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terça-feira, 2 de julho de 2013

Epicosmos


Epicosmos

Estou aqui de boa e tento agora estabelecer em minha mente um dimensão ideal epopeica, idealizando uma situação arquetípica para o Épico, esse altivo deus.
Homero é pai, e não cabe citá-lo. Todo inicio principia com os trezentos de Leônidas nas Termópilas, contra os demônios da alteridade de Xerxes.
Depois saltamos para o século XX, a Legião Estrangeira resistindo até o último homem, até o último cigarro, cheios de ódio, cheios de ópio, honra e o deus da Guerra (não Apolo ou Satã, mas o próprio Homem) nas veias, em Dien Bien Phu, contra a fúria dos vietnamitas.

Então volto ao desenho japonês Naruto, o ninja sensei (mestre) Jiraya lutando sozinho, em terreno estranho e inimigo, com um dos braços decepado, contra os seis corpos combatentes da entidade semidivina Pain, usando todos os seus poderes, tudo o que pode, até tombar atravessado. Pode haver algo mais épico? Sozinho, longe de seu pupilo messiânico (Naruto) que um dia o vingará; longe de sua vila, morrendo mutilado por amor de todos que amou, como aquele Deus naquela cruz, o único Deus que existe, morreu por mim.

sábado, 24 de novembro de 2012

Um jovem e seu burro, dois heróis da Primeira Guerra

Um jovem e seu burro, heróis da Primeira Guerra

John "Jack" Simpson Kirkpatrick nasceu em South Shields (Inglaterra) em 1892; era um rapaz solitário, sempre rodeado de animais e que desde muito jovem já começou a dar mostras de seu caráter: com apenas 13 anos salvou dois garotinhos que estavam se afogando no rio Tyne. Seu pai morreu quando tinha 17 anos e ele passou a ser o arrimo da família, sustentando a mãe e irmã. Era um exemplo de filho querido e amado.


Um jovem e seu burro, heróis da Primeira Guerra
Quando chegou aos 18, Simpson decidiu se alistar como fogueiro no navio da marinha mercante SS Yedo. Durante a viagem à Austrália deu-se conta de que aquilo não era para ele. Passava muito tempo encerrado sem ver a luz do sol, uma férrea disciplina mesmo para alguém que se adaptava facilmente às piores adversidades.
Um jovem e seu burro, heróis da Primeira Guerra
Quando chegaram a Newcastle (Austrália), desertou. Ali trabalhou cortando cana, nas minas de carvão e, sobretudo, como pastor. Apesar de não ganhar muito, seguia sempre enviando dinheiro a sua família ainda que mal sobrasse para sobreviver. Depois do início da Primeira Guerra Mundial, Jack se alistou na ANZAC (Australian and New Zealand Army Corps) e foi assentado no Corpo Médico como maqueiro. Na verdade pouco se importava com aquela guerra, para ele era só uma forma de regressar para casa no comboio da ANZAC, com o SS Medic onde foi embarcado com destino para a Europa.
Um jovem e seu burro, heróis da Primeira Guerra
Mas algo deu errado: o comboio foi desviado a Egito e em alguns meses mais tarde à Turquia. A Campanha de Galípoli, também chamada batalha dos Dardanelos, foi uma operação combinada, em forma de desembarque, entre britânicos, franceses e a ANZAC para controlar o estreito dos Dardanelos.
Um jovem e seu burro, heróis da Primeira Guerra
Quis o destino que, por algum erro de cálculo e a bisonhice dos comandos, as tropas aliadas ficassem presas entre o mar e as colinas em poder dos otomanos. O grande número de baixas obrigou a reduzir o número de maqueiros por unidade a somente dois, e Simpson, que sempre se entendeu melhor com os animais do que com as pessoas, decidiu, por sua conta e risco, que seu colega seria um burro que tinha encontrado na montanha ao qual chamou de Duffy. Com Duffy dedicou-se a levar os feridos desde a frente de batalha até a praia e quando regressava para recolher mais, levava água aos soldados.

Todos os dias, a partir das 6:30 da manhã até a noitinha, entre disparos de metralhadoras, atravessava o campo de batalha para recolher os feridos. Como agia por sua conta, inclusive dormia e comia com os soldados indianos de uma unidade de artilharia que tinham mulas, seu oficial no comando lhe ameaçou com a prisão por causa da indisciplina, mas quando viu a popularidade e respeito que Jack conquistara entre a tropa, esqueceu do assunto. Durante 24 dias, e 15 vezes ao dia, Jack e Duffy atravessaram aquele inferno até que em 19 de maio de 1915 o pior aconteceu: com 22 anos incompletos, um franco-atirador acabou com sua vida. Jack e Duffy resgataram e salvam a vida de mais de 300 soldados.
Um jovem e seu burro, heróis da Primeira Guerra
Simpson foi recomendado várias vezes para receber honrarias como a Cruz da Vitória mas, hipocritamente, a burocracia militar lhe negou todas as petições por causa de seu gênio arredio e seus atos de indisciplina. Mesmo assim, em anos posteriores e como reconhecimento a seu heróico trabalho, a imagem de Jack e Duffy e um soldado ferido apareceram grafados em selos, cédulas e moedas e em abril de 2011, o Governo australiano anunciou que Simpson seria um dos militares examinados em um inquérito sobre "Reconhecimento não resolvido para atos militares heróicos do passados". O tribunal para este inquérito está sendo realizado para fazer recomendações sobre a concessão de condecorações, incluindo a Cruz da Vitória britânica e australiana.


Leia mais em: Um jovem e seu burro, heróis da Primeira Guerra (5 fotos) - Metamorfose Digital http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=23980#ixzz2CoCcGEyZ

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Espada e o Poeta - Poema de Alceu



A Espada e o Poeta


Eu coroarei de mirto a minha espada,
Como a de Harmódio honrada,
E como a de Aristógiton, o forte,
Quando ao sevo tirano deram morte,
E Atenas libertada
Foi à igualdade antiga restaurada.


Tu não morreste, Harmódio, oh não!tu gozas
Nessas ilhas ditosas
Serena vida cos heróis que aí moram,
E onde, cremos, demoram
Diomedes, o valente,
E Aquiles, o veloz, eternamente.


De mirto a minha espada
Trarei como Aristógiton c'roada,
E como Harmódio, o forte,
Que à vingança reserva,
Quando, nos sacrifícios de Minerva,
Ao tirano Hiparco deram morte.


Em prezada memória
Viverá para sempre, eternamente,
Harmódio, a tua glória,
E a tua, Aristógiton valente,
Que o tirano matastes
E à liberta cidade
O usurpado direito restaurastes
Da primeira igualdade.


Alceu (poeta e político grego do séc. VII A.C.)
Tradução de Almeida Garret
in O Livro de Ouro da Poesia Universal - Org. Ary de Mesquita  (1988, Ediouro)

sábado, 28 de janeiro de 2012

CONTÉM: ARMAS PESADAS - Ode à alteridade > Conheça e baixe meu mais novo livro


CONTÉM: ARMAS PESADAS
Ode à alteridade

Apresento a vocês meu mais novo livro, um deveras estranho livro de poesia.
Mas de que se trata, com título e subtítulo já tão (ou tão pouco) sutis? Esta é uma história de ação? Sim, um talvezépico sujo. Pois há muito de triller cinematográfico aqui, nesta ficção poética, belicosa história de amor, de perdições e redenções. O discurso poético praticado é experimental: fragmentário, interativo. É um livro para ser lido online, um exercício amplo de hipertexto ou hiperliteratura, um livro que entre as interatividades propostas chega a possuir capítulos secretos (como fases bônus num jogo de videogame). Mas quanto ao teor e o conteúdo total dos experimentalismos, você precisará ler o texto para descobrir. E há muito a ser descoberto.
Cada capítulo/poema é precedido por uma fotografia também de minha autoria, num planeamento gráfico objetivando simbioticamente se integrar e promover (antecipando/amplificando, e mesmo desconstruindo) os subclimas que irrompem aqui e ali no texto, com suas pitadas embaralhadas de noir, (pós?)romântico, romanesco, épico, etc.
O texto pode, pela rudeza e estranheza (a alteridade mesma) do discurso, espantar algum meu irmão na fé acostumado à poesia dita cristã, devocional, embora a mensagem de redenção (ou melhor, de redenções) seja o mote central do poema.
Antes de minha conversão, o experimentalismo era a principal linha poética que eu perseguia, quando editava o fanzine Cardio-Poesia, onde praticava experimentalismos tipográficos e artesanais, como rasuras, colagens, etc., no que muitas vezes era quase um ‘fanzine-objeto’.
Este texto é um (febril, escrito/fotografado/editado em dois meses) exercício, anos e anos depois, de retomar aquela velha veia experimental.

Leia, indique, compartilhe em seus círculos, redes sociais. E me diga o que achou, escreva para esclarecer alguma dúvida. Estou aqui.
O livro possui 43 páginas, em pdf.

Para baixar o livro, CLIQUE AQUI.
Leia online no Scribd, AQUI.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Uma estátua em homenagem ao gigante Tesla


 - Um dos maiores e mais injustiçados cientistas que este mundo cão já abrigou...


Visite o site da Sociedade Memorial de Tesla: http://www.teslasociety.com

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Hannah Szenes - Mulher, judia, poetisa e heroína


Hannah Szenes nasceu em Budapeste, na Hungria, no seio de uma abastada família de intelectuais judeus. O seu pai, Bela Szenes, escritor e jornalista de sucesso, morreu quando ela e Giora - o seu único irmão, um ano mais velho - eram ainda muito jovens. Hannah tinha apenas seis anos e a sua mãe, Katherine, teve que criá-los sozinha.

Durante a infância, Hannah teve pouco contacto com o judaísmo, pois os seus pais, assim como muitos judeus húngaros, haviam-se assimilado totalmente ao meio circundante.
Hannah era uma criança especial. Desde pequena demonstrava a força de carácter que moldou a sua vida, sempre dizendo que queria “fazer uma diferença, no mundo”. Brilhante desde a infância, logo demonstrou um notável talento literário especialmente para a poesia, primeiro em húngaro e, posteriormente – após se tornar uma ardente sionista – em hebraico. Com 13 anos iniciou um diário no qual registou os seus pensamentos e os acontecimentos que marcaram a sua curta vida. É através das suas palavras no diário e das suas poesias que Hannah se revela. A sua vida em Budapeste Hannah e o seu irmão receberam uma excelente educação, frequentando as melhores escolas de Budapeste. Até completar dez anos, a menina, excelente aluna, estudou numa escola pública de Budapeste, até conseguir ser aceite numa escola particular protestante, só para meninas. A escola havia recentemente aberto as suas portas a católicos e judeus, desde que pagassem uma mensalidade maior. No caso de uma jovem católica, a escola cobrava o dobro da mensalidade “normal” e, quando se tratava de uma judia, o triplo. Apesar do crescente anti-semitismo na Budapeste da década de 30, a mãe de Hannah nunca pôs de parte a hipótese de colocar os filhos numa escola judaica.

Foi nesta escola protestante que Hannah começou a conhecer e amar o judaísmo. Um dos seus professores era o rabino-chefe de Budapeste, Imre Benoschofky. Grande estudioso e ardente sionista, o rabino Benoschofky teve uma profunda influência sobre o nascente interesse da jovem pelo judaísmo e sionismo, por tudo que dizia a respeito do seu povo. Foi também nesta escola que Hannah teve os seus primeiros contactos com o anti-semitismo e com a discriminação imposta aos judeus.

A década de 1930 foi difícil para os judeus da Europa, um prelúdio do terrível pesadelo que iria abater-se sobre a população judaica da região. Após a Primeira Guerra Mundial, um crescente sentimento anti-semita começava a tomar conta da Hungria. Assim como em outras partes da Europa, os judeus eram vistos como os “grandes responsáveis“ por todos os males do país. O crescente anti-semitismo oficial resultara na promulgação de uma dura legislação anti-judaica .
Na época, Hannah era uma jovem bonita, talentosa e decidida. Ao completar 17 anos foi eleita presidente da sociedade literária da escola, mas não assumiu o posto, pois foi informada de que jamais uma judia poderia assumir a presidência de tal – ou de qualquer outra – sociedade. Na ocasião, a jovem escreveu em seu diário: “Você precisa ser alguém excepcional para lutar contra o anti-semitismo... Só hoje comecei a realmente entender o que significa ser judeu numa sociedade cristã. Mas eu não me importo. É porque temos sempre que lutar muito por tudo que queremos; é porque é sempre mais difícil para nós, judeus, atingirmos os nossos objectivos que acabamos desenvolvendo qualidades excepcionais... Se eu fosse cristã, todas as profissões estariam abertas para mim”.
Hannah sabia que se tornar cristã, como lhe havia sido sugerido e como outros haviam feito, não era uma opção para ela. Ao invés de se converter, abandonou a sociedade literária, cortando todos os vínculos que tinha com a entidade. Na mesma época tornou-se membro de um grupo sionista jovem e muito activo, os Macabim. No final de Outubro de 1938, escreveu no seu diário: “Tornei-me sionista e esta palavra tem para mim inúmeros significados. Agora sinto de uma forma consciente e profunda que sou judia e muito orgulhosa de o ser. Minha meta é ir para Eretz Israel e tudo farei para consegui-lo”.
Em Março de 1939 Hannah formou-se. Era uma das melhores alunas da classe e os seus professores tentaram fazê-la desistir da ideia de deixar a Hungria e ir para Eretz Israel, pois acreditavam que ela devia tornar-se cristã e, comas suas notas,poderia ingressar na universidade e ter “um futuro promissor”. Mas a jovem estava mais do que decidida. Assim que recebeu a resposta de sua admissão numa escola agrícola em Nahala, embarcou rumo ao seu sonho – a Terra de Israel. Era Setembro de 1939 e a Alemanha já iniciara a sua campanha mortífera contra a Europa e os judeus.




Sonho realizado

Ao chegar em Eretz Israel, Hannah escreveu a sua primeira carta para a mãe revelando a sua felicidade por lá estar: “Estou em casa. Aqui é para onde me trouxe a minha ambição de vida – poderia dizer minha vocação, porque sinto que, por estar aqui, estou cumprindo uma missão, não apenas vegetando; aqui cada vida é o cumprimento de uma missão.” Para completar a sua alegria, o seu irmão Giora juntou-se a ela poucos meses depois.
Em 1941 Hannah integrou-se ao Kibutz Sdot Yam, perto de Cesáreia, e alistou-se na Haganá. No ano seguinte, entrou para o Palmach, braço armado da Haganá. Enquanto estava em Sdot Yam, Hannah escreveu várias poesias e uma peça sobre a vida no kibutz. Mas as terríveis notícias sobre a situação dos judeus na Europa a deixavam angustiada e preocupada. Assim como todos em Eretz Israel, ela sentia que devia fazer algo para ajudar os judeus europeus. Estava também preocupada com a sua mãe, que ainda vivia em Budapeste. Hannah queria de alguma forma voltar para a Hungria para salvar a mãe e ajudar a organizar a saída de judeus – especialmente os jovens – do país e da Europa. Em 1943, um milhão e duzentos e cinquenta mil judeus ainda estavam vivos na Hungria, Eslováquia, Roménia e Bulgária.
Em 1943, Hannah alistou-se no exército britânico para poder participar da luta contra os nazistas, voluntariando-se para uma operação de salvamento. O projecto originara nas pesadas perdas sofridas por bombardeiros aliados durante os ataques. Os britânicos estavam convencidos de que havia necessidade de mais informações sobre as defesas alemãs. Diante disso, a liderança da Haganá fez uma proposta à Grã Bretanha: judeus com ligações nessas regiões poderiam ser lançados de pára-quedas, sobre a Europa, para exercer a dupla função de agentes secretos, ajudando os Aliados na Europa, e, ao mesmo tempo, tentar organizar alguma forma de resistência nas comunidades judaicas.
Depois de muita hesitação, os britânicos aprovaram o plano e 32 judeus palestinos – 30 homens e 2 mulheres – foram aceites para a missão. Hannah estava entre os primeiros a se alistar. Os britânicos levaram os jovens para o Cairo, no Egipto, onde foram treinados. Todos que haviam se voluntariado para a missão eram nativos das regiões para as quais seriam eventualmente enviados, falavam as línguas fluentemente e ainda tinham parentes nesses países. Ninguém punha em dúvida a coragem e a bravura dos jovens; todos sabiam que a missão era muito perigosa e que poucos retornariam com vida. Hannah incentivava os seus companheiros, dizendo: “Somos os únicos a poder ajudar, não temos o direito de pensar na nossa própria segurança; não temos o direito de hesitar, de ter medo... é melhor morrer com a consciência do dever cumprido do que voltar sabendo nem haver tentado”.

A missão

Em Março de 1944, uma semana antes de que os alemães ocupassem a Hungria, Hannah e mais quatro pára-quedistas foram lançados por aviões aliados sobre a Eslovénia, rumo a Budapeste. Esperavam conseguir, com a ajuda dos partisans de Tito, atravessar a fronteira da Hungria. Hannah ficou três meses com este grupo para que a ajudassem a chegar até a Hungria. Foi nesta época que ela escreveu um de seus mais famosos poemas – “Abençoado o fósforo”.

No dia 7 de Junho de 1944, no período da mais intensa deportação de judeus húngaros pelos nazistas, Hannah cruzou a fronteira da Hungria. Atravessou com dois companheiros e alguns guias mais de 450 quilómetros de território controlado pelas tropas alemãs. As ordens britânicas eram precisas: primeiro deveriam ser socorridos os pára-quedistas britânicos em mãos dos nazistas. Só depois de completar esta missão os jovens poderiam ajudar os judeus locais.

Mas toda a missão chegou bruscamente ao fim poucos dias após a sua chegada. Traída por um informante – um dos partidários de Tito que fazia parte do grupo – Hannah foi capturada pela polícia húngara. No momento em que foi detida, estava de posse de um rádio transmissor.

Presa, foi levada para uma prisão em Budapeste. A Gestapo e o serviço de contra-espionagem húngaro interrogaram-na e a torturaram brutalmente durante vários meses. Queriam que ela revelasse detalhes da sua missão e o código britânico de rádio. Mas Hannah não revelou qualquer informação. Na tentativa de fazê-la falar, a polícia prendeu no dia 17 de Junho a sua mãe, Katherine Szenes, que ainda vivia em Budapeste, acreditando que os seus filhos estivessem a salvo em Eretz Israel. Ameaçaram a jovem de torturar a sua mãe na sua frente e depois matá-la. Mesmo assim, Hannah não cedeu e não revelou o código. No primeiro dos poucos encontros que teve com a mãe, apesar de ferida pelas torturas e espancamentos, pediu que a mãe compreendesse por que tinha que ficar calada – não poderia trair o seu povo. “Mãe, perdoa-me” disse, chorando, a jovem à mãe que a olhava sem acreditar no que via: a sua filha, naquela prisão, presa e ferida, e não a salvo em Eretz Israel. No fundo do seu coração Katherine sabia que – apesar de Hannah negar o facto – a sua filha voltara à Hungria por sua causa, para tentar salvá-la. Enquanto na prisão, vários dos detidos contaram para Katherine quão gentil e bondosa era a jovem; contaram que antes da sua chegada, haviam perdido toda e qualquer esperança, mas que ela era uma como uma luz na escuridão, que transmitia a todos a força para continuar a lutar e a ter fé. Ela cantava, ensinava músicas, danças, o hebraico. Contava sobre Eretz Israel, a história da sua Terra, a esperança no futuro, a esperança do dia da vitória do povo de Israel. Um deles escreveu: “A sua atitude frente à Gestapo e às SS foi memorável. Ela sempre parava à sua frente, alertando-os sobre o destino que teriam após a sua derrota. Curiosamente, aqueles animais selvagens, dos quais qualquer traço de humanidade parecia ter desaparecido, sentiam-se envergonhados na presença dessa jovem refinada e corajosa”.

Convencidos de que a jovem não falaria e sentindo que os alemães estavam prestes a serem derrotados, a policia húngara acabou libertando Katherine Szenes em Yom Kipur.

O julgamento

Depois de cinco meses na prisão, no dia 28 Outubro de 1941, Hannah foi levada a um suposto julgamento, acusada de “traição” contra a Hungria. O “julgamento” ocorreu apesar de ser evidente desde Setembro que a Alemanha estava perdendo a guerra, e que a Hungria queria libertar-se do jugo nazista.

Durante o “processo” ela defendeu com firmeza as suas ações e os seus ideais. Recusou-se a pedir clemência. Corajosa até ao fim, foi executada por um pelotão de fuzilamento no dia 7 de Novembro. Na hora da execução não quis colocar a venda sobre os olhos, queria encarar o seu destino e os seus carrascos. Prisioneiros que testemunharam a sua execução ficaram emocionados com tanta coragem. As suas últimas palavras para os companheiros foram: “Continuem no caminho, não se deixem deter. Continuem a luta até ao fim, até que a liberdade chegue, o dia da vitória para o nosso povo”. Hannah tinha somente 23 anos.



Poucos dias depois os russos tomaram Budapeste, prendendo ou matando todos os nazistas ou aqueles que os haviam apoiado. A sua mãe conseguiu sair de Budapeste e foi juntar-se ao filho Giora, em Israel.

Hannah tornara-se um símbolo de heroísmo e dedicação. A sua coragem pessoal foram fonte de inspiração e estímulo para os judeus da Europa, mesmo que ela e os seus companheiros não tivessem tido sucesso nas suas missões. A sua imagem jovem e radiante, usando o uniforme militar, podia ser vista nas casas de cada cidade e vilarejo de Eretz Israel.

Em 1950, os restos mortais de Hannah foram levados para Israel e novamente enterrados, com honras militares, no cemitério militar localizado no Monte Herzl. 
Um vilarejo foi nomeado Yad Hannah em sua homenagem. O seu diário e os seus trabalhos literários foram publicados em hebraico, em 1945, sendo posteriormente traduzidos para vários idiomas, inclusive o húngaro.
Ela foi também tema de inúmeros trabalhos artísticos, entre os quais uma peça teatral de autoria do escritor israelita Aharon Megged e um filme. Vários poemas de autoria de Hannah, entre os quais “A caminho de Cesaréia” e “Abençoado o fósforo” foram musicados.


Bibliografia:
Sachar, Abraham, The Redeption of the Unwanted
Slater, Elinor and Robert, Great Jewish Women
Entrevista de Katherine Szenes a David Alster Yardeni, em 7 de maio de 1987, na internet.




Fonte: http://cemiteriosfamosos.blogspot.com




POEMAS


Eli,Eli

Meu Deus, meu Deus, que não acabem nunca
a areia e o mar,
o murmurar das águas,
os relâmpagos dos céus,
as orações dos homens.







NO CÁRCERE

Um-dois-três... oito pés de comprimento
Dois passos de largura, o resto é escuridão...
A vida paira sobre mim, como um ponto de interrogação.

Uma-duas-três....talvez outra semana,
Ou no próximo mês me encontre aqui,
Mas a morte, sinto-a, está perto.

Eu poderia ter vinte e três em Julho próximo;
Apostei o que mais queria,
Os dados foram lançados. E perdi.

(Traduzido do inglês por J.T.Parreira)









Aos irmãos 


Se nós faltarmos
aceitai o jugo,
grande, pesado,
em cima de vós.
Construí sobre a areia
sob o azul
céu... tudo
de novo.

E saibam que o preço do caminho
da justiça e do valor
não é baixo.

Morrer...

Morrer... jovem... morrer... Não, não queria.

Amava o sol cálido,
a luz, a poesia, um piscar de olhos,
e não queria destruição, guerra.
Não. Não queria.

Mas se hoje fosse obrigada a viver
num banho de sangue, na terrível destruição
diria: 'Bendito seja o Senhor pelo direito
a viver, que venha a hora da morte
sobre a tua terra, meu país, minha pátria.

(Traduzido do Espanhol por Florbela Ribeiro)

sábado, 2 de abril de 2011

TERMÓPILAS, um poema de Rui Duarte




“Estrangeiros, vai contar aos Lacedemónios que jazemos
aqui, por obedecermos às suas normas”
Simónides de Céos, Epitáfio das Termópilas frg. 92 Diehl


Das longínquas Termópilas, estrangeiro
à passagem, Lacedemónios, vos escreve
ao ler à beira do caminho
da pedra fria esta inscrição breve

o silêncio pede um reconto,
que a salve da memória:
deste estreito onde só os heróis ousam
surge a lenda onde tombou a história

a lápide sepulcral não desprende gemidos
as letras nela gravadas são de memória brilhante
não as carcome o bolor nem o verdete
nem o tempo sobre ela é lume de um instante

dos trezentos de Leónidas que não hesitaram
lutar ou morrer para obedecer às vossas leis
recebei o testemunho, Lacedemónios, silente
e que admiração perpetuamente viva lhes celebreis

18/12/10

Visite o blog do autor: http://neaktisis.blogspot.com/

quinta-feira, 10 de março de 2011

Duas Histórias Reais




HISTÓRIA NÚMERO UM
     

Muitos anos atrás, Al Capone possuía virtualmente Chicago. Capone não era famoso por nenhum ato heróico.
  

Ele era notório por empastar a cidade com tudo relativo a contrabando, bebida, prostituição e assassinatos.
     

Capone tinha um advogado apelidado 'Easy Eddie'. Era o seu advogado por um excelente motivo. Eddie era muito bom!
     

Na realidade, sua habilidade, manobrando no cipoal legal, manteve Al Capone fora da prisão por muito tempo.
     

Para mostrar seu apreço, Capone lhe pagava muito bem. Não só o dinheiro era grande, como Eddie também tinha vantagens especiais. Por exemplo, ele e a família moravam em uma mansão protegida, com todas as conveniências possíveis.
     

A propriedade era tão grande que ocupava um quarteirão inteiro em Chicago. Eddie vivia a vida da alta roda de Chicago, mostrando pouca preocupação com as atrocidades que ocorriam à sua volta.
     

No entanto, Easy Eddie tinha um ponto fraco.
     

Ele tinha um filho que amava afetuosamente. Eddie cuidava que seu jovem filho tivesse o melhor de tudo: roupas, carros e uma excelente educação. Nada era poupado. Preço não era objeção. E, apesar do seu envolvimento com o crime organizado, Eddie tentou lhe ensinar o que era certo e o que era errado. Eddie queria que seu filho se tornasse um homem melhor que ele.
     

Mesmo assim, com toda a sua riqueza e influência, havia duas coisas que ele não podia dar ao filho: ele não podia transmitir-lhe um nome bom ou um bom exemplo.
     

Um dia, o Easy Eddie chegou a uma decisão difícil. Easy Eddie tentou corrigir as injustiças de que tinha participado.
     

Ele decidiu que iria às autoridades e contaria a verdade sobre Al 'Scarface' Capone, limpando o seu nome manchado e oferecendo ao filho alguma semelhança de integridade.
     

Para fazer isto, ele teria que testemunhar contra a quadrilha, e sabia que o preço seria muito alto. Ainda assim, ele testemunhou.
     

Em um ano, a vida de Easy Eddie terminou em um tiroteio em uma rua de Chicago.
     

Mas aos olhos dele, ele tinha dado ao filho o maior presente que poderia oferecer, ao maior preço que poderia pagar.
     

A polícia recolheu em seus bolsos um rosário, um crucifixo, uma medalha religiosa e um poema, recortado de uma revista.
     
O poema: 'O relógio de vida recebe corda apenas uma vez e nenhum homem tem o poder de decidir quando os ponteiros pararão, se mais cedo ou mais tarde. Agora é o único tempo que você possui. Viva, ame e trabalhe com vontade. Não ponha nenhuma esperança no tempo, pois o relógio pode parar a qualquer momento.'


HISTÓRIA NÚMERO DOIS

     


A Segunda Guerra Mundial produziu muitos heróis.
     

Um deles foi o Comandante Butch O'Hare. Ele era um piloto de caça, operando no porta-aviões Lexington, no Pacífico Sul.
     

Um dia, o seu esquadrão foi enviado em uma missão. Quando já estavam voando, ele notou pelo medidor de combustível que alguém tinha esquecido de encher os tanques. Ele não teria combustível suficiente para completar a missão e retornar ao navio. O líder do vôo o instruiu a voltar ao porta-aviões. Relutantemente, ele saiu da formação e iniciou a volta à frota.
     

Quando estava voltando ao navio-mãe viu algo que fez seu sangue gelar: um esquadrão de aviões japoneses voava na direção da frota americana. Com os caças americanos afastados da frota, ela ficaria indefesa ao ataque. Ele não podia alcançar seu esquadrão nem avisar a frota da aproximação do perigo.
     

Havia apenas uma coisa a fazer. Ele teria que desviá-los da frota de alguma maneira..
     

Afastando todos os pensamentos sobre a sua segurança pessoal, ele mergulhou sobre a formação de aviões japoneses.
     

Seus canhões de calibre 50, montados nas asas, disparavam enquanto ele atacava um surpreso avião inimigo e em seguida outro..   Butch costurou dentro e fora da formação, agora rompida e incendiou tantos aviões quanto possível, até que sua munição finalmente acabou. Ainda assim, ele continuou a agressão.
     

Mergulhava na direção dos aviões, tentando destruir e danificar tantos aviões inimigos quanto possível, tornando-os impróprios para voar. Finalmente, o exasperado esquadrão japonês partiu em outra direção.
     

Profundamente aliviado, Butch O'Hare e o seu avião danificado se dirigiram para o porta-aviões. Logo à sua chegada ele informou seus superiores sobre oacontecido. O filme da máquina fotográfica montada no avião contou a história com detalhes. Mostrou a extensão da ousadia de Butch em atacar o esquadrão japonês para proteger a frota. Na realidade, ele tinha destruído cinco aeronaves inimigas.
     

Isto ocorreu no dia 20 de fevereiro de 1942, e por aquela ação Butch se tornou o primeiro Ás da Marinha na 2ª Guerra Mundial, e o primeiro Aviador Naval a receber a Medalha Congressional de Honra.
     

No ano seguinte Butch morreu em combate aéreo com 29 anos de idade. Sua cidade natal não permitiria que a memória deste herói da 2ª Guerra desaparecesse, e hoje, o Aeroporto O'Hare (o mais movimentado do mundo!!!), o principal de Chicago, tem esse nome em tributo à coragem deste grande homem.
     
Assim, se porventura você passar no O'Hare International, pense nele e vá ao Museu comemorativo sobre Butch, visitando sua estátua e a Medalha de Honra. Fica situado entre os Terminais 1 e 2.


     O que têm estas duas histórias de comum entre elas???

   Butch O'Hare era o filho de Easy Eddie.

sábado, 26 de dezembro de 2009

NO HELESPONTO, XERXES



“Assim que viu o Helesponto inteiro recoberto de navios, todas as suas margens e as planícies de Abidos cheias dos seus homens, Xerxes considerou-se a si próprio afortunado, mas em seguida chorou.”
Heródoto, Histórias VII, 45


Do alto do meu trono
o meu olhar voa de mim
e entrelaça as duas margens
desta passagem
do Helesponto para a Hélade,
pequena janela que se abre imensa
para a promessa de glória

O meu olhar plana então
sobre estas plagas e campinas
atapetadas de milhões de navios cavalos e homens
que, pintados de todas as nações da Ásia e do Egipto
e estampados do brilho do aço das armas,
eriçam os estandartes em saudação à minha glória
à glória do Divino Príncipe da Pérsia

De dentro da voz de júbilo
decreto que eu, Xerxes, sou mais do que abençoado

Mas para além de até aonde pode o olhar adejar
não descortino toda a terra, nem possuo todo o mar
Há um aviso um arrepio um pio de pássaro

O meu olhar foi finalmente visto
regressar à sua morada e decantar em lágrimas
este estreito tão estreito que me aperta a traqueia

Pois não há reis
que ocasionalmente se não prostrem
à enfermidade e à dor
também eles contam a terra e as pedras
com que têm coberto os seus amados
Rompendo a janela da minha glória
o meu olhar abre a porta da vertigem
mais funestamente desejada do que todo o ouro
a vertigem altaneira
da morte

No meu espírito fala
uma voz dalém das orlas do tempo
Lê um epitáfio inscrito num mausoléu:
“Aqui jaz Xerxes da Pérsia Rei dos reis
no Olimpo anelou o Hades
foi a primeira flor nascida da Primavera
por mão ceifada em pleno Verão
conquistador da terra
hoje servo debaixo dela.”

E prossegue:
“Cem anos e destes milhões
só se contarão as areias das praias
serão meros pontilhados numa tela
tinta fresca na pena de um contador de histórias.”

Rui Duarte

12/11/09

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