu primeiro romance, o thriller de ação A Ordem Luterana da Cruz Combatente (disponível na Amazon).



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


quarta-feira, 14 de junho de 2023

1999: De como um Dreamcast veio bater em minha porta

 


O ano era lá pelos 1999, 2000. Eu era um jovem de pouco mais de 20 anos, que abandonara há pouco a vivência diária dos fliperamas e trabalhava como cobrador de ônibus. Nos momentos de folga, curtia muito bem meu PS1 com seus mais de 100 jogos, uma bela coleção naqueles tempos alucinados dos CDs a "3 por 10 reais", que eram comuns nos camelôs. Sim, eu era feliz!

Minha vidinha ia tranquila até que num belo dia um certo colega, Rodrigo "Periquito", com quem eu não tinha assim muito contato ou intimidade, mas pertencente a um "clã" de grandes jogadores/aficionados do bairro em que eu morava, me aparece no portão. "Ôôôô Saaammmiiis". Por sorte eu estava em casa, e lá fui atender o rapaz, que era uns três anos mais jovem do que eu. Estranhei, pois ele estava sozinho e não tinha assim tanta amizade comigo, tínhamos mais eram amigos em comum.  

Após os cumprimentos de praxe, ele me relatou sua triste história. O garoto, como disse um dos grandes gamers aficionados do bairro - eu, nessa época desacelerando, já não chegava à altura deles, mais preocupado que estava com trabalho, literatura e namoro - comprara, assim que fora lançado, um Dreamcast, o fabuloso lançamento da Sega que, após o ótimo mas conturbado Saturno, agora sim vinha com tudo sobre a concorrência. Tornara-se, assim, o primeiríssimo do bairro a possuir aquela Ferrari das joganças, fato que fizera crescer sua honra e respeito entre a "nossa" guilda de jogadores. De reles retardatário, Rodrigo fora alçado ao topo do ranking local, ao lado de Diego, o único possuidor - em quilômetros - de um Neo Geo AES. O videogame custara uma grana firme, firmíssima (para você ter uma ideia, corrigindo seu valor da época para números atuais, o console custava mais de R$ 3.000,00). E Periquito ainda fizera questão de adquirir a cereja para encimar aquele bolo, o revolucionário VMU, o memory card com tela LCD e minigames, o que encarecera as prestações. 

Periquito estava no primeiro emprego - na verdade, o trampo era um tipo de biscate, num tempo em que não havia o jovem-aprendiz. Após três meses de compra e uso de sua Lamborghini dos pixels, o rapaz foi repentinamente dispensado do trampo, e se deu então conta de um detalhe: Como se não bastasse gastar quase todo o "salário" para pagar as parcelas daquele console comprado "no susto", no olho-grande ou na emoção, viu logo que não conseguiria pagar as demais prestações, que ainda eram muitas! Vencido pela febre consumista, doença silenciosa e a quem a globalização universalizou, faltou sabedoria ao jovem; sim, sabedoria, “riqueza” que parece fugir da maioria dos homens. O próprio Jesus, milênios atrás, já ilustrava um de seus ensinos com a seguinte reflexão: “Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar” (Lucas 14:28-30). E agora? 

E aqui, nas elucubrações de Periquito, eu entrava na história, afinal era o único do grupelho de jogadores a ter um emprego "de verdade", pois os demais ainda não trabalhavam. Após relatar seu problema, ele me fez uma proposta - Ele queria que eu lhe desse o meu PS1 e minha coleção de jogos, e mais um dinheirinho (que ele usaria para saldar ao menos umas duas prestações das faltantes, para não ficar com o nome sujo no Serasa/SPC), em troca de seu belíssimo Dreamcast e alguns jogos que ele possuía. Dividido entre a preocupação de conseguir jogos para o novo console (temor que logo se mostraria acertado) de um lado, e de outro poder desfrutar daquela maravilha, aquela Maserati das jogatinas, e ainda ajudar o pobre rapaz, pedi para ele então trazer a máquina e instalá-la em meu quarto, para um test drive

Gostei, meninos, confesso que gostei do que vi: as lendas eram verdadeiras! Negócio feito, na mesma noite eu embarquei num universo mágico em que, poucas horas antes, eu sequer sonhara em mergulhar.

Logo de cara, fui sequestrado pela paixão de Sonic Adventure. Eu, um nintendeiro clássico, de repente jogava meu primeiro Sonic, e ficava maravilhado no processo. Outros jogos alucinantes vieram, como Crazy Taxi, Soul Calibur I & II, MSR, Dead or Alive 2, o injustiçado jogo mix de luta com beat 'em up da Capcom, Power Stone. Spawn, jogo violento mas absurdamente viciante, me tomou horas e horas de jogatina, para horror de minha namorada crente (eu, ateu na época, me converteria pouco depois), assustada com toda aquela, hum, "carnificina".

O lado ruim daquele Porsche tunado dos 32 bits era o já relatado: Só após muito tempo, descobri em um bairro próximo um rapaz, um único, que possuía um Dreamcast (e pouquíssimos jogos...). E era com ele que eu trocava CDs. Nada como o PS1, que tinha uns dez, quinze usuários na vizinhança próxima. Até nos camelôs não era fácil conseguir games para a máquina... Quanto aos jogos originais, bem, cada um custava algo como um terço de meu salário já inteiramente comprometido, ou seja: estavam além do meu apertadíssimo orçamento.

O final de minha história com o Dreamcast foi triste, mas faz parte das lides da vida adulta. Dois, três anos se passaram, eu me casara e, precisando instalar com urgência um tanque de roupas em minha casa, e sem ter sequer um "merréu" ($) sobrando, ouvindo diariamente as cobranças da mulher (quem nunca?), tive que vender meu bem precioso, minha charanga dos consoles. Coisas da vida de um adulto pobre! 

Se me arrependo? Uai, e você não se arrependeria?! Dói até hoje... Mas o que importa é que fui feliz por viver aquele momento, viver aquele console, e posso dizer que, dos videogames que tive, o Dreamcast foi certamente o mais charmoso ou especial. Longa vida ao Dream, longa vida ao sonho!


Sammis Reachers


Publicado originalmente na Revista Muito Além dos Videogames #09


 

domingo, 30 de outubro de 2022

DIA DE ELEIÇÃO, crônica de Sammis Reachers

 

Dia de eleição é dia de catarse. De expor amigamentos e odianças por esses que o jogo político arregimenta, esses que, por pudor nos negamos a dizer, mas no fundo – sejamos nós letrados ou humildeletras, enricados e pés-de-pano – sabemos que são os piores de nós...

Dia de eleição é dia de desnudamentos, de sangria dos ânimos, de expor os radicais e seus monóculos, sua tobas de ver o mundo por um só viés. Esses de direita e esquerda, em seus extremos tão perigosos – mas não haveria jogo sem eles, afinal, os fominhas da bola.

Dia de eleição é dia de melancolia, e isso nenhum poeta, dos seis mil que conheço ou ao menos tolero, já aventou: Dia máximo de melancolia, ao revisitar velhos caminhos e seções, ao rever rostos de anos, infância até, estudos juntos, trampos, sopapos e beijos trocados.

Dia de eleição é dia de cidadania, essa obviedade central & inescapável, frenética em seus entra-e-sais quase copulosos, pois desse seu coito na urna, hoje botãonizada, nasce o rebento que nos resguarda, a democracia – mais que este ou aqueloutro ator canastrão que ocupar o cargo que lhe confiarmos.

Dia de eleição é dia de suspense, riso e lágrima, apuração de samba e final de copa, suspiros ou expiros de sonhos, projetos, construtos de luz ou maquiavélicas maquinações. E acerto de conta$, que o correligionário também come, afinal.

Dia de eleição é dia de socializar – e orar, debater, biritar, conforme a cultura da aldeia: Preocupações ou despreocupações se carnavalizam, entrechocam e abraçam – o outro feito nós na sujeição ao sistema que nos comporta, renovação de ciclo, refundação tumultuosa de nosso pequeno grande mundo citadino.

 Sammis Reachers

https://linktr.ee/sreachers


domingo, 13 de fevereiro de 2022

No tempo dos fliperamas

 


A depender da janela de idade, talvez você também tenha curtido a época. Ela durou relativamente bastante: De meados da década de oitenta até meados, ou vá lá, final da década de 10 deste nosso século.

No começo, além das pioneiras e parangoléicas máquinas eletromecânicas de pinball, os jogos eletrônicos eram restritos a um Pac-Man, um Galaga, um Space Invaders... A coisa era simples. Na década de 90 veio a explosão: Os jogos de luta suplantaram os demais, e multiplicaram o número de usuários (viciados não!). Quem viveu, não tem como esquecer: Street Fighter, The King of Fighters, Samurai Shodown, Mortal Kombat e trocentas outras franquias que corriam por fora. As demais categorias nunca deixaram de existir: Os shoot ‘em ups, que são os tradicionais jogos de navinha; os beat ‘em ups (haja up!), que são os divertidos jogos de andar-e-bater, como Double Dragon, Final Fight, Captain Commando, Cadillacs and Dinosaurs; os jogos de corrida, tiro e outros mais.

Todos os bairros, por mais aloprados e esquecidos das atenções da civilização, tinham suas máquinas, em bares, lojinhas, padarias... Alguns bairros, agraciados, contavam com casas exclusivas, apenas para eles: os fliperamas.

Quanta mãe gonçalense já foi buscar seu rebento que jazia enfurnado naqueles antros de perdição! Mas, passado o tempo, sabemos que a perdição era apenas de dinheiro: Merrecas de fichas, mas verdadeiras fortunas para quem não tinha quase nada.

E era meu caso. Mas dava meu jeito: vendia garrafas, catava ferro-velho nas margens do rio Alcântara e nos lixões do entorno (nos anos oitenta não havia coleta por cá). E havia o corporativismo dos defasados (miseráveis não!): Quando um moleque não tinha dinheiro, o outro tinha; um trabalhava de ajudante aqui, outro via pingar a curta mesada ali, e assim mão lavava mão e as quatro mãos se divertiam. Ou oito, pois havia cabines para até quatro jogadores ao mesmo tempo, e a fluição, o prazer da balbúrdia que é você jogar com mais três amigos de uma vez, naquelas chuvas de bordoadas, naquele bate-apanha-perde-coloca-outra-ficha, naquele esbraveja-xinga-gargalha, ah, é dos prazeres, acredite, maiores que vi na vida.

Tínhamos aqui alguns jargões, “bora pranchar uma ficha”, “bora apertar uma ficha”. E lá íamos para a fonte escolhida. Aqui na região as opções eram muitas: O saudoso Bar do Galego, em Tribobó (“para de xingar aí, moleque!!!”, berrava o inveterado flamenguista com aquela voz rouca), logo sucedido pelo Fliper do Moacir Desenhista, defronte à concessionária Dicasa Fiat, e finalmente o Bar do Marquinhos, "rei dos fliperamas" (e outros lances) cujo império alcançava meia região metropolitana do RJ, para onde alugava cabines e placas de jogos, e cuja base felizardamente era ali na passarela do bairro Tribobó, o que nos garantia acesso em primeira mão aos lançamentos, motivo de mui grande honra e também marra de nossa parte. Doutro lado, tínhamos o “Fliperama do Arsenal”, grande casa dedicada que reinou por década na rua do colégio Dalila, próximo ao B. Braun; Seu Djalma no Capote, Dona Marta e Dona Zeza no Palha Seca, Casa Taicorama na entrada do Jockey (a atendente juvenil diabolicamente se vestia como uma pin-up - haja up! - e foi uma de minhas paixonites) e tantos e tantos outros.

Claro, já haviam os videogames, e a certa altura ganhei um – estratégia de minha sofrida mãe para me prender mais em casa – mas os jogos simples do Nintendo não se comparavam aos festivais de cores e efeitos e a variedade dos jogos de arcade.

E aquilo era socializar, faziam-se muitas amizades, e vá lá, alguns inimigos também.

Uma época que “quem viveu, viveu”, seja jogando, seja tendo que dar dinheiro pra filho – seja proibindo-o de entrar na perdição. Com o tempo, o aumento da qualidade dos consoles caseiros (calma, é o nome técnico dos videogames) proporcionou a mesma qualidade técnica dos arcades, podendo ser usufruída no conforto de casa. E isso tornou o negócio não extinto, mas comercialmente inviável.

Hoje a jogatina coletiva, muito mais complexa e cara, rola apenas online, no aconchego do lar, e as socializações, embora mais frias e distantes, abarcam agora toda a estatura do orbe: Seu filho deve estar jogando à noite num clã (“guilda”, equipe) que junta coreanos, chineses, mexicanos e outros quetais. Entendem-se como podem, com rudimentos de inglês, com a linguagem universal que esse grande universo gamer – indústria que, saiba você, movimenta mais dinheiro que a cinematográfica ou qualquer outra indústria de mídia – tem construído. 

Lembra de seu sonho de pirralho de se tornar jogador de futebol? Puff! Um quinto de meus alunos de sexto ano (sim, eu pesquisei), moleques de onze anos, sonham em se tornar profissionais dos e-sports, os esportes eletrônicos. Aquela nossa diversão viciante agora é meio de vida, malandro! Conheci um guri desses que é arrimo de família...

E pensar que no começo tudo se resumia a andanças em ruas de poeira atrás daqueles mágicos caixões de madeira.


Sammis Reachers, hoje jogador ocasional, vez por outra escreve sobre jogos antigos na revista Muito Além dos Videogames.

terça-feira, 25 de maio de 2021

A fundação do MMA numa comuna gonçalense

 


Fui criado à beira do Rio Alcântara, numa divisa entre os bairros de Tribobó e Arsenal, num trecho do sub-bairro Jardim Nazaré (hodiernamente maledito pelas malas línguas como “Palha Seca”). A este singelo trecho chamávamos, pouco criativamente, de Beira Rio. Nem completava uma favela: Era um rascunho, uma comuna.


Ambiente hostil, eu sem primos ou irmãos que me defendessem, com pai e tios esculpidos na mais pura paz-e-amor que se possa imaginar (e algumas beiçadas na cachaça, mas covardia não, covardia nunca!): Quem de meu pacato sangue me ensinaria o antigo ofício do pugilismo? Isso aí: Ninguém.


Minhas desastradas tentativas de me enturmar, minha desbotada pele branca, somadas a meus acessos aleatórios de fúria (logo mais devidamente apaziguados pelos psicólogos da APAE) redundaram na alcunha de “maluco” e na terapia possível para aqueles doutores de rua: Muita bordoada no lombo de muá, que a palavra acolhimento, se já existia, ainda não havia chegado naquelas paragens...


É, amigo leitor, demorou bastante para que eu aprendesse a devolver com mínima perícia os golpes que levava. Nesse curso fui ajudado por algo em que nosso bairro foi o pioneiro. Sim, se hoje somos o país do MMA, as Mixed Martial Arts (Artes Marciais Mistas), naquela altura ou profundeza da década de oitenta os Gracies talvez ainda nem sonhassem em criar esta modalidade.

E nosso bairro já contava com uma, deixe-me celebrar em maiúsculas, ARENA COMUNITÁRIA DE COMBATES. Mas, como era isso?


Nosso rio Alcântara era fonte do ganha-pão de alguns dos moradores da comunidade. Efetivos ou esporádicos, muitos moradores defendiam seu trocado tirando areia do rio. Sim, sim, não havia IBAMA que os impedisse, e a fonte parecia mesmo inesgotável. Até eu, em infância, certa vez me somei a um mutirão de moleques para tirar areia do rio em troca de... tomar banho numa grande piscina, num casarão onde certo conhecido era caseiro. Sim, sim, também não havia Conselho Tutelar que nos salvasse, e nossos pais de nada sabiam. Era um tempo em que o moleque ia para a rua de manhã, voltava sujo para almoçar, e antes que a mãe desse por ele ou terminasse de desfilar a bronca, o brucutu já se evadia para a rua de novo, vadiando até o anoitecer.


Amigos, ao poder da pá, da enxada e da chibanca, não apenas a areia era o recurso natural explorado pela comunidade. A areola, com sua fina textura marrom, utilizada em emboços, na massa para assentar tijolos e também como terra para plantas, era outro recurso lucrativo, esse escavado dos muitos terrenos baldios.


Acontece que um empreendedor, um inovador desconhecido do bairro, teve a suprema ideia de matar dois coelhos com uma só bordoada. Ou pazada, ou enxadada que seja.


Na margem do rio, em certo ponto, ele começou a escavar areola, que era prontamente vendida. Quanto ao espaço que ficara escavado, um imenso retângulo, ele o usava para jogar a areia que arrancava do rio – o que era facilitado pela diminuição do patamar da margem, já escavada. Assim ele conseguia produzir os dois “gêneros” num mesmo local.


O inusitado foi que, numa feliz ação do destino guerreiro que rege a espécie humana, uma cheia do rio – que sofria cheias regulares – submergiu aquele trecho.


Quando as águas desceram, uma surpresa nos agraciou, presente dos deuses da guerra: Aquele grande “quadrado” escavado às margens do rio fora ocupado completamente por areia – mas não era a areia mais grossa ou cascalhenta que costumava ser tirada do rio para a venda: era uma areia mais fina, como a areia de praia. Aquele vácuo, atingido pela cheia, serviu como uma espécie de baía que, com o fluxo do rio, acumulou apenas a areia mais fina, a que conseguia flutuar em suspensão nas partes mais altas do fluxo de água da enchente. Assim, ao baixarem as águas barrentas, somente a areia fina fora “capturada”.


Aquele lugar era amplo, mas insuficiente para o jogo de futebol, a famosa pelada – e para isso a comunidade já contava com um campinho mais acima, no morro. E as areias eram muitas. Assim, uma solução foi encontrada: O areal passou a ser campo de honra – não, não um cemitério – mas campo onde as honras entravam em disputa. E assim as briguinhas entre as crianças passaram a ser resolvidas ali – do outro lado do rio (na margem contrária donde havia moradias), longe da vista ou ao menos da ação dos pais.


Todo dia tinha pancadaria, não apenas “à vera”, mas “à brinca” também. Um contra um, dois contra dois... Até battle royale (todos contra todos) foi experimentada em nosso caldeirão. César, Septímio Severo, Caracala, qualquer imperador romano exultaria ao ver aquela pequena e mambembe escolinha de gladiadores gonçalense! E, por Deus!, quanta porrada tomei ali!!!


Aquilo se tornara também um campo de sadismo para alguns dos moleques mais velhos, que incorporavam aquele espírito universal, o do sargentão de caserna: Eles estimulavam os combates, impediam a fuga dos desertores e ainda puniam os rebeldes – apanhando-nos pelos membros e balançando-nos como fardos que, após ganhar força cinética, eram lançados de costas – ou como fosse, Deus nos ajudasse – sobre a areia.


Antes do MMA ser criado, antes das artes marciais mistas serem efetivadas no gosto nacional, a Beira Rio já formava – a ferro, fogo e lágrimas empapadas com areia – seus campeões.


* * * * * * *

Capítulo do livrinho de presepadas autobiográficas Renato Cascão & Sammy Maluco – Uma dupla do balacobaco (inédito).
Publicado originalmente no Jornal Daki.


Falando em livros, estão disponíveis (à venda) três dos livros que já escrevi, para aqueles que desejarem prestigiar este escriba gonçalense: Os poéticos Poemas da Guerra de Inverno e Cartas e Retornos, e o livro de crônicas Rodorisos – Histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários. Escreva para meu e-mail: sreachers@gmail.com

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