Nos anos 90 do século pretérito, a febre mundial representada pelo jogo Street Fighter 2, que colocou nosso planeta em polvorosa,
claro que não deixou incólume o bairro gonçalense onde até hoje moro: O game simplesmente
jogou tudo para o ar, com quase todos os moleques virando aficionados. O jogo,
quase todos sabemos, inaugurou uma nova era dos fliperamas, sendo responsável
central pela abertura de diversas casas no gênero. No final, era ele que pagava
sozinho a luz e o aluguel...
Minha
história com SF é atrapalhada, mas interessante: Como de início eu tinha
dificuldade de realizar o simples “C” para dar as magias dos personagens
(hadoken), e era para mim impossível aplicar o Shoryuken (aqui chamado de hoiuguer),
logo me afeiçoei aos personagens cujos golpes eram baseados em trás-frente ou
cima-baixo: Blanka, Honda, Guile, Shun-Li e principalmente meu preferido:
Bison. Com este último me apurei nas manetes, e chegava a vencer alguns
jogadores que usavam os apelões Ryu e Ken, para surpresa geral. Desenvolvi
mesmo um preconceito contra os dois personagens e seus usuários, pois jogar com
eles era “mole demais”. Moleque de coração duro, tinha seus adeptos na conta de
retardados mentais. Ops, perdão, mas eram os tempos! De toda forma, até hoje
não sou muito fã dos personagens com movimentos relacionados aos dois (como os
posteriores Akuma, Dan, Sakura etc.). Mas, calma: Claro que aprendi a realizar
os movimentos perfeitamente. Só ficou o ranço...
Aqui
tínhamos um fliperama bem aconchegante, o bar da Dona Zeza, que ficava próximo
a uma “favelinha” ou área mais carente do bairro, na beira do rio Alcântara
(por sinal, chamamos aquela parte do bairro de Beira Rio ou Beira do Rio).
Quantas vezes cheguei ali sete da manhã, esperando a birosca abrir! Quantas
vezes eu mesmo ligava as máquinas na tomada, para “adiantar” a jogatina,
enquanto o filho de Dona Zeza abria as portas e varria o pequeno varandão? Nada
de eufemismos, amigos: É vício que chama.
Logo
veio o maior frisson e a maior sofrência com o game: Tentar zerar com TODOS os
personagens, tarefa que só dois do bairro ousaram (desafio que, anos depois, se
repetiu em outro choque em minha vida, quando conheci KoF 95, mas essa é outra
história). Amiguinho, naqueles tempos de barbárie, onde não tínhamos vídeos de
Youtube ou grandes jogadores para emular (emular é copiar), e revistas eram
raras, zerar o jogo com Dhalsim, Honda e Zanguief (eu não conseguia aplicar o
pilão, principal golpe do personagem!) foi aventura cara e infernal. Mas
consegui! Eu estava ou ao menos me sentia no time dos “PROs”...
No
entanto, se tiver de hoje matar a saudade num emulador ou me deparar por acaso com
um fliperama, a seleção de personagens vai parar logo nele, el villano, Mestre
Bison/Vega. O resto é como andar de bicicleta: Vai no automático.
Sammis Reachers

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